De 7 a 10 de Junho de 2008, levei os Caminheiros Gaspar Correia ao Parque Nacional da Peneda-Gerês. Já os tinha levado a dois dos meus três "berços": a Malcata e Somiedo. Faltava o Gerês!
Mas a organização de uma actividade para a minha "família" Caminheira implicava algumas dificuldades e desafios: por um lado, a maioria dos percursos mais belos e "selvagens" implica uma extensão e/ou um grau
Chã do Monte, Serra da Peneda, 7.06.2008
de dificuldade que não é acessível a diversos elementos do grupo; por outro lado, o acesso às zonas mais recônditas dificulta ou inviabiliza de todo as deslocações em autocarro. Assim, naquela actividade, quis dar-lhes de certo modo uma amostragem das diversas zonas do Parque Nacional, nas suas duas principais vertentes: a paisagística e natural (a fauna e flora típicas, a geologia) e a etnográfica (a ruralidade, as tradições, a cultura). Para aqueles 4 dias, elegi 4 caminhadas em áreas distintas do Parque Nacional: a Serra da Peneda, a Serra do Soajo, o vale da Teixeira, como "postal" da Serra do Gerês, e, por fim, em área limítrofe, a Ponte da Misarela.
Pouco depois da hora do almoço do dia 7 de Junho, estávamos assim em plena Serra da Peneda, para fazer a travessia da branda da Bouça dos Homens à Senhora da Peneda, pela Chã do Monte e descendo junto à fraga da Meadinha. Uma caminhada curta, de menos de 5 km, mas fabulosa, baseada na caminhada que eu havia feito em Março de 2007.
Começando sensivelmente aos 1000 metros de altitude, ascendemos por um carreteiro por onde antes passavam os carros de bois que ligavam a Bouça dos Homens à Senhora da Peneda. Rapidamente o carreteiro transforma-se num antigo caminho de pé-posto, de romeiros devotos à imagem da Senhora da Peneda. Dois quilómetros depois (e já acima dos 1100 metros), estávamos aos pés da Penameda, com
A caminho de Bostelinhos, Serra do Soajo, 8.06.2008
uma panorâmica que se estende da branda que deixámos para trás ao vale da Gavieira, a sul. Aí começou a descida, aproximando-nos da Chã do Monte; esta represa servia uma mini-hídrica que, há anos atrás, fornecia a energia eléctrica ao povoado da Peneda. Cruzado o lago, a descida é espectacular, observando-se lá no fundo a igreja e o aldeamento da Peneda, assim como, do lado esquerdo, a Fraga da Meadinha, procurada por inúmeros escaladores nacionais e estrangeiros.
O Hotel da Peneda recebeu-nos nessa noite, para no dia seguinte rumarmos à Serra do Soajo, por Rouças, Tibo e Adrão, direitos ao núcleo megalítico do Mezio, onde íamos iniciar a 2ª caminhada: do Mezio à branda de Bostelinhos e desta a Vilela de Lajes e Boimo.
Iniciámos o trilho por entre um bosque misto de vidoeiros, pinheiros bravos, pinheiros silvestres e cedros, que rapidamente nos conduziu a um planalto coberto de vegetação rasteira, constituída por urzes e tojos.
Ao alcançarmos uma pequena elevação, a panorâmica abre-se até ao rio Lima e a Arcos de Valdevez. Iniciámos então uma descida por um carreteiro que nos conduziu a Vilela de Lajes, para depois seguirmos para montante da ribeira de Vilela por um denso bosque de carvalhos. Seguiu-se a subida para Bostelinhos; ao alcançar os primeiros cortelhos do lugar, atravessámos a ribeira e entrámos na branda, onde invertemos caminho em sentido descendente, por entre os socalcos, para atravessarmos novamente
Barragem da Caniçada, da Pedra Bela, 9.06.2008
a ribeira de Vilela, à beira da qual almoçámos. Depois, do rústico e bucólico lugar de Vilela de Lajes, a partir do núcleo de espigueiros, seguimos por um caminho que, por entre muros de pedra solta, nos conduziu até ao pequeno lugar de Boimo … onde nos esperava o autocarro, na estrada para Arcos de Valdevez. As duas noites seguintes foram na Pousada de Juventude de Vilarinho das Furnas. Na porta do Parque Nacional, visitámos a exposição etnográfica alusiva à aldeia "perdida" de Vilarinho da Furna.
Mas a caminhada mestra desta actividade com os Caminheiros foi a do dia 9 de Junho. Ligando dois dos pontos mais turísticos do Gerês - o miradouro da Pedra Bela e a Cascata do Arado - levei o grupo ao coração da Serra do Gerês, a um dos mais recônditos e desconhecidos lugares deste paraíso natural: o vale da ribeira de Teixeira!
Por entre pinhais, começámos por acompanhar parte do PR3, até ao Curral da Carvalha das Éguas, onde os horizontes se abrem para oeste, numa panorâmica que tem por pano de fundo as alturas da Junceda e da Calcedónia. Continuando a ziguezaguear em permanente sobe e desce (mais sobe do que desce…), o nosso destino inflectiu depois para leste. Já acima dos 1000m de altitude … eis que os nossos olhos descobrem o autêntico "Shangri-la" do vale da Teixeira. Como no “Horizonte Perdido” de James Hilton ... "o tempo parece deter-se em ambiente de paz e felicidade". Aqui habitualmente pastam garranos em liberdade. E, como pano de fundo, por trás do vale, a mole imensa do maciço do Borrageiro.
Descida para o Shangri-la do Vale da Teixeira, 9.06.2008
Descida a encosta e atravessada a ribeira, estávamos junto à cabana que me havia protegido em Março.
