Depois de em 2005 e 2007 ter levado os Caminheiros Gaspar Correia às terras mágicas de Somiedo, em 2009 e em colaboração com dois outros amigos daquela "família" ... levei-os aos Pirenéus. De 30 de Julho a 9 de Agosto, num misto de actividade turística, cultural e caminheira, foram 11 dias destinados essencialmente aos Pirenéus e ao sul de França. Há 14 anos que não ia a Ordesa...! Há 19 anos que não
Llanos de la Larri, Pineta, Pirenéus aragoneses, 1.08.2009
ia a Gavarnie...! O Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, na vertente espanhola, e o Circo de Gavarnie, na francesa, foram assim o palco de 4 fabulosas caminhadas ... numa das quais atravessámos os Pirenéus a pé, no sentido França - Espanha.
No último dia de Julho estávamos assim a entrar no país de Sobrarbe, antigo condado encravado nos Pirenéus aragoneses. Fizemos base em Bielsa ... e no dia 1 tínhamos a primeira caminha-da, aos Llanos de la Larri, sobre o vale de Pineta, passando na base das cascatas do Cinca e da vertiginosa subida ao Balcão de Pineta e ao Lago de Marboré; longínquo ia o ano de 1988, em que levei os meus alunos àquelas paragens altaneiras.
No cimo dos Llanos de la Larri, Pineta, Pirenéus aragoneses, 1.08.2009
Dia 2 de Agosto entrávamos em França ... e o destino era a mítica Gavarnie. A partir da vila, percorremos o vale que conduz ao famoso e fabuloso circo de Gavarnie ... que eu havia feito quase há 20 anos!
Circo e Cascata de Gavarnie, 3.08.2009
Na base da Cascata de Gavarnie, 3.08.2009
Dois dias depois - e depois de uma visita à cosmopolita Pau e a Lourdes - estávamos a atravessar os Pirenéus a pé, de França para Espanha! Subindo de autocarro desde Gavarnie até ao Col de Tentes ... a tentação era a de prosseguir para a mítica Brecha de Rolando. A travessia por essa emblemática passagem ainda chegou a estar pensada, mas tratar-se-ia de uma caminhada dura para muitos dos participantes. Talvez um dia ... talvez se ainda um dia subir mesmo ao Monte Perdido...
A travessia fez-se assim pelo Puerto de Bujaruelo (onde aliás tinha estado em 1990), descendo depois a vertente espanhola até àquela simpática aldeia, nas margens do rio Ara.
Descida do Puerto de Bujaruelo para a vertente espanhola, 5.08.2009
Filmando para o vale de Bujaruelo e o rio Ara, 5.08.2009
De Bujaruelo, seguimos o curso do Ara até Torla, passando junto à entrada do vale de Ordesa, que faríamos no dia seguinte, 6 de Agosto. E para o vale de Ordesa tínhamos contratado o acompanhamento por guias locais, fundamentalmente para permitir a divisão do grupo em dois: a maioria subiu a espectacular Senda de los cazadores, seguindo depois a Faja de Pelay até ao fundo do vale. A Faja de Pelay é um dos muitos trilhos existentes nas vertentes das paredes rochosas de ambos os lados do vale de Ordesa, permitindo panorâmicas espectaculares. Num dia também ele espectacular, a Brecha de Rolando mostrou-se-nos sobre os paredões rochosos de Cotatuero. E quando começamos a descer para o vale ... abre-se-nos o espectáculo grandioso do Monte Perdido e do Soum de Ramond, os dois cumes que fecham aquele magnífico circo.
E lá está a Brecha de Rolando, passagem mítica dos Pirenéus, na fronteira franco-espanhola, 6.08.2009
O vale de Ordesa, o Monte Perdido e o Soum de Ramond, vistos da Faja de Pelay, 6.08.2009
Cascata de Cola Caballo, 6.08.2009
À hora do almoço estávamos a encontrar-nos com o segundo grupo, que fez o percurso sempre pelo fundo do vale. O ponto de encontro foi junto à imponente cascata da Cola de Caballo, aos pés do Monte Perdido e precisamente onde as montanhas fecham aquele circo glaciar. Estar naquele local é viver uma Natureza impressionante, que cativa e seduz ... e nos faz sonhar com outras aventuras que ainda um dia gostava de fazer... J.
