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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Romagem" às minas das Sombras
e nas alturas do Altar de Cabrões, Sobreiro e Carris

Dia 20 de Outubro era o dia da "peregrinação" às Minas das Sombras (onde iria pela primeira vez) e aos Carris. Seria uma espécie de homenagem à saga do volfrâmio. Mas a "peregrinação" seria também ao mítico Altar de Cabrões e aos Picos do Sobreiro e dos Carris, já que quando estive na Nevosa não tive tempo de passar o Curral de Marabaixo, que os separa.  Assim,  às  7:30h  da  manhã  (hora portuguesa),
Subida da Carballiña, Xurés, 20.10.2010, 9:15h
com Lobios ainda adormecida na noite, parti para uma caminhada solitária de mais de 11 horas na serra. A minha cara-metade, excelente caminheira de distâncias mas menos "trepadora", preferiu o dia de descanso aos 1100 metros de desnível que teria de subir e voltar a descer. Lobios fica a 410m de altitude; o Pico do Sobreiro, ponto mais alto a atingir … fica a 1538 metros. Como não gosto de caminhadas em que a ida e o regresso são pelo mesmo percurso, saí de Lobios por Ogos e Saa, percorrendo a zona que também tinha sido afectada por um pequeno incêndio em Agosto … circunscrito e extinto num dia…! Quase logo a seguir a Saa saí para a pista das Sombras, começando desde logo a subir bem. Aos 780m de altitude cruza-se o rio de Lobios, para pouco depois chegarmos a um pequeno bosque com panorâmicas magníficas de NW a SW. Duas horas depois da partida estava aos 1000 metros de altitude e com 7,7 km percorridos, no local conhecido como o Niño da Galiña, que marca a entrada na encosta do vale das Sombras, escavado pelo rio de Vilameá, ao longo do qual à tarde desceria para a aldeia do mesmo nome. Encontrei aí o primeiro de dois jeeps de vigilantes do Parque Natural, simpatiquíssimos; assim houvesse efectiva vigilância no Gerês português…! A partir do Niño da Galiña seguiram-se mais de 4 km praticamente planos, entre os 1000 e os 1060m de altitude, sempre sobre o vale do rio de Vilameá. Deu para acelerar por vezes para os 8 km/h … e para ganhar forças e balanço para o "ataque" à subida para as Sombras e para as alturas do Gerês/Xurés. Às 10:15h tinha 12 km feitos e estava junto à cancela do antigo estradão para as Minas das Sombras, com a muralha quase vertical do Pión de Paredes à minha esquerda, a parede oposta da Chan da Vella e o Fitoiro à direita … e o resto do vale das Sombras para subir, à minha frente. Da cancela às Minas não chega a 1,5 km de estradão, vencendo nele cerca de 220m de desnível. Com 3 horas certas de caminhada desde Lobios, as ruínas das Minas das Sombras começaram a surgir, iluminadas pelos raios do astro rei que começa, finalmente, a sobressair das alturas do Pión de Paredes e dos Cabrós. O momento é quase mágico, como talvez as fotografias ilustrem um pouco.
E o Sol vai começar a iluminar as Sombras! 20.10.2010, 10:35h
Memórias que o tempo não esquece...     Minas das Sombras, 20.10.2010
O complexo das Minas das Sombras é bem mais pequeno que o dos Carris. Mesmo assim, as edificações, velhas máquinas, carris, tudo parece estar ali perdido no tempo, perdido na corrosão e no envolvimento vegetal … ou então de repente ganhando vida,  imaginando a labuta  dos homens que ali  ganharam o  seu
Interior da mina
pão e sustento, que ali deixaram o suor de um trabalho duro e desgastante. No interior das galerias abandonadas, a água corre agora célere por onde dantes corriam os vagões e o minério; lá dentro, perde-se a noção do tempo e do espaço, tudo é negritude e mistério.
Cumprida a "peregrinação" nas Minas das Sombras, o desafio era agora subir directamente ao Altar dos Cabrós (Altar de Cabrões). À minha frente estava uma parede dominada por toneladas de cascalho grosso e solto, salpicada aqui e ali por rocha nua e algum mato. Havia que passar dos 1220 para os 1490m de altitude. Nenhum vestígio de carreiro, quando muito aqui e ali, muito espaçados, possíveis vestígios de mariolas que nem sei se o eram. E, acima já das Minas das Sombras, ainda havia que contornar uma longa e profunda fenda rochosa, possivelmente vestígio de velhas galerias desabadas pelo abandono e pelo tempo.  Não direi que
Subida do Pión de Paredes para o Altar de Cabrões, 20.10.2010
