Depois de em 2005 e 2007 ter levado os Caminheiros Gaspar Correia às terras mágicas de Somiedo, em 2009 e em colaboração com dois outros amigos daquela "família" ... levei-os aos Pirenéus. De 30 de Julho a 9 de Agosto, num misto de actividade turística, cultural e caminheira, foram 11 dias destinados essencialmente aos Pirenéus e ao sul de França. Há 14 anos que não ia a Ordesa...! Há 19 anos que não
Llanos de la Larri, Pineta, Pirenéus aragoneses, 1.08.2009
ia a Gavarnie...! O Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, na vertente espanhola, e o Circo de Gavarnie, na francesa, foram assim o palco de 4 fabulosas caminhadas ... numa das quais atravessámos os Pirenéus a pé, no sentido França - Espanha.
No último dia de Julho estávamos assim a entrar no país de Sobrarbe, antigo condado encravado nos Pirenéus aragoneses. Fizemos base em Bielsa ... e no dia 1 tínhamos a primeira caminha-da, aos Llanos de la Larri, sobre o vale de Pineta, passando na base das cascatas do Cinca e da vertiginosa subida ao Balcão de Pineta e ao Lago de Marboré; longínquo ia o ano de 1988, em que levei os meus alunos àquelas paragens altaneiras.
No cimo dos Llanos de la Larri, Pineta, Pirenéus aragoneses, 1.08.2009
Dia 2 de Agosto entrávamos em França ... e o destino era a mítica Gavarnie. A partir da vila, percorremos o vale que conduz ao famoso e fabuloso circo de Gavarnie ... que eu havia feito quase há 20 anos!
Circo e Cascata de Gavarnie, 3.08.2009
Na base da Cascata de Gavarnie, 3.08.2009
Dois dias depois - e depois de uma visita à cosmopolita Pau e a Lourdes - estávamos a atravessar os Pirenéus a pé, de França para Espanha! Subindo de autocarro desde Gavarnie até ao Col de Tentes ... a tentação era a de prosseguir para a mítica Brecha de Rolando. A travessia por essa emblemática passagem ainda chegou a estar pensada, mas tratar-se-ia de uma caminhada dura para muitos dos participantes. Talvez um dia ... talvez se ainda um dia subir mesmo ao Monte Perdido...
A travessia fez-se assim pelo Puerto de Bujaruelo (onde aliás tinha estado em 1990), descendo depois a vertente espanhola até àquela simpática aldeia, nas margens do rio Ara.
Descida do Puerto de Bujaruelo para a vertente espanhola, 5.08.2009
Filmando para o vale de Bujaruelo e o rio Ara, 5.08.2009
De Bujaruelo, seguimos o curso do Ara até Torla, passando junto à entrada do vale de Ordesa, que faríamos no dia seguinte, 6 de Agosto. E para o vale de Ordesa tínhamos contratado o acompanhamento por guias locais, fundamentalmente para permitir a divisão do grupo em dois: a maioria subiu a espectacular Senda de los cazadores, seguindo depois a Faja de Pelay até ao fundo do vale. A Faja de Pelay é um dos muitos trilhos existentes nas vertentes das paredes rochosas de ambos os lados do vale de Ordesa, permitindo panorâmicas espectaculares. Num dia também ele espectacular, a Brecha de Rolando mostrou-se-nos sobre os paredões rochosos de Cotatuero. E quando começamos a descer para o vale ... abre-se-nos o espectáculo grandioso do Monte Perdido e do Soum de Ramond, os dois cumes que fecham aquele magnífico circo.
E lá está a Brecha de Rolando, passagem mítica dos Pirenéus, na fronteira franco-espanhola, 6.08.2009
O vale de Ordesa, o Monte Perdido e o Soum de Ramond, vistos da Faja de Pelay, 6.08.2009
Cascata de Cola Caballo, 6.08.2009
À hora do almoço estávamos a encontrar-nos com o segundo grupo, que fez o percurso sempre pelo fundo do vale. O ponto de encontro foi junto à imponente cascata da Cola de Caballo, aos pés do Monte Perdido e precisamente onde as montanhas fecham aquele circo glaciar. Estar naquele local é viver uma Natureza impressionante, que cativa e seduz ... e nos faz sonhar com outras aventuras que ainda um dia gostava de fazer... J.
