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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Quarenta anos por fragas e pragas... (1970 - 2010)


Ninguém pode construir por ti as pontes que vais precisar de passar para atravessares o rio da vida. Ninguém, excepto tu, só tu. Existe certamente um sem número de atalhos e de pontes, semideuses que se oferecerão para te levar para além do rio, mas isso custar-te-ia a essência de ti próprio: hipotecavas-te e perdias-te. No mundo só existe um único caminho, por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, segue-o!
Friedrich Nietzsche

O blogue "Por fragas e pragas..." nasceu no dia 9 de Janeiro deste "ano da graça" de 2011, quando das comemorações do centenário do velho Liceu Passos Manuel. Em 9 MESES e nos 147 ARTIGOS publicados, recordei e revivi 40 anos de "aventuras" ... de fragas e de pragas, de 1970 a 2010. A corrida das memórias atingiu assim a meta do ano corrente! O "rapaz pacato" que iniciou esta viagem é hoje quase sexagenário ... mas mantém a paixão e a garra que cada vez mais o inspira e alimenta. Nos "paraísos perdidos" das suas serras e rios, nas suas três "terras natais", o nosso jovem, agora avô, continua a subir velhas bredas, a beber a água divina das fontes, a sentir a energia telúrica de escarpas e barrocos, a descer torrentes e ribeiras, a pulular de som e de vida … saltando as fragas. Quem sabe se as águas que hoje vê ainda são as mesmas que já viu antes ... as mesmas que ainda espera vir a ver.
Se for possível alguma metáfora, poderei arriscar que a "Fraga" que o Sebastião Antunes canta - nos "Contos de Fragas e Pragas" que inspiraram o título do blogue - é o "barroco sagrado" das minhas Fontes Lares, a Brazalite da "aldeia mágica" de Pitões das Júnias, a Peña Furada de Valle de Lago, nas "terras mágicas" de Somiedo ... ou tantas outras. As "lendas perdidas do pó das pedras" ou os "contos aprendidos à lareira quase apagada" ... são as memórias eternizadas na pedra da velha casa das Fontes Lares, são contos de amores e desalentos, são as lendas perdidas da Marvana, da esbelta "Rosa da Montanha", das cabanas perdidas nos currais do Gerês, das xanas e nuberus que se escondem na ramagem dos bosques de Somiedo, histórias de brañas e vaqueiros, de homens e de luta. As águas que brilham à luz da "Lua branca das ribeiras" ... são as águas do meu Côa, do alto Homem e das corgas do Gerês, do Pigueña e das torrentes de Somiedo ... e de tantas outras. À medida que escrevo e que sonho, no meio do silêncio ... estou a escutá-las...

E como "No canto de cada sonho nasce a vontade" ... este blogue vai continuar, agora acompanhando o presente. Os 40 anos aqui revividos ... foram a génese do que o "rapaz pacato" é hoje, pai, marido, avô ... mas apaixonado como sempre pelos paraísos perdidos que teima em desbravar. A acompanhá-lo ... a mesma companheira de sempre. Não necessariamente em todas as "aventuras", mas na grande maioria, e, principalmente ... na grande aventura da vida. Obrigado, companheira!
Enquanto tiver vida e forças ... é a caminhar que quero mostrar a mim próprio quem sou e o que sou. Há quem defenda que caminhar solitariamente é um risco. Tudo na vida é um risco...! Há que saber doseá-los. A tecnologia permite hoje que ninguém se perca em sítio nenhum do planeta, desde que se saiba usar os meios que aquela põe ao nosso alcance. Apesar de um bom sentido de orientação, não me meteria em várias das "aventuras" em que actualmente me meto sem recorrer ao GPS, que contudo é um simples PDA com o meu fiel OziExplorer instalado. Cartas pormenorizadas e georreferenciadas (e/ou imagem Google Earth), bateria(s) suplementar(es) consoante a duração da "aventura" ... e a progressão no terreno é acompanhada no aparelho, segundo a segundo, metro a metro. E não há imprevistos? Claro que há ... mas a vida é um imprevisto e um risco permanente, em qualquer lugar, em qualquer momento.