Prado e cabana da Teixeira, local de almoço, 9.06.2008
Foi aí o almoço ... e foi aí também a opção para quem quis aventurar-se a subir ao Borrageiro! Em Março não tinha chegado ao Borrageiro, devido à chuva, mas tinha o registo GPS da descida com o CAAL, em Julho de 2005. Um grupo de quase 20 "destemidos" seguiu-me então pelo vale da Teixeira, subindo ao Curral do Camalhão e deste à Chã da Presa. No início da subida, ainda junto ao rio do Camalhão, por momentos perdi o trilho ... e obriguei os meus seguidores a um "aventuroso" corta-mato ascendente... J! Contudo, mesmo depois de reencontrado o trilho, o grupo teve algumas "baixas". Da Chã da Fonte ao Borrageiro já só éramos 14 ... que às 14:40h daquele dia 9 de Junho "conquistámos" os 1430 metros de altitude do Borrageiro.
Subida ao Borrageiro, 9.06.2008
Os 14 "destemidos" no cume do Borrageiro, 1430m alt., 9.06.2008
A panorâmica do alto do Borrageiro é sempre espectacular, estendendo-se das serras da Peneda, Soajo e Amarela, a oeste, às moles graníticas do Gerês, a leste e nordeste; para sul e sueste, o maciço das Rocas, próximo, e a serra da Cabreira, ao fundo.
Cascata do Arado, 9.06.2008
Regressando ao Camalhão e ao prado da Teixeira, reunimo-nos com os que tinham ficado no repouso, seguindo depois caminho rumo ao Arado. Uma vez chegados à "mariola gigante" … dava-nos vontade de voar! Atrás de nós, para norte, tínhamos o vale da Teixeira, o "Shangri-la" acabado de atravessar; aos nossos pés, para sul, a vertente abrupta do vale do Arado. Ziguezagueando ao longo de cerca de 2 Km, ora nos aproximávamos das primeiras "piscinas" e cascatas do rio Arado, ora cruzávamos pequenos afluentes, como a Corga da Giesteira. Lá em baixo, começámos a ver a ponte do Arado ... e estávamos no final da caminhada!
Restava o quarto e último dia, 10 de Junho. Em dia de regresso a Lisboa, impunha-se uma caminhada curta. Programei a pequena caminhada de descoberta da Ponte da Misarela, em versão mais curta do que a que tínhamos feito em Março. Começámos na aldeia de Frades, abaixo de Ruivães, no vale do Cávado. Na outra margem, avistavam-se pequenas povoações da encosta sul do Gerês, como Fafião e Pincães. É um muito bonito troço rural, entre muros cobertos de musgos e campos de cultivo. Com pouco mais de 2 km percorridos, cruzámos a estrada e apontámos então à Ponte da Misarela, ou Ponte do Diabo, sobre o rio Rabagão, ligando terras minhotas a terras transmontanas … e contando-nos velhas lendas cheias de história, de crenças e de tradições populares, a que já aludi quando da primeira incursão, em Outubro de 2006.
Ponte da Misarela, ou do Diabo, 10.06.2008
As águas revoltas do Rabagão, junto à Ponte da Misarela
É tradição muito antiga nas populações circunvizinhas que, quando algo ia mal na gravidez, a mulher se dirigisse à ponte e debaixo dela pernoitasse, na expectativa de ajuda celeste para o seu problema. Na sequência da operação, a primeira pessoa que atravessasse a ponte no dia seguinte seria o padrinho ou madrinha da criança, à qual seria posto o nome de Gervaz, se rapaz viesse ao mundo, ou de Senhorinha, se de rapariga se tratasse. E isto para que, por obra e graça do pré-baptismo, a mulher tivesse um bom sucesso na sua gravidez.
A caminhada terminou em Sidrões. Uma boa costeleta barrosã foi o prato principal de um almoço que encerrou a actividade caminheira, despedindo-nos do Parque Nacional junto à estreita ponte sobre o rio Cávado, entre Sidrões e Cabril.
Despedida do Parque Nacional da Peneda-Gerês, 10.06.2008
Em Julho de 2005 regressava ao "meu" Gerês! Desta vez "pela mão" do CAAL, no fim de semana de 16 e
Do miradouro da Junceda, sobre o Gerês, 16.07.2005
17. E esta foi, sem dúvida alguma, a mais espectacular actividade em que participei com aquele Clube. Com base no Parque de Campismo da Cerdeira, fizemos duas caminhadas fantás-ticas, que me permitiram conhecer alguns tesouros do Gerês que, até aí, me estavam ainda escondidos. Sábado, a partir do parque, subimos à Junceda, ao geodésico das Lamas e ao mítico cabeço da Calcedónia, onde já diversas vezes tencionara ir. A Calcedónia é um cabeço granítico,
Fenda da Calcedónia, 16.07.05
cujo cimo se atinge atravessando uma estreita fenda situada entre duas enormes lajes graníticas. Ali terá existido uma lendária "cidade", mais provavelmente um povoado fortificado da alta idade média, de que se observam restos de muralha, feita de grandes blocos graníticos. A passagem da fenda da Calcedónia quase nos dá a sensação de uma passagem para outra dimensão, para um outro universo, um universo com a força do granito e dos três minerais que o compõem, o feldspato, a mica e o quartzo. Esse enigmático quartzo, composto por ametista, citrino, calcedónia, cornalina, ágata e jaspe. Dela, da calcedónia,
No cabeço da Calcedónia, 16.07.2005
diz-se que harmo-niza o corpo, a mente, o espírito e as emoções. Diz-se, também, que promove a estabilidade mental e é útil na comunicação verbal, proporcionando clareza de discurso.
Depois, domingo, a "aventura" era subir da Ponte do Arado ao Borrageiro, pela Chã de Pinheiro e Roca Negra, descendo depois aos autênticos paraísos perdidos do Camalhão e da Teixeira. E foi efectivamente uma jornada memorável, pelo Gerês puro e duro. Nunca o granito me revelara a nossa pequenês como naquele dia, ali, naquela imensidão de rocha. A dimensão granítica transfor-ma qualquer um em simples mortal, com o tempo bem definido. Mais do que palavras, as imagens revelam parte do mundo que se me estava a revelar, naquele mundo mágico do "meu" Gerês!
