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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Rio Côa (3): da Quinta das Vinhas à Ribeira do Boi

Em Novembro e Dezembro de 2010, o rumo foi de novo Vale de Espinho e as terras raianas ... para mais uma etapa da descida pedestre do Côa! Em Julho tinha ficado na Quinta das Vinhas ... pelo que no dia 2
Da Quinta das Vinhas para o Côa, 2.11.2010
de Novembro lá estava, às 7 e meia da manhã, com 5,5ºC de temperatura. O carro ficaria junto à capelinha até à tarde. O vale do Côa estava ainda envolto nas neblinas e mistérios outonais.
O vale do Côa "perdido" na neblina e nas cores outonais
No emaranhado da vegetação ribeirinha, recomeçam os vestígios de épocas perdidas no tempo, no jogo da água e da pedra contado e cantado pelo correr do Côa.
Velhas açudes, águas de Outono (entre a Quinta das Vinhas e Rendo), 2.11.2010
Em direcção a Rocamador, o Côa volta a correr ao longo de autênticos paraísos ribeirinhos, como junto à velha Quinta dos Moinhos, ainda parcialmente activa, onde as ovelhas olhavam aquele estranho visitante.
O Côa na Quinta dos Moinhos, Rocamador, 2.11.2010
Da Quinta dos Moinhos ao cerro da Senhora das Preces é um pulo. Dois velhos castanheiros seculares guardam a capela e espalhavam os ouriços pelo chão, precisamente naquela altura de castanha. Depois volto a descer para o rio e para a Quinta de Rocamador.
Senhora das Preces, Rocamador, 2.11.2010
Acompanho agora sempre a margem esquerda do Côa. A Ribeira do Moinho Fernandes obriga-me a subir um pouco o seu curso, para a atravessar. "Navegando" agora sempre para norte, chego ao pontão e à Quinta do Perilhão, deixando para trás as pedras que testemunham a grande quantidade de moinhos que aqui existiam, alguns ainda com restos da respectiva maquinaria. Entro na casa grande da Quinta do Perilhão ... entro na nostalgia das velhas paredes ... e até dos velhos jornais ... de há 60 anos!
2.11.2010,
Quinta do Perilhão
Memórias perdidas ...
... há 60 anos!
Da Quinta do Perilhão à Rapoula do Côa é um salto, com as ruínas do Moinho do Morgado no caminho. E a praia fluvial de Rapoula do Côa, junto ao recuperado Moinho do Giestal ... é um paraíso à beira rio!
Rapoula do Côa: praia fluvial, 2.11.2010
Rapoula do Côa: praia fluvial e Moinho do Giestal
Rapoula do Côa: praia fluvial e Moinho do Giestal
Rapoula do Côa: praia fluvial, 2.11.2010
Ainda na Rapoula, pouco antes da ponte rodoviária, o Moinho das Poldras transpirava ainda a vida que a moleira Cesaltina lhe deu ao longo de décadas ... até há menos de um ano, na altura. Uma das últimas, se não a última moleira do concelho do Sabugal!
Moinho das Poldras, rapoula do Côa, 2.11.2010
Aqui viveu a moleira Cesaltina até menos de um ano antes
Junto à Rapoula do Côa, passando à margem direita, era obrigatório subir à Senhora das Preces ... a mesma de Rocamador ... mas merecendo aqui uma capela de maiores dimensões e um ponto altaneiro de maiores panorâmicas. Depois, rumo à praia fluvial de Vale das Éguas, passo o Moinho da Telhada e os Moinhos das Pisquerias, o primeiro deles recuperado e transformado em bela casa de habitação.
Senhora das Preces, Rapoula do Côa, 2.11.2010
Moinho da Telhada, a caminho da Ínsua de Vale das Éguas
E chego ao parque e praia fluvial da Ínsua, Vale das Éguas. Outro belo e aprazível recanto do Côa, bem adaptado e preparado para os picnics e convívios ribeirinhos. E, naquele dia de início de Novembro ... é ali que faço a inflecção ... porque o carro estava na Quinta das Vinhas. A jornada prosseguiria em Dezembro... 
Parque e praia fluvial da Ínsua, Vale das Éguas, 2.11.2010
E 2010 estava a terminar. A 27 de Dezembro, Vale de Espinho e o Côa recebem-me de novo. As águas invernais correm da Fonte Moira,  pelo Vale da Maria,  pelos meus campos  e  lameiros,  que  corro  num
Águas invernais
gélido dia em que a temperatura não passou de uns escassos 3ºC.
Dois dias depois, quase no fim do ano e de novo num dia bastante frio e a ameaçar chuva, a descida pedestre do Côa avançou uma muito curta etapa de pouco mais de 2 km "úteis", da Ínsua à foz da Ribeira do Boi, afluente da margem esquerda do Côa antes das povoações de Seixo e Valongo do Côa. E se em Novembro cheguei à Ínsua pela margem direita, em Dezembro fi-lo pela margem esquerda, a partir das renovadas Termas do Cró e pelo chamado Cerro da Pena. Atravessado o rio, o troço a norte da Ínsua revelou-se-me igualmente de grande beleza, particularmente entre o Moinho do Martins e o Moinho da Fraga, até à Ribeira do Boi.
Perto do Moinho da Fraga, entre a Ínsua e a foz da Ribeira do Boi, 29.12.2010
Picoto do Seixo, 811m
Para voltar ao carro ... não houve outro remédio se não voltar à Ínsua, para regressar à margem esquerda.
Mas, ao fundo, o Picoto do Seixo chamava-me, altaneiro. E o apelo venceu: pouco antes do meio dia estava no geodésico do Picoto do Seixo. Como nuns "contos de fragas e pragas", eu dominava o vale do Côa, com as povoações de Seixo do Côa e Valongo do Côa de ambos os lados do "meu" "Rio Sagrado". Mas os céus daqueles "contos de fragas e pragas" estavam cada vez mais cinzentos ... e o bater em retirada foi no sítio certo e à hora certa: pouco depois de regressar ao carro, desabou uma fortíssima chuvada, acompanhada de forte trovoada.
Menos de meia hora depois estava em Vale de Espinho.
Picoto do Seixo, 29.12.2010
Vinha lá forte chuvada ... pelo que houve que bater em retirada!
Clique para ver o álbum completo
"Contos de fragas e pragas"...   Picoto do Seixo, 29.12.2010

