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domingo, 7 de julho de 1985

Quando pela 1ª vez levo os alunos aos Pirenéus...

A nossa "descoberta" dos Pirenéus e de Ordesa, 2 anos antes, tinha deixado água na boca para vir a descobrir mais ... e a mostrar mais! A 29 de Junho de 1985 estava assim a partir para uma jornada pirenaica ... com os meus alunos e os da minha "colega" de trabalho...J. Finalistas em Sacavém, eles mereciam a "aventura" que todos íamos viver. Acompanhados por mais uma professora de Biologia e um de
Junto ao Parador Nacional Monte Perdido, 30.06.1985
História, estava formada a "equipa" para 9 fabulosos dias, em que a meta eram as duas principais áreas protegidas da vertente espanhola dos Pirenéus: o Parque Nacional de Ordesa e o Parque Nacional de Aigües Tortes, este último já na Catalunha. Na digressão ... ainda havia tempo para uma curta entrada em França ... e para uma visita a Andorra!
Em 1983 tínhamos explorado o vale de Ordesa, pelo que nesta digressão escolar optei pelo lado oposto do mítico Monte Perdido, o vale de Pineta. No último dia de Junho, acampámos assim junto ao rio Cinca ... aos pés do Parador Nacional Monte Perdido. O campismo era autorizado, mas não havia parque propriamente dito ... pelo que a maior parte da higiene matinal era no rio...J.
Higiene ... no rio Cinca, 1.07.1985
E acampados junto ao Cinca ...
... tínhamos esta vista!










O dia seguinte foi dedicado a viver o imponente vale de Pineta. Subimos o curso do Cinca até à base dos glaciares que pendem do Monte Perdido ... e com pena de a neve e o gelo não aconselharem a subir até ao Lago de Marboré. Mas, mesmo da meia encosta ... a panorâmica era já de cortar a respiração.
1.07.85 -  Cascatas por entre a ramagem
E vamos subindo...
A imponência do Vale de Pineta, visto
da encosta de Marboré




















E se a caminhada feita em 83 me tinha feito apaixonar por estas montanhas ... esta primeira vinda com alunos aumentou essa paixão! Que imponência! Que sensação de pequenez, face à grandiosidade da Natureza! E logo ali nasceu um sonho que, apesar das várias vezes que ali já voltei ... até hoje ainda não foi realizado: o de unir, a pé, o vale de Ordesa ao vale de Pineta, atravessando o maciço do Monte Perdido. Talvez ... um dia...

Mas no dia 2, pelo túnel de Bielsa, aberto apenas 9 anos antes ... entrámos em terras gaulesas. Mas não por muito tempo: por Arreau e Bagnères-de-Luchon, regressámos a Espanha, ao vale de Aran, na Catalunha. A neve, nos Cols de Peyresourde e do Portillon, fez as delícias dos que quase a não conheciam.
2.07.1985 - Entrada em França
Col de Peyresourde
E ... haja neve!
O vale de Aran é um vale encravado nas montanhas do ocidente catalão, com identidade cultural, histórica, geográfica e linguística próprias. Passada a capital, Vielha, o objectivo era agora a vila de Espot, ponto de partida para o Parque Nacional de Aigües Tortes e do Lago de S. Maurício. Ali acampámos nas duas noites seguintes - em parque de campismo... - para nos "aventurarmos", ao quinto dia de jornada, naquela que era, também para mim, uma área completamente nova.
3.07.1985 - Entrada no Parque Nacional de Aigües Tortes
A partir de Espot, distribuídos por vários jeeps, subimos até ao Lago de S. Maurício - ou Estany de Sant Maurici, em catalão. O espectáculo natural era deslumbrante, com as montanhas e os frondosos bosques de pinheiro negro, pinheiro silvestre, abeto e faia a reflectirem-se nas águas cristalinas. Mas  Sant Maurici  é  apenas  um  dos
Na pista de Amitges, 3.07.1985
mais de 200 lagos, cujas águas percorrem os sinuosos caminhos do Parque, as "aigüestortes". Para lá do Sant Maurici, continuámos a subir em direcção aos Lagos de Ratera e de Amitges. Estávamos já acima dos 2000 metros de altitude ... e a neve já abundava. Os jeeps deixaram-nos junto ao refúgio de montanha de Amitges ... para fazermos todo o percurso de retorno a pé, até Espot, cerca de 15 km.
O Lago de S. Maurício, ou Estany de Sant Maurici, 3.07.1985
A caminho dos Lagos de Ratera
Lagos de Ratera, Aigüestortes, 3.07.1985
A caminhada dava fome...
Caminhada na neve!
Lagos de Ratera, Aigüestortes, 3.07.1985
Lagos de Ratera, 3.07.1985
Caminho de regresso...
Els Encantats, sobre o Lago de S. Maurício, 3.07.1985
  