O regresso de todo o grupo foi pelo fundo do vale, acompanhando o rio Arazas e as suas sucessivas gradas, ou degraus rochosos, as Gradas de Soaso. Bosques de faias acompanham grande parte do percurso ... o percurso que havia feito pela primeira vez em 1983 ... 26 anos antes!
E dia 7 iniciávamos o regresso a casa, calmamente, ao longo da nossa Península Ibérica: uma etapa transversal, a sul da cordilheira pirenaica e com uma visita à navarra Pamplona, e duas etapas cruzando a meseta castelhana, por Soria e Aranda de Duero.
Ficam os percursos destas quatro fabulosas caminhadas:
Da visita ao Alvão e Montesinho, com as minhas turmas de Ciências, e a Mérida com as turmas de Humanísticas, tinha resultado um grupo que, logo na altura, começou a sonhar com outras "aventuras". Em estreita colaboração e amizade, eu e o colega que tinha organizado a ida a Mérida fomos assim pondo de pé, ao longo do ano lectivo de 1994/95, o projecto de uma actividade interdisciplinar nos Pirenéus. Seria a terceira vez a levar alunos meus, mas a primeira em que, à componente da montanha, da Natureza, das áreas protegidas, se aliava a componente da História e do património construído.
1ª Parte: de Lisboa aos Pirenéus, 17 a 19.04.1995
Assim, a 17 de Abril de 1995, estávamos a partir de Sacavém com alunos daquelas duas áreas, para uma actividade de oito dias nos Pirenéus. O meu filho mais velho fazia parte das turmas de Humanísticas ... e o mais novo, não tendo ainda chegado ao secundário, participou igualmente, como aluno da Escola. Professores ... éramos a equipa já habitual: um casal de "cientistas" e outro de Línguas e Literaturas, além do co-organizador, professor de História.
A primeira "etapa" terminou no Camping Osuna, em Madrid, cidade que deixaríamos para o regresso. No dia seguinte entrávamos em terras de Aragão, com uma breve visita a Zaragoza e Huesca. E a partir de Huesca ... entrávamos no paraíso...J. A componente histórica e arquitectónica deste périplo começou pelo Castelo de Loarre, considerado a fortaleza românica melhor conservada da Europa. Seguiram-se-lhe os Mosteiros de San Juan de la Peña, o Mosteiro Velho e o Mosteiro Novo, ligados à origem lendária do próprio reino de Aragão. Ao fim da tarde do dia 18, por Jaca e Biescas, estávamos a entrar em terras de Sobrarbe, um dos três condados que formaram aquele reino. Os bungalows do Camping de Fiscal iam-nos
2ª Parte: Vale de Ordesa, 20.04.1995
receber para as duas noites seguintes.
O terceiro dia desta "aventura" ... era dedicado à "aventura"! Pela primeira vez, levava alunos a subirem o vale de Ordesa, onde havia estado 12 anos antes, no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido. As duas anteriores excursões com alunos tinham sido para o vale de Pineta. E a subida do vale de Ordesa, a partir de Torla, revelou-se mais uma vez espectacular, ao longo do rio Arazas e das suas Gradas de Soaso, até à mítica cascata da Cola del Caballo, aos pés do Monte Perdido ... o "señor de los montes"! Ao longo desta suave ascensão, até perto dos 2000 metros de altitude ... começou a nevar copiosamente, neve que acompanhou todo o regresso, fazendo-nos sentir "perdidos debajo del Monte Perdido", no "país perdido" de Sobrarbe, cantado pela "Ronda de Boltaña" (grupo folk aragonês).