A Roca Alva, vista da Chã de Pinheiro, 17.07.2005
No Gerês puro e duro, a caminho do Borrageiro, 17.07.2005
Subida para o Borrageiro, 17.07.2005
Subida para o Borrageiro, 17.07.2005
Descida do Borrageiro para a Chã da Fonte, 17.07.2005
Do Borrageiro, descemos ao Curral do Camalhão e ao vale da Teixeira, pela Chã da Fonte. Outros dois tesouros escondidos! É claro que esta era uma caminhada dura para a maioria dos alunos que andaram comigo, mas, durante tantos anos a levar alunos, nunca imaginei que acima das piscinas naturais do Arado - onde até algumas vezes subi com alguns - existiam aqueles autênticos paraísos perdidos. O Camalhão e, principalmente, o vale da Teixeira ... é um autêntico Shangri-La, o vale perdido de James Hilton, onde o tempo parece deter-se, onde se acredita num mundo novo possível.
Mas ... tínhamos de regressar ao mundo real. E, em vez de regressar ao Arado, da Teixeira desviámos para poente, em direcção ao Varejeiro e à Pedra Bela, onde terminou esta fabulosa jornada "pelos tesouros do Gerês".
No início do século XXI e do 3º milénio, as actividades de campo com alunos continuavam. Tendo optado por não renovar a orientação de estágios, tanto eu como a minha "colega" e companheira de vida tínhamos turmas de 10º ano, com um grupo de alunos mais uma vez prometedores para as "aventuras" já tradicionais na Escola Secundária de Sacavém. Eu tinha também os alunos do 11º ano que, no ano anterior, tinham ido ao Gerês. Os planos não foram portanto difíceis de delinear: estes últimos foram conhecer Doñana … e os do 10º ano foram conhecer as "terras mágicas" do Gerês...J
É assim que, de 8 a 10 de Março de 2001, o Parque Nacional de Doñana recebe mais um grupo de alunos. Nós dois e duas colegas novas na escola, acompanhamo-los ao longo desses três dias. Como habitualmente, o Camping Rocío Playa, em Matalascañas, foi o local de pernoita, desta vez nos bungalows, mas também o local das muitas brincadeiras e até, embora numa época do ano pouco propícia, dos banhos de mar.
O percurso pelo coração de Doñana, nos grandes jeeps da Cooperativa Marismas del Rocío, constituiu mais uma vez o principal motivo da visita, com um dos melhores motoristas/guias que já ali conheci. Mas fizemos igualmente os percursos pedestres de El Acebuche e de La Rocina, onde as aves aquáticas dominam as atenções.
No regresso, dia 10, entrámos por Vila Real de Santo António – onde ainda houve um "baile" de rua...J – e até a viagem para Lisboa foi bem animada, com excelentes "exibições" musicais e de dança, no autocarro … como se pode ver no vídeo...J!
Pouco mais de um mês depois, o 25 de Abril seria comemorado e cantado a caminho do Gerês, pelos alunos do 10º ano que, comigo e a minha "sócia", participaram no habitual programa de 4 dias naquelas terras de encanto. Tourém, o relógio de Sol, a fonte das solteiras, o forno comunitário. Depois … Pitões
Pitões das Júnias, 26.04.2001
das Júnias, o velho mosteiro perdido no vale do Campesinho, a cascata, a serra agreste e imponente como pano de fundo. E, claro … a “velha” Casa do Preto, a hospitalidade das Sr.as Marias, os sabores e os saberes transmitidos.
Descendo o Cávado, ao fim da tarde do dia 26 estávamos no Vidoeiro. As camaratas tinham sofrido algumas obras de restauro e melhoramento, recebendo o grupo nas duas noites seguintes. Num mês de Abril bastante ameno e soalheiro, esta terá sido a visita ao Gerês com maior número de banhos e de banhistas...J! Nas piscinas naturais do Rio Homem, na Cascata do Arado, nas piscinas sobre esta última, a caminho já do vale da Teixeira … que eu próprio só conheceria uns anos mais tarde. A tradicional subida a pé da geira romana, de Vilarinho da Furna à Portela do Homem, o não menos tradicional transporte do Parque Nacional para a Pedra Bela e Arado,
tudo terá ficado gravado nas memórias daqueles jovens … bem como a igualmente tradicional última noite, de brincadeiras, jogos, passatempos … e "levitação"...J
No último dia, o Parque Biológico de Gaia constituiu mais uma vez a quebra da monotonia da viagem de regresso a casa. Mas quis o destino que estas tivessem sido … as últimas vezes que levei alunos a Doñana e às "terras mágicas" do Gerês. Ao longo de 20 anos, tinham sido 12 "aventuras" no Gerês, que ficaram na história da Escola Secundária de Sacavém … e segura-mente na história e nas memórias de quantos nelas participaram.
Regressado havia pouco mais de uma semana das terras mágicas de Somiedo, a 25 de Abril de 2000 parto ... para as terras mágicas do Gerês! Aos valles del oso e a Somiedo, tinha ido com os meus alunos do 11º ano e com turmas de Humanísticas. Mas eu estava de novo a orientar um núcleo de estágio, cujas turmas de 10º ano ... também precisavam de actividades de campo! Com apenas 3 professores - este "carola", a sua colega e companheira e uma das duas estagiárias - 40 alunos viveram portanto os habituais 4 dias no Parque Nacional da Peneda-Gerês.
No primeiro dia, o destino habitual: Pitões das Júnias. Tal como Miguel Torga ...
"Gosto de rever certas paisagens, ainda mais do que reler certos livros. São belas como eles e nunca envelhecem. O tempo não degrada a linguagem que as exprime. Pelo contrário. Enriquece-a, até, num esforço de perfeição constante que, embora involuntário, parece intencional. (...)
