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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Quarenta anos por fragas e pragas... (1970 - 2010)


Ninguém pode construir por ti as pontes que vais precisar de passar para atravessares o rio da vida. Ninguém, excepto tu, só tu. Existe certamente um sem número de atalhos e de pontes, semideuses que se oferecerão para te levar para além do rio, mas isso custar-te-ia a essência de ti próprio: hipotecavas-te e perdias-te. No mundo só existe um único caminho, por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, segue-o!
Friedrich Nietzsche

O blogue "Por fragas e pragas..." nasceu no dia 9 de Janeiro deste "ano da graça" de 2011, quando das comemorações do centenário do velho Liceu Passos Manuel. Em 9 MESES e nos 147 ARTIGOS publicados, recordei e revivi 40 anos de "aventuras" ... de fragas e de pragas, de 1970 a 2010. A corrida das memórias atingiu assim a meta do ano corrente! O "rapaz pacato" que iniciou esta viagem é hoje quase sexagenário ... mas mantém a paixão e a garra que cada vez mais o inspira e alimenta. Nos "paraísos perdidos" das suas serras e rios, nas suas três "terras natais", o nosso jovem, agora avô, continua a subir velhas bredas, a beber a água divina das fontes, a sentir a energia telúrica de escarpas e barrocos, a descer torrentes e ribeiras, a pulular de som e de vida … saltando as fragas. Quem sabe se as águas que hoje vê ainda são as mesmas que já viu antes ... as mesmas que ainda espera vir a ver.
Se for possível alguma metáfora, poderei arriscar que a "Fraga" que o Sebastião Antunes canta - nos "Contos de Fragas e Pragas" que inspiraram o título do blogue - é o "barroco sagrado" das minhas Fontes Lares, a Brazalite da "aldeia mágica" de Pitões das Júnias, a Peña Furada de Valle de Lago, nas "terras mágicas" de Somiedo ... ou tantas outras. As "lendas perdidas do pó das pedras" ou os "contos aprendidos à lareira quase apagada" ... são as memórias eternizadas na pedra da velha casa das Fontes Lares, são contos de amores e desalentos, são as lendas perdidas da Marvana, da esbelta "Rosa da Montanha", das cabanas perdidas nos currais do Gerês, das xanas e nuberus que se escondem na ramagem dos bosques de Somiedo, histórias de brañas e vaqueiros, de homens e de luta. As águas que brilham à luz da "Lua branca das ribeiras" ... são as águas do meu Côa, do alto Homem e das corgas do Gerês, do Pigueña e das torrentes de Somiedo ... e de tantas outras. À medida que escrevo e que sonho, no meio do silêncio ... estou a escutá-las...

E como "No canto de cada sonho nasce a vontade" ... este blogue vai continuar, agora acompanhando o presente. Os 40 anos aqui revividos ... foram a génese do que o "rapaz pacato" é hoje, pai, marido, avô ... mas apaixonado como sempre pelos paraísos perdidos que teima em desbravar. A acompanhá-lo ... a mesma companheira de sempre. Não necessariamente em todas as "aventuras", mas na grande maioria, e, principalmente ... na grande aventura da vida. Obrigado, companheira!
Enquanto tiver vida e forças ... é a caminhar que quero mostrar a mim próprio quem sou e o que sou. Há quem defenda que caminhar solitariamente é um risco. Tudo na vida é um risco...! Há que saber doseá-los. A tecnologia permite hoje que ninguém se perca em sítio nenhum do planeta, desde que se saiba usar os meios que aquela põe ao nosso alcance. Apesar de um bom sentido de orientação, não me meteria em várias das "aventuras" em que actualmente me meto sem recorrer ao GPS, que contudo é um simples PDA com o meu fiel OziExplorer instalado. Cartas pormenorizadas e georreferenciadas (e/ou imagem Google Earth), bateria(s) suplementar(es) consoante a duração da "aventura" ... e a progressão no terreno é acompanhada no aparelho, segundo a segundo, metro a metro. E não há imprevistos? Claro que há ... mas a vida é um imprevisto e um risco permanente, em qualquer lugar, em qualquer momento.

Pegando nos "Diários" de Miguel Torga ... ouso identificar-me com alguns dos seus escritos. Ouso até adaptar o primeiro dos pensamentos que transcrevo:
Pareço um doido a correr estas serras, estes rios e estes vales. Do Gerês à Malcata, do Côa ao Homem, das terras de riba-Côa às terras de Somiedo, não tenho sossego. "Talvez, sem eu ter consciência disso, cultivo-me assim pelos olhos e pelos pés, no alfabetismo íntimo das cousas, expressivas na sua luz, no seu clima e no seu paralelo particular. A terra não é igual em lado nenhum. Aqui encolhe-se, ali espalma-se, acolá afunda-se...
Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como a broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem, antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele."
O presente post é simultaneamente o último ... e o primeiro de um novo blogue, ou melhor, do rejuvenescimento que assinala o seu cruzamento com a actualidade. Depois, o "novo" blogue contará as "aventuras" já vividas este ano. Ao contrário dos anteriores, retrospectivos, os respectivos artigos foram escritos na altura ... só não foram publicados. Se o fossem, misturar-se-iam com os anteriores, confundindo a sequência cronológica. Foram por isso guardados, à espera que as fragas do passado chegassem às fragas do presente. Vão agora conhecer a luz do dia, pausadamente, mas com a data das "aventuras" a que reportam e/ou em que foram escritos.
E como " a vida é feita de pequenos nadas " ... as coincidências e as fragas da vida fizeram com que um blogue, nascido no dia de um almoço que reuniu gente do meu velho Liceu Passos Manuel, onde fui aluno … acabe curiosamente, na sua parte retrospectiva ... no dia de um jantar que vai reunir mais de meia centena de ex-alunos meus, que viveram comigo tantas e tantas "aventuras" partilhadas em conjunto!
O "velho" blogue, que reviveu 40 anos de "aventuras", claro que se vai manter online, mas termina portanto com este post, dando lugar ao "novo", ao blogue das fragas e pragas do presente. Os 40 anos de fragas e pragas ultrapassaram as 15 mil leituras! A todos os que tiveram a paciência de me acompanhar ... bem hajam! Continuem a acompanhar-me no novo endereço http://porfragasepragas.blogspot.com/. Primeiro as fragas já vividas em 2011 ... e depois "em directo"... J!

   "Fraga", "Contos de Fragas e Pragas", Sebastião Antunes, "Quadrilha", 1992

23 de Setembro de 2011

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Romagem" às minas das Sombras
e nas alturas do Altar de Cabrões, Sobreiro e Carris

Dia 20 de Outubro era o dia da "peregrinação" às Minas das Sombras (onde iria pela primeira vez) e aos Carris. Seria uma espécie de homenagem à saga do volfrâmio. Mas a "peregrinação" seria também ao mítico Altar de Cabrões e aos Picos do Sobreiro e dos Carris, já que quando estive na Nevosa não tive tempo de passar o Curral de Marabaixo, que os separa.  Assim,  às  7:30h  da  manhã  (hora portuguesa),
Subida da Carballiña, Xurés, 20.10.2010, 9:15h
com Lobios ainda adormecida na noite, parti para uma caminhada solitária de mais de 11 horas na serra. A minha cara-metade, excelente caminheira de distâncias mas menos "trepadora", preferiu o dia de descanso aos 1100 metros de desnível que teria de subir e voltar a descer. Lobios fica a 410m de altitude; o Pico do Sobreiro, ponto mais alto a atingir … fica a 1538 metros. Como não gosto de caminhadas em que a ida e o regresso são pelo mesmo percurso, saí de Lobios por Ogos e Saa, percorrendo a zona que também tinha sido afectada por um pequeno incêndio em Agosto … circunscrito e extinto num dia…! Quase logo a seguir a Saa saí para a pista das Sombras, começando desde logo a subir bem. Aos 780m de altitude cruza-se o rio de Lobios, para pouco depois chegarmos a um pequeno bosque com panorâmicas magníficas de NW a SW. Duas horas depois da partida estava aos 1000 metros de altitude e com 7,7 km percorridos, no local conhecido como o Niño da Galiña, que marca a entrada na encosta do vale das Sombras, escavado pelo rio de Vilameá, ao longo do qual à tarde desceria para a aldeia do mesmo nome. Encontrei aí o primeiro de dois jeeps de vigilantes do Parque Natural, simpatiquíssimos; assim houvesse efectiva vigilância no Gerês português…! A partir do Niño da Galiña seguiram-se mais de 4 km praticamente planos, entre os 1000 e os 1060m de altitude, sempre sobre o vale do rio de Vilameá. Deu para acelerar por vezes para os 8 km/h … e para ganhar forças e balanço para o "ataque" à subida para as Sombras e para as alturas do Gerês/Xurés. Às 10:15h tinha 12 km feitos e estava junto à cancela do antigo estradão para as Minas das Sombras, com a muralha quase vertical do Pión de Paredes à minha esquerda, a parede oposta da Chan da Vella e o Fitoiro à direita … e o resto do vale das Sombras para subir, à minha frente. Da cancela às Minas não chega a 1,5 km de estradão, vencendo nele cerca de 220m de desnível. Com 3 horas certas de caminhada desde Lobios, as ruínas das Minas das Sombras começaram a surgir, iluminadas pelos raios do astro rei que começa, finalmente, a sobressair das alturas do Pión de Paredes e dos Cabrós. O momento é quase mágico, como talvez as fotografias ilustrem um pouco.
E o Sol vai começar a iluminar as Sombras! 20.10.2010, 10:35h
Memórias que o tempo não esquece...     Minas das Sombras, 20.10.2010
O complexo das Minas das Sombras é bem mais pequeno que o dos Carris. Mesmo assim, as edificações, velhas máquinas, carris, tudo parece estar ali perdido no tempo, perdido na corrosão e no envolvimento vegetal … ou então de repente ganhando vida,  imaginando a labuta  dos homens que ali  ganharam o  seu
Interior da mina
pão e sustento, que ali deixaram o suor de um trabalho duro e desgastante. No interior das galerias abandonadas, a água corre agora célere por onde dantes corriam os vagões e o minério; lá dentro, perde-se a noção do tempo e do espaço, tudo é negritude e mistério.
Cumprida a "peregrinação" nas Minas das Sombras, o desafio era agora subir directamente ao Altar dos Cabrós (Altar de Cabrões). À minha frente estava uma parede dominada por toneladas de cascalho grosso e solto, salpicada aqui e ali por rocha nua e algum mato. Havia que passar dos 1220 para os 1490m de altitude. Nenhum vestígio de carreiro, quando muito aqui e ali, muito espaçados, possíveis vestígios de mariolas que nem sei se o eram. E, acima já das Minas das Sombras, ainda havia que contornar uma longa e profunda fenda rochosa, possivelmente vestígio de velhas galerias desabadas pelo abandono e pelo tempo.  Não direi que
Subida do Pión de Paredes para o Altar de Cabrões, 20.10.2010
a subida não foi penosa, mas as panorâmicas e a constante sensação de desafio recompensavam largamente o esforço. Nos meus tempos de escola, quando se aprendiam as serras, os rios e até as linhas de combóio, ensinava-se que o Altar de Cabrões era o ponto mais alto da Serra do Gerês. No entanto, conforme qualquer carta mostra, o Altar de Cabrões nem é o ponto mais alto … nem é em Portugal. Situado a pouco mais de 300 metros em linha recta da linha de fronteira, o Altar de Cabrós é portanto ainda na Galiza, e os seus 1490m de altitude são 58 metros mais abaixo dos 1548m do Pico da Nevosa, esse sim o ponto mais alto do Gerês e de todo o norte de Portugal. O Altar de Cabrões é no entanto um local mítico e mágico, convidativo à meditação e à contemplação, à entrega aos deuses do céu e da Terra, à aceitação da energia telúrica que dele emana e, em dias esplendorosos de Sol, da energia retemperadora do astro-rei. Sem me dar conta, estive mais de uma hora naquele ponto mítico, onde há muito queria ir. A hora aconselhava algum reforço alimentar; melhor local não podia haver.
Altar de Cabrões (Altar de Cabrós), 1490m alt., Xurés, 20.10.2010: a entrega aos deuses do céu e da Terra!
Fronteira luso-galaica, no Pico do Sobreiro, 1538m alt., 20.10.2010
À minha frente, ligeiramente a nordeste, o Curral de Marabaixo separava-me da Nevosa, imponente e destacada, a Nevosa que me havia acolhido quando da travessia de Lapela a Pitões das Júnias; um pouco mais à direita, percebe-se o início da Garganta das Negras. Para sul, os Picos do Sobreiro e dos Carris (ambos acima dos 1500m) não deixam ver ainda as Minas nem a represa dos Carris, escondendo também parte do vale da Amoreira. A sudoeste percebe-se o início do vale do Alto Homem, o Outeiro da Meda, o Alto da Amoreira. E a oeste e noroeste … o vale das Sombras, de onde havia subido. Que êxtase, que catarse purificadora, que entrega. Ali, imerso na luz do Sol e na imensidão da serra, da rocha, do verde, da água, do som do silêncio, ali esquecem-se problemas, ali sentimo-nos pequenos e insignificantes, ali entregamo-nos apenas à imponência das panorâmicas, à grandiosidade e à força da Natureza.
O Altar de Cabrões e os Picos do Sobreiro e dos Carris sucedem-se numa "espinha dorsal" disposta no sentido NW/SE, a pouca distância uns dos outros. O Sobreiro é o mais alto dos três, a 1538m de altitude, exactamente na linha de fronteira. À uma e meia da tarde entrava portanto em Portugal. A fronteira luso-galega segue para SW, mas a cumeada acompanha uma outra fronteira, entre os distritos de Vila Real e de Braga, entre terras transmontanas e minhotas. Entre o Sobreiro e o Pico dos Carris … eis que nos surge repentinamente a Lagoa dos Carris, a represa sobre o vale da Ribeira das Negras.
E de repente ... surge a Lagoa dos Carris!   20.10.2010
A leste, a Nevosa (1548m alt.), o ponto mais alto do Gerês e de todo o norte de Portugal, 20.10.2010
À medida que a Nevosa vai ficando para norte … eis que surge no horizonte a aldeia "mágica" de Pitões das Júnias, de onde havíamos saído na véspera. Um pouco mais à esquerda, os Cornos da Fonte Fria, ainda na véspera vistos da face norte; entre mim e Pitões, os Cornos de Candela, a sul dos quais ainda em Junho tinha conduzido os Caminheiros na travessia de Pitões à Portela do Homem.
14:10h: Pico dos Carris, 1508m de altitude. Estou agora sobre a represa dos Carris e sobre todo o complexo mineiro do mesmo nome, já meu bem conhecido de anteriores "expedições". Da última vez, tinha-o atingido vindo de Lapela, pelo Castanheiro, Ribeira das Negras e subindo o Salto do Lobo. Agora, como que me sentia a sobrevoar aquelas ruínas, 60 metros acima delas e do início do velho estradão que desce o vale do Alto Homem, que ainda em Junho havia descido com os Caminheiros. Para sul, as Lamas de Homem e a zona das Abrótegas e das Águas Chocas permitem adivinhar as águas do jovem rio Homem. Mas desta vez … havia que regressar ao vale das Sombras. Exactamente com metade do percurso previsto feito (cerca de 16,5 km), a encosta do Pico dos Carris para o vale da Amoreira marcou o início do regresso. E, lá em baixo, corre a Corga dos Salgueiros da Amoreira, primeiro afluente da margem direita do Homem. É para lá que me dirijo, seguindo agora de novo para noroeste.
Minas dos Carris, do Pico dos Carris: mais memórias perdidas no tempo...    20.10.2010
Regresso ao vale das Sombras ... agora ao Sol de Outono    20.10.2010
Às três e pouco de uma tarde radiosa atravesso de novo a fronteira, regressando a terras galegas … e preparando-me para uma descida vertiginosa que me levaria de novo às Minas das Sombras. Muitas vezes as descidas são bem mais penosas que subir, mas o desnível do percurso escolhido é bem menor do que de manhã … além de que aqui há carreiro feito. Agora nas poucas horas em que o Sol ilumina o vale, as cores do Outono pintam à minha frente uma aguarela de sonho, enquanto atravesso um frondoso carvalhal ao longo da encosta entre o Rio da Amoreira e o Pico do Sobreiro. Precisamente quando admiro as cores e a espectacularidade do vale, recebo um telefonema de um amigo de longa data; "se aqui estivesses extasiavas-te como eu", foi só o que consegui dizer ... mas menos de um ano depois ele estaria lá comigo e com os Caminheiros Gaspar Correia!

Poesia de cores outonais, vale das Sombras, 20.10.2010
Antes das 4 da tarde passo de novo nas Minas das Sombras e desço rapidamente o estradão até à cancela onde passara 6 horas antes. A partir daí, o percurso ia ser de novo diferente do da manhã, descendo o velho trilho que conheceu os passos de tantos e tantos homens que labutavam nas minas e subiam e desciam o vale do Rio de Vilameá, ou vale das Sombras.  6,2 km  de  descida  foram percorridos
Rio de Vilameá, Vale das Sombras, 20.10.2010
em pouco mais de uma hora, mas as numerosas cascatas e piscinas naturais do Rio de Vilameá não foram por isso menos apreciadas, embora maioritariamente mergulhadas já de novo nas Sombras das apertadas encostas que, de um e outro lado, escondem o vale. A Ponte de Porta Paredes cruza o rio para a margem esquerda, já a 710m de altitude, e o trilho continua sempre a descer para Vilameá, a aldeia que deu o nome ao rio. Pouco antes, um ligeiro desvio à esquerda permite ver a Ermida de Nosa Señora do Xurés.
Seis da tarde, Vilameá, 28,3 km percorridos. Faltava … uma das partes mais penosas da jornada ... 4,2 km de alcatrão, até Lobios e ao "nosso" Hotel Lusitano, pela estrada proveniente da Portela do Homem. Esses pouco mais de 4 km pareceram-me intermináveis, mas lá foram percorridos em pouco mais de 40 minutos. O telefonema de um outro grande amigo de longa data ajudou a amenizá-los. À chegada a Lobios, a minha "sócia" estava fresquinha que nem uma alface, com um dia de completo descanso em que praticamente não saiu do Hotel... J.


No dia seguinte, 21 de Outubro, era o regresso. Situando-se Lobios a cerca de 15 km do Lindoso, por estrada, o Lindoso teria de marcar forçosamente o términus deste nosso périplo por terras do Gerês luso-galaico. Mas claro que por estrada seria desagradável, embora o estudo das alternativas indicasse que muitos troços teriam mesmo de o ser. Assim, 15 minutos antes das 10 da manhã de 5ª feira, estávamo-nos a despedir das simpáticas senhoras do Hotel Lusitano e a partir, de novo os dois, de mochilas carregadas às costas. Durante menos de 1 km retrocedemos o percurso feito a solo na véspera, para logo inflectir para caminhos secundários e carreiros, sempre com a Serra de Santa Eufémia como pano de fundo. Rial e Barreal são duas pequenas aldeias atravessadas, um cruzeiro a seguir a esta última abençoava a nossa despedida. Com rumo nitidamente a oeste, começámos a descer para o vale do Lima, mas acompanhando também o vale do Rio Caldo, que nele desagua. O Rio Caldo é o que vem das alturas da Portela do Homem e que deu origem aos famosos Baños de Río Caldo, piscinas naturais de águas quentes.
Rial, ainda próximo de Lobios, 21.10.2010
Entre Manín e o vale do alto Lima, em quase fim de jornada, 21.10.2010
Uma hora de caminho e chegámos à estrada marginal do Lima, mas apenas para atravessar a ponte na foz do Rio Caldo. Logo a seguir, voltámos a sair em direcção a Manín, por uma estradinha secundária que na aldeia passou a caminho de pé feito. Manín é uma típica aldeia serrana na base da Serra de Santa Eufémia … onde vimos um único habitante. A Ermida de Santa Eufémia saudou-nos à saída. Estávamos apenas a 510m de altitude, mas os meandros da barragem do Alto Lima estão à nossa frente e, para poente, avista-se já a Louriça e percebe-se o Lindoso. Pouco depois do meio dia, com 8 km percorridos, regressamos à estrada principal, agora sem grandes alternativas. O almoço foi junto à ponte que, atravessando o Lima, conduz à galega Entrimo e à nossa Castro Laboreiro, pela fronteira da Ameixoeira.


5 km depois passávamos a fronteira da Madalena, deixando assim terras galegas e entrando no concelho de Ponte da Barca. Mais 1,5 km e estávamos no viaduto da foz do Rio Cabril. Depois das fotografias vistas em Agosto, tiradas deste viaduto, e da imagem da Serra Amarela, agora negra, que se me tinha deparado na 2ª feira anterior … estava com medo do que ia ver ao longo do vale do Rio Cabril. A minha previsão mais terrífica não se concretizou contudo, felizmente, percebendo-se mesmo assim a encosta negra para os lados da Cruz do Touro e das Ruivas; imaginei como estaria a zona do Ramisquedo e a encosta sul, virada à barragem de Vilarinho das Furnas...
Depois de uma pausa na fonte próxima do cruzamento do Muro (o estradão que sobe à Louriça), às 15:45h e com 17,3 km percorridos chegámos ao Lindoso … muito a tempo do suposto autocarro das 16:15h para Ponte da Barca. Eis-nos, portanto, no "Café Vilarinho", perguntando descontraidamente onde é a paragem do autocarro. Resposta: "é ali … mas hoje já não há carreira"!!! Como é isso, foi a própria empresa Salvador a informar o horário! Bem, telefonema para a empresa, passagem do telefonema para o "chefe" … e lá vem uma resposta: "pedimos desculpa, foi um lapso, houve uma alteração de horário"; "então e como se resolve?", pergunto eu! "Bem, vão de táxi para Ponte da Barca e envie-nos a factura". E assim ... pouco depois estávamos em Ponte da Barca ... e no dia seguinte estávamos a apanhar o Expresso para Lisboa. Rapidamente as serras ficaram para trás...

Esta não foi a travessia em autonomia que havia idealizado, mas foi uma nova e bem interessante experiência, que me e nos levou a vários locais onde ainda não tínhamos estado nas terras mágicas do Gerês. Em todos os aspectos … aqueles 5 dias (3 de caminhada) purificaram-nos o corpo e a alma. Mas como ambicionava e ambiciono percorrer ainda muitos mais locais naquelas terras mágicas (e noutras…), as "peregrinações" seguintes não tardaram muito ... quando a duração das horas de luz e o clima primaveril permitiram a "sonhada" autonomia. A Serra, o Monte, a Natureza, sempre foi e é cada vez mais o meu modo de estar na vida! Enquanto puder … é a caminhar que quero mostrar a mim próprio quem sou e o que sou. No Gerês, em Somiedo, na Malcata – as minhas três "terras natais"... – mas também em qualquer outro lugar onde haja verde, água, montanha, céu, onde haja o som do silêncio, os sons e os cheiros da Natureza, mas também das terras e gentes que nelas labutaram e labutam, que nelas deixaram as suas tradições, a sua cultura, a sua poesia, a sua música tradicional.

Álbum de fotos completo neste link

19/09/2011

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pitões das Júnias - Salgueiro - Lobios
Travessia do Gerês luso - galaico

Como tenho tentado contar através deste blogue, a minha paixão pelas terras "mágicas" do Gerês já vem de há quase 40 anos! Depois da "descoberta", pela mão do saudoso Prof. Carlos Almaça, levei eu durante anos, já como professor, largas centenas de alunos a conhecerem aquelas serras, terras e gentes, de Tourém a Castro Laboreiro. Em Março de 1989, fiz pela primeira vez a travessia Pitões das Júnias – Fonte Fria – Carris – Portela do Homem – Caldas do Gerês, acompanhado de um grupo de 12 alunos e um
Pitões das Júnias, 19.10.2010, 8:30 h, 4ºC
outro professor e grande amigo. Tanto antes como depois dessa "histórica" travessia, perdi a conta às minhas deambulações pelo Gerês, com alunos, em família, sozinho, ou com os Caminheiros a que em boa hora entretanto me associei. Sem que para isso haja grande explicação, afeiçoei-me sempre mais às zonas centro e leste do Parque Nacional, particularmente à Serra do Gerês.
Apesar dos périplos atrás referidos, muitas zonas havia e há ainda para conhecer e descobrir naquelas terras mágicas. Há algum tempo que tinha começado por isso a congeminar uma travessia mais ou menos em autonomia, passando precisamente por algumas dessas zonas que ainda queria conhecer. Já tinha subido por duas vezes ao Borrageiro, a partir da Teixeira e do Camalhão, mas nunca tinha percorrido as Sombrosas ou o vale do Conho, por exemplo; e outras zonas, claro. Assim, "desenhei" um projecto e lancei um desafio a alguns amigos, sabendo contudo de antemão que não seria  fácil  arranjar acompanhantes,  já  que  o projecto implicaria uns  5  dias  e  a maioria  dos amigos com
"estaleca" para o fazer não estão reformados como eu…! Por outro lado, não seria nunca possível marcar uma data específica para concretizar o projecto, já que o mesmo dependeria essencialmente das previsões meteorológicas. Jamais me passaria pela cabeça a inconsciência de me meter e meter alguém numa "aventura" … com o objectivo de "passear" de helicóptero e de aparecer nas televisões…! A data de concretização do projecto … seria portanto a primeira em que a meteorologia garantisse pelo menos 5 dias seguidos de tempo seco e pouco nublado. O FreeMeteo é uma das muitas "bíblias" que hoje permitem que só se vá para a serra em dias de temporal e chuva forte … se se for completamente inconsciente.
Vai começar a "aventura"...   19.10.2010
Até meados de Outubro de 2010, apesar de reformado, os dias livres na minha agenda não coincidiram com bom tempo. Estando na disposição de avançar mesmo que eventualmente sozinho, a minha "sócia" e possível acompanhante ergueu contudo a "bandeira" das temperaturas que começavam a descer, dos dias que começavam a ter poucas horas de luz, das dificuldades daí resultantes para a eventual passagem de uma ou mais noites na serra. E ditou, assim, duas "leis": "proibia-me" de ir sozinho, mas dispunha-se a acompanhar-me … desde que ficássemos "debaixo de telha". Bem, como as "leis" são para se cumprir … estudei as alternativas que o permitissem. Por exemplo, já tinha estado na Nevosa … mas nunca tinha subido ao Altar de Cabrões; já tinha estado nos Carris, vindo de Pitões ou de Lapela … mas não conhecia as Minas das Sombras, as "irmãs" galegas dos Carris; do lado galego, há muito queria conhecer o carvalhal da Barxa e a aldeia abandonada de Salgueiro. E assim, pegando nestes elementos, foi-se desenhando uma travessia entre Pitões das Júnias e Lobios, maioritariamente portanto pelo Xurés galego, que permitiria cumprir a "lei" de dormir "debaixo de telha" e de, a partir de Lobios, "conquistar" as alturas das Sombras e dos picos fronteiriços. Isto sabendo de antemão que esta jornada de ida e volta, a partir de Lobios, seria relativamente dura: cerca de 33 km … e mais de 1100 metros de desnível a vencer!
Ao fundo a barragem de Paradela, rumo à raia, 19.10.2010
Num projecto deste género (bem como no inicialmente delineado), o carro seria um estorvo. Deixávamo-lo em Pitões? E depois? Não tenho telecomando para o teletransportar para Lobios... J! Mas de Lobios ao Lindoso são apenas 15 km, que com uma ou outra variante pela base da Serra de Santa Eufémia … dariam para uma terceira caminhada. Assim, havia portanto que chegar a Pitões das Júnias … e que regressar a partir do Lindoso. O passo seguinte era fácil: estudar as empresas e os horários dos autocarros. Entretanto a meteorologia apontou para uma semana entre 18 e 22 de Outubro com céu limpo praticamente em todo o país … nomeadamente nas terras "mágicas" do Gerês. As condições estavam reunidas ... para uma "modalidade" de viajar que, adoptada aos quase 60 anos, convenhamos que não será muito usual... J! Nalguns troços pedestres em que necessariamente tivemos de ir ao longo de estradas … até gostava de saber o que terá passado pela cabeça de quem se deparava com a imagem de dois "peregrinos" quase sexagenários, estrada fora, de mochilas às costas (a minha bem grande…), um deles careca e a outra de cabelos brancos...
E assim, na 2ª feira 18 de Outubro de 2010, pouco antes das dez da manhã, estávamos a sair de casa a pé, de mochilas às costas, despedindo-nos ainda da nora e netas … com estas últimas muito admiradas com o "filme" que estavam a ver... J! O primeiro dia foi rumo a Braga e depois a Montalegre. Na viagem Braga / Montalegre tive um choque: só pode ter sido por autodefesa … mas não me lembrei que ia ver a Serra Amarela... Além do choque resultante de não me ter lembrado que ia ver a imagem que vi … a imagem que vi era pura e simplesmente dantesca! Em momento algum da minha muita indignação daquele verão imaginei que o cenário era aquele! E obviamente … só vi uma parte. Ainda pensei puxar rapidamente da câmara … mas não quis reter ainda mais aquele cenário. Toda a Serra Amarela … era uma Serra Negra! Mas negra de carvão! Toda a zona adjacente ao S. Bento da Porta Aberta; toda a encosta a oeste da barragem da Caniçada, portanto a zona da Junceda e da Calcedónia, com o Pé de Cabril ao fundo, único morro que sobressai do inferno negro abaixo dele; toda a encosta oeste do vale do Rio Gerês e até parte da encosta leste (portanto já Serra do Gerês), todo esse cenário era dantesco … e a acrescentar ao cenário duas grossas colunas de fumo soltavam-se da meia encosta; acredito que fossem queimadas controladas … mas não sei. Felizmente o autocarro passou a mostrar a Serra do Gerês, a Amarela agora negra ficou para trás … mas a imagem ficou gravada. As alturas das Rocas Alva e Negra, as barragens do Cávado e o planalto da Mourela lá ao fundo, para onde íamos naquele dia esplendoroso, conseguiram-me consolar um pouco. E depois de Salamonde o autocarro passou a ser quase que exclusivamente de transporte de escolas … pelo que o motorista resolveu pôr o Dartacão a passar no vídeo de bordo... J!
Às 18:15h estávamos em Montalegre ... e uma taxista levou-nos rapidamente à aldeia "mágica" de Pitões
Prosseguimos no Xurés galego, 19.10.2010
das Júnias! Em Pitões, as minhas "velhas" amigas Marias já nos esperavam. A "Casa do Preto" e a Srª Maria (mãe) são o nosso poiso em Pitões desde a primeira vez que lá fomos, há mais de 30 anos. Quantos serões passados à sua velha lareira, com grupos de alunos que ficavam aos 4 e aos 5 em cada um dos poucos e pequenos quartos que então ela alugava; a Srª Maria (filha) conhecemo-la desde jovem e a Sandra (neta) … quase desde que nasceu! Num dia de semana e em época já baixa … é claro que fomos os únicos hóspedes … mas a bela posta de vitela barrosã claro que não podia faltar … até porque precisávamos de energias para a caminhada do dia seguinte.
E no dia seguinte, 19 de Outubro, sete horas e pouco, ainda noite, estávamos a pé. Temperatura exterior … 4ºC; já está fresquinho…! Higiene, arrumações, mochilas carregadas com toda a "tralha" necessária. O padeiro vinha às 7:45h, as Sr.as Marias serviram-nos o habitual pequeno-almoço, trocamos impressões sobre as caminhadas que vamos fazer ... e às 8:30h estávamos a partir a pé, rumo a norte, à Portela de Pitões, por caminho meu bem conhecido, já que este troço inicial é o mesmo que segue para as alturas da Brazalite e da Fonte Fria. Recentemente alcatroado até à fronteira, abandonámos contudo o caminho principal por alturas do Outeiro do Grosal e das Lamas da Portela, com a Fraga da Espinheira a dominar a paisagem a poente … onde o velho carreiro desapareceu na vegetação e nos obrigou a um pequeno troço de corta-mato. Pouco mais de 5 km feitos … e estávamos a entrar no Xurés galego, a 1290m de altitude, mais 170 do que Pitões. A panorâmica era magnífica tanto para terras lusas, com a barragem de Paradela ao fundo, o sempre visível ponto branco da Capela de S. João da Fraga, a espinha dorsal da Serra do Gerês a sudoeste; para norte e nordeste, terras galegas e parte do "dedo" português onde se situa Tourém, que contudo não se vê; a barragem de Salas e as aldeias galegas de Randín, Maus de Salas, Guntumil e outras, essas salpicavam a paisagem. O Albergue da Serra do Pisco também se via, na encosta junto à estrada fronteiriça da Portela de Pitões.
Carballeira da Barxa, Xurés galego, 19.10.2010
Agora a descer a encosta galega, rapidamente começamos a ver a poente a mancha florestal para onde nos dirigimos: a Carballeira da Barxa, um carvalhal espectacular, onde o musgo invadiu as pedras e as árvores. A barragem de Salas continua a dominar a paisagem a nordeste, agora sim chegam-se a ver as últimas casas de Tourém, e a sul surge-nos uma imagem bem minha conhecida … mas nunca vista daquele ângulo: os Cornos da Fonte Fria destacam-se contra o céu azul. Pouco passava das 11 da manhã (hora portuguesa), quando entrámos nas sombras de um mundo saído de uma história de gnomos e duendes do bosque. Cores outonais havia ainda poucas, mas água jorrava de todas as encostas, por vezes mesmo acompanhando-nos na marcha ao longo de velhos carreiros. Ultrapassado um caudaloso regato vindo das alturas das Gralleiras … recomeçamos a subir, primeiro em direcção SW e inflectindo depois para NW, saídos já do carvalhal. Com 10,2 km percorridos e novamente a descer para a aldeia abandonada de Salgueiro, resolvemos fazer a paragem para almoço pouco antes de lá chegar. O dia continuava esplendoroso, uma sombra no caminho e umas pedras que fizeram de bancos foram providenciais. E o almoço foi … arroz de tamboril! Enlatado e pré-cozinhado, claro... J! Mas não deixou de ser acompanhado por um néctar do Douro … embora também por água do último regato por onde tínhamos passado.
A aldeia de Salgueiro foi abandonada em meados do século passado, pertencendo hoje ao Governo da Galiza, que está a restaurar as casas e a transformá-la naquela que virá a ser a primeira aldeia ambiental galega. É necessária uma autorização, a pedir ao "Parque Natural Baixa Limia / Serra do Xurés", autorização que obviamente tínhamos pedido e transportávamos connosco … mas que ninguém nos pediu … até porque naquele dia não havia ninguém a trabalhar no restauro da aldeia. Trata-se de uma típica aldeia serrana, com as suas casas de pedra, algumas com telhados de colmo, todas elas em processo de restauro, algumas a ser transformadas em museu, bem como a sua velha igrejinha.
Carballeira da Barxa em tons de Outono, Xurés galego, 19.10.2010
A aldeia abandonada de Salgueiro, Xurés galego, 19.10.2010
Passada Salgueiro … nova subida! Permite-nos apreciar o conjunto da aldeia. Dirigimo-nos agora francamente para oeste, passamos a Corga das Cuartas, junto da qual deixamos o concelho de Muiños, para entrar no de Lobios. Ao fundo, parecendo chamar-nos ao longe, vemos já as antenas da Louriça, na Serra Amarela, e as de Santa Eufémia, por cima do nosso destino, Lobios. A barragem do Alto Lima também aparece já no nosso horizonte. Começamos definitivamente a descer, agora para o vale do rio Mao. Com 16,7 km feitos, às três da tarde chegamos à estrada OU-1206, Cela – Lobios, e pouco depois atravessamos a aldeia de Puxedo. A distância que nos faltava percorrer para Lobios sabíamos que teria de
Vale do Rio Mao, Xurés galego, 19.10.2010
ser maioritariamente por estrada, mas felizmente estradas muito secundárias e com bermas que davam para a fuga ao alcatrão. Mesmo assim, sempre que possível procurámos os atalhos que a carta nos indicava, no sentido de sair da estrada e encurtar distância. A primeira "saída de estrada", a seguir a uma aldeia chamada Vila, não correu muito bem: o velho sendeiro que a carta indicava era tão velho … que já não existia; obrigou-nos a um troço de corta-mato um pouco fastidioso, ainda por cima numa zona onde as moscas proliferavam. O segundo corte correu melhor: no vale do rio Cabaleiro, desembocámos facilmente na Ponte de San Martiño, a poucos quilómetros já do nosso destino. E assim, às 17:20h e com 25,1 km percorridos, estávamos em Lobios … e no também já nosso velho conhecido "Hotel Lusitano".
Veja o vídeo desta "aventura", mas também o álbum de fotos completo neste link)


19/09/2011

sábado, 14 de agosto de 2010

O Parque Nacional da Peneda - Gerês em chamas,
no trágico mês de Agosto de 2010

Nos primeiros dias de Setembro de 2009, tinha chorado pela tragédia que se abateu sobre o concelho do Sabugal, inclusive nas terras de Vale de Espinho. Em 2010, ainda nos Açores, a 7 de Agosto começo a ouvir notícias de uma calamidade que se viria a revelar trágica: o Parque Nacional da Peneda - Gerês estava em chamas! A praga dos incêndios florestais e as mãos criminosas que todos os anos os provocam iriam, em Agosto de 2010, transformar aquelas "minhas" terras sagradas em cenários dantescos.
Vale e Mata do Cabril, 15.08.2010
(Foto do blogue "Portugal Nature")
Regressado dos Açores, é principalmente no refúgio de Vale de Espinho que assisto, de longe, à tragédia que iria devorar vastíssimas zonas essencialmente da Serra do Soajo e da Serra Amarela; que assisto à guerra de informação e desinformação que a comunicação social veiculava; que procuro acompanhar, por fontes fidedignas, o evoluir da situação no terreno, inteirando-me da completa descoordenação de forças operacionais, da completa incompetência das instituições que tinham a obrigação de há muito ter prevenido a catástrofe, do completo desconhecimento dos (ir)responsáveis de gabinete do que se estava a passar e, muitas vezes, de onde se estava a passar. Mais do que nunca ... este foi um país do "faz de conta"...
Muito mais do que através dos jornais ou televisões, passo aqueles dias de Agosto a acompanhar a tragédia através dos diversos blogues e sítios na net de outros apaixonados pelo Gerês, que lá vivem perto, que estavam a viver a catástrofe por dentro, a sofrer in loco como eu tinha sofrido em Setembro do ano anterior. Apenas para citar alguns exemplos de entre os que mais acompanhei, os blogues "Carris" e "Monte Acima" fizeram um excelente trabalho de informação, com pontos da situação por vezes de hora a hora. Também o site "bordejar" e o blogue "Portugal Nature" acompanhou a triste realidade que se abateu sobre o nosso único Parque Nacional. Permito-me transcrever algumas frases retiradas do post de 14 de Agosto do blog "Monte Acima":

"Das Caldas até à Calcedonia, passando pela barragem de Vilarinho até Brufe, Germil, Soajo, Cabril... tudo preto! As manchas verdes são agora a mais rara e fugidia virtude do PNPG!
Toda a zona da (ex) Amarela virada à albufeira, até Brufe e Germil o cenário é quase pós nuclear, preto, preto, preto e mais preto... Ao longe as enormes colunas de fumo a sair do Mezio e do Soajo e depois outra coluna de fumo tão ou mais espessa a sair da Mata de Cabril.
Antes ainda, na zona do Vidoeiro (toda a encosta Oeste está queimada) o fumo continuava a sair por entre as árvores já queimadas e onde apenas a largura da estrada tinha, na noite anterior, separado o fogo das casas.
.....
Chegados a Entre Ambos os Rios, as colunas de fumo do Soajo e Mezio preenchiam o ceu, a do Soajo era qualquer coisa de assustador, enorme, de fumo preto e com labaredas visiveis a km´s, preenchiam a sua base.
.....
Paragem seguinte: onde desse para ver alguma coisa da Mata de Cabril... só possivel no viaduto sobre o Rio Cabril já junto à fronteira. O fumo era tão ou mais assustador que no Soajo, só diferente na cor, menos preto mas sempre com as labaredas visiveis no pouco que se conseguia "espreitar".
.....
quem conhecia o PNPG já não conhece!"
A 27 de Agosto, o "Público" noticia que "Durante o mês de Agosto arderam 8162 hectares no Parque Nacional da Peneda-Gerês, correspondendo a 11,7 por cento da área total daquela área protegida."
12.06.2010, Serra Amarela  /  A 12 de Agosto publico esta foto no Facebook, com a legenda ... " Esta paisagem já não existe ! "
A Serra do Soajo foi fustigada sucessivas vezes. A zona da Calcedónia foi devorada, dobrando mesmo o fogo a serra e passando para a encosta sobre a barragem da Caniçada. Diversos focos surgiram no Gerês, nas zonas de FafiãoLapela. Mas a Serra Amarela e, particularmente, a mata do Cabril, da albufeira de Vilarinho da Furna ao Ramisquedo e descendo deste ao vale do Cabril, foi talvez a área mais martirizada. A Mata do Cabril esteve mais de 15 dias a arder!
A paisagem que eu respirei na minha caminhada solitária de Maio, a paisagem que, com os Caminheiros, havíamos visto e vivido 2 meses antes, durante a TransGerês, a paisagem que nos havia levado ao minuto de silêncio em louvor à Natureza ... tinha deixado de existir! Como é possível? Em que país vivemos?...

Anacronicamente, escrevo e publico este post quando mais uma vez as chamas deflagraram no Parque Nacional da Peneda-Gerês! Ontem e hoje, um incêndio de origem quase seguramente criminosa consumiu áreas de mato na Serra da Peneda. Mais uma vez, o blogue "Carris" esteve e está em cima do acontecimento.
17 de Setembro de 2011

sábado, 12 de junho de 2010

TransGerês, com os Caminheiros (2)
Jornada na Serra Amarela

O dia seguinte ao da travessia do Gerês, 12 de Julho de 2010, acordou mais limpo e soalheiro do que o anterior.  Tivéssemos  tido assim o dia  e teríamos  feito a travessia pela cumeada,  como  projectado.  Mas
Subida à Chã da Broca, Serra Amarela, 12.06.2010
ninguém blasfemou contra os deuses da meteorologia; a travessia tinha sido fabulosa! E dia 12 ... era o dia da Serra Amarela. Pouco depois das nove da manhã, estávamos de novo na Portela do Homem, prontos para a partida. E a partida era ... pela subida directa à Chã da Broca, como eu a havia feito na prospecção de Maio ... quase a corta-mato ... quase de gatas...J!
O Pé de Cabril, visto da Chã da Broca, 12.06.2010
Mas, uma vez chegados ao topo, as panorâmicas eram francamente compensadoras!
Pelo lado galego e à vista da Serra de Santa Eufémia, subimos à Cruz do Touro (1232m alt.), para depois descer as moles graníticas do Entre Esteiros e das Ruivas, até ao Ramisquedo.

Subida à Cruz do Touro, Serra Amarela, 12.06.2010
Cruz do Touro, com a Louriça ao fundo, 12.06.2010

Este troço, sempre sobre o vale e a mata do Cabril, jubjuga pela imponência dos grandes maciços graníticos, pela sensação de pequenez e fragilidade que se apodera de nós. Por iniciativa de um dos meus companheiros de jornada, fizemos na encosta das Ruivas um minuto de silêncio, para escutar e respeitar a grandiosidade da envolvência em que nos encontrávamos. Mal sabíamos nós que estávamos a executar ... como que um requiem premonitório da tragédia que, dois meses depois, se abateria sobre a Serra Amarela...
Dos Entre Esteiros para as Ruivas, Serra Amarela, 12.06.2010
Um louvor à Natureza nas Ruivas, 12.06.2010
Ramisquedo, com a Louriça ao fundo, Serra Amarela, 12.06.2010
Não estamos sós...    Serra Amarela, 12.06.2010
Vale do Azevinheiro, Serra Amarela, 12.06.2010
O Ramisquedo, aos pés da Louriça, assinalou o ponto de regresso à Portela do Homem. Tal como na minha caminhada solitária de Maio, regressámos pelo Azevinheiro, a sul da Cruz do Touro. E, também tal como naquela, parte do regresso foi comum, descendo depois o estradão do Calvo até à Portela do Homem, com as espectaculares panorâmicas sobre a albufeira de Vilarinho das Furnas, a sudoeste, e o vale do Alto Homem, a leste ... de onde havíamos vindo na véspera.
E estamos de regresso...    12.06.2010
Albufeira de Vilarinho das Furnas, da Serra Amarela, 12.06.2010
Estradão do Calvo, Serra Amarela, 12.06.2010
O vale do Alto Homem, visto do Calvo, Serra Amarela, 12.06.2010
E a "aventura" da travessia do Gerês e da Serra Amarela estava no fim. Na Serra Amarela, tínhamos feito apenas 14 km, num percurso mais curto mas muito semelhante ao da minha prospecção de Maio. Nos dois dias desta actividade extra ... cerca de 40 km de Serra ... mas fundamentalmente dois maravilhosos dias de comunhão com a Natureza, com a profundidade, a força e a monumentalidade ... do "meu" Gerês!

Pode ver o álbum completo da travessia da Serra Amarela neste link ... e o vídeo no Youtube:


9/09/2011

sexta-feira, 11 de junho de 2010

TransGerês, com os Caminheiros (1)
Pitões das Júnias - Portela do Homem

O mês de Junho de 2010 foi de intensa actividade, com os Caminheiros Gaspar Correia. Para além da habitual caminhada mensal  -  que seria na Serra de Montemuro,  no fim de semana de 19 e 20  -  há  muito
Pitões das Júnias, "Casa do Preto", 11.06.2010
Com as amigas de há tantos anos, as Sr.as Marias
que eu idealizara também levar um grupo restrito, em actividade extra ... para uma travessia Pitões das Júnias - Portela do Homem, pelos Carris!
No calendário de 2010, essa travessia tinha ficado agendada para o fim de semana grande do 10 de Junho. Foi para ela que em Maio tinha feito a prospecção na Serra Amarela, que complementa-ria esta actividade TransGerês.
E assim, na tarde do dia 10 de Junho, com mais 26 caminheiros "aventureiros"  (incluindo  a  minha
"sócia" caminheira), estávamos na aldeia "mágica" de Pitões das Júnias. O tempo ... esse é que desta vez não parecia estar do nosso lado. A previsão era de muitas núvens, alguma chuva ou aguaceiros, que aliás pelo caminho se concretizaram. A nossa travessia estava deveras condicionada.
Carvalhal do Teixo, início da travessia, 11.06.2010
De qualquer modo, pouco depois de chegarmos, fomos fazer o "aquecimento" para a travessia, descendo ao velho Mosteiro das Júnias e à cascata de Pitões. Escusado será dizer que o alojamento  e o jantar ... foram na habitual "Casa do Preto", com as minhas amigas de há tantos anos, as Sr.as Marias.
Dia 11 de manhã ... havia que decidir. O tempo estava feio: alguma chuva miudinha, núvens baixas; a previsão apontava para alguma melhoria ... mas pouca. A travessia pela cumeada não era de todo aconselhável. Mas, face às previsões meteorológicas ... eu tinha estudado um Plano B...: talvez pudéssemos fazer a travessia a meia encosta, pela Capela do S. João da Fraga e junto aos Cornos de Candela. Só que ... nunca havia feito esse percurso ... e tinha 26 pessoas para levar.
A minha confiança nas cartas e no GPS era contudo total, sabia que não nos perderíamos ... mas evidentemente que as condições foram expostas aos meus parceiros ... que entenderam confiar totalmente naquela minha certeza. E, felizmente ... pelas 6 e meia da tarde estávamos todos na Portela do Homem!
Subida à Capela de S. João da Fraga, 11.06.2010
Na Capela de S. João da Fraga, 11.06.2010
Apesar das condições do tempo, esta travessia do Gerês acabaria por ser fabulosa. Começando com chuva miudinha, embrenhámo-nos no carvalhal que desce (e bem...) aos ribeiros da Aveleira e do Beredo, para depois subirmos ao morro do S. João da Fraga. Passámos perto da velha e perdida aldeia do Júriz, mas a dimensão da jornada e as condições atmosféricas aconselhavam a não fazer desvios. E subir ao S. João da Fraga é qualquer coisa de espectacular ... até porque os deuses nos começaram a dar algumas abertas. Com Pitões no horizonte, toda a encosta sul do Gerês está aos nossos pés, da barragem de Paradela às Lagoas do Marinho.
Depois, a jornada transformou-se numa travessia propriamente dita ... a travessia das múltiplas ribeiras e corgas a atravessar, o sobe e desce dos respectivos vales, a envolvência espectacular da Natureza agreste, a sensação de "perdidos" naqueles "meus" montes e vales mágicos! Passámos a sul dos Cornos de Candela, cruzámos as Lamas do Compadre e a Biduiça ... e cruzada a Ribeira das Negras já estava em terreno conhecido! Daí para a frente, era subir à Lamalonga e, eventualmente, aos Carris.
Progressão para poente, ao longo da Serra do Gerês, 11.06.2010
A travessia das muitas corgas e ribeiras foi uma constante, 11.06.2010
Mas subir aos Carris naquelas condições atmosféricas não traria mais valias significativas à travessia, até porque entretanto as abertas regrediram e a chuva passou a mais ou menos contínua. Optei portanto por cruzar a Lamalonga no sentido leste - oeste, cruzando a cabeceira da Barroca de Trás da Pala, em direcção aos currais das Abrótegas. Antes das três da tarde ... estávamos no estradão dos Carris!
Subida para as Abrótegas, 11.06.2010
O vale do Alto Homem. Uma só palavra: espectacular!   11.06.2010
Dado que em 2008 subi aos Carris vindo de Lapela, esta foi a segunda vez que fiz o estradão dos Carris ... 21 anos depois de o ter descido, com alunos, em 1989! A descida do vale do Alto Homem é qualquer coisa de espectacular, mesmo num dia grandemente enevoado como aquele.  Mas o estradão  ...  ficou baptizado
como "o quebra molas" pela maioria dos companheiros que fizeram esta travessia comigo. Efectivamente, custa a acreditar que por ali já passaram veículos, ligeiros e pesados, durante as décadas em que as Minas dos Carris estavam em pleno labor. Em Junho de 2010, a maior parte do "estradão" era um mar de calhaus soltos, na reduzida largura de um carreiro em que a vegetação se encarregou, nas últimas décadas, de ocupar a restante largura.
E findo o estradão, na Ponte de S. Miguel ... o mini-autocarro esperava-nos. Tínhamos percorrido 26 km de serra, não pelo percurso previsto, sempre com um dia muito cinzento e chuvoso ... mas todos estávamos felizes pela belíssima caminhada que tínhamos acabado de fazer. No dia seguinte ... seria a vez da Serra Amarela! A pernoita foi no Xurés galego, em Lobios ... no Hotel Lusitano.

Pode ver o álbum completo da travessia do Gerês neste link ... e o vídeo no Youtube:

8/09/2011

terça-feira, 4 de maio de 2010

Polos camiños do fín da terra ... e das terras de Montemuro à Serra Amarela

Com  os amigos  a que chamávamos o  "grupo dos sete"  e  depois dos  cruzeiros no  Douro, das terras de
Ria de Muros, 10.04.2010
Freixo de Espada-à-Cinta, de um Outono na raia e de uma Primavera em Somiedo, em Abril de 2010 rumámos a Santiago de Compos-tela e às terras galegas de Fisterra, da costa da morte e das rías baixas. De 8 a 11 de Abril ... esta xira galega proporcionou-nos o relembrar das belas paisagens celtas da Galiza.
Uma semana depois estávamos no Algarve, com os Caminheiros Gaspar Correia, numa actividade de fim de semana que contou com duas belas caminhadas, na Serra de Monchique e no litoral de Portimão
. 
Os camiños do fín da terra entran polo mar adentro!   Cabo Fisterra, fim da terra galega, 10.04.2010
Montemuro, 1.05.2010

Nos primeiros dias de Maio rumámos à Serra de Montemuro ... e ao Gerês! Para Junho, eu ia ser responsável, nos Caminheiros, por uma actividade em cada uma daquelas serras, para parte das quais se impunha um reconhecimento prévio. Nos dois primeiros dias de Maio, eu, a "sócia" e dois outros caminheiros fizemos esse reconhecimento em Montemuro ... para ainda na tarde do dia 2 nós dois seguirmos de Montemuro para o Gerês; vantagens de estarmos ambos em "férias eternas"... J. 
Aldeia abandonada de Levadas, Montemuro, 1.05.2010
Os "guardiões" da aldeia de Levadas... J
Cume da Serra de Montemuro (1382m alt.), 2.05.2010

No Gerês, tomámos Lobios como base. Lobios, no Xurés galego, é uma excelente base para qualquer ponto do Gerês, já que fica perto de tudo. E viemos a conhecer nesta xira o seu excelente Hotel Lusitano; com óptimo serviço e excelentes preços, o Lusitano passou a ser a nossa base de referência ... e até para o grupo de Caminheiros, das duas vezes que já lá os levei. E sabe sempre bem conhecer a história do avô paterno dos seus actuais gerentes, que procedente do vizinho concelho de Amares foi trabalhar nas minas das Sombras e por ali se radicou. Assim nasceu, por iniciativa daquele português e duma galega de Lobios, a Fonda Lusitano, como também é conhecido ainda hoje.
Sobre o vale do Cabril, Serra Amarela, 3.05.2010
O objectivo desta deslocação ao Gerês era fazer um reconhecimento na Serra Amarela, com vista à caminhada complementar da travessia do Gerês, prevista como actividade extra para o mês seguinte. Tive inicialmente prevista a travessia no sentido Portela do Homem - Lindoso, pelo que no dia 3 de Maio fizemos uma caminhada ao longo do vale do Cabril, partindo do estradão do Muro e tentando chegar aos geodésicos do Rebordo e da Louriça. As características e a inclinação do terreno e da vegetação não me aconselharam contudo a levar o grupo por ali, mesmo tratando-se de uma caminhada extra. Ainda subimos à Louriça, mas como descer sempre pelo estradão seria monótono, teria de encontrar alternativas.
E as alternativas foram-se esboçando no dia seguinte. Deixando o carro na Portela do Homem, fiz uma caminhada solitária na Serra Amarela, subindo à Chã da Broca, Cruz do Touro, Ruivas e Ramisquedo. Que caminhada fabulosa! Os Caminheiros não podiam perder aquela maravilha! E do Ramisquedo avancei até ao ponto onde havia estado na véspera, no estradão que desce da Louriça, já que ainda não tinha posto de lado a ideia de, no mês seguinte com o grupo, completar a travessia até ao Lindoso.
Serra Amarela, à vista da albufeira de Vilarinho da Furna, 4.05.2010
Serra Amarela, 4.05.2010 (clique para ver o álbum completo)

Mas, naquele dia, havia que voltar à Portela do Homem. Procurando sempre não repetir caminho, contornei as Ruivas pelo sul, desci ao vale do Azevinheiro, voltei a subir já a leste da Cruz do Touro e, depois de um pequeno troço comum, desci o estradão do Cortado do Calvo, com espectaculares panorâmicas sobre a albufeira de Vilarinho das Furnas.
O programa estava delineado para a actividade caminheira dos feriados de Junho...
6/09/2011