Entretanto, com a minha "família" Caminheira, em 13 de Novembro tinha estado nas terras alentejanas de Pias. E, em 18 de Dezembro, o ano de 2010 terminara em terras da Lamarosa, Coruche, em caminhada natalícia. "Por fragas e pragas" ... estávamos a chegar ao ano da graça de 2011!

*
*    *

Com este artigo ... completam-se 40 anos de recordações! A "etapa" descrita da descida pedestre do Côa, no dia 2 de Novembro ... fi-la exactamente 40 anos e 1 dia depois da minha "estreia" na Espeleologia, no longínquo dia 1 de Novembro de 1970, nas grutas de Bolhos, Lourinhã! Trinta anos antes do século XXI...! Quarenta anos antes de, "Por fragas e pragas..." ... entrarmos no ano de 2011...! O passado está-se a cruzar com o presente, as recordações cruzam-se agora com as vivências da actualidade. O "Por fragas e pragas..." ... também se vai assim modificar... J! Mais pormenores no próximo post... J
22 de Setembro de 2011

quarta-feira, 7 de fevereiro de 1996

"Raízes" de novo grupo de alunos ... na Tapada de Mafra e Serra d'Aire

Depois do périplo britânico, o Outono/Inverno de 1995/96 não foi muito rico em "aventuras": apenas três fins de semana autocaravanísticos, em Monte Gordo, em Setembro, em Tomar, em Novembro ... e em Santa Cruz, no Carnaval de 1996.
Mas o ano lectivo de 1995/96 trouxe-me de novo o contacto com alunos do 7º Ano de Escolaridade. Há anos que leccionava apenas secundário (10º ao 12º), mas em boa hora me surgiram estas duas turmas de mais jovenzinhos. Alguns ... foram meus alunos do 7º ao 12º ano! Muitos ... viveram várias "aventuras" comigo, da Tapada de Mafra ao Gerês, à Cordilheira Cantábrica, à Madeira e aos Açores! Como tantos outros grupos anteriores ... deixaram saudades!