O regresso de todo o grupo foi pelo fundo do vale, acompanhando o rio Arazas e as suas sucessivas gradas, ou degraus rochosos, as Gradas de Soaso. Bosques de faias acompanham grande parte do percurso ... o percurso que havia feito pela primeira vez em 1983 ... 26 anos antes!
E dia 7 iniciávamos o regresso a casa, calmamente, ao longo da nossa Península Ibérica: uma etapa transversal, a sul da cordilheira pirenaica e com uma visita à navarra Pamplona, e duas etapas cruzando a meseta castelhana, por Soria e Aranda de Duero.
Ficam os percursos destas quatro fabulosas caminhadas:
22 de Julho de 2000. Terminara mais um ano lectivo. Na caravana, partimos rumo a Segovia e aos Pirenéus. Ao segundo dia, estamos no vale de Hecho, extremo ocidental dos Pirenéus aragoneses. Era mais um paraíso para descobrir, ao longo do rio Aragón Subordán e entre picos que ultrapassam os 2300
Ao longo do A. Subordán, a caminho de Aguas Tuertas, 24.07.2000
metros de altitude. Passada Hecho, a estrada aperta-se entre os enormes paredões rochosos da Boca del Infierno, para terminar na Selva de Oza, magnífico bosque de faias, abetos e pinheiros silvestres.
O dia 24 foi assim dedicado a uma esplêndida caminhada, subindo o curso do Aragón Subordán, paralelamente à fronteira francesa. Nos céus, cruzavam-se abutres e milhafres. Foram cerca de 11 km até ao lugar de Aguas Tuertas, nome aragonês para os meandros que o rio desenhou naqueles prados de altitude, para os quais correm numerosas cascatas e torrentes. Estávamos a 1600 metros de altitude e a pouco mais de 2 km já da fronteira ... mas havia que regressar à caravana, na Selva de Oza, e a Hecho. A aldeia é também uma pequena jóia arquitectónica, denotando já a influência da proximidade com Navarra. Tínhamos conhecido mais um recanto paradisíaco dos Pirenéus!
Hecho, Selva de Oza e Aguas Tuertas, 24.07.2000
O percurso da Selva de Oza a Aguas Tuertas
no Wikiloc / Google Earth
No dia seguinte, passámos de terras aragonesas para terras Navarras, por Ansó e Roncal. É o reino da montanha, em que tão depressa subimos a um puerto como descemos a um profundo vale. Passámos Isaba, subimos, e, a 1760 metros de altitude ... entrámos em França. Estávamos no Col da Pierre St-Martin. Nos meus tempos da Espeleologia, tinha ouvido falar muito da gruta do mesmo nome, situada nas proximidades do Col. Com os seus mais de 1300 metros, era considerada a gruta mais profunda do mundo.
Depois, por Pau - de onde dissemos adeus aos Pirenéus - Tarbes, Auch e Agen - onde cruzámos o Garona - o destino era a Dordogne, as terras da Dordonha, especialmente o vale do Vézère, ou Vallée de l'Homme, o berço do Homem moderno. Em Les Eyzies e nas grutas de Lascaux, revivemos o quotidiano dos nossos antepassados do Neanderthal. E, ao longo do Dordogne, sucediam-se belas paisagens, complementadas por imponentes castelos e culminando nas construções monásticas de Rocamadour, onde "venerámos" a respectiva Virgem Negra.
Rocamadour, Dordogne, 28.07.2000
Tours e o Loire, 30.07.2000
Ao fim da tarde do dia 28 de Julho estávamos mais uma vez em Tours ... e mais uma vez a bela cidade do Loire nos recebia. Lá passámos os 3 dias seguintes, em família ... para depois seguirmos para os Alpes!
Em Maio de 1989, pouco depois da grande travessia do Gerês e do gélido acampamento no Mezio, as fragas e pragas do destino tinham-me trazido nuvens negras. Para além do que então escrevi, não voltei a falar dos distúrbios da minha companheira de tantas fragas vividas. Para quê falar? Foram anos de oscilações, alturas mais estáveis alternando com crises depressivas ou eufóricas. Mas, no verão de 1998 ... deu-se um "milagre". Não ainda o milagre duradouro ... mas um estranho "milagre".