As cerca de três horas do regresso a Espot foram uma alegre confraternização entre todos, maravilhados com as belezas naturais que tínhamos acabado de conhecer e de viver. À chegada à vila, um bom chocolate quente ficou também nalgumas memórias ... e para a história desta "aventura" pirenaica...J.
E a "aventura" terminaria em terras andorrenhas. Paraíso das compras baratas - para além de também integrado no seio de uma Natureza belíssima - o Camping "Valira", em Andorra, recebeu-nos para as duas noites seguintes. Para a história ficou igualmente uma "chegada triunfal" de um dos grupos de alunos ao Camping ... entoando uma canção acabada de compor: "no tengo dinero ... no tengo dinero ..."...J!
Camping "Valira", Andorra, 5.07.1985
Camping "Osuna", Madrid ... na última noite, 6.07.1985
O 8º e 9º dias de viagem ... foram o regresso a casa. À semelhança da primeira, a última noite foi em Madrid ... onde pouca gente quis dormir...J!

O percurso do Parque Nacional de Aigües Tortes no Wikiloc / Google Earth:


9 de Fevereiro de 2011

segunda-feira, 13 de maio de 1985

Regresso ao Gerês e à Tapada de Mafra ... com novos alunos

Ano lectivo de 1984 / 1985: o grupo de alunos que eu começara a acompanhar 5 anos antes, estava agora no 11º ano. E, claro, outras turmas e outros alunos tinham começado também a aprender comigo as Ciências da Natureza. Para uns e outros ... no meu pensamento estava sempre o desbravar de horizontes, o viver o campo e a Natureza. É assim que, a 21 de Março de 1985, parto para novos 4 dias no Gerês, com turmas do 8º ano, minhas ... e da minha "colega", que entretanto já se encontrava igualmente efectiva na Escola Secundária de Sacavém.
Acampamento em Chaves,
a caminho do Gerês, 21.03.1985
Desta vez acampámos em Chaves, para depois fazermos uma curta visita a Montalegre ... e nos demorarmos em Tourém e Pitões das Júnias. O "alcatrão derretido" nas ruas de Tourém fez de novo sensação, mas desta vez tínhamos até uma aluna cuja avó era de Tourém. Com a hospitalidade típica das  gentes  simples  e  sãs,  quis
Ruas de Tourém, 22.03.1985
oferecer-nos da sua melhor broa de centeio ... olhada com alguma apreensão por aquela "maltinha", apenas acostumada aos usos e costumes urbanos, ou da periferia da grande cidade ... principalmente quando a avó referiu que a broa tinha um mês na arca...! Não fora a neta comer um pedaço ... e ninguém provavelmente lhe teria tocado. Depois ... provaram e gostaram; mais uma forma de aprender...J!
Nas águas do rio Homem,
23.03.1985
Como já vinha sendo tradicional, da zona de Pitões e Tourém passámos ao Gerês, acampando de novo no Vidoeiro. E não foi cansativa nem monótona a segunda das muitas vezes que já subi a geira romana com alunos, de Vilarinho da Furna à Portela do Homem, nem as sempre fascinantes panorâmicas da Pedra Bela ou a contemplação da cascata do Arado. Junto a esta, subimos pela primeira vez a encosta a nascente da mesma, ao longo das sucessivas piscinas naturais. Nessa altura, estava longe de saber que, anos mais tarde, iria conhecer o autêntico Shangri-La do vale da Teixeira!

Entretanto, poucos dias antes, a 3 de Março do mesmo ano de 1985, um grupo de amigos inicialmente ligados à Escola Gaspar Correia, na Portela de Sacavém, dava os primeiros passos do que viria a ser um Grupo de Caminheiros ... que 17 anos e meio mais tarde viria a ser a minha "família" Caminheira!