É assim que, a 13 de Dezembro de 1995, regresso à Tapada de Mafra. Foi a primeira saída de campo das minhas duas turmas de 7º ano. Ante os olhos esbugalhados de quem nunca tinha visto nada de semelhante, logo se proporcionou ser uma das vezes em que vimos maior quantidade de gamos, javalis, e até veados! Menos de dois meses depois, em 7 de Fevereiro de 96, a Serra d'Aire e as Grutas de Mira de Aire complementaram a primeira abordagem de campo de uma "maltinha" que, salvo raríssimas excepções, nunca tinha saído de Sacavém, Catujal, Camarate...
Aquele dia 7 de Fevereiro foi um dia chuvoso ... não impedindo mesmo assim uma caminhada de cerca de 7 km, em que conduzi estes jovens pelos trilhos palmilhados 25 anos antes, descendo das grutas de Alvados ao vale de Alvados, até Zambujal de Alcaria. Era verdade: o "meu" velho Café da Bica ainda lá estava! Contei aos meus jovens pupilos algumas das "aventuras" vividas nos meus velhos tempos da Espeleologia. Como esses tempos estavam já longe no tempo! Como o dia estava chuvoso ... contei-lhes por exemplo o meu gélido fim de semana acampado naquela serra ... em Dezembro do longínquo ano de 1970.


Esta abordagem na Tapada de Mafra e na Serra de Aire criou realmente raízes que viriam a frutificar nos anos seguintes. Logo no 1º período do 8º ano ... a maioria destes alunos estavam comigo no Gerês! Mas antes ... havia uma "aventura açoreana" para viver com os que, no secundário, tinham ido já ao Alvão, a Montesinho, a Mérida e aos Pirenéus!
26 de Março de 2011

sábado, 23 de outubro de 1976

Os anos revolucionários (2): 1975 / 76

A "descoberta" do Gerês, no "verão quente" de 1975, acentuou definitivamente a revolução que me transformaria no amante da montanha, das serras e dos vales, das florestas. Não, não tinha ainda carro, nem carta de condução, que os magros salários não davam para esses luxos. Por isso ... até as idas a Vale de Espinho eram de comboio ou de autocarro ... ou as duas coisas. Em Agosto de 1975, grande parte das férias lá foi de novo na aldeia arraiana que já começava a ser minha. O Freixial era sempre o ponto de convívio, de brincadeiras, dos banhos nas águas gélidas mas límpidas do Côa. Mas as "minhas botas, velhas, cardadas" já começavam também a palmilhar as "léguas sem fim" da Serra da Malcata. Contemplei pela primeira vez Vale de Espinho do Cabeço da Pelada, subi ao Cabeço da Moura, à raia de Espanha ... e extasiei-me ante a imponência das panorâmicas a perder de vista! Lá ao fundo, para sul, o cabeço de Monsanto destacava-se; a oeste e sudoeste,  a Estrela e a Gardunha altaneiras;  a nascente,  as  serranias
Acampamento nas nascentes do
Alviela, 12 de Setembro de 1975
de onde vem descendo o Côa ... cuja nascente só me seria revelada muitos anos mais tarde.
Mas ... a Espeleologia tinha deixado raízes ... e saudades! Na continuação dos trabalhos para a cadeira de Ecologia, porque não levar o Dr. Magalhães e os colegas que quisessem alinhar ... aos Olhos de Água do Alviela? O fim de semana de 12 a 14 de Setembro de 1975 foi o primeiro de vários ali passados, acampados junto ou dentro da gruta dos Amiais, em trabalhos de recenseamento das populações de morcegos ali existentes.
17 de Junho de 1976 -
a caminho da Serra da Nogueira
Já em Junho de 1976, levei-os também às grutas de Leceia. E voltámos à Tapada de Mafra ... no regresso da qual passámos uma memorável noite de Santo António em casa do Dr. Magalhães!