E a neve iria caracterizar os dias seguintes. O objectivo era passar do Parque Nacional de Ordesa para o de Aigües Tortes por França, pelo túnel de Bielsa, à semelhança de 1985, com uma visita de passagem ao vale de Pineta. Ao vale de Pineta fomos ... mas a França não! O Parador Nacional Monte Perdido, o vale
3ª Parte: de Ordesa a Aigües Tortes, 21.04.1995
do Cinca, onde tínhamos acampado em 85 e em 88 ... tudo era agora uma imensidão branca. Muitos dos rapazes e raparigas que nos acompanhavam, nunca tinham visto neve; ao fim destes dias ... já nem leite podiam ver...J! É que, em Abril deste ano da graça de 1995 ... até em Madrid iríamos apanhar neve!
No acesso ao túnel de Bielsa, a estrada estava já completamente coberta de neve e gelo. Concluindo da impossibilidade de passar por França, fizemos meia volta antes do túnel e, mesmo assim, esperando que o limpa neves nos viesse "salvar" e a outros carros que ali se encontravam. É também aí que o colega de História vê, pela única vez na vida ... os pés passarem-lhe por cima da cabeça! Ao sair do autocarro e pôr os pés no chão gelado ... autenticamente "voou"...J!
O itinerário alternativo prosseguiu então por Castejón de Sos, entrando na Catalunha e no quase isolado vale de Arán, pequeno tesouro com identidade cultural, histórica, geográfica e linguística específicas. A capital da comarca é Viella, que atravessámos, para depois subir o curso do alto Garona, até ao Puerto de Bonaigua, a 2072 metros de altitude, junto à famosa estância de ski de Baqueira-Beret. A paisagem em redor ... era realmente uma paisagem surrealista: desta vez a estrada estava felizmente limpa, mas tudo à volta nos fazia parecer que estávamos em pleno inverno, numa paisagem alpina em que tudo era de uma brancura imaculada. A fita estreita e sinuosa do alcatrão era o único elemento que nos prendia à realidade. Agora a descer para o vale d'Àneu, o nosso motorista tentava serenar os receios, falando sobre os múltiplos sistemas de travagem do autocarro ... enquanto o "prof" de História apenas lhe dizia ... "use-os todos, use-os todos!"...J!
4ª Parte: Aigües Tortes i Estany de St Maurici, 22.04.1995
Mas ao fim da tarde estávamos sãos e salvos no Camping "La Presalla", em Esterri d'Àneu, onde passaríamos as duas noites seguintes. À beira do Noguera Pallaresa, Esterri d'Àneu é um dos concelhos da comarca de Pallars Sobirà, naquele que foi um dos últimos refúgios do urso pardo europeu nos Pirenéus ... o ós de Pallars. Próximo de Espot, Esterri d'Àneu foi a nossa base para a visita ao Parque Nacional de Aigües Tortes e Lago de S. Maurício, e o "programa" foi igual ao que tínhamos feito 10 anos antes, também com alunos: de jeeps desde Espot ao Lago de S. Maurício e depois a pé até ao Refúgio de Amitges (2380m alt.). Só que desta vez ... havia 10 vezes mais neve! Os lagos de Ratera e de Amitges estavam completamente gelados ... e nalguns locais a progressão tornava-se complicada, enterrando-nos na neve por vezes até quase à cintura! Estávamos verdadeiramente num outro mundo! Mais do que nunca, as agulhas de Amitges e de Els Encantats ... pareciam saídas de um mundo encantado e distante. Se há momentos mágicos na vida, esta caminhada a Amitges e o regresso a Espot foram um deles.
L'últim ós de Pallars, Camping La Presalla, 22.04.1995
E os momentos mágicos continuaram à noite: de regresso a Esterri d'Àneu e ao Camping, era mais indicado fazermos a habitual "última noite" ali do que no dia seguinte em Madrid. E ... o que se seguiu foram momentos mágicos de convívio, de amizade, de sã alegria de viver. Música, houve a de alguns brilhantes guitarristas no nosso grupo ... mas ao qual se juntaram o filho e filha do casal que geria o Camping, que connosco partilharam aquelas horas. Ele, filho das terras de Pallars e do Noguera Pallaresa, brindou-nos com uma espectacular interpretação de um seu poema, alusivo ao infeliz desaparecimento gradual do urso naquelas paragens ... "L'últim ós de Pallars". Mas para além da magia do momento, da música, do convívio ... o pessoal feminino estava também maravilhado com os alegados atributos estéticos daquele filho da catalã terra de Pallars...J!