Tínhamos passado o fim de semana prolongado dos feriados de Junho na Barragem de Cabril, perto de Pedrógão. Foi a última vez que o júnior mais novo ainda nos acompanhou. Ambos haviam crescido, ganho as suas próprias asas, seguido as suas próprias fragas. Nesses dias, voltei a Almoster e ao Alto de Pousaflores, na Serra de Alvaiázere (Sicó), onde tinha acampado 11 dias, em 1971. Tinham-se passado
Fronteira francesa, próximo de Roncesvalles, 25.07.1998
quase 30 anos! 30 anos de deambulações, de "aventuras" ... por fragas e pragas...
Diversos períodos da praga que nos assolara tinham sido já caracterizados pela coincidência entre crises depressivas em casa e uma melhoria quando saíamos. Mas o verão de 1998 trazia-nos as primeiras férias exclusivamente a dois. Em plena crise depressiva profunda, o receio dos efeitos da partida e da falta dos filhos era grande ... mas poucas horas depois tudo parecia renascer ... e estas férias viriam a ser as mais estáveis dos últimos 9 anos ... e alguns dos melhores dias das nossas vidas!
A 24 de Julho de 1998, partíamos para as nossas
Tours, 27.07.1998 ... "ressuscitada"
primeiras férias a dois, na autocaravana. Destino: França. A primeira e longa etapa, de mais de 900 km, levou-nos aos arredores de Pamplona, para no dia seguinte entrar em França por Roncesvalles. Nas montanhas pirenaicas ecoavam os sons da batalha, ouvia-se a gesta da Chanson de Roland ...
Puy-de-Dôme visto de
Clermont-Ferrand, 29.07.1998
enquanto a minha musa acordava para a vida. Nesta primeira parte, o destino era mais uma vez Tours, nas margens do Loire que mais tarde quase íamos ver nascer, onde passámos 3 dias, agradecendo a San Martin o "milagre" que se começava a dar.
A 29 de Julho saíamos de Tours para terras de Auvergne. Terras de vulcões e de montes dourados, Clermont-Ferrand, o Puy-de-Dôme, Le Mont-Dore, St. Nectaire, Murol, seriam nomes que nos ficaram para sempre gravados como uma canção, a canção de uma paz que há muito não conhecíamos. Chegámos a fazer etapas ... de menos de 50 km. No simpático camping de Mont-Dore descansámos um dia inteiro. Em St. Nectaire encantámo-nos nas "Fontaines pétrifiantes" e vivemos "Les Mystères de Farges" ... de onde aliás trouxe uns bons queijos St Nectaire...J. E no castelo de Murol, à noite, assistimos a um espectáculo de recriação medieval, "Le Cercle Magique", pelos "Compagnons de Gabriel".
Por terras de Auvergne, 29 a 31.07.1998
"Le Cercle Magique", Castelo de Murol, 31.07.1998
No primeiro dia de Agosto dirigíamo-nos ao alto Loire. Por Besse e St. Flour, chegámos a Le Puy-en-
Parque Natural dos Vulcões de Auvergne, 1.08.1998
Velais, debruçada sobre o Loire. Dedicámos também um dia inteiro a esta bonita e simpática cidade, afamada pelas suas rendas de bilros.
De Murol ao Alto Loire, 1 a 3.08.1998
Depois de Puy-en-Velais, subimos o curso do alto Loire, rumámos a sul, passámos de Auvergne para o Parque Nacional de Cévennes, onde o principal atractivo natural são as Gorges du Tarn et du Jonte, verdadeiras muralhas naturais de paredes traçadas por aqueles pequenos rios, cujas águas correm para o Garona. Em Le Rozier, na confluência dos dois rios, reservámos um dia para um dos muitos percursos
Parque Nacional de Cévennes e regresso, 3 a 11.08.1998
pedestres possíveis, o da Ermitage de St.-Michel, ao longo do Jonte e da Corniche du Causse Noir. Uma caminhada pequena, de cerca de 8 km, mas com perspectivas fabulosas sobre o desfiladeiro, alternando com grandes zonas arborizadas e frescas.