Pegando nos "Diários" de Miguel Torga ... ouso identificar-me com alguns dos seus escritos. Ouso até adaptar o primeiro dos pensamentos que transcrevo:
Pareço um doido a correr estas serras, estes rios e estes vales. Do Gerês à Malcata, do Côa ao Homem, das terras de riba-Côa às terras de Somiedo, não tenho sossego. "Talvez, sem eu ter consciência disso, cultivo-me assim pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das cousas, expressivas na sua luz, no seu clima e no seu paralelo particular. A terra não é igual em lado nenhum. Aqui encolhe-se, ali espalma-se, acolá afunda-se...
Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como a broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem, antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele."
O presente post é simultaneamente o último ... e o primeiro de um novo blogue, ou melhor, do rejuvenescimento que assinala o seu cruzamento com a actualidade. Depois, o "novo" blogue contará as "aventuras" já vividas este ano. Ao contrário dos anteriores, retrospectivos, os respectivos artigos foram escritos na altura ... só não foram publicados. Se o fossem, misturar-se-iam com os anteriores, confundindo a sequência cronológica. Foram por isso guardados, à espera que as fragas do passado chegassem às fragas do presente. Vão agora conhecer a luz do dia, pausadamente, mas com a data das "aventuras" a que reportam e/ou em que foram escritos.
E como " a vida é feita de pequenos nadas " ... as coincidências e as fragas da vida fizeram com que um blogue, nascido no dia de um almoço que reuniu gente do meu velho Liceu Passos Manuel, onde fui aluno … acabe curiosamente, na sua parte retrospectiva ... no dia de um jantar que vai reunir mais de meia centena de ex-alunos meus, que viveram comigo tantas e tantas "aventuras" partilhadas em conjunto!
O "velho" blogue, que reviveu 40 anos de "aventuras", claro que se vai manter online, mas termina portanto com este post, dando lugar ao "novo", ao blogue das fragas e pragas do presente. Os 40 anos de fragas e pragas ultrapassaram as 15 mil leituras! A todos os que tiveram a paciência de me acompanhar ... bem hajam! Continuem a acompanhar-me no novo endereço http://porfragasepragas.blogspot.com/. Primeiro as fragas já vividas em 2011 ... e depois "em directo"... J!

   "Fraga", "Contos de Fragas e Pragas", Sebastião Antunes, "Quadrilha", 1992

23 de Setembro de 2011

quarta-feira, 27 de agosto de 2003

Nas arribes do Douro internacional ... em vésperas de meio século!

De 26 de Julho a 3 de Agosto de 2003, entre as duas intensas estadias em Vale de Espinho descritas no anterior post, pegámos na autocaravana para uma digressão pelo Douro internacional, as arribes del Duero. Começámos por Barca d'Alva, onde o Águeda se lança no Douro. Curiosamente, o Águeda e o Côa são rios irmãos, nascendo a pouco mais de 1 km um do outro, em vertentes opostas da mesma Serra das Mesas, correndo por países diferentes, até se verterem ambos no grande Douro.
Por Saucelle, fizemos alto no Camping "Balcón de las Arribes", em Pereña de la Ribera, onde passámos 3 dias de descanso, admirando belas perspectivas sobre o Douro ... e de caminhadas. No dia 28, sozinho, de bicicleta, desci ao Pozo de los Humos, no rio de las Huces, afluente da margem esquerda do Douro, a sudoeste de Pereña. E no dia seguinte desci igualmente ao Pozo Airón, no Arroyo de los Cuernos, a oeste da aldeia. Dois autênticos paraísos escondidos, nas arribes sobranceiras ao Douro. Duas sucessões de piscinas naturais, de cascatas, de verde e de frescura. A partir da meseta seca e quente, aqueles oásis pareciam saídos de um milagre da Natureza.