E eu olho, olho, e não me canso de admirar uma placidez assim permanentemente movimentada (...)."
(Miguel Torga, Gerês, 3 de Agosto de 1959, Diário VIII)
Mais uma visita a Tourém, portanto, à sua fonte das
Pitões das Júnias, sempre Pitões... 26.04.2000
solteiras, ao forno do povo, ao "alcatrão" cada vez menos derretido das ruas. Depois Pitões, a velha "Casa do Preto", as Sr.as Marias ... e a magia da serra. No dia seguinte de manhã lá fomos ao Mosteiro e à cascata, regressando a tempo de um saboroso almoço e de uma tarde a caminho do Gerês ... e da velha camarata do Vidoeiro, palco mais uma vez de brincadeiras e convívio.
E o programa do dia 27 também não foi diferente: o cenário de Vilarinho da Furna e do Rio Homem, a geira romana, a explicação dos marcos miliários, da orientação no campo, o viver os sons e os silêncios, o respirar daquela Natureza agreste.
Regresso às terras mágicas do Gerês, versão ano 2000
A Portela do Homem e as piscinas naturais ficaram gravadas em mais umas dezenas de olhos jovens, que a seguir desceram ao Vidoeiro, na carrinha do Parque Nacional, para subir à Pedra Bela, à Cascata do Arado, à aldeia de Ermida. Era a 11ª vez que levava alunos ao Gerês!...
Rio Homem, albufeira de Vilarinho da Furna, 27.04.2000
No Xurés galego, Portela do Homem, 27.04.2000
4º e último dia, 28 de Abril. Como em muitas das últimas visitas ao Gerês, o regresso incluiu o almoço e uma visita ao Parque Biológico de Gaia. E ao fim da tarde estávamos em Sacavém, com mais histórias para contar. Com esta visita ao Gerês, muitos destes alunos iniciaram aqui um ciclo que, nos anos seguintes, os levaria à Cordilheira Cantábrica e à Madeira ... mas antes ainda voltaria aos Açores com o grupo que tinha ido a Somiedo e aos valles del oso...
No ano lectivo de 1998/1999 - 22 anos depois do Estágio Pedagógico, no então Liceu Padre António Vieira, e de me ter tornado professor - aceito uma proposta para orientar estágios do ramo educacional da Licenciatura em Biologia e Geologia. São então colocados 3 estagiários na Escola Secundária de Sacavém, sob minha coordenação, em estreita ligação com a Faculdade de Ciências de Lisboa.
Lamas de Olo (Alvão), 3.03.1999
Evidentemente que um dos valores que desde logo quis transmitir aos meus jovens estagiários, foi a concepção de escola aberta, de uma escola para além da escola, da íntima ligação com o mundo real e com a Natureza "apregoada" e "esquematizada" nos programas curriculares. Assim, no âmbito do núcleo de estágio, recuperámos a ideia do velho Clube "Amigos da Natureza", em que tanto as minhas turmas como as dos meus estagiários funcionaram como polo dinamizador de diversas actividades de campo, da Arrábida à Serra d'Aire, ao Alvão, ao Gerês ... aos Picos de Europa!
A primeira foi de 3 a 6 de Março. Destino: Alvão e Gerês! Turmas: 10º1A e 10º1C. Alguns destes alunos e alunas vinham de trás, tinham
Pitões das Júnias, 4.03.1999
sido meus no 7º e 8º anos, tinham participado nas "aventuras" na Tapada de Mafra e Serra d'Aire, em 95/96, e no Gerês em 96/97. Mais um conjunto de alunos que fez história na Escola ... e nas minhas recordações!
No dia 3 de Março de 1999, partíamos portanto para Trás-os-Montes, bem cedo, que o dia era longo. Primeira escala: o Parque Natural do Alvão. Numa tarde muito cinzenta e meio chuvosa, a aldeia "perdida" de Lamas de Olo parecia mais perdida ainda ... principalmente para olhos que nunca tinham visto aquele outro mundo. "É uma daquelas aldeias que parecem perdidas no tempo, com as ruas de pedra cobertas dos "presentes" das vaquinhas e das cabrinhas!! Estava imenso frio e uma chuva que até doía!! ......
Por volta das 18h45 chegámos a Pitões das Júnias, uma aldeia serrana, situada no planalto da Mourela, frente aos picos mais altos da Serra do Gerês, os Cornos das Alturas e... estava a nevar!! É verdade!! Alguns de nós nunca tinham visto nevar e pudemos confirmar que é uma experiência única!! Chegámos àquela aldeia serrana e deparámo-nos com um lindo manto branco que nos veio cumprimentar!!"
Regresso do Mosteiro de Pitões, 4.03.1999
(descrito por Cristiana Franco, aluna, no site do Clube "Amigos da Natureza", Março de 1999)
E mais uma vez a Sr.ª Maria, na sua "Casa do Preto", recebeu um grupo de alunos, a somar aos tantos outros que já lhe havia levado.
No dia 4 de manhã ... o espectáculo era grandioso. Tinha nevado toda a noite! "Ao abrirmos as janelas dos quartos, não podíamos ser surpreendidos com melhor espectáculo: as ruas, os telhados, os campos... tudo coberto de neve!! Completamente indescritível!!" (idem)
E foi sob pequenos nevões intervalados com pequenas abertas que descemos ao Mosteiro e à Cascata de Pitões. Um ou dois bonecos de neve ficaram durante algum tempo a marcar a passagem do nosso grupo...
Em tantas e tantas "aventuras", este foi o único ano em que tivemos de cancelar a visita a Tourém. A estrada que desce da Mourela àquela aldeia "perdida" estava completamente coberta pela neve. Tourém estava isolada. Assim, mais cedo do que previsto, descemos o curso do Cávado, em direcção às Caldas do Gerês e à "velha" camarata do Vidoeiro.