E no dia 6 de Agosto, em Le Rozier ... encontrámo-nos com a "equipa" da Pilote, que também andava por terras de França! Com eles visitámos duas atracções naturais desta região perdida do sul de França: as grutas de Aven Armand e o Abîme de Bramabiau. Seguiu-se Nîmes, Pont du Gard, Avignon, Arles, um cheirinho da Camargue em Aigues Mortes ... e depois passámos um dia na praia, em Gruissan Plage, próximo de Narbonne.
Os últimos três dias foram o "coming home", com uma passagem pela Costa Brava e um matar de saudades de Barcelona, onde também nos despedimos da Pilote e dos seus ocupantes, que, em primeira visita, por lá ficaram mais tempo. Confirmando da pior maneira o "milagre" destas férias ... assisto contudo a uma queda brusca para a depressão ... no dia seguinte a chegar a casa! A "praga" duraria ainda mais um ano.
A caminhada das Gorges du Jonte / Ermitage Saint Michel no Wikiloc / Google Earth ... e em vídeo:
Da visita ao Alvão e Montesinho, com as minhas turmas de Ciências, e a Mérida com as turmas de Humanísticas, tinha resultado um grupo que, logo na altura, começou a sonhar com outras "aventuras". Em estreita colaboração e amizade, eu e o colega que tinha organizado a ida a Mérida fomos assim pondo de pé, ao longo do ano lectivo de 1994/95, o projecto de uma actividade interdisciplinar nos Pirenéus. Seria a terceira vez a levar alunos meus, mas a primeira em que, à componente da montanha, da Natureza, das áreas protegidas, se aliava a componente da História e do património construído.
1ª Parte: de Lisboa aos Pirenéus, 17 a 19.04.1995
Assim, a 17 de Abril de 1995, estávamos a partir de Sacavém com alunos daquelas duas áreas, para uma actividade de oito dias nos Pirenéus. O meu filho mais velho fazia parte das turmas de Humanísticas ... e o mais novo, não tendo ainda chegado ao secundário, participou igualmente, como aluno da Escola. Professores ... éramos a equipa já habitual: um casal de "cientistas" e outro de Línguas e Literaturas, além do co-organizador, professor de História.
A primeira "etapa" terminou no Camping Osuna, em Madrid, cidade que deixaríamos para o regresso. No dia seguinte entrávamos em terras de Aragão, com uma breve visita a Zaragoza e Huesca. E a partir de Huesca ... entrávamos no paraíso...J. A componente histórica e arquitectónica deste périplo começou pelo Castelo de Loarre, considerado a fortaleza românica melhor conservada da Europa. Seguiram-se-lhe os Mosteiros de San Juan de la Peña, o Mosteiro Velho e o Mosteiro Novo, ligados à origem lendária do próprio reino de Aragão. Ao fim da tarde do dia 18, por Jaca e Biescas, estávamos a entrar em terras de Sobrarbe, um dos três condados que formaram aquele reino. Os bungalows do Camping de Fiscal iam-nos
2ª Parte: Vale de Ordesa, 20.04.1995
receber para as duas noites seguintes.
O terceiro dia desta "aventura" ... era dedicado à "aventura"! Pela primeira vez, levava alunos a subirem o vale de Ordesa, onde havia estado 12 anos antes, no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido. As duas anteriores excursões com alunos tinham sido para o vale de Pineta. E a subida do vale de Ordesa, a partir de Torla, revelou-se mais uma vez espectacular, ao longo do rio Arazas e das suas Gradas de Soaso, até à mítica cascata da Cola del Caballo, aos pés do Monte Perdido ... o "señor de los montes"! Ao longo desta suave ascensão, até perto dos 2000 metros de altitude ... começou a nevar copiosamente, neve que acompanhou todo o regresso, fazendo-nos sentir "perdidos debajo del Monte Perdido", no "país perdido" de Sobrarbe, cantado pela "Ronda de Boltaña" (grupo folk aragonês).