17 a 19 de Junho de 1976: também pela mão do Dr. Carlos Magalhães, conheço outra importante área natural de montanha, a Serra da Nogueira, lá nas terras de Trás-os-Montes. Ficámos todos alojados na Casa Florestal da Nogueira, participando e acompanhando trabalhos de recenseamento de lobos e de cervídeos, mas também num mais uma vez excepcional ambiente de convívio e camaradagem.
Na Casa Florestal da Nogueira,
18 de Junho de 1976
Nos carvalhais da Nogueira,
18 de Junho de 1976
Casa da Nogueira, 18 de Junho de 1976 - uma cria de lobo cuja mãe havia sido abatida
A viagem Bragança - Lisboa, feita numa velha Portaro dos Serviços Florestais ... foi uma aventura. Mas, mesmo assim ... "desviámos" a Portaro: a família Magalhães foi conhecer Vale de Espinho!

E as cadeiras do curso de Biologia iam avançando; no verão de 1976, estávamos a completar o 4º ano ... e
17.07.1976 - Nos salgados de Corroios, com o Professor
Fernando Catarino
a precisar de férias...J! 1ª semana de Agosto: uma semana acampados no Portinho da Arrábida! Depois ... Santa Cruz e o regresso às Berlengas!
13.08.1976 - Praia de Santa Rita, ruínas do
antigo mosteiro de Penafirme
No dia 13 fizemos uma jornada a pé  ao  longo  das arribas, de Santa Cruz à praia da Corva, a norte de
Porto Novo.
13.08.1976 - Praia de Porto Novo
















E na 3ª semana voltámos a acampar no paraíso das Berlengas, com 3 amigos feitos ainda no velho "Cabo Avelar Pessoa".
No paraíso da Berlenga, 18 de Agosto de 1976
Acampamento na Berlenga

Em Setembro/Outubro de 1976 ... nova "revolução"! Como todas as revoluções, implicava uma decisão: ia fazer  o  final  do curso  de Biologia com Formação Científica ou  Educacional ?  A chama da Espeleologia
Acampamento junto às grutas de Assafora, Sintra,
2 de Outubro de 1976
estava ainda acesa e os trabalhos com morcegos tinham-na reactivado.
Colónia de morcegos nas grutas do
Amiais, Alviela, 23 de Outubro de 1976


Com o objectivo de uma possível especialização científica na ecologia e comportamento daqueles nossos parentes cavernícolas, em Outubro de 1976 acampámos nas grutas de Assafora, Sintra, e, dois fins de semana depois, de novo nas minhas velhas conhecidas nascentes do Alviela. Ainda comecei, aliás, um estágio científico no Instituto de Medicina Tropical, precisamente sobre parasitologia em Quirópteros.

Mas outra chama tinha estado também sempre latente: porque não ... tornar-me um Ribau? Cativar os jovens para as Ciências da Vida, para os grandes espaços naturais que eu aprendera a amar? A paixão pela docência começou a fermentar ... e viria a ocupar-me ao longo de 3 décadas!
26 de Janeiro de 2011

sábado, 19 de julho de 1975

Os anos revolucionários (1): 1974 / 75

30 de Março de 1974: as primeiras fragas da "nova vida" foram na Arrábida ... com a família Ribau. Tinha combinado com eles e outros da Espeleologia participar numa actividade que incluía o treino inicial de novos espeleólogos. Outros iam começar a vida fabulosa que eu tinha começado 3 anos e meio antes! Acampámos na mata sobre o fojo dos morcegos, onde descemos no dia seguinte. O céu estrelado que se via por entre as clareiras transportava-nos em silêncio para um universo sem tempo. E de novo vieram os cânticos, a convivência ... mas também o amor.
Quando o grupo voltou a Lisboa - na velha VW do Ribau - nós dois seguimos a pé para o Portinho, onde acampámos em plena praia; tínhamos acabado o 1º semestre do 2º ano da nossa Licenciatura em Biologia. Quis o destino que só voltasse a ver o meu ex-professor Ribau 5 anos depois; e a filha Ana Maria, que viveu com o grupo em que eu estava tantas "aventuras" espeleológicas ... 37 anos mais tarde!
Nestes três dias acampados na Arrábida, apenas pensávamos em nós mesmos. Passeávamos pela areia, íamos até à pequena mercearia comprar leite e pão, vestíamos a nossa "farda" submarina, explorávamos a costa rochosa, íamos até à Pedra da Anicha. De regresso, mochila às costas e alegria na alma, fomos a pé do Portinho ao Outão, para apanhar o autocarro ... mas também uma valente carga de água...J!
Acampamento no Portinho da Arrábida, 31 de Março de 1974