O "programa", mais uma vez, não diferiu do habitual: brincadeiras e convívios e, no dia 5, o percurso da
Próximo da Pedra Bela, 5.03.1999
geira romana, passando por S. Bento da Porta Aberta e Covide, até Vilarinho da Furna. "Foi aí que iniciámos um percurso a pé de cerca de 12 Km, ao longo do Rio Homem, por vezes com a companhia da chuva! Atravessámos as Matas da Bouça da Mó e de Albergaria, onde vimos os chamados marcos miliários romanos, junto à estrada romana (geira romana) que ligava "Bracara Augusta" (Braga) a Astorga, em Espanha. Ao longo do percurso, e particularmente na parte final, admirámos as sucessivas cascatas do rio Homem. .... Continuámos a andar (agora sempre a subir) e a paragem seguinte foi numa ponte junto à cascata onde há uns anos alguns corajosos tinham tomado banho, só que desta vez não houve nenhum corajoso!! Andámos mais cerca de 2 km e chegámos ao nosso destino – Portela do Homem. .... Às 14h partimos em transporte do Parque Nacional em direcção ao miradouro da Pedra Bela, um dos mais importantes do Parque e que proporciona uma vista sobre todo o vale, avistando-se daí todas as serranias em redor. Daí seguimos para a Cascata do Arado e alguns ainda se aventuraram a seguir o professor Callixto (as duas professoras também se aventuraram...) por aquelas pedras acima até às piscinas naturais do Arado. Da cascata do Arado seguimos para a aldeia de Ermida, outra aldeia típica, cujas ruas, assim como Lamas de Olo, também estão cobertas de "alcatrão derretido"!!""
(descrito por Cristiana Franco, aluna, no site do Clube "Amigos da Natureza", Março de 1999)
Lamas de Olo e Pitões das Júnias, 3 e 4.03.1999
Gerês e regresso, 5 e 6.03.1999
Regressados ao Gerês e jantados, esta última noite ainda teria uma história que ficou para os anais da Escola, das nossas "aventuras" ... e das memórias de todos. "Foi assim: o Cláudio, do 10º1A, perguntou o que é que íamos fazer nessa noite e a Patrícia, da mesma turma, respondeu: "Vamos caçar gambuzinos!". Então não é que o rapaz acreditou?! Passado algum tempo, já estava o pessoal todo a falar dos gambuzinos e a arranjar maneiras de os ir caçar!! Até o professor Callixto disse que era uma espécie protegida pelo WWF (World Wildlide Fund)!! Mas é que não foi só o Cláudio a acreditar... Também a Sara e a Mafalda, da mesma turma, caíram que nem uns "patinhos"!!! Arranjámos uns sacos e lanternas e fomos à caça dos ditos bichinhos!! Andávamos a gritar "Oh gambuzino, gambuzino, gambuzino!!", ou então "Gambuzino ao saco!"!! O Carlos até fingiu que lhe tinham mordido (sim, porque os gambuzinos mordem, são como os gafanhotos só que maiores, assustam-se com a luz e gostam de locais mais ou menos húmidos...)... Às tantas, até o Cláudio afirmava que tinha visto um a saltar da mão do Carlos!!! A Sara tremia, mas continuava à procura com o saco na mão, a Mafalda estava mais calma mas sempre na expectativa...
A professora Ana é que nos chamou à realidade (a nós e ao professor Callixto...), dizendo que já bastava de caçadas!! Dirigimo-nos para o salão das camaratas e aí, com a professora Ana a filmar, o professor Callixto fez uma espécie de discurso! Disse que os gambuzinos eram uma espécie em vias de extinção e que daquele tipo só existiam no Gerês ("Gambuzius geresinus"). No final, agradeceu a todos a forma como participaram ... especialmente ao Cláudio, à Sara e à Mafalda ... porque foram apanhados para os "Apanhados"!!!"
(descrito por Cristiana Franco, aluna, no site do Clube "Amigos da Natureza", Março de 1999)
Com os meus três estagiários, 6.03.1999
Nesta história, é impagável a altura em que, no decorrer da "caçada" nocturna, toca o telemóvel de um dos que foram "apanhados". Era o pai dele ... que lhe pergunta o que está a fazer. Resposta: "estou a apanhar gambuzinos"!!! E ... resposta do pai: "estás a gozar comigo?"...J!
Mas chegava o último dia. Visitámos ainda o Parque Biológico de Gaia, sempre uma muito agradável forma de terminar estas actividades fora da escola.
E ... "Assim terminaram aqueles quatro dias de ar puro e paisagens bucólicas, que transpiram paz e tranquilidade!! Foi sem dúvida uma viagem inesquecível!!!" (Cristiana Franco)
Depois da "descoberta" de Somiedo, no Outono e Inverno de 1997/1998 sucederam-se pequenos passeios na autocaravana, intervalados por actividades de campo com alunos. Em 20 e 21 de Setembro passámos um fim de semana em Monte Gordo, pouco mais de um mês depois em Alpiarça.
Com duas turmas de novos alunos do 10º ano, num cinzento e chuvoso dia 17 de Novembro levo-os à Arriba Fóssil da Costa da Caparica e ao Parque Natural da Arrábida. Seria o treino para, 4 meses depois, levar esses mesmos alunos ... ao Alvão e ao Gerês. Estava a nascer mais um grupo, entre tantos, a ficar para sempre na memória, nas memórias de uma escola vivida muito para além da escola, mais um grupo a viver, durante os 3 anos do secundário, as "aventuras" e os muitos momentos de convívio e camaradagem que lhes proporcionámos.
Lagoa de Albufeira, 17.11.1997
Cabo Espichel, 17.11.1997
Vale do Zêzere,
Serra da Estrela, 22.02.1998
No Carnaval de 1998, a caravana leva-nos a uma volta pela Serra da Estrela, com passagem pela Sortelha. O vale glaciar do Zêzere, as aldeias serranas de Melo e Linhares da Beira e a vetusta cidade da
Camping Quinta das Cegonhas, Melo, 22.02.1998
Quando se atropela um carro... (24.02.1998)
Guarda recebem-nos por 4 dias. E na Guarda ... vejo o meu júnior entrar pelo pára-brisas de um carro, ao atravessar uma rua! Felizmente sem consequências de maior.