E a neve iria caracterizar os dias seguintes. O objectivo era passar do Parque Nacional de Ordesa para o de Aigües Tortes por França, pelo túnel de Bielsa, à semelhança de 1985, com uma visita de passagem ao vale de Pineta. Ao vale de Pineta fomos ... mas a França não! O Parador Nacional Monte Perdido, o vale
3ª Parte: de Ordesa a Aigües Tortes, 21.04.1995
do Cinca, onde tínhamos acampado em 85 e em 88 ... tudo era agora uma imensidão branca. Muitos dos rapazes e raparigas que nos acompanhavam, nunca tinham visto neve; ao fim destes dias ... já nem leite podiam ver...J! É que, em Abril deste ano da graça de 1995 ... até em Madrid iríamos apanhar neve!
No acesso ao túnel de Bielsa, a estrada estava já completamente coberta de neve e gelo. Concluindo da impossibilidade de passar por França, fizemos meia volta antes do túnel e, mesmo assim, esperando que o limpa neves nos viesse "salvar" e a outros carros que ali se encontravam. É também aí que o colega de História vê, pela única vez na vida ... os pés passarem-lhe por cima da cabeça! Ao sair do autocarro e pôr os pés no chão gelado ... autenticamente "voou"...J!
O itinerário alternativo prosseguiu então por Castejón de Sos, entrando na Catalunha e no quase isolado vale de Arán, pequeno tesouro com identidade cultural, histórica, geográfica e linguística específicas. A capital da comarca é Viella, que atravessámos, para depois subir o curso do alto Garona, até ao Puerto de Bonaigua, a 2072 metros de altitude, junto à famosa estância de ski de Baqueira-Beret. A paisagem em redor ... era realmente uma paisagem surrealista: desta vez a estrada estava felizmente limpa, mas tudo à volta nos fazia parecer que estávamos em pleno inverno, numa paisagem alpina em que tudo era de uma brancura imaculada. A fita estreita e sinuosa do alcatrão era o único elemento que nos prendia à realidade. Agora a descer para o vale d'Àneu, o nosso motorista tentava serenar os receios, falando sobre os múltiplos sistemas de travagem do autocarro ... enquanto o "prof" de História apenas lhe dizia ... "use-os todos, use-os todos!"...J!
4ª Parte: Aigües Tortes i Estany de St Maurici, 22.04.1995
Mas ao fim da tarde estávamos sãos e salvos no Camping "La Presalla", em Esterri d'Àneu, onde passaríamos as duas noites seguintes. À beira do Noguera Pallaresa, Esterri d'Àneu é um dos concelhos da comarca de Pallars Sobirà, naquele que foi um dos últimos refúgios do urso pardo europeu nos Pirenéus ... o ós de Pallars. Próximo de Espot, Esterri d'Àneu foi a nossa base para a visita ao Parque Nacional de Aigües Tortes e Lago de S. Maurício, e o "programa" foi igual ao que tínhamos feito 10 anos antes, também com alunos: de jeeps desde Espot ao Lago de S. Maurício e depois a pé até ao Refúgio de Amitges (2380m alt.). Só que desta vez ... havia 10 vezes mais neve! Os lagos de Ratera e de Amitges estavam completamente gelados ... e nalguns locais a progressão tornava-se complicada, enterrando-nos na neve por vezes até quase à cintura! Estávamos verdadeiramente num outro mundo! Mais do que nunca, as agulhas de Amitges e de Els Encantats ... pareciam saídas de um mundo encantado e distante. Se há momentos mágicos na vida, esta caminhada a Amitges e o regresso a Espot foram um deles.
L'últim ós de Pallars, Camping La Presalla, 22.04.1995
E os momentos mágicos continuaram à noite: de regresso a Esterri d'Àneu e ao Camping, era mais indicado fazermos a habitual "última noite" ali do que no dia seguinte em Madrid. E ... o que se seguiu foram momentos mágicos de convívio, de amizade, de sã alegria de viver. Música, houve a de alguns brilhantes guitarristas no nosso grupo ... mas ao qual se juntaram o filho e filha do casal que geria o Camping, que connosco partilharam aquelas horas. Ele, filho das terras de Pallars e do Noguera Pallaresa, brindou-nos com uma espectacular interpretação de um seu poema, alusivo ao infeliz desaparecimento gradual do urso naquelas paragens ... "L'últim ós de Pallars". Mas para além da magia do momento, da música, do convívio ... o pessoal feminino estava também maravilhado com os alegados atributos estéticos daquele filho da catalã terra de Pallars...J!