E a "aventura Pirenaica" estava no fim. Faltava-nos o longo regresso a casa. Até às imediações de Lérida, o Noguera Pallaresa acompanhou-nos sempre, ao longo de uma paisagem igualmente de sonho. Sonho ...
5ª Parte: Regresso Pirenéus - Lisboa, 23 e 24.04.1995
no qual mais de metade do autocarro efectivamente estava, pondo os sonos em dia...J. E, como já foi dito mais atrás, naquele dia 23 de Abril de 1995 ... até no percurso entre Zaragoza e Madrid apanhámos neve! Tudo o que aparecesse branco ... já enjoava...! A perspectiva de um eventual nevão, ou de chuva, levou-nos aliás a trocar a prevista dormida em tendas, no Camping Osuna, pelos respectivos bungalows, felizmente livres.
Um passeio nocturno por Madrid marcou o fim de mais esta digressão. Ao chegarmos a casa, levávamos mais uma vez as histórias e as vivências de oito dias passados em conjunto, aprendendo e convivendo, todos com todos, seguindo o lema de aprender convivendo ... e conviver aprendendo!
 
As caminhadas de Ordesa e de Aigües Tortes no Wikiloc / Google Earth:
Três anos depois da primeira "expedição", a 30 de Junho de 1988 estava a partir pela segunda vez com alunos rumo aos Pirenéus. Alunos do 10º ano (regressados 3 meses antes do Gerês), misturados com
A caminho dos Pirenéus, 30.06.1988
alunos do 12º (que em Fevereiro tinham conhecido Doñana). Na tarde do primeiro dia ... já todos eram grandes amigos!
Ao contrário de 85, contingências várias contribuíram para que tivéssemos apenas 7 dias disponíveis. Havia que fazer opções. O objectivo foi portanto "apenas" o vale de Pineta, no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com regresso por Andorra.
Encontrando-se o vale de Pineta a quase 1200 km de Lisboa, é claro que a primeira e a última noites foram em Madrid, à semelhança de 85. Depois, por Zaragoza, Huesca, Ainsa e Bielsa ... estávamos no paraíso! Voltámos a acampar aos pés do Parador Nacional Monte Perdido, no fundo do Circo de Pineta, nas margens do jovem rio Cinca.
Acampados junto ao Rio Cinca, Circo de Pineta, Pirenéus aragoneses - 1 de Julho de 1988 - 1270m alt.
2 de Julho era o dia da "grande aventura": já que era impensável subir ao Monte Perdido sem material de neve e sem treino, o objectivo era subir pelo menos até ao Lago de Marboré, no plateau fronteiriço entre os Pirenéus aragoneses e franceses. Dependeria das condições meteorológicas, da quantidade de neve e do estado do terreno ... mas o objectivo foi atingido...J!
Início da subida para Marboré, 2.07.1988
Na base das cascatas do Cinca, 1470m alt.
A subida não foi propriamente fácil, aliás só um grupo a efectuou. Os restantes alunos e professores fizeram um percurso circular junto às cascatas do Cinca, regressando portanto mais cedo ao nosso improvisado camping. Eu e os mais "aventureiros" ... continuámos a ascensão. E, à medida que íamos subindo, quase não acreditávamos no que os nossos olhos viam: quais rapaces planando ao sabor das correntes de ar, o vale de Pineta abria-se diante de nós em toda a sua extensão, com o fio do rio Cinca correndo lá no fundo. Estávamos a meia altura de um autêntico anfiteatro natural - o Circo de Pineta - com a Serra de Espierba a nascente e o maciço das Tres Sorores a poente. As Tres Sorores são os Picos de Marboré (3325m alt.), Añisclo (3259m) e, entre aqueles dois ... o Monte Perdido (3348m).
O vale de Pineta visto da encosta de Marboré, a caminho do Balcão de Marboré - 2 de Julho de 1988 - 1620m alt
Estávamos no verão, no início de Julho. Mas as montanhas em redor mostravam bem a quantidade de neve que permanecia nas alturas. Neve que, por volta dos 1450 metros de altitude, já se anunciava junto daquele sendero ziguezagueante ... e que aos 2000 e poucos metros cobria tudo em redor. A partir daí a ascensão não era fácil ... mas tornava-se cada vez mais deslumbrante!
Parede do Glaciar do Monte Perdido
Encosta do Balcão de Pineta, vista NW
Aspectos da progressão na neve...
... para o Balcão de Pineta - 2450m alt.
E assim, aos 2580 metros de altitude, chegávamos ao Balcão de Pineta e à Cruz de Marboré. Que espectáculo grandioso tínhamos à nossa volta! Tínhamos subido mais de 1300 metros desde o vale!
Balcón de Pineta e Cruz de Marboré - - 2 de Julho de 1988 - 2580m alt.
Na Cruz de Marboré, 2.07.1988
Vertente do Monte Perdido e glaciar
Junto ao lago gelado de Marboré, 2.07.1988 - 2595m alt.
Glaciar do Monte Perdido, 2.07.1988
Vista de Marboré para norte: Picos de Astazu e Tucarroya
Naquele plateau, quase aos 2600 metros de altitude, aos pés do Monte Perdido e na imponência que nos rodeava ... é impossível não nos sentirmos pequenos e insignificantes. A tentação de avançar mais era muita. Pouco mais a noroeste e aos 3000 metros de altitude ... teríamos seguramente uma espectacular panorâmica para a vertente francesa, sobre a famosa cascata de Gavarnie! A poente, tínhamos o Monte Perdido e o seu glaciar. Mas ... precisamente o Sol começava a baixar para trás do Monte Perdido, para os
Andorra, Camping "Valira", 4.07.1988
lados de Ordesa ... para onde continuo a sonhar um dia atravessar. Era imperioso começar a descer, de regresso ao vale, e assim fizemos. A descida não foi mais fácil que a subida ... pelo contrário! No troço a atravessar a neve, todos os cuidados eram poucos; a inclinação lateral era acentuada...
E daquele paraíso perdido nas montanhas aragonesas ... tivemos de regressar. Mas o regresso contaria ainda com uma passagem por Andorra, onde mais uma vez o Camping "Valira" recebeu o grupo, à semelhança de 85. Andorra, Zaragoza, Madrid na última noite ... e estávamos em Lisboa, com mais uma "aventura" vivida, partilhada em conjunto, aprendida ... e com muitas recordações!
A subida ao Lago de Marboré no Wikiloc / Google Earth:
A nossa "descoberta" dos Pirenéus e de Ordesa, 2 anos antes, tinha deixado água na boca para vir a descobrir mais ... e a mostrar mais! A 29 de Junho de 1985 estava assim a partir para uma jornada pirenaica ... com os meus alunos e os da minha "colega" de trabalho...J. Finalistas em Sacavém, eles mereciam a "aventura" que todos íamos viver. Acompanhados por mais uma professora de Biologia e um de
Junto ao Parador Nacional Monte Perdido, 30.06.1985
História, estava formada a "equipa" para 9 fabulosos dias, em que a meta eram as duas principais áreas protegidas da vertente espanhola dos Pirenéus: o Parque Nacional de Ordesa e o Parque Nacional de Aigües Tortes, este último já na Catalunha. Na digressão ... ainda havia tempo para uma curta entrada em França ... e para uma visita a Andorra!
Em 1983 tínhamos explorado o vale de Ordesa, pelo que nesta digressão escolar optei pelo lado oposto do mítico Monte Perdido, o vale de Pineta. No último dia de Junho, acampámos assim junto ao rio Cinca ... aos pés do Parador Nacional Monte Perdido. O campismo era autorizado, mas não havia parque propriamente dito ... pelo que a maior parte da higiene matinal era no rio...J.
Higiene ... no rio Cinca, 1.07.1985
E acampados junto ao Cinca ...
... tínhamos esta vista!
O dia seguinte foi dedicado a viver o imponente vale de Pineta. Subimos o curso do Cinca até à base dos glaciares que pendem do Monte Perdido ... e com pena de a neve e o gelo não aconselharem a subir até ao Lago de Marboré. Mas, mesmo da meia encosta ... a panorâmica era já de cortar a respiração.
1.07.85 - Cascatas por entre a ramagem
E vamos subindo...
A imponência do Vale de Pineta, visto
da encosta de Marboré
E se a caminhada feita em 83 me tinha feito apaixonar por estas montanhas ... esta primeira vinda com alunos aumentou essa paixão! Que imponência! Que sensação de pequenez, face à grandiosidade da Natureza! E logo ali nasceu um sonho que, apesar das várias vezes que ali já voltei ... até hoje ainda não foi realizado: o de unir, a pé, o vale de Ordesa ao vale de Pineta, atravessando o maciço do Monte Perdido. Talvez ... um dia...
Mas no dia 2, pelo túnel de Bielsa, aberto apenas 9 anos antes ... entrámos em terras gaulesas. Mas não por muito tempo: por Arreau e Bagnères-de-Luchon, regressámos a Espanha, ao vale de Aran, na Catalunha. A neve, nos Cols de Peyresourde e do Portillon, fez as delícias dos que quase a não conheciam.
2.07.1985 - Entrada em França
Col de Peyresourde
E ... haja neve!
O vale de Aran é um vale encravado nas montanhas do ocidente catalão, com identidade cultural, histórica, geográfica e linguística próprias. Passada a capital, Vielha, o objectivo era agora a vila de Espot, ponto de partida para o Parque Nacional de Aigües Tortes e do Lago de S. Maurício. Ali acampámos nas duas noites seguintes - em parque de campismo... - para nos "aventurarmos", ao quinto dia de jornada, naquela que era, também para mim, uma área completamente nova.
3.07.1985 - Entrada no Parque Nacional de Aigües Tortes
A partir de Espot, distribuídos por vários jeeps, subimos até ao Lago de S. Maurício - ou Estany de Sant Maurici, em catalão. O espectáculo natural era deslumbrante, com as montanhas e os frondosos bosques de pinheiro negro, pinheiro silvestre, abeto e faia a reflectirem-se nas águas cristalinas. Mas Sant Maurici é apenas um dos
Na pista de Amitges, 3.07.1985
mais de 200 lagos, cujas águas percorrem os sinuosos caminhos do Parque, as "aigüestortes". Para lá do Sant Maurici, continuámos a subir em direcção aos Lagos de Ratera e de Amitges. Estávamos já acima dos 2000 metros de altitude ... e a neve já abundava. Os jeeps deixaram-nos junto ao refúgio de montanha de Amitges ... para fazermos todo o percurso de retorno a pé, até Espot, cerca de 15 km.
O Lago de S. Maurício, ou Estany de Sant Maurici, 3.07.1985
A caminho dos Lagos de Ratera
Lagos de Ratera, Aigüestortes, 3.07.1985
A caminhada dava fome...
Caminhada na neve!
Lagos de Ratera, Aigüestortes, 3.07.1985
Lagos de Ratera, 3.07.1985
Caminho de regresso...
Els Encantats, sobre o Lago de S. Maurício, 3.07.1985
As cerca de três horas do regresso a Espot foram uma alegre confraternização entre todos, maravilhados com as belezas naturais que tínhamos acabado de conhecer e de viver. À chegada à vila, um bom chocolate quente ficou também nalgumas memórias ... e para a história desta "aventura" pirenaica...J.
E a "aventura" terminaria em terras andorrenhas. Paraíso das compras baratas - para além de também integrado no seio de uma Natureza belíssima - o Camping "Valira", em Andorra, recebeu-nos para as duas noites seguintes. Para a história ficou igualmente uma "chegada triunfal" de um dos grupos de alunos ao Camping ... entoando uma canção acabada de compor: "no tengo dinero ... no tengo dinero ..."...J!
Camping "Valira", Andorra, 5.07.1985
Camping "Osuna", Madrid ... na última noite, 6.07.1985
O 8º e 9º dias de viagem ... foram o regresso a casa. À semelhança da primeira, a última noite foi em Madrid ... onde pouca gente quis dormir...J!
O percurso do Parque Nacional de Aigües Tortes no Wikiloc / Google Earth:
A 15 de Julho de 1983, estávamos a partir rumo a terras de França ... passando por mais uma das grandes regiões naturais da Península Ibérica, os Pirenéus. Nas muitas viagens de adolescência, com os pais, claro que os tinha atravessado muitas vezes, em pontos diferentes ... mas uma coisa é atravessá-los, de automóvel, e outra completamente diferente é embrenharmo-nos nas paisagens de alta montanha, explorando os vales, os portos de altitude, as pequenas aldeias, as tradições e a história de populações que, em muitos casos, viveram quase que isoladas ao longo de séculos.
Em 1983, o Parque Nacional de Ordesa, nos Pirenéus aragoneses, tinha sido recentemente ampliado para mais do dobro da sua área inicial, quando foi criado em 1918, juntamente com o de Covadonga. Para além do vale de Ordesa, o Parque abrangia agora todo o maciço do mítico Monte Perdido, bem como os vales circundantes de Pineta, Añisclo e Escuaín. Para uma primeira abordagem aos Pirenéus, escolhi o vale de Ordesa como "cartão de visita" da cordilheira que nos separa do resto da Europa, tanto mais que íamos realmente passar os limites da Ibéria.
O vale de Ordesa e, ao fundo, o Monte Perdido
E assim, dois dias depois de sairmos de Lisboa, estávamos no simpático Camping "Edelweiss", na simpática vila de Biescas. O dia seguinte, 18 de Julho, dedicámo-lo à deslocação até Torla e ao conhecimento do vale de Ordesa, percorrido a pé em toda a sua extensão, até à Cascata de Colla de Caballo, no fundo do vale, aos pés do Monte Perdido. Foram cerca de 19 km ... e a primeira caminhada a sério do filho mais velho ... apenas com 5 anos! Claro que muitos troços ... foram às costas do paizinho...J!
E que espectáculo de caminhada! Subindo o curso do rio Arazas, íamos gradualmente passando dos pouco mais de 1300m de altitude aos 1800m da cascata, ora atravessando densos bosques de faias, ora abeirando-nos do rio e das múltiplas quedas e cascatas que formam as chamadas Gradas de Soaso. De um e outro lado do vale, os paredões rochosos acompanham-nos sempre, fechando-se num circo de montanha, junto à imponente Colla de Caballo.
Estávamos próximo de nomes célebres e míticos dos Pirenéus: por cima de nós, o maciço do Monte Perdido, que, com os seus 3355m de altitude, é o terceiro ponto mais alto da cordilheira; a leste, para lá da mole do Monte Perdido, o vale de Pineta; a norte, a célebre Brecha de Rolando, passagem natural de alta montanha para a vertente francesa e para o celebérrimo Circo de Gavarnie; e muito mais ... que ficaria para outros anos, outras "aventuras". Esta primeira incursão nos Pirenéus deixaria aliás marcas profundas na minha contínua "adesão" à montanha, na formação do que sou hoje. Por diversas vezes voltaria a Ordesa e à região pirenaica, com alunos, em família ... e não só.
Lamentavelmente, não possuo qualquer registo fotográfico desta minha primeira abordagem aos Pirenéus. A caminho como disse de terras de França, de Ordesa seguimos para Tours ... e Paris ... onde o nosso VW Brasília foi assaltado, no Bosque de Bolonha, tendo sido roubado material fotográfico e as películas já registadas! A raiva e a impotência foram tantas ... que regressámos a Portugal directamente. O resto das férias ... foram em Santa Cruz e "arredores".
A caminhada do vale de Ordesa no Wikiloc / Google Earth: