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terça-feira, 10 de agosto de 1971

Os "anos loucos" (1): 1970 / 71

O rapaz pacato da nossa apresentação … começou em forçaJ! Entre Novembro de 1970 – quando se iniciou na Espeleologia – e Dezembro de 1972 … participou em 15 acampamentos, 17 actividades espeleológicas, 9 actividades de mergulho, um campo de trabalho … e cumpriu, só nesses dois anos, o melhor de 49 noites de campo. Pelo meio deste périplo, em 1971 atravessou a África austral num VW "carocha", naquela que viria a ser a viagem com seus pais de que mais recordações guarda; essa viagem virá a ser objecto, por si só, de um próximo post.
Na Espeleologia, a Serra d'Aire era o destino mais frequente – principalmente a zona de Zambujal de Alcaria e Alvados – com muitas saídas de campo realizadas também na zona de Alcobertas, na vizinha Serra de Candeeiros, nas nascentes do Alviela, na Serra de Montejunto, na Arrábida e na região de Alvaiázere, entre outras. As tendas não eram como as actuais, tinham o pano de chão separado do resto, de tal modo que, quando chovia … as botas muitas vezes acordavam a boiar. O grupo tinha material próprio, desde as escadas de cabo de aço, para a descida aos algares, aos gasómetros a carbureto, cordas para rapel, etc.

Que será feito da D.ª Meireles e do velho "Café da Bica", em Zambujal de Alcaria, Serra d'Aire? Na minha primeira "missão" à serra d'Aire – 14 e 15 de Novembro de 1970 – dormi, como os outros, no palheiro a que chamávamos a Casa Abrigo do Centro Nacional Juvenil de Espeleologia. Começámos a subir a serra antes das 7 horas, ainda de noite. Percorremos uns km pelos píncaros e pelas 8 começou a nascer o Sol! Sem frio, com o grande cenário das serranias a perder de vista, o Sol elevava-se sobre o horizonte e nós caminhávamos entre vales e serra, sobre estreitos e tortuosos atalhos, ao som do velho hino:

Minhas botas, velhas, cardadas,
palmilhando léguas sem fim,
quanto mais velhinhas e estragadas
quanto mais vigor sinto em mim

Às 8 e meia estávamos à entrada da Gruta da Moração, ou seja … um pequeno e apertado buraco entre dois rochedos. Mas, passado um estreito túnel, deparou-se-nos uma ampla sala … e um mundo completamente diferente!
Dessa vez, como de outras, foi debaixo de chuva torrencial que fizemos o caminho de volta a Alcaria. O "Café da Bica" era sempre o ponto de encontro. Desfeitas as "camas" no palheiro e arrumado o material … a velha camioneta de carga que nos tinha levado trouxe-nos de volta a Lisboa, seguida de perto pela VW do Ribau, com ele e as filhas. Um mês depois, seria a minha primeira vez nessa histórica "pão de forma", no regresso de uma saída ao Fojo dos Morcegos, na Arrábida.
Estou-me a lembrar também de uma noite na Serra d'Aire, em Dezembro de 1970. Tínhamos explorado o Covão da Pousada e a Lapa do Cabeço do Roubo … hoje Grutas de Alvados. Pelas 5 da tarde iniciáramos a descida para Alvados, para depois, na estrada de Alcaria para Mira d'Aire, subirmos o quilómetro e meio que nos separava da tenda, onde chegámos já quase noite. Acendemos a fogueira com mato seco e jantámos. O frio começou a fazer-se sentir, mas a habitual serenata aqueceu um pouco o ambiente … até às 4 ou 5 da manhã … quando vimos que não estávamos a sonhar: o termómetro que costumávamos levar … marcava 4 graus negativos dentro da tenda! Os 3 cobertores que cada um levara pareciam-nos feitos de papel … e se calhar eram mesmo, quem sabe…! Mas pelas 9 da manhã, com o Sol já a brilhar, a higiene matinal foi feita num poço ali próximo, à falta de melhores meios. Estou a ver a cara dos ocupantes de um automóvel que passou, deveras espantados ante a imagem de quatro "indígenas" em tronco nu, lavando-se alegremente num poço…!
Acampamento nas nascentes do
Alviela, 16.01.1971

Acampamentos à chuva eram "mato"...! 17 de Janeiro de 1971, 3h da manhã, Olhos d'Água do Alviela: alguém acorda com a "fachada" molhada…! Qual fonte de água cristalina, uma biqueira escorria do pano da tenda para cima das nossas "fronhas". Não tardou que acordássemos todos, com o barulho de uma real carga de água que caía sobre a tenda … e já também sobre nós; o pano do chão já tinha muitas "piscinas"…! Dois sacos de plástico enfiados pela cabeça e aí vamos, eu e outro, esticar as espias da tenda. Encharcados, deitámo-nos de novo … e creio que conseguimos dormir até de manhã.

A primeira semana das férias da Páscoa de 1971 ... foi também uma semana chuvosa, passada na região de Almoster, próximo de Alvaiázere. Pelo sim pelo não, montámos duas tendas ... uma por cima da outra! A muita chuva originou pouca Espeleologia ... mas uma semana deu para conhecermos a população da aldeia ... incluindo as duas simpáticas moçoilas que trabalhavam no posto dos correios… J! Lembro-me que em Almoster nos indicaram a existência de uns algares no sítio de Pousaflores, a uns 10 km do acampamento. E lá fomos...! Não demos com os algares, mas Pousaflores ofereceu-nos uma das imagens mais belas de quantas havíamos visto: no alto de um monte de onde se avistava tudo em redor, cinco moinhos de vento alinhados em fila, perfeitamente integrados na Natureza agreste, meio destruídos pelo tempo e pelo abandono, davam um ar de magia àquele local. Entrámos num deles, deixámo-nos levar pela imaginação e pelo sonho. O vento assobiava por entre as madeiras carcomidas, a prometer chuva. Para ali nos deixámos ficar algum tempo, sentindo velas brancas aparecerem por milagre nas pás destruídas e levando-nos em direcção às núvens, avistando toda a maravilha que a Natureza semeou. O fascínio do local foi tal que tínhamos já praticamente decidido passar a noite no interior de um dos moinhos ... e só não o fizemos porque de repente, vindo do nada, vimos aproximar-se do local um Mercedes preto que parecia vir buscar alguém! Era o pai de um dos do grupo, que tinha ido ter connosco ao acampamento e que, de pergunta em pergunta, tinha conseguido encontrar-nos. Assim, fizemos os 10 km de regresso à tenda ... de Mercedes!
Foi também durante este acampamento que, no dia 3 de Abril de 1971, vimos a Tonicha e a sua "Menina do Alto da Serra" ficarem em 9º lugar no Festival da Eurovisão ... visto na TV do Retiro dos Caçadores de Almoster. No dia seguinte, cantámos nós a canção do adeus àquela boa gente; mas ... "não é um adeus, irmãos, é só um até breve"!
Acampamento na Berlenga, Agosto 1971
E um acampamento nas Berlengas, em Agosto de 1971 ... que começou por uma noite numa horta, em Amoreira de Óbidos...? Saídos de Lisboa quase às 7 da tarde, levados eu e outro por um colega do meu pai até perto de Óbidos, o objectivo era ir depois à boleia daí até Peniche ... só que não houve boleias. Armámos a tenda numa horta, dormimos como pedras ... e no dia seguinte preparámo-nos para continuar a "peregrinação". 8 km depois - faltavam outros 8... - resolvemos contudo fazer alto numa paragem de camioneta ... que chegou 2 horas depois ... e que por 5$00 e em 10 minutos nos pôs em Peniche, engalanada para as festas da Virgem do Mar.
Esta semana nas Berlengas foi memorável. Naquela ilha paradisíaca, vivemos e cantámos a nossa juventude. Aos dois atrás referidos, juntaram-se outros dois em Peniche e, já no velho "Cabo Avelar Pessoa", verificámos que tínhamos a bordo mergulhadores nossos conhecidos, do Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador ... no qual me inscreveria 2 meses depois.
10 de Janeiro de 2011

3 comentários:

magee disse...

Já me constipei com tantas molhas..
Parabéns
Margarete

António disse...

Com esta descrição, tão pormenorizada, comecei a sentir arrepios e já estou a beber um chá de limão com mel...
Espero que as próximas aventuras já tenham decorrido com melhor tempo!
Abraço
Mousinho

Júlio disse...

Estou a gostar de acompanhar a "tua" história de vida.
Espero pelos próximos capítulos.
Um abraço
Júlio Félix