Pereña de la Ribera - Pozo de los Humus, 28.07.2003
Pereña de la Ribera - Pozo Airón, 29.07.2003
Depois, dia 30, rumámos a terras de Miranda, pela Bemposta e Freixiosa, ao longo dos múltiplos miradouros que se debruçam sobre o Douro. Em Miranda do Douro, fizemos o mini-cruzeiro ambiental que sobe o troço internacional a norte da cidade, apreciando as espectaculares paredes rochosas a pique sobre o rio e a vida da avifauna típica daquelas falésias abruptas.
Mas esta digressão a terras de Miranda teve como razão principal a participação no Festival Intercéltico de Sendim. Cada vez mais apaixonado pela música folk, popular, ou tradicional das comunidades do norte da Ibéria, de raízes celtas, o apelo do Intercéltico de Sendim, então na sua 4ª edição, tinha sido sempre grande desde que se iniciara, em 2000. Os 3 primeiros dias de Agosto foram, assim, de festa intercéltica ... da qual regressámos a Vale de Espinho, conforme já descrito no anterior post.
E no fim do mês migrámos de Vale de Espinho para Santa Cruz, onde este apaixonado pela vida ao ar livre ... iria completar meio século de existência ... reunindo meia centena de familiares e amigos ... entre os quais dois "velhos" companheiros do meu velho Passos Manuel, dos velhos tempos da Espeleologia e dos acampamentos, os únicos de que consegui encontrar rasto! Com muita pena minha, não consegui contacto com o meu velho professor Ribau, que hoje sei que nessa altura ainda estava entre nós...
 
4 de Junho de 2011

sábado, 30 de dezembro de 1972

Os "anos loucos" (2): 1971 / 72

Regressado da "aventura" africana, em 1971 as aulas no Passos Manuel começaram um pouco mais tarde ... pelo que os primeiros dias de Outubro foram no Portinho da Arrábida, depois de atravessarmos a serra a pé, desde Azeitão, passando pelo cume do Formosinho. E em Novembro, à Espeleologia, aos acampamentos, às caminhadas ... juntei o Mergulho Amador!
Porto de abrigo de Sesimbra,
Abril de 1972
No mergulho fiz novos amigos. Aí convivi também bastantes vezes, aí adquiri novas e ricas experiências. Às sessões de piscina do curso, seguiram-se as sessões de mar, em Sesimbra ... e em 21 de Novembro de 1971 tornei-me Mergulhador Amador diplomado. Mas ainda me lembro da minha primeira sessão de mar: fui o 4º a saltar, um salto no desconhecido; lá em baixo, via os outros agarrados à corda da âncora, os monitores descendo ao nosso lado. A 20 metros já não se via a superfície. Bastava-me agora uma ligeira movimentação do corpo para nadar noutra direcção e descobrir mais maravilhas.
O destino era quase sempre o litoral da Arrábida, Sesimbra particularmente, onde tínhamos uma casa-abrigo e uma traineira por nossa conta, a velha Barca do Joaquim Zé. Ainda fizemos nela uma épica viagem de Sesimbra a Sines, em Maio de 1972, com regresso no dia seguinte: 6 horas contra a nortada, com as nossas entranhas a quererem abandonar-nos o corpo! Nem coragem tivemos para despir os fatos de borracha...!

Porto de abrigo de Sesimbra, Agosto
de 1972 - Erguer a voz e cantar...
9 de Agosto de 1972 foi o dia do meu mergulho mais profundo, ao largo de Sesimbra: 65 metros de profundidade. Senti-me um Cousteau ou um Hans Hass...! O mundo do silêncio revelou-se-me também o mundo das trevas eternas; a luz abandonou-nos quase completamente por volta dos 40 metros, seguindo-se uma penumbra cada vez mais densa e misteriosa. Tocámos por fim o fundo, de uma vasa mole e escorregadia, evidenciando os efeitos da pressão já razoável: quase 8 vezes mais do que à superfície.
Mas, para além das maravilhas do mundo submarino que em cada mergulho se nos patenteavam ... mais uma vez não faltavam, nunca, as horas de convívio, de sã camaradagem, de cânticos cantados no velho "Tic" ou nas escadas do porto de abrigo, enquanto os compressores enchiam as garrafas para as novas "aventuras" que nos esperavam no dia seguinte.