Em Abril de 1974 - poucos dias antes da Revolução - voltámos  a  Vale de Espinho ... no  novo  "estatuto"
Vale de Espinho, 16 de Abril de 1974
de recém-casados...J! Era o início de um desbravar da "minha" Malcata, das águas do Côa, dos convívios e patuscadas à beira-rio; eram as terras e as gentes que eu estava a começar a adoptar.
A 25 de Abril de 1974, assistimos com o resto do País e do mundo à queda do Estado Novo. Seguem-se os anos revolucionários, revolu-cionários a todos os níveis, incluindo na Faculdade de Ciências e na nossa Licenciatura em Biologia, como em todas as outras.
Mas o ano de 1974 também teve outro rótulo: casados desde Dezembro, ambos precisávamos tanto "de amor e de sossego" ... mas também "preciso dum emprego"...J! Em Agosto de 1974 ... arranjaram-me um emprego! Empregado no Arquivo de Identificação de Lisboa, desde Agosto de 1974 ... encontrávamos contudo sempre tempo para os acampamentos na Arrábida, para as idas a Vale de Espinho ... tempo para viver e conviver.
Entretanto, o espectro da guerra colonial dissipava-se com a revolução. Com sucessivos adiamentos de incorporação, devido à frequência da licenciatura, quando 3 anos depois a terminei passei directamente à reserva territorial. O serviço militar não fez parte, portanto, das minhas vivências.
Portinho da Arrábida, 4 de Agosto de 1974
25 de Agosto de 1974 - Acampamento no Parque de Campismo do Guincho
Os anos conturbados de 1974 a 76 marcaram também uma certa viragem nas minhas e agora nossas "aventuras". Já não mergulhava desde Abril de 73, a não ser pequenas "explorações" em apneia. Mas a viragem também operada na estrutura do Curso de Biologia, trouxe-me uma cadeira de Oceanografia Biológica ... e trouxe-me a possibilidade de voltar a mergulhar, desta vez "pela mão" do saudoso professor Luís Saldanha. Em Maio de 1975, acampei e mergulhei com ele e com os colegas daquela cadeira.
11.05.1975 - Mergulho ao largo de Tróia                                                                      28.05.1975 - Lagos, preparativos de mergulho
Contudo, o "verão quente" de 1975 parecia estar a operar uma certa "revolução" também em mim: o apelo do mar estava a diminuir ... na mesma proporção em que aumentava o apelo do campo, das florestas, da serra. Afinal ... não tinha eu começado as minhas "aventuras" em terra...J? Não voltei a mergulhar com garrafa, desde Maio de 1975. E a "revolução" foi tão grande que, nas cadeiras opcionais do curso, à citada
Tapada de Mafra, 19 de Julho de 1975
Oceanografia Biológica seguiu-se ... a Dinâmica dos Ecossistemas Terrestres. Dois espectaculares fins de semana passados na Tapada de Mafra, em Junho e Julho de 1975, em trabalhos práticos para a cadeira de Ecologia Geral, terão contribuído também para esta viragem. Obrigado Dr. Carlos Magalhães! Passámos esses fins de semana com ele, a família e os colegas da cadeira, instalados na Pousada Real, percorrendo quase toda a Tapada, a pé e de jeep. Ele e a família ainda hoje são felizmente grandes amigos! Que maravilhosas recordações do convívio entre todos, dos trabalhos de campo, das contagens de roedores, da procura dos dejectos de cervídeos ... e da noite em que julgámos ouvir o ronco de um javali ... confundindo-o com o ressonar de um colega que adormeceu...J!
Poucos dias depois ... iria começar a apaixonar-me pela segunda das minhas actuais "terras natais".
25 de Janeiro de 2011

sábado, 30 de dezembro de 1972

Os "anos loucos" (2): 1971 / 72

Regressado da "aventura" africana, em 1971 as aulas no Passos Manuel começaram um pouco mais tarde ... pelo que os primeiros dias de Outubro foram no Portinho da Arrábida, depois de atravessarmos a serra a pé, desde Azeitão, passando pelo cume do Formosinho. E em Novembro, à Espeleologia, aos acampamentos, às caminhadas ... juntei o Mergulho Amador!
Porto de abrigo de Sesimbra,
Abril de 1972
No mergulho fiz novos amigos. Aí convivi também bastantes vezes, aí adquiri novas e ricas experiências. Às sessões de piscina do curso, seguiram-se as sessões de mar, em Sesimbra ... e em 21 de Novembro de 1971 tornei-me Mergulhador Amador diplomado. Mas ainda me lembro da minha primeira sessão de mar: fui o 4º a saltar, um salto no desconhecido; lá em baixo, via os outros agarrados à corda da âncora, os monitores descendo ao nosso lado. A 20 metros já não se via a superfície. Bastava-me agora uma ligeira movimentação do corpo para nadar noutra direcção e descobrir mais maravilhas.
O destino era quase sempre o litoral da Arrábida, Sesimbra particularmente, onde tínhamos uma casa-abrigo e uma traineira por nossa conta, a velha Barca do Joaquim Zé. Ainda fizemos nela uma épica viagem de Sesimbra a Sines, em Maio de 1972, com regresso no dia seguinte: 6 horas contra a nortada, com as nossas entranhas a quererem abandonar-nos o corpo! Nem coragem tivemos para despir os fatos de borracha...!

Porto de abrigo de Sesimbra, Agosto
de 1972 - Erguer a voz e cantar...
9 de Agosto de 1972 foi o dia do meu mergulho mais profundo, ao largo de Sesimbra: 65 metros de profundidade. Senti-me um Cousteau ou um Hans Hass...! O mundo do silêncio revelou-se-me também o mundo das trevas eternas; a luz abandonou-nos quase completamente por volta dos 40 metros, seguindo-se uma penumbra cada vez mais densa e misteriosa. Tocámos por fim o fundo, de uma vasa mole e escorregadia, evidenciando os efeitos da pressão já razoável: quase 8 vezes mais do que à superfície.
Mas, para além das maravilhas do mundo submarino que em cada mergulho se nos patenteavam ... mais uma vez não faltavam, nunca, as horas de convívio, de sã camaradagem, de cânticos cantados no velho "Tic" ou nas escadas do porto de abrigo, enquanto os compressores enchiam as garrafas para as novas "aventuras" que nos esperavam no dia seguinte.

Março de 1972 - Gruta nova, Chãos,
Alcobertas (Sª de Candeeiros)
Mas o Mergulho não fez esmorecer a Espeleologia e os acampamentos. Que será feito daquela boa gente que nos recebeu em Chãos, na Serra de Candeeiros, em Março de 1972 ... durante 11 dias?! O café do lugar foi logo baptizado: "Café cá do sítio"...! O neto do dono do café … até participou connosco na exploração das grutas. As grutas de Alcobertas são as maiores, mas muitas mais grutas e algares ali explorámos ao longo daqueles dias; algar das Cancelinhas, lapa do vale da lagoa, algar da Chouza do Luís, algar da Ortinha, são nomes que nunca mais me saíram da memória. Num esplendoroso dia em que subimos ao cruzeiro e marco geodésico, via-se toda a costa, de Peniche à Figueira da Foz, as Berlengas, a Lagoa de Óbidos, S. Martinho do Porto, a Nazaré, tudo em redor.
Chãos, Março de 1972: à porta do...
"Café cá do sítio"...
Destes 11 dias em Chãos também recordo ... quando levámos 6 horas para fazer o almoço...! Ambicionando um pitéu mais sofisticado, resolvemos que a ementa seriam batatas fritas com "lanche" ("lanche" era uma carne enlatada típica nos anos 70 do século passado...). Fomos comprar óleo, juntámos lenha, acendemos a fogueira, pendurámos a panela por cima com o óleo, mas ... há sempre um mas...: a lenha estava molhada, tentámos avivar o lume com pedras de carbureto dos gasómetros ... e 6 horas depois estávamos a comer batatas cozidas ... em óleo...J!

Em Junho de 1972 voltámos ao Alviela. Recordo-me de um dia em que regressámos às tendas quase à meia noite, depois de mais uma exploração nas grutas do Amiais. Mas a noite estava uma maravilha, convidativa a um passeio nocturno. E assim, sob um céu repleto de estrelas, ao luar, cantando velhos cânticos, subimos e descemos encostas, atravessámos pinhais, ouvindo o rio que corre ligeiro mais abaixo, a música da Natureza. Às duas e meia da manhã estávamos de novo nas tendas.

Em Julho de 1972 acampámos, eu e mais dois, nos pinhais junto à Praia de Santa Cruz (fotografia no artigo de apresentação). E, no mês seguinte ... que dizer da semana vivida no Campo de Trabalho da Godinha, perto de Campo Maior, na apanha do tomate? Para lá fui a pé e à boleia. 6 boleias, incluindo um táxi, um tractor ... e uma carroça! Saído de Lisboa às 7 da manhã ... às 10 da noite ainda estava em Elvas ... e a noite foi debaixo de uma oliveira, num terreno lavrado, com as estrelas por tecto. Às 6 e meia da manhã do dia seguinte, 14 de Agosto, o Sol já há algum tempo havia lançado os seus primeiros raios. A minha 84ª noite de campo ... foi a primeira noite completamente ao relento.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
Depois ... depois foi uma das melhores semanas da minha vida, nos meus quase 19 anos! Tratava-se de um Campo de Trabalho para jovens, onde o "tema" principal ... era a apanha do tomate. Mas aqueles dias foram uma experiência ímpar de solidariedade, de vivências, de camaradagem entre todos os rapazes e raparigas que ali estiveram. A imensidão dos campos da Godinha, o trabalho nas plantações, debaixo de um Sol ardente e um céu sempre azul, a convivência com a gente do monte e no grupo, proporcionaram-me recordações que jamais esquecerei. No grupo de jovens havia alguns timorenses, ensinando-nos canções da sua terra distante. Um deles, viria mais tarde a ser conhecido nacional e internacionalmente: D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
O trabalho na Godinha era remunerado, claro. Lembro-me que ganhei o suficiente ... para no último dia me instalar confortavelmente numa Pensão em Elvas, ir ao cinema ... e regressar de autocarro a Lisboa. Mais um fascículo d'"A Fauna", do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente, foi a leitura que ocupou o regresso a casa. Ao chegar, já tudo me parecia um sonho: os campos a perder de vista, a noite ao relento, Elvas, a apanha do tomate ... mas principalmente o que trazia de vivência e de enriquecimento interior.

Poucos dias depois da Godinha, percorri com meus pais todas as ilhas dos Açores, de Santa Maria ao Corvo. E m
enos de 2 meses depois ... o "meu" Liceu Passos Manuel tinha passado à história. Sem dúvida por influência do Ribau, iniciei em Outubro de 1972 a minha Licenciatura em Biologia. A velhinha Faculdade de Ciências, ainda na Rua da Escola Politécnica, recebia-me para os 5 anos académicos seguintes.

Mas, para fechar este ciclo, Novembro e Dezembro de 72 foram de novo dois "meses loucos": voltámos por três vezes a Chãos e à boa gente que tão bem nos havia recebido em Março, para novas explorações nas grutas de Alcobertas e alguns algares próximos. No fim de Novembro ... mais um fim de semana de mergulho, em Sesimbra. E, nos últimos dias do ano, de 27 a 30 de Dezembro, uma actividade ao largo de Setúbal, Tróia e Arrábida, no 1º Encontro Nacional de Mergulhadores Juvenis, fechou estes dois intensos anos ... aos quais na altura me referia muitas vezes como os melhores anos da minha vida!
13 de Janeiro de 2011