a subida não foi penosa, mas as panorâmicas e a constante sensação de desafio recompensavam largamente o esforço. Nos meus tempos de escola, quando se aprendiam as serras, os rios e até as linhas de combóio, ensinava-se que o Altar de Cabrões era o ponto mais alto da Serra do Gerês. No entanto, conforme qualquer carta mostra, o Altar de Cabrões nem é o ponto mais alto … nem é em Portugal. Situado a pouco mais de 300 metros em linha recta da linha de fronteira, o Altar de Cabrós é portanto ainda na Galiza, e os seus 1490m de altitude são 58 metros mais abaixo dos 1548m do Pico da Nevosa, esse sim o ponto mais alto do Gerês e de todo o norte de Portugal. O Altar de Cabrões é no entanto um local mítico e mágico, convidativo à meditação e à contemplação, à entrega aos deuses do céu e da Terra, à aceitação da energia telúrica que dele emana e, em dias esplendorosos de Sol, da energia retemperadora do astro-rei. Sem me dar conta, estive mais de uma hora naquele ponto mítico, onde há muito queria ir. A hora aconselhava algum reforço alimentar; melhor local não podia haver.
Altar de Cabrões (Altar de Cabrós), 1490m alt., Xurés, 20.10.2010: a entrega aos deuses do céu e da Terra!
Fronteira luso-galaica, no Pico do Sobreiro, 1538m alt., 20.10.2010
À minha frente, ligeiramente a nordeste, o Curral de Marabaixo separava-me da Nevosa, imponente e destacada, a Nevosa que me havia acolhido quando da travessia de Lapela a Pitões das Júnias; um pouco mais à direita, percebe-se o início da Garganta das Negras. Para sul, os Picos do Sobreiro e dos Carris (ambos acima dos 1500m) não deixam ver ainda as Minas nem a represa dos Carris, escondendo também parte do vale da Amoreira. A sudoeste percebe-se o início do vale do Alto Homem, o Outeiro da Meda, o Alto da Amoreira. E a oeste e noroeste … o vale das Sombras, de onde havia subido. Que êxtase, que catarse purificadora, que entrega. Ali, imerso na luz do Sol e na imensidão da serra, da rocha, do verde, da água, do som do silêncio, ali esquecem-se problemas, ali sentimo-nos pequenos e insignificantes, ali entregamo-nos apenas à imponência das panorâmicas, à grandiosidade e à força da Natureza.
O Altar de Cabrões e os Picos do Sobreiro e dos Carris sucedem-se numa "espinha dorsal" disposta no sentido NW/SE, a pouca distância uns dos outros. O Sobreiro é o mais alto dos três, a 1538m de altitude, exactamente na linha de fronteira. À uma e meia da tarde entrava portanto em Portugal. A fronteira luso-galega segue para SW, mas a cumeada acompanha uma outra fronteira, entre os distritos de Vila Real e de Braga, entre terras transmontanas e minhotas. Entre o Sobreiro e o Pico dos Carris … eis que nos surge repentinamente a Lagoa dos Carris, a represa sobre o vale da Ribeira das Negras.
E de repente ... surge a Lagoa dos Carris!   20.10.2010
A leste, a Nevosa (1548m alt.), o ponto mais alto do Gerês e de todo o norte de Portugal, 20.10.2010
À medida que a Nevosa vai ficando para norte … eis que surge no horizonte a aldeia "mágica" de Pitões das Júnias, de onde havíamos saído na véspera. Um pouco mais à esquerda, os Cornos da Fonte Fria, ainda na véspera vistos da face norte; entre mim e Pitões, os Cornos de Candela, a sul dos quais ainda em Junho tinha conduzido os Caminheiros na travessia de Pitões à Portela do Homem.
14:10h: Pico dos Carris, 1508m de altitude. Estou agora sobre a represa dos Carris e sobre todo o complexo mineiro do mesmo nome, já meu bem conhecido de anteriores "expedições". Da última vez, tinha-o atingido vindo de Lapela, pelo Castanheiro, Ribeira das Negras e subindo o Salto do Lobo. Agora, como que me sentia a sobrevoar aquelas ruínas, 60 metros acima delas e do início do velho estradão que desce o vale do Alto Homem, que ainda em Junho havia descido com os Caminheiros. Para sul, as Lamas de Homem e a zona das Abrótegas e das Águas Chocas permitem adivinhar as águas do jovem rio Homem. Mas desta vez … havia que regressar ao vale das Sombras. Exactamente com metade do percurso previsto feito (cerca de 16,5 km), a encosta do Pico dos Carris para o vale da Amoreira marcou o início do regresso. E, lá em baixo, corre a Corga dos Salgueiros da Amoreira, primeiro afluente da margem direita do Homem. É para lá que me dirijo, seguindo agora de novo para noroeste.
Minas dos Carris, do Pico dos Carris: mais memórias perdidas no tempo...    20.10.2010
Regresso ao vale das Sombras ... agora ao Sol de Outono    20.10.2010
Às três e pouco de uma tarde radiosa atravesso de novo a fronteira, regressando a terras galegas … e preparando-me para uma descida vertiginosa que me levaria de novo às Minas das Sombras. Muitas vezes as descidas são bem mais penosas que subir, mas o desnível do percurso escolhido é bem menor do que de manhã … além de que aqui há carreiro feito. Agora nas poucas horas em que o Sol ilumina o vale, as cores do Outono pintam à minha frente uma aguarela de sonho, enquanto atravesso um frondoso carvalhal ao longo da encosta entre o Rio da Amoreira e o Pico do Sobreiro. Precisamente quando admiro as cores e a espectacularidade do vale, recebo um telefonema de um amigo de longa data; "se aqui estivesses extasiavas-te como eu", foi só o que consegui dizer ... mas menos de um ano depois ele estaria lá comigo e com os Caminheiros Gaspar Correia!

Poesia de cores outonais, vale das Sombras, 20.10.2010
Antes das 4 da tarde passo de novo nas Minas das Sombras e desço rapidamente o estradão até à cancela onde passara 6 horas antes. A partir daí, o percurso ia ser de novo diferente do da manhã, descendo o velho trilho que conheceu os passos de tantos e tantos homens que labutavam nas minas e subiam e desciam o vale do Rio de Vilameá, ou vale das Sombras.  6,2 km  de  descida  foram percorridos
Rio de Vilameá, Vale das Sombras, 20.10.2010
em pouco mais de uma hora, mas as numerosas cascatas e piscinas naturais do Rio de Vilameá não foram por isso menos apreciadas, embora maioritariamente mergulhadas já de novo nas Sombras das apertadas encostas que, de um e outro lado, escondem o vale. A Ponte de Porta Paredes cruza o rio para a margem esquerda, já a 710m de altitude, e o trilho continua sempre a descer para Vilameá, a aldeia que deu o nome ao rio. Pouco antes, um ligeiro desvio à esquerda permite ver a Ermida de Nosa Señora do Xurés.
Seis da tarde, Vilameá, 28,3 km percorridos. Faltava … uma das partes mais penosas da jornada ... 4,2 km de alcatrão, até Lobios e ao "nosso" Hotel Lusitano, pela estrada proveniente da Portela do Homem. Esses pouco mais de 4 km pareceram-me intermináveis, mas lá foram percorridos em pouco mais de 40 minutos. O telefonema de um outro grande amigo de longa data ajudou a amenizá-los. À chegada a Lobios, a minha "sócia" estava fresquinha que nem uma alface, com um dia de completo descanso em que praticamente não saiu do Hotel... J.


No dia seguinte, 21 de Outubro, era o regresso. Situando-se Lobios a cerca de 15 km do Lindoso, por estrada, o Lindoso teria de marcar forçosamente o términus deste nosso périplo por terras do Gerês luso-galaico. Mas claro que por estrada seria desagradável, embora o estudo das alternativas indicasse que muitos troços teriam mesmo de o ser. Assim, 15 minutos antes das 10 da manhã de 5ª feira, estávamo-nos a despedir das simpáticas senhoras do Hotel Lusitano e a partir, de novo os dois, de mochilas carregadas às costas. Durante menos de 1 km retrocedemos o percurso feito a solo na véspera, para logo inflectir para caminhos secundários e carreiros, sempre com a Serra de Santa Eufémia como pano de fundo. Rial e Barreal são duas pequenas aldeias atravessadas, um cruzeiro a seguir a esta última abençoava a nossa despedida. Com rumo nitidamente a oeste, começámos a descer para o vale do Lima, mas acompanhando também o vale do Rio Caldo, que nele desagua. O Rio Caldo é o que vem das alturas da Portela do Homem e que deu origem aos famosos Baños de Río Caldo, piscinas naturais de águas quentes.
Rial, ainda próximo de Lobios, 21.10.2010
Entre Manín e o vale do alto Lima, em quase fim de jornada, 21.10.2010
Uma hora de caminho e chegámos à estrada marginal do Lima, mas apenas para atravessar a ponte na foz do Rio Caldo. Logo a seguir, voltámos a sair em direcção a Manín, por uma estradinha secundária que na aldeia passou a caminho de pé feito. Manín é uma típica aldeia serrana na base da Serra de Santa Eufémia … onde vimos um único habitante. A Ermida de Santa Eufémia saudou-nos à saída. Estávamos apenas a 510m de altitude, mas os meandros da barragem do Alto Lima estão à nossa frente e, para poente, avista-se já a Louriça e percebe-se o Lindoso. Pouco depois do meio dia, com 8 km percorridos, regressamos à estrada principal, agora sem grandes alternativas. O almoço foi junto à ponte que, atravessando o Lima, conduz à galega Entrimo e à nossa Castro Laboreiro, pela fronteira da Ameixoeira.


5 km depois passávamos a fronteira da Madalena, deixando assim terras galegas e entrando no concelho de Ponte da Barca. Mais 1,5 km e estávamos no viaduto da foz do Rio Cabril. Depois das fotografias vistas em Agosto, tiradas deste viaduto, e da imagem da Serra Amarela, agora negra, que se me tinha deparado na 2ª feira anterior … estava com medo do que ia ver ao longo do vale do Rio Cabril. A minha previsão mais terrífica não se concretizou contudo, felizmente, percebendo-se mesmo assim a encosta negra para os lados da Cruz do Touro e das Ruivas; imaginei como estaria a zona do Ramisquedo e a encosta sul, virada à barragem de Vilarinho das Furnas...
Depois de uma pausa na fonte próxima do cruzamento do Muro (o estradão que sobe à Louriça), às 15:45h e com 17,3 km percorridos chegámos ao Lindoso … muito a tempo do suposto autocarro das 16:15h para Ponte da Barca. Eis-nos, portanto, no "Café Vilarinho", perguntando descontraidamente onde é a paragem do autocarro. Resposta: "é ali … mas hoje já não há carreira"!!! Como é isso, foi a própria empresa Salvador a informar o horário! Bem, telefonema para a empresa, passagem do telefonema para o "chefe" … e lá vem uma resposta: "pedimos desculpa, foi um lapso, houve uma alteração de horário"; "então e como se resolve?", pergunto eu! "Bem, vão de táxi para Ponte da Barca e envie-nos a factura". E assim ... pouco depois estávamos em Ponte da Barca ... e no dia seguinte estávamos a apanhar o Expresso para Lisboa. Rapidamente as serras ficaram para trás...

Esta não foi a travessia em autonomia que havia idealizado, mas foi uma nova e bem interessante experiência, que me e nos levou a vários locais onde ainda não tínhamos estado nas terras mágicas do Gerês. Em todos os aspectos … aqueles 5 dias (3 de caminhada) purificaram-nos o corpo e a alma. Mas como ambicionava e ambiciono percorrer ainda muitos mais locais naquelas terras mágicas (e noutras…), as "peregrinações" seguintes não tardaram muito ... quando a duração das horas de luz e o clima primaveril permitiram a "sonhada" autonomia. A Serra, o Monte, a Natureza, sempre foi e é cada vez mais o meu modo de estar na vida! Enquanto puder … é a caminhar que quero mostrar a mim próprio quem sou e o que sou. No Gerês, em Somiedo, na Malcata – as minhas três "terras natais"... – mas também em qualquer outro lugar onde haja verde, água, montanha, céu, onde haja o som do silêncio, os sons e os cheiros da Natureza, mas também das terras e gentes que nelas labutaram e labutam, que nelas deixaram as suas tradições, a sua cultura, a sua poesia, a sua música tradicional.

Álbum de fotos completo neste link

19/09/2011

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