E ... com os alunos do 11º ano? A maioria já tinha ido à Arrábida, ao Gerês (muitos por duas vezes), a Doñana,  à  Serra da Nogueira ... mas não tinham ido  à  Tapada de Mafra.  Assim,  a 13 de Maio de 1985,
Na Tapada de Mafra,
13.05.1985
fizemos uma visita à Tapada, não menos apreciada do que as restantes "aventuras" em que já tinham participado.
Família de javalis na Tapada, 13.05.85
Na Tapada de Mafra, 13.05.1985






O 11º ano era, na altura, o último ano existente na Escola. Para culminar a sequência de áreas naturais que aqueles alunos conheceram ... tínhamos de pensar numa actividade "em grande"...J! Excursões de finalistas para Benidorm ou Marbella ... felizmente não lhes agradavam nem a eles nem a mim.
Pelo que ... os planos foram outros...
8 de Fevereiro de 2011

domingo, 5 de agosto de 1984

Do cume da Serra Nevada à planura das Tablas de Daimiel

Em Fevereiro de 1984, o meu e o nosso contacto "itinerante" com a Natureza tinha mudado de meio de transporte: tínhamos comprado uma velha carrinha Volkswagen, adaptada para campismo ... muito idêntica à velha carrinha do Ribau ... inclusive na cor! Quis o destino que a tivesse apenas por dois anos, mas em Junho de 1984, acabadas as aulas e pouco tempo depois de regressados da Serra da Nogueira ... já estava a transportar nela alguns alunos, para Porto Covo, onde  com  eles  passámos  4  dias,  acampados
Em Sanlúcar de Barrameda ... frente a
Doñana, 16.07.1984
nos pinhais próximo da vila. A "marca" do Ribau continuava a reflectir-se...

A 14 de Julho desse mesmo ano, a bordo da nova casa rolante, partimos os quatro para um dos meus poucos périplos pela metade sul da Península Ibérica, incluindo uma pequena incursão a Ceuta ... talvez como ensaio para a "aventura" do ano seguinte...! Já com quase 3 anos, foi também a primeira viagem do nosso mais jovem herdeiro.
Cordova, Cadiz, Algeciras, a ida a Ceuta, a Costa del Sol, Granada ... e estávamos na Serra Nevada!
Subida da Serra Nevada, 23.07.1984
2000m de altitude
Na estrada mais alta da Europa!
No Pico Veleta, 3398m alt., 23.07.1984

Com os seus 3478 metros de altitude, o cume da Serra Nevada - o Pico Mulhácen - é o ponto mais alto da Península Ibérica. Na altura, chegava-se de carro até ao Veleta, o segundo pico, a 3398 metros; a estrada era então considerada a mais alta da Europa, mas foi encerrada ao trânsito 5 anos depois, com a passagem da Serra Nevada a Parque Nacional.
A panorâmica que se admira do cimo do Veleta é qualquer coisa de sensacional. Já lá tinha estado, também de carro, durante as viagens com os pais, lembrava-me da "magia" daquele local. Dessa primeira vez, tivemos aliás o magnífico brinde de um dia de fabulosa visibilidade: não será vulgar vermos a Espanha até ao mar, o Mediterrâneo de lado a lado ... e a costa de África do lado de lá das águas!
O Mulhácen visto do Veleta, 23.07.1984
Na estrada mais alta da Europa, Serra Nevada, 23.07.1984
Descemos a serra pelo lado sul, atravessando a região das Alpujaras, de enorme beleza natural. Vales férteis, salpicados de pequenas aldeias de montanha, como Trevelez, Capileira, Pampaneira e outras.
Era assim em Julho, ainda acima dos 3000 metros de altitude!
Atravessando as Alpujaras, 23.07.1984
Na costa sul, seguiu-se Almeria, Alicante e Valencia, para depois inflectirmos para o interior, rumo a terras de Castilla la Mancha. E, em Castilla la Mancha, esperavam-nos duas importantes zonas húmidas, ambas relacionadas com o alto Guadiana: as Lagunas de Ruidera e o Parque Nacional das Tablas de Daimiel.
Lagunas de Ruidera, 2 de Agosto de 1984
Ao encontro de D. Quixote...
Naquelas planuras sem fim, quase nos parecia ver aparecer a figura de D. Quijote de la Mancha, lutando com os seus moinhos de vento...!
Parque Nacional das Tablas de Daimiel, 3.08.1984
De pequenino se começa a caminhar...J
As lagoas e pântanos daquelas paragens perdidas davam cor e vida à planície! Nas Tablas de Daimiel, juntam-se os rios Gigüela e Guadiana. Era o lar de muitas espécies de aves, algumas durante todo o ano, outras migratórias. Contudo, a sobrevivência do Parque está hoje ameaçada, devido à sobre-exploração dos aquíferos; sem abastecimento de água, a reserva sofre duras secas.
Tablas de Daimiel, 3.08.1984 ... uma paisagem que hoje não existe assim...
Das planícies manchegas subimos para Toledo e Madrid, contornando depois a Serra de Gredos pelo sul, pela maravilhosa região de Yuste e de La Vera ... em direcção a Vale de Espinho, onde acabámos as férias! Entrámos pela nova fronteira de Valverde del Fresno / Penamacor, mas durante os dias em Vale de Espinho voltámos a Valverde na velha VW. Ainda se compravam caramelos em Valverde...J!
7 de Fevereiro de 2011

domingo, 20 de maio de 1984

Pela Serra da Nogueira e terras de Rio de Onor

Em Maio de 1984, oito anos depois de nos ter levado como alunos, o Dr. Carlos Magalhães faz-me uma proposta irrecusável: levar-nos de novo à Serra da Nogueira, agora como professores ... e com um grupo de 20 alunos - lotação do mini-autocarro disponibilizado pelos Serviços Florestais - no sentido de, eventualmente, lhes despertar interesses nas áreas da Biologia, Silvicultura, gestão florestal e afins!
17.05.1984 - Na Casa Florestal da Nogueira, oito anos depois
A minha selecção recaiu sobre um grupo de alunos do 10º ano de escolaridade, de entre os que haviam conhecido o Gerês e Doñana, mas levando também 2 novos alunos do 7º ano que haviam já demonstrado uma grande paixão pelas ciências da vida.
E assim nos preparámos para 4 memoráveis dias, de 17 a 20 de Maio de 1984. Nós, a família Magalhães e os alunos ... todos ficámos instalados na pequena casa florestal que já nos havia acolhido em Junho de 1976! Como havia um palheiro, os alunos pediram-nos autorização para lá pernoitarem, autorização que lhes foi concedida ... até voluntariamente começarem a "migrar" para dentro de casa, durante a noite ... à
18.05.84 - A noite ... tinha sido de neve
Serra da Nogueira coberta de neve
medida que caía um considerável nevão...J!
Aqueles dias foram ricos em experiências e vivências inesquecíveis, tanto para os meus alunos como para nós. Acompanhámos por rádio alguns elementos da população de lobos  da  Serra  da  Nogueira,
No cercado dos lobos da Nogueira
Viveiro de trutas de Montesinho, 19.05.84
visitámos o cercado onde se encontravam alguns em recuperação, ou jovens cujas mães haviam sido abatidas, fizemos vigias nocturnas para tentar ouvir os uivos, identificar vestígios da sua presença, etc..
Mas também alargámos o "raio de acção": da Nogueira fomos à Serra de Montesinho e aos viveiros de trutas, próximo da aldeia de França, a aldeia onde, nos tempos da emigração para França, muitos dos nossos emigrantes eram deixados por "passadores" sem escrúpulos, dizendo-lhes que já tinham dado o "salto" e já se encontravam na "terra prometida".
E de França fomos ainda à lendária Rio de Onor, aldeia comunitária atravessada a meio pela fronteira entre Portugal e Espanha. As duas partes são conhecidas pelos seus habitantes como "povo de acima" e "povo de abaixo", numa única identidade que as fronteiras não dividem. Corremos as ruas de ambos os lados da imaginária linha divisória, admirámos as casas tradicionais, de pedra, compostas como em todo o norte pelo andar de cima, onde moram as famílias, ficando o gado, os cereais e outros produtos da terra na "loja", no andar de baixo.
Rio de Onor, 19.05.1984
Na linha de fronteira em Rio de Onor, 19.05.1984
Aspectos de Rio de Onor,
19.05.1984
 
Mais uma vez, regressámos mais ricos desta "ronda" por terras transmontanas. Ainda hoje contacto com alguns dos então alunos daquele grupo, para alguns dos quais esta era já a quarta "aventura" vivida pela minha mão. Nunca mais soube nada, contudo, dos tais dois alunos, então no 7º ano de escolaridade, que entendi levar também. Eram irmãos, rapaz e rapariga ... e ainda hoje tenho presente o fácies de satisfação e de gratidão, principalmente dele, por os ter seleccionado para aquela experiência e para aquelas vivências.
6 de Fevereiro de 2011