A 11 de Março de 1998 parto com os alunos do 10º ano para o Alvão e Gerês. O programa não foi muito diferente do que havíamos feito quatro anos antes, mas os alunos eram outros, claro, e outros olhos têm
Na ruralidade de Lamas de Olo, 11.03.1998
sempre novas visões, novas percepções, novos testemunhos de novas vivências. O rio Olo, as Fisgas de Ermelo, o caos granítico de Muas, a aldeia de Lamas de Olo, perdida no tempo, levaram estes alunos, a sua professora de inglês e o de Química, estreantes como eles nestas andanças, a um outro mundo, completamente desconhecido da maioria.
À noite, na Pousada de Juventude de Vila Real, houve lugar à música, à camaradagem entre todos, à alegria de viver e de conviver.
Erguer a voz e cantar
Pousada de Juventude de Vila Real, 11.03.98
No dia seguinte partíamos para norte, rumo às terras do Barroso e do Gerês. O velho Mosteiro de Pitões, a cascata e, claro ... a Srª Maria! Mas desta vez não dormimos lá, a "Casa do Preto" serviu apenas o almoço do grupo ... e que almoço! À tarde seria a visita a Tourém, para depois descermos o curso do Cávado ... e chegar à Pousada de Juventude de Vilarinho das Furnas já ao pôr-do-Sol. Mas na Pousada de Juventude ... havia uma discoteca à espera...J!
13 de Março, dia dedicado ao Gerês. Saímos a pé da Pousada de Juventude, atravessamos S. João do Campo, abeiramo-nos do rio Homem. A albufeira está cheia, não se vê a aldeia submersa. Subimos a velha geira romana, chegamos à Mata de Albergaria e à Portela do Homem. Aí, espera-nos como habitualmente o transporte do Parque Nacional, desta vez o "cómodo", a carrinha fechada, para nos levar à Pedra Bela e à Cascata do Arado ... e a um "brinde" extra, a aldeia de Ermida. Mais uma vivência rural de montanha, onde inclusivamente se testemunhou o quão cedo na vida começa a labuta dos campos, como se pode ver no segundo vídeo que acompanha este texto.
Parque Natural do Alvão, 11.03.1998
Parque Nacional da Peneda-Gerês, 12 e 13.03.1998
No último dia, de regresso à cidade, visitámos ainda pela segunda vez o Parque Biológico de Gaia, onde este prometedor grupo de alunos terminaria as suas "aventuras" ... deixando-nos testemunhos como estes:
“Cada passo, cada árvore, cada flor, eram novidade para mim”
Sónia Cordeiro
“Senti uma calma interior como nunca sentira antes; toda aquela força inofensiva, a beleza virgem mas mutável das terras altas, o respeito do Homem pela Natureza, fizeram-me pensar que talvez exista uma esperança, um caminho para tudo. O contacto com a Natureza fazia-me sentir cada vez mais pequena em relação à sua grandiosidade."
Ana Pepe
“Muito obrigado por nos ter dado a conhecer aquele outro lado da vida, com o desejo de regressar e encontrar novos mundos"
Sandra Nunes
“Ao estarmos em contacto directo com a Natureza, aprendemos a respeitá-la e a admirá-la. Também acho importante a realização deste tipo de visitas, para que valores como a solidariedade, o companheirismo e a amizade possam transparecer."
Ana Isabel Barão
“Que estrondo! Que será isto?! Um terramoto? Um furacão? Gente não é certamente e a chuva não bate assim. Fomos ver. Ups, era o nosso naturalista a bater à porta! Rapidamente (que remédio) tivemos que nos arranjar, para mais um passeio ao ar livre...J!"
No dia 6 de Novembro de 1996, com as turmas do 8º ano iniciadas no ano anterior na Tapada de Mafra e Serra d'Aire, parto para mais uma romagem às minhas terras "sagradas" do Gerês; 32 jovens alunos, 3 professores. Primeiro destino ... Pitões das Júnias! Agora há quase 3 anos que as Sr.as Marias não nos recebiam...! Mas antes, em Tourém, a fonte das solteiras, o forno, o relógio de Sol, e, claro ... o "alcatrão derretido", tinham de ser motivo da curiosidade daqueles jovens e das explicações "científicas" dos profs.
Em Pitões das Júnias, os quartos da Sr.a Maria voltaram a levar aos 3 e aos 4 rapazes ou raparigas em
Tourém e Pitões das Júnias, 6 e 7.11.1996
cada. E, no dia seguinte de manhã, o esplendor da serra chamava-nos para mais uma descida ao velho Mosteiro e à ainda mais velha cascata de Pitões. Algum nevoeiro, mas que rapidamente se dissipou ... mostrando-nos mais uma vez o palco e o cenário natural por onde 7 anos antes tínhamos feito a travessia da serra. Para onde é o Norte? Surgiram respostas em quase todas as direcções...! Mas a posição do Sol, a cobertura de líquenes e musgos, nas rochas e nos troncos das árvores, ditou a verdadeira direcção. Estavam transmitidas algumas bases de orientação no campo.
À tarde, a viagem para o Gerês foi sonolenta. Nem toda a gente tinha dormido a noite inteira anterior... A camarata do Vidoeiro ia-nos mais uma vez receber para as duas noites seguintes.
Dia 8. Pelo S. Bento da Porta Aberta dirigimo-nos a Covide e a Vilarinho da Furna. Em ano de pouca
Na Cascata do Arado, 8.11.1996
E na Pedra Bela, 8.11.1996
chuva, a barragem estava bem em baixo ... deixando bem à vista a aldeia perdida nas águas. Como habitual-mente, fizemos o percurso da geira romana, subindo o curso do rio Homem. As cores outonais estavam no seu máximo esplendor! E as águas do Homem não estavam suficientemente frias para impedir uns banhos, nas piscinas junto à ponte de S. Miguel...
Depois da também habitual visita à vertente galega, na Portela do Homem, esperava-nos o não menos habitual transporte do Parque Nacional ... de carga. Para além da maravilha dos elementos naturais, a Cascata do Arado proporcionou igualmente um banho improvisado nas águas cristalinas. E, na Pedra Bela, ao "desespero" da perda de um pelos vistos bem amado boné ... seguiu-se a alegria de saber que alguém o tinha recuperado...J.
Geira romana e Gerês, 8 e 9.11.1996
A um jantar na vila do Gerês, seguiu-se ... um momento muito pedido e prometido: uma horita de discoteca, na vila. Depois, subindo a pé para o Vidoeiro, a temperatura amena e uma tradicional fogueira alimentaram uma "directa", também prometida para a última noite ... caso tudo corresse bem ao longo destes 4 dias ... e como felizmente sempre correu...J!
Os sonos foram postos em dia no regresso, no dia seguinte.
Março de 1991. Nova "geração" de alunos tinha-se estreado, em Dezembro, nas "andanças" e "aventuras" do Clube "Amigos da Natureza", na Tapada de Mafra. Gente muito novinha, basicamente de sétimos e oitavos anos sem grandes "percalços" escolares, falar-lhes em 4 dias no Gerês ... era falar-lhes numa história em que dificilmente imaginavam poder participar! Mas, no dia 19 de Março, dia do pai, juntamente com a já habitual "equipa" de professores ... lá fizemos de pais e mães de mais um grupo "expedicionário" às terras do Gerês! Pela 6ª vez...!
Casa-abrigo do Vidoeiro, Gerês, 19 de Março de 1991
O circuito escolhido não podia ser muito diferente do já tantas vezes realizado com outros grupos. Mas desta vez começámos pela zona das Caldas do Gerês, alojando-nos, mais uma vez, nas camaratas do Vidoeiro, cujo salão foi, também mais uma vez, ponto de encontro de cantorias e de divertimentos.
A Barragem de Vilarinho da Furna, o percurso da geira romana, os marcos miliários, tudo fez as delícias dos muitos que pouco mais conheciam do que o perímetro casa-escola. O almoço foi nas piscinas naturais do rio Homem ... e até houve aventureiros que mergulharam naquelas águas geladas e verde-azuladas.
O autocarro do Parque Nacional foi-nos buscar à Portela do Homem. Contei-lhes a história de que anteriores grupos de alunos não tiveram transporte tão cómodo...J! Seguiu-se a Pedra Bela e a Cascata do Arado. A processionária do pinheiro chamou-lhes a atenção ... e deu o mote a uma "aula" sobre parasitas e infestantes.
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E depois de um jantar na vila do Gerês, o serão foi à chama da fogueira no cruzamento do Vidoeiro. Por entre anedotas e cantigas ... aprende-se a localizar estrelas e constelações, fala-se da velocidade da luz, da viagem no tempo que é a simples contemplação do céu estrelado.
E o dia seguinte, 21 de Março, era Dia da Árvore. Mas, a caminho de Pitões das Júnias, o céu cinzento ameaçava chuva ... ou neve! Visitámos Tourém ... e no regresso ao Planalto da Mourela a neve começou a cair. Que festa para todos!
Almoçados na nossa boa amiga Srª Maria, as ruínas do Mosteiro de Pitões receberam o grupo ... debaixo de uma mistura de chuva e neve e de muito nevoeiro. O regresso foi assim antecipado, a deslocação à cascata tornava-se perigosa naquelas condições. E foi assim ao calor da lareira da "Casa do Preto" que passámos o fim de tarde e noite, ouvindo histórias perdidas no tempo, contando também àquela jovem gente a "aventura" da travessia da serra, feita dois anos antes com colegas deles. Mas o serão à lareira ainda proporcionou uma experiência de concentração e de "transmissão de energias", conduzida por uma aluna brasileira supostamente com essa capacidade. Outros, também artistas, deixaram o emblema dos "Amigos da Natureza" desenhado a canivete no madeiro da lareira da Srª Maria. O emblema perdurou ali durante largos anos, até à transformação da lareira e à substituição do madeiro. E no dia seguinte ... era o regresso.
Pouco mais de dois meses depois, a 28 de Maio de 1991, acompanhei uma actividade organizada pelo grupo de História da Escola, num passeio de bote fragateiro, no Tejo, seguido de visita aos moinhos de maré de Corroios e ao EcoMuseu do Seixal. Estando a componente natural e ecológica incluída ... eu tinha de estar lá...J! E dois dias depois estava a levar o Clube "Amigos da Natureza" para novas actividades. Pela primeira vez na Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, percorremos todo
Milfontes, 31.05.1991 - Emblema do Clube "Amigos da Natureza"
o litoral, do Cabo de S. Vicente a Porto Covo. Na viagem para sul, dia 30 de Maio de 1991, subimos à Foia, ponto mais alto da Serra de Monchique e do Algarve, almoçando já em Sagres. No Cabo de S. Vicente, aliámos a natureza à história, na contemplação do mar impetuoso e na evocação dos Descobrimentos Marítimos.
Já quase verão, os primeiros banhos foram na praia da Arrifana e na Zambujeira do Mar, em cujo camping montámos as tendas para a primeira noite. Seguiu-se o Cabo Sardão e Vila Nova de Milfontes. O emblema do Clube tinha sido desenhado num grande pano branco que, entre estacas de madeira, se erguia orgulhoso na praia, identificando a nossa presença...J!
A segunda noite foi já em Porto Covo, frente à ilha do Pessegueiro. Assim, o dia seguinte (que viria a ser o último...) foi de caminhada até à vila, pelas falésias, e, também, na praia frente à ilha ... à qual ainda levei mais 4 "nadadores". Demos uma grande volta pela ilha, subimos à fortaleza ... mas não encontrámos o Pessegueiro na ilha...J!
Ao fim da tarde havia nuvens ameaçadoras. Vinha lá chuva. E o regresso seria no dia seguinte ... quase de certeza com as tendas encharcadas. Assim ... resolvemos levantar o acampamento e regressar antecipada-
mente ... com a promessa de que viriam todos passar a noite em minha casa...J! E assim foi. Já passava da uma da manhã quando os "Amigos da Natureza" "acamparam" na minha garagem e sala, espalhados por colchonetes, cobertores, etc...J! Foi uma noite memorável! Ouvimos música, vimos filmagens de "aventuras" anteriores ... e vimos o Sol nascer sobre o Tejo! A propósito de filmagens ... as nossas técnicas iam evoluindo, com novos equipamentos adquiridos pelo Clube de Audiovisuais, como ilustra o exemplo ao lado. As legendas e créditos finais (mesmo sobre as imagens do "acampamento" em minha casa...) já não precisavam de ser escritas em folhas de acetato...J!
O verão de 1991 foi marcado pelo desaparecimento de um meu carismático Tio, irmão de meu Pai, a quem muito estava ligado. São as fragas e pragas também da vida. Quanto às oscilações da minha companheira, uma estabilidade não duradoura, mas significativamente melhor que em 89, permitiu umas férias relativamente calmas, com um regresso a Valença do Minho e à casa dos amigos que nos haviam recebido naquele difícil verão. E no fim de Agosto ... Santa Cruz.
A organização da área de estudos científico-naturais do curso complementar englobava entretanto, no 10º ano, uma disciplina de Ecologia. Ora, mais do que qualquer outra vertente, a Ecologia não se estuda nem se ensina dentro de 4 paredes. A 22 de Março de 1988, pouco mais de um mês depois de Doñana e de S. Jacinto ... estava a sair para o Gerês com os meus alunos de Ecologia! Embora só por 3 anos (10º ao 12º),
Tourém, forno comunitário, 22.03.1988
estes alunos constituiriam aliás mais um grupo a acompanhar quase sem alterações, com muitas e diversas "aventuras" partilhadas em conjunto. Por outro lado, a visita ao Gerês de Março de 1988 foi a primeira actividade que contou também com a participação de dois outros professores e grandes amigos, que daí para a frente viriam a fazer parte de uma espécie de "núcleo duro" das actividades de campo organizadas na Escola Secundária de Sacavém. Mais do que nunca, tinha nascido uma equipa interdisciplinar, permitindo fazer destas "viagens" verdadeiras aulas vivas, em que os saberes partilhados se cruzavam com os sabores da amizade, da sã
Nas ruas de Tourém, 22.03.1988
camaradagem, da alegria de viver.
E assim, levei estes novos alunos a Tourém e a Pitões. Aprenderam que a Ecologia também engloba a vertente humana, que as populações humanas fazem parte integrante do meio ambiente; aprenderam histórias de comunitarismo nestas pequenas aldeias, visitaram o forno comunitário e a fonte das solteiras; ouviram histórias sobre o boi do povo e a sua função como reprodutor; conviveram
Na fonte das solteiras, Tourém, 22.03.88
com a população; aprenderam o que não vem nos livros nem nos programas...
A Srª Maria e a "Casa do Preto", em Pitões das Júnias, receberam este novo grupo com o calor habitual: o calor da hospitalidade ... mas também o calor da lareira, ao crepitar da qual nos reuníamos à noite. E, num esplendoroso dia de uma Primavera há pouco iniciada, a "aldeia mágica" de Pitões recortava-se contra as alturas da Serra do Gerês. A fraga de Brazalite, os cornos da Fonte Fria ... como que nos chamavam para uma fantástica travessia ... há muito sonhada!
Pitões das Júnias ... a "aldeia mágica", com as alturas da Serra do Gerês como pano de fundo - 22.03.1988
Mas para já, em 1988, os percursos efectuados - ao Mosteiro e à Cascata de Pitões - eram novos para todos menos para mim. Houve lugar, pelo caminho, à aprendizagem de regras básicas de orientação no campo; mas também houve lugar à história do Mosteiro e dos eremitas que se estabeleceram nesta região, presumivelmente nos finais do século IX.
E, como já vinha sendo habitual, de Pitões "mudámo-nos" para o Vidoeiro, mas agora para as camaratas da casa-abrigo do Parque Nacional. Esta casa-abrigo, estas camaratas e o salão anexo passaram a ser o poiso principal na maioria das minhas idas ao Gerês com alunos. Quantas histórias, anedotas, músicas, brincadeiras, ali contámos, cantámos e brincámos, todos! Quantas amizades, convivência ... crescimento!
Mata da Bouça da Mó, 24.03.1988
Marcos miliários, ao longo da geira romana
A geira romana foi mais uma vez percorrida, de S. João do Campo à Portela do Homem. E mais uma vez descemos às piscinas naturais do rio Homem ... aliás local mais que convidativo para o almoço...J
Na Portela do Homem, era obrigatória a foto de grupo ... em terra galega.
Junto às piscinas do rio Homem
Fronteira da Portela do Homem, lado galego, 24.03.1988
Fronteira da Portela do Homem
Para não variar, as "etapas" seguintes foram a Pedra Bela e a Cascata do Arado, pois claro! Para eles eram novidade, para mim não ... mas nunca até hoje me cansei de ali ir, de partilhar aquela Natureza, aquela comunhão.
Pedra Bela, 24.03.1988
Cascata do Arado, 24.03.1988
Junto à Cascata do Arado, 24.03.1988
O Gerês deixa sempre saudades. Com alguns dos alunos que participaram nesta 4ª visita, e alguns outros, um ano depois estaríamos a concretizar um sonho...! Mas também com alguns destes mesmos alunos e outros ... 3 meses depois estávamos nos Pirenéus!