Março de 1972 - Gruta nova, Chãos,
Alcobertas (Sª de Candeeiros)
Mas o Mergulho não fez esmorecer a Espeleologia e os acampamentos. Que será feito daquela boa gente que nos recebeu em Chãos, na Serra de Candeeiros, em Março de 1972 ... durante 11 dias?! O café do lugar foi logo baptizado: "Café cá do sítio"...! O neto do dono do café … até participou connosco na exploração das grutas. As grutas de Alcobertas são as maiores, mas muitas mais grutas e algares ali explorámos ao longo daqueles dias; algar das Cancelinhas, lapa do vale da lagoa, algar da Chouza do Luís, algar da Ortinha, são nomes que nunca mais me saíram da memória. Num esplendoroso dia em que subimos ao cruzeiro e marco geodésico, via-se toda a costa, de Peniche à Figueira da Foz, as Berlengas, a Lagoa de Óbidos, S. Martinho do Porto, a Nazaré, tudo em redor.
Chãos, Março de 1972: à porta do...
"Café cá do sítio"...
Destes 11 dias em Chãos também recordo ... quando levámos 6 horas para fazer o almoço...! Ambicionando um pitéu mais sofisticado, resolvemos que a ementa seriam batatas fritas com "lanche" ("lanche" era uma carne enlatada típica nos anos 70 do século passado...). Fomos comprar óleo, juntámos lenha, acendemos a fogueira, pendurámos a panela por cima com o óleo, mas ... há sempre um mas...: a lenha estava molhada, tentámos avivar o lume com pedras de carbureto dos gasómetros ... e 6 horas depois estávamos a comer batatas cozidas ... em óleo...J!

Em Junho de 1972 voltámos ao Alviela. Recordo-me de um dia em que regressámos às tendas quase à meia noite, depois de mais uma exploração nas grutas do Amiais. Mas a noite estava uma maravilha, convidativa a um passeio nocturno. E assim, sob um céu repleto de estrelas, ao luar, cantando velhos cânticos, subimos e descemos encostas, atravessámos pinhais, ouvindo o rio que corre ligeiro mais abaixo, a música da Natureza. Às duas e meia da manhã estávamos de novo nas tendas.

Em Julho de 1972 acampámos, eu e mais dois, nos pinhais junto à Praia de Santa Cruz (fotografia no artigo de apresentação). E, no mês seguinte ... que dizer da semana vivida no Campo de Trabalho da Godinha, perto de Campo Maior, na apanha do tomate? Para lá fui a pé e à boleia. 6 boleias, incluindo um táxi, um tractor ... e uma carroça! Saído de Lisboa às 7 da manhã ... às 10 da noite ainda estava em Elvas ... e a noite foi debaixo de uma oliveira, num terreno lavrado, com as estrelas por tecto. Às 6 e meia da manhã do dia seguinte, 14 de Agosto, o Sol já há algum tempo havia lançado os seus primeiros raios. A minha 84ª noite de campo ... foi a primeira noite completamente ao relento.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
Depois ... depois foi uma das melhores semanas da minha vida, nos meus quase 19 anos! Tratava-se de um Campo de Trabalho para jovens, onde o "tema" principal ... era a apanha do tomate. Mas aqueles dias foram uma experiência ímpar de solidariedade, de vivências, de camaradagem entre todos os rapazes e raparigas que ali estiveram. A imensidão dos campos da Godinha, o trabalho nas plantações, debaixo de um Sol ardente e um céu sempre azul, a convivência com a gente do monte e no grupo, proporcionaram-me recordações que jamais esquecerei. No grupo de jovens havia alguns timorenses, ensinando-nos canções da sua terra distante. Um deles, viria mais tarde a ser conhecido nacional e internacionalmente: D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
O trabalho na Godinha era remunerado, claro. Lembro-me que ganhei o suficiente ... para no último dia me instalar confortavelmente numa Pensão em Elvas, ir ao cinema ... e regressar de autocarro a Lisboa. Mais um fascículo d'"A Fauna", do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente, foi a leitura que ocupou o regresso a casa. Ao chegar, já tudo me parecia um sonho: os campos a perder de vista, a noite ao relento, Elvas, a apanha do tomate ... mas principalmente o que trazia de vivência e de enriquecimento interior.

Poucos dias depois da Godinha, percorri com meus pais todas as ilhas dos Açores, de Santa Maria ao Corvo. E m
enos de 2 meses depois ... o "meu" Liceu Passos Manuel tinha passado à história. Sem dúvida por influência do Ribau, iniciei em Outubro de 1972 a minha Licenciatura em Biologia. A velhinha Faculdade de Ciências, ainda na Rua da Escola Politécnica, recebia-me para os 5 anos académicos seguintes.

Mas, para fechar este ciclo, Novembro e Dezembro de 72 foram de novo dois "meses loucos": voltámos por três vezes a Chãos e à boa gente que tão bem nos havia recebido em Março, para novas explorações nas grutas de Alcobertas e alguns algares próximos. No fim de Novembro ... mais um fim de semana de mergulho, em Sesimbra. E, nos últimos dias do ano, de 27 a 30 de Dezembro, uma actividade ao largo de Setúbal, Tróia e Arrábida, no 1º Encontro Nacional de Mergulhadores Juvenis, fechou estes dois intensos anos ... aos quais na altura me referia muitas vezes como os melhores anos da minha vida!
13 de Janeiro de 2011

terça-feira, 10 de agosto de 1971

Os "anos loucos" (1): 1970 / 71

O rapaz pacato da nossa apresentação … começou em forçaJ! Entre Novembro de 1970 – quando se iniciou na Espeleologia – e Dezembro de 1972 … participou em 15 acampamentos, 17 actividades espeleológicas, 9 actividades de mergulho, um campo de trabalho … e cumpriu, só nesses dois anos, o melhor de 49 noites de campo. Pelo meio deste périplo, em 1971 atravessou a África austral num VW "carocha", naquela que viria a ser a viagem com seus pais de que mais recordações guarda; essa viagem virá a ser objecto, por si só, de um próximo post.
Na Espeleologia, a Serra d'Aire era o destino mais frequente – principalmente a zona de Zambujal de Alcaria e Alvados – com muitas saídas de campo realizadas também na zona de Alcobertas, na vizinha Serra de Candeeiros, nas nascentes do Alviela, na Serra de Montejunto, na Arrábida e na região de Alvaiázere, entre outras. As tendas não eram como as actuais, tinham o pano de chão separado do resto, de tal modo que, quando chovia … as botas muitas vezes acordavam a boiar. O grupo tinha material próprio, desde as escadas de cabo de aço, para a descida aos algares, aos gasómetros a carbureto, cordas para rapel, etc.

Que será feito da D.ª Meireles e do velho "Café da Bica", em Zambujal de Alcaria, Serra d'Aire? Na minha primeira "missão" à serra d'Aire – 14 e 15 de Novembro de 1970 – dormi, como os outros, no palheiro a que chamávamos a Casa Abrigo do Centro Nacional Juvenil de Espeleologia. Começámos a subir a serra antes das 7 horas, ainda de noite. Percorremos uns km pelos píncaros e pelas 8 começou a nascer o Sol! Sem frio, com o grande cenário das serranias a perder de vista, o Sol elevava-se sobre o horizonte e nós caminhávamos entre vales e serra, sobre estreitos e tortuosos atalhos, ao som do velho hino:

Minhas botas, velhas, cardadas,
palmilhando léguas sem fim,
quanto mais velhinhas e estragadas
quanto mais vigor sinto em mim

Às 8 e meia estávamos à entrada da Gruta da Moração, ou seja … um pequeno e apertado buraco entre dois rochedos. Mas, passado um estreito túnel, deparou-se-nos uma ampla sala … e um mundo completamente diferente!
Dessa vez, como de outras, foi debaixo de chuva torrencial que fizemos o caminho de volta a Alcaria. O "Café da Bica" era sempre o ponto de encontro. Desfeitas as "camas" no palheiro e arrumado o material … a velha camioneta de carga que nos tinha levado trouxe-nos de volta a Lisboa, seguida de perto pela VW do Ribau, com ele e as filhas. Um mês depois, seria a minha primeira vez nessa histórica "pão de forma", no regresso de uma saída ao Fojo dos Morcegos, na Arrábida.
Estou-me a lembrar também de uma noite na Serra d'Aire, em Dezembro de 1970. Tínhamos explorado o Covão da Pousada e a Lapa do Cabeço do Roubo … hoje Grutas de Alvados. Pelas 5 da tarde iniciáramos a descida para Alvados, para depois, na estrada de Alcaria para Mira d'Aire, subirmos o quilómetro e meio que nos separava da tenda, onde chegámos já quase noite. Acendemos a fogueira com mato seco e jantámos. O frio começou a fazer-se sentir, mas a habitual serenata aqueceu um pouco o ambiente … até às 4 ou 5 da manhã … quando vimos que não estávamos a sonhar: o termómetro que costumávamos levar … marcava 4 graus negativos dentro da tenda! Os 3 cobertores que cada um levara pareciam-nos feitos de papel … e se calhar eram mesmo, quem sabe…! Mas pelas 9 da manhã, com o Sol já a brilhar, a higiene matinal foi feita num poço ali próximo, à falta de melhores meios. Estou a ver a cara dos ocupantes de um automóvel que passou, deveras espantados ante a imagem de quatro "indígenas" em tronco nu, lavando-se alegremente num poço…!
Acampamento nas nascentes do
Alviela, 16.01.1971

Acampamentos à chuva eram "mato"...! 17 de Janeiro de 1971, 3h da manhã, Olhos d'Água do Alviela: alguém acorda com a "fachada" molhada…! Qual fonte de água cristalina, uma biqueira escorria do pano da tenda para cima das nossas "fronhas". Não tardou que acordássemos todos, com o barulho de uma real carga de água que caía sobre a tenda … e já também sobre nós; o pano do chão já tinha muitas "piscinas"…! Dois sacos de plástico enfiados pela cabeça e aí vamos, eu e outro, esticar as espias da tenda. Encharcados, deitámo-nos de novo … e creio que conseguimos dormir até de manhã.