E a "aventura Pirenaica" estava no fim. Faltava-nos o longo regresso a casa. Até às imediações de Lérida, o Noguera Pallaresa acompanhou-nos sempre, ao longo de uma paisagem igualmente de sonho. Sonho ...
5ª Parte: Regresso Pirenéus - Lisboa, 23 e 24.04.1995
no qual mais de metade do autocarro efectivamente estava, pondo os sonos em dia...J. E, como já foi dito mais atrás, naquele dia 23 de Abril de 1995 ... até no percurso entre Zaragoza e Madrid apanhámos neve! Tudo o que aparecesse branco ... já enjoava...! A perspectiva de um eventual nevão, ou de chuva, levou-nos aliás a trocar a prevista dormida em tendas, no Camping Osuna, pelos respectivos bungalows, felizmente livres.
Um passeio nocturno por Madrid marcou o fim de mais esta digressão. Ao chegarmos a casa, levávamos mais uma vez as histórias e as vivências de oito dias passados em conjunto, aprendendo e convivendo, todos com todos, seguindo o lema de aprender convivendo ... e conviver aprendendo!
 
As caminhadas de Ordesa e de Aigües Tortes no Wikiloc / Google Earth:
Ao contrário do ano anterior, o verão de 1990 foi relativamente estável, permitindo sonhar com a reconstituição da "aventura gaulesa" interrompida 7 anos antes, com o assalto em Paris. Assim, a 19 de
Monasterio de Piedra, 19.07.1990
Cascata no Monasterio
de Piedra, 20.07.1990
Julho de 1990, estávamos de partida para França ... com os Pirenéus de permeio. Passada a fase do atrelado-tenda e da carrinha VW ... regressámos ao campismo em tenda...J!
A caminho dos Pirenéus, havia um monumento natural para conhecer: o Monasterio de Piedra, um "oásis" fabuloso no meio da meseta castelhana, entre Madrid e Zaragoza. O rio Piedra modelou a rocha, formando lagos, grutas e cascatas, por entre os densos, frondosos e frescos bosques.
Por Huesca e Ainsa, ao longo do já nosso bem conhecido vale do Cinca ... fomos matar saudades do Monte Perdido, embora só de passagem para França. E, nos Pirenéus franceses, o destino era Gavarnie, a mais famosa estância pirenaica da primeira metade do século XX.
Estar em Gavarnie é uma sensação indescritível. Apesar do peso do muito turismo, sente-se ali a ruralidade e a imponência da montanha. Na aldeia, estamos a pouco mais de 1300 metros de altitude, mas da aldeia vê-se a famosíssima cascata, a mais alta da Europa, com os seus 423 metros, despenhando-se das alturas do Circo de Gavarnie. Lá em cima, por trás do Circo, está o Monte Perdido ... e o Lago de Marboré, onde dois anos antes havia subido com os alunos, a partir do vale de Pineta!
À "sombra" do Monte Perdido, lado espanhol, 21.07.1990
E do lado francês, em Gavarnie, 22.07.1990
E ... aí vamos a pé à famosa Cascata de Gavarnie, 22.07.1990
Cascata de Gavarnie, 22.07.1990
Próximo do Puerto de Bujaruelo, sob a Brecha de Rolando, 22.07.90
Em Gavarnie, é obrigatório fazer a caminhada até ao Circo e à Cascata; são pouco mais de 10km, ida e volta. E é outro local "mágico", onde nos sentimos pequenos, onde nos sentimos parte da Natureza, da montanha que nos rodeia. Mas também é "obrigatório" ir até ao Col de Bucharo (em francês), ou Puerto de Bujaruelo (em espanhol), precisamente na linha de fronteira entre os dois países. As panorâmicas são espectaculares para ambas as vertentes; e não estamos longe da mítica Brecha de Rolando.
19 anos depois voltaria a Gavarnie, com o meu grupo de Caminheiros. E, precisamente pelo Puerto de Bujaruelo, atravessaríamos os Pirenéus a pé, no sentido França - Espanha.