A primeira semana das férias da Páscoa de 1971 ... foi também uma semana chuvosa, passada na região de Almoster, próximo de Alvaiázere. Pelo sim pelo não, montámos duas tendas ... uma por cima da outra! A muita chuva originou pouca Espeleologia ... mas uma semana deu para conhecermos a população da aldeia ... incluindo as duas simpáticas moçoilas que trabalhavam no posto dos correios… J! Lembro-me que em Almoster nos indicaram a existência de uns algares no sítio de Pousaflores, a uns 10 km do acampamento. E lá fomos...! Não demos com os algares, mas Pousaflores ofereceu-nos uma das imagens mais belas de quantas havíamos visto: no alto de um monte de onde se avistava tudo em redor, cinco moinhos de vento alinhados em fila, perfeitamente integrados na Natureza agreste, meio destruídos pelo tempo e pelo abandono, davam um ar de magia àquele local. Entrámos num deles, deixámo-nos levar pela imaginação e pelo sonho. O vento assobiava por entre as madeiras carcomidas, a prometer chuva. Para ali nos deixámos ficar algum tempo, sentindo velas brancas aparecerem por milagre nas pás destruídas e levando-nos em direcção às núvens, avistando toda a maravilha que a Natureza semeou. O fascínio do local foi tal que tínhamos já praticamente decidido passar a noite no interior de um dos moinhos ... e só não o fizemos porque de repente, vindo do nada, vimos aproximar-se do local um Mercedes preto que parecia vir buscar alguém! Era o pai de um dos do grupo, que tinha ido ter connosco ao acampamento e que, de pergunta em pergunta, tinha conseguido encontrar-nos. Assim, fizemos os 10 km de regresso à tenda ... de Mercedes!
Foi também durante este acampamento que, no dia 3 de Abril de 1971, vimos a Tonicha e a sua "Menina do Alto da Serra" ficarem em 9º lugar no Festival da Eurovisão ... visto na TV do Retiro dos Caçadores de Almoster. No dia seguinte, cantámos nós a canção do adeus àquela boa gente; mas ... "não é um adeus, irmãos, é só um até breve"!
Acampamento na Berlenga, Agosto 1971
E um acampamento nas Berlengas, em Agosto de 1971 ... que começou por uma noite numa horta, em Amoreira de Óbidos...? Saídos de Lisboa quase às 7 da tarde, levados eu e outro por um colega do meu pai até perto de Óbidos, o objectivo era ir depois à boleia daí até Peniche ... só que não houve boleias. Armámos a tenda numa horta, dormimos como pedras ... e no dia seguinte preparámo-nos para continuar a "peregrinação". 8 km depois - faltavam outros 8... - resolvemos contudo fazer alto numa paragem de camioneta ... que chegou 2 horas depois ... e que por 5$00 e em 10 minutos nos pôs em Peniche, engalanada para as festas da Virgem do Mar.
Esta semana nas Berlengas foi memorável. Naquela ilha paradisíaca, vivemos e cantámos a nossa juventude. Aos dois atrás referidos, juntaram-se outros dois em Peniche e, já no velho "Cabo Avelar Pessoa", verificámos que tínhamos a bordo mergulhadores nossos conhecidos, do Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador ... no qual me inscreveria 2 meses depois.
10 de Janeiro de 2011

domingo, 1 de novembro de 1970

À guisa de apresentação

Um blog tem sempre um começo. O meu … começou há mais de 40 anos… J. Não havia internet, não havia GPSs, a televisão tinha só um canal … mas havia Natureza, havia montanhas, mares, florestas, havia sede de viver! Então com 17 anos, em 1970 um rapaz urbano e pacato começou a descobrir a sua vocação: o contacto com a Natureza, com os grandes espaços naturais, com o mundo rural ... o desbravar das fragas espalhadas por muitos "paraísos perdidos", pelos quais a vida o levaria a apaixonar-se.
Até aí, o rapaz pacato já tinha percorrido toda a Europa de automóvel, do Cabo da Roca ao Cabo Norte, ao fim da Escócia, a Moscovo e a Istambul, e também Marrocos, como "aperitivo" africano. Nessas viagens com seus pais, o que mais recorda são precisamente os grandes espaços, as highlands escocesas, as verdejantes colinas da Irlanda, os fiordes nórdicos ou as grandes paisagens alpinas. O apelo da Natureza…
Espeleologia na Serra de Aire: regresso
da "Missão Proteus", 15.11.1970
No longínquo ano de 1968/69 e nos dois seguintes, o rapaz da nossa história teve um professor que o influenciou para toda a vida. Havia, no então Liceu Passos Manuel, um Núcleo de Espeleologia que aquele professor dinamizava, ligado ao Centro Nacional Juvenil de Espeleologia. E a vida do rapaz mudou…! A vida ao ar livre, os acampamentos, o são convívio, a exploração de grutas e algares, as longas caminhadas, passaram a ser o modo de estar na vida daquele rapaz pacato … que mais tarde veio a ser também ele professor … das Ciências da Vida … levando os seus alunos a aprenderem a amar e a respeitar a Natureza, percorrendo com eles os vales e as fragas de quase toda a Península Ibérica e das ilhas atlânticas.
Hoje, o rapaz de há 40 anos recorda a sede de viver que o levou a inscrever-se também, em 1971, no Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador, onde o contacto com a Natureza tomou outro rumo: o mundo submarino. Estava agora no reino do silêncio, no habitat natural dos peixes, dos ouriços e das medusas, sobrevoando as folhas largas das laminárias; apenas as bolhas gasosas se libertavam do regulador e o ligavam à superfície, ao mundo dos homens.
Em pouco mais de 2 anos, aumentou em 10 vezes as noites de campo que tinha nos seus parcos 17 anos. Num verdadeiro ambiente de sã camaradagem, viveu com o seu grupo experiências inesquecíveis. Percorreu serras e vales, planícies e rios, dormindo em palheiros, ao relento, no fundo de grutas por vezes inundadas de lama, entre caixotes no porão de traineiras, ou em tendas armadas no alto de serras ou no meio de matas luxuriantes, por vezes sob um céu repleto de estrelas, em silêncio ou ao som de velhas baladas. Aqueles anos da sua juventude foram realmente intensamente vividos! A aventura das noites passadas no campo, dentro da tenda, ouvindo o cantar das águas de um riacho, o restolhar de algum animal assustado, o estalido da lenha na fogueira que ficou morta mas renasceu! As aventuras nas entranhas da Terra, entre estalactites e estalagmites, rodeados de formas fantasmagóricas mas reais! E outra vez aquelas caminhadas a pé, serra acima! Agora já não há Sol, há chuva, há nevoeiro, mas que importa? O que interessa é continuar para a frente, por vezes encharcados até aos ossos, mas felizes, porque se dirigiam para a meta que lhes havia sido reservada: a Vida!
Acampamento nos pinhais de Santa Cruz,
16.07.1972 (o rapaz pacato é o do meio...)
Hoje … o rapaz pacato de há 40 anos tem filhos e netos! Mas o apelo da Natureza guiou-o sempre … e a Vida tem-lhe proporcionado chegar a múltiplos "paraísos". A montanha, o verde, a água, os sons do silêncio, as cores e os cheiros da Natureza, o vento, o frio, o calor, a escuridão da madrugada que vai dar lugar ao Sol, a magia dos bosques, os blocos de granito imponentes, as folhas das árvores ou dos fetos … são os seus companheiros nos "paraísos perdidos" por onde deambula … envoltos numa música celestial, quase sempre a música tradicional dos paraísos que o recebem. Vivendo e amando a Natureza em geral, ao longo destes 40 anos o rapaz, nascido e criado na grande cidade, elegeu contudo três "paraísos", que adoptou como as suas "terras natais": a raia Sabugalense, que viu nascer aquela que foi e é a sua companheira de uma vida, o Parque Nacional da Peneda-Gerês e as montanhas e vales de Somiedo, no coração do paraíso asturiano.

Voltando à primeira pessoa: aqui fica o meu muito obrigado ao meu velho professor de Ciências Naturais, Dr. Hernâni de Seabra Ribau! Por ironia do destino, cheguei a ter uma Volkswagen "pão-de-forma" idêntica à que ele tinha, na qual fizemos algumas das nossas "expedições". A imagem dessa velha VW atravessando serras e vales nunca me desapareceu da memória. Enquanto tive a minha ... nela transportei igualmente alguns dos meus alunos, alguns dos que comigo aprenderam a amar a Natureza, a conviverem, a serem felizes!
O repositório de instantâneos que será este blog é dedicado à memória do Dr. Ribau … e o blog nasce no dia em que se comemoram os 100 Anos do Passos Manuel! Reencontrei hoje velhos companheiros de "aventuras" que não via, nalguns casos, há mais de 40 anos! O blog começará precisamente por ser um arquivo de rabiscos retirados do pó de velhos "Diários" … pelo menos até que essas memórias cheguem à actualidade … se chegarem… J
Escrito em 9 de Janeiro de 2011