A 23 de Julho estávamos a deixar para trás os Pirenéus ... viajando para norte. Uns dias em Tours, nas sempre belas margens do Loire, depois Paris. Desta vez não fomos assaltados ... e para quem "foge" das cidades e tanto ama o campo, a montanha, a água, o verde ... Paris é talvez a cidade simultaneamente mais acolhedora e imponente que conheço. Incluindo o Parque Asterix ... que fez as alegrias dos 4 viajantes...J!
Mas o destino principal deste périplo ... eram terras de brumas e mistérios: as terras da Normandia e da Bretanha. Em Arromanches, Omaha Beach, Utah Beach, Cherbourg ... sentimo-nos viver a epopeia do desembarque aliado, iniciando a libertação da Europa do jugo nazi. E pouco depois do célebre Monte de St. Michel ... entrámos em terra bretã.
Praias da Normandia, 1.08.1990 - A memória do Dia D
Pôr do Sol próximo de Vauville, 1.08.1990
Monte de St. Michel, 2.08.1990
Costa norte da Bretanha, 2.08.1990
A Bretanha é de certo modo um lugar mágico. Nas praias e nas falésias agrestes da costa ... quase recuamos 1500 anos no tempo, vendo desembarcar hordas de bretões, acossados pelos anglo-saxões na ilha da Grande Bretanha. Por entre as "brumas de Avalon" ... quase vemos chegar o Rei Artur e as suas tropas. Ou, recuando ainda mais no tempo ... assistimos aos grandes construtores dos megalitos "mágicos" que povoam estas terras de bruma.
A costa selvagem do oeste da Bretanha, 5.08.1990
Notre-Dame-des-Naufragés,
P.te du Raz, 5.08.1990
Marie-Jeanne-Gabrielle
Entre la mer et le ciel
Battu par tous les vents
Au raz de l'océan
Ton pays
S'est endormi
Sur de belles légendes
Illuminant son histoire
Gravées dans la mémoire
Des femmes qui attendent
Les marins D'île de Sein
P.te du Raz, frente à ilha de Sein ... a ilha de todas as lendas
("Marie-Jeanne-Gabrielle", do álbum "Marines", Tri Yann)
À volta da baía de Douarnenez e, principalmente, na Pointe du Raz, o vento, o mar e a bruma envolviam-nos nas lendas e na música bretãs. A ilha de Sein não se via, a lendária ilha de Is muito menos ... mas víamos, talvez, aquela Marie-la-Bretonne, ou a Marie-Jeanne-Gabrielle esperando os marinheiros da ilha de Sein...
Seguiu-se Carnac e o seu núcleo megalítico. Segundo o nosso júnior ... Obélix faria melhor...J! Depois ... foi descer toda a costa ocidental francesa, até às Landes ... e à Ibéria.
Carnac, 6.08.1990 - Obélix faria melhor...J!
Campismo na floresta das Landes, 8.08.1990
Baía de San Sebastian, País Basco, 10.08.1990
E no dia 11 de Agosto ... chegávamos a Santa Cruz, para, como habitualmente ... passar o resto das férias.
Três anos depois da primeira "expedição", a 30 de Junho de 1988 estava a partir pela segunda vez com alunos rumo aos Pirenéus. Alunos do 10º ano (regressados 3 meses antes do Gerês), misturados com
A caminho dos Pirenéus, 30.06.1988
alunos do 12º (que em Fevereiro tinham conhecido Doñana). Na tarde do primeiro dia ... já todos eram grandes amigos!
Ao contrário de 85, contingências várias contribuíram para que tivéssemos apenas 7 dias disponíveis. Havia que fazer opções. O objectivo foi portanto "apenas" o vale de Pineta, no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com regresso por Andorra.
Encontrando-se o vale de Pineta a quase 1200 km de Lisboa, é claro que a primeira e a última noites foram em Madrid, à semelhança de 85. Depois, por Zaragoza, Huesca, Ainsa e Bielsa ... estávamos no paraíso! Voltámos a acampar aos pés do Parador Nacional Monte Perdido, no fundo do Circo de Pineta, nas margens do jovem rio Cinca.
Acampados junto ao Rio Cinca, Circo de Pineta, Pirenéus aragoneses - 1 de Julho de 1988 - 1270m alt.
2 de Julho era o dia da "grande aventura": já que era impensável subir ao Monte Perdido sem material de neve e sem treino, o objectivo era subir pelo menos até ao Lago de Marboré, no plateau fronteiriço entre os Pirenéus aragoneses e franceses. Dependeria das condições meteorológicas, da quantidade de neve e do estado do terreno ... mas o objectivo foi atingido...J!
Início da subida para Marboré, 2.07.1988
Na base das cascatas do Cinca, 1470m alt.
A subida não foi propriamente fácil, aliás só um grupo a efectuou. Os restantes alunos e professores fizeram um percurso circular junto às cascatas do Cinca, regressando portanto mais cedo ao nosso improvisado camping. Eu e os mais "aventureiros" ... continuámos a ascensão. E, à medida que íamos subindo, quase não acreditávamos no que os nossos olhos viam: quais rapaces planando ao sabor das correntes de ar, o vale de Pineta abria-se diante de nós em toda a sua extensão, com o fio do rio Cinca correndo lá no fundo. Estávamos a meia altura de um autêntico anfiteatro natural - o Circo de Pineta - com a Serra de Espierba a nascente e o maciço das Tres Sorores a poente. As Tres Sorores são os Picos de Marboré (3325m alt.), Añisclo (3259m) e, entre aqueles dois ... o Monte Perdido (3348m).
O vale de Pineta visto da encosta de Marboré, a caminho do Balcão de Marboré - 2 de Julho de 1988 - 1620m alt
Estávamos no verão, no início de Julho. Mas as montanhas em redor mostravam bem a quantidade de neve que permanecia nas alturas. Neve que, por volta dos 1450 metros de altitude, já se anunciava junto daquele sendero ziguezagueante ... e que aos 2000 e poucos metros cobria tudo em redor. A partir daí a ascensão não era fácil ... mas tornava-se cada vez mais deslumbrante!
Parede do Glaciar do Monte Perdido
Encosta do Balcão de Pineta, vista NW
Aspectos da progressão na neve...
... para o Balcão de Pineta - 2450m alt.
E assim, aos 2580 metros de altitude, chegávamos ao Balcão de Pineta e à Cruz de Marboré. Que espectáculo grandioso tínhamos à nossa volta! Tínhamos subido mais de 1300 metros desde o vale!
Balcón de Pineta e Cruz de Marboré - - 2 de Julho de 1988 - 2580m alt.
Na Cruz de Marboré, 2.07.1988
Vertente do Monte Perdido e glaciar
Junto ao lago gelado de Marboré, 2.07.1988 - 2595m alt.
Glaciar do Monte Perdido, 2.07.1988
Vista de Marboré para norte: Picos de Astazu e Tucarroya
Naquele plateau, quase aos 2600 metros de altitude, aos pés do Monte Perdido e na imponência que nos rodeava ... é impossível não nos sentirmos pequenos e insignificantes. A tentação de avançar mais era muita. Pouco mais a noroeste e aos 3000 metros de altitude ... teríamos seguramente uma espectacular panorâmica para a vertente francesa, sobre a famosa cascata de Gavarnie! A poente, tínhamos o Monte Perdido e o seu glaciar. Mas ... precisamente o Sol começava a baixar para trás do Monte Perdido, para os
Andorra, Camping "Valira", 4.07.1988
lados de Ordesa ... para onde continuo a sonhar um dia atravessar. Era imperioso começar a descer, de regresso ao vale, e assim fizemos. A descida não foi mais fácil que a subida ... pelo contrário! No troço a atravessar a neve, todos os cuidados eram poucos; a inclinação lateral era acentuada...
E daquele paraíso perdido nas montanhas aragonesas ... tivemos de regressar. Mas o regresso contaria ainda com uma passagem por Andorra, onde mais uma vez o Camping "Valira" recebeu o grupo, à semelhança de 85. Andorra, Zaragoza, Madrid na última noite ... e estávamos em Lisboa, com mais uma "aventura" vivida, partilhada em conjunto, aprendida ... e com muitas recordações!
A subida ao Lago de Marboré no Wikiloc / Google Earth: