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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Romagem" às minas das Sombras
e nas alturas do Altar de Cabrões, Sobreiro e Carris

Dia 20 de Outubro era o dia da "peregrinação" às Minas das Sombras (onde iria pela primeira vez) e aos Carris. Seria uma espécie de homenagem à saga do volfrâmio. Mas a "peregrinação" seria também ao mítico Altar de Cabrões e aos Picos do Sobreiro e dos Carris, já que quando estive na Nevosa não tive tempo de passar o Curral de Marabaixo, que os separa.  Assim,  às  7:30h  da  manhã  (hora portuguesa),
Subida da Carballiña, Xurés, 20.10.2010, 9:15h
com Lobios ainda adormecida na noite, parti para uma caminhada solitária de mais de 11 horas na serra. A minha cara-metade, excelente caminheira de distâncias mas menos "trepadora", preferiu o dia de descanso aos 1100 metros de desnível que teria de subir e voltar a descer. Lobios fica a 410m de altitude; o Pico do Sobreiro, ponto mais alto a atingir … fica a 1538 metros. Como não gosto de caminhadas em que a ida e o regresso são pelo mesmo percurso, saí de Lobios por Ogos e Saa, percorrendo a zona que também tinha sido afectada por um pequeno incêndio em Agosto … circunscrito e extinto num dia…! Quase logo a seguir a Saa saí para a pista das Sombras, começando desde logo a subir bem. Aos 780m de altitude cruza-se o rio de Lobios, para pouco depois chegarmos a um pequeno bosque com panorâmicas magníficas de NW a SW. Duas horas depois da partida estava aos 1000 metros de altitude e com 7,7 km percorridos, no local conhecido como o Niño da Galiña, que marca a entrada na encosta do vale das Sombras, escavado pelo rio de Vilameá, ao longo do qual à tarde desceria para a aldeia do mesmo nome. Encontrei aí o primeiro de dois jeeps de vigilantes do Parque Natural, simpatiquíssimos; assim houvesse efectiva vigilância no Gerês português…! A partir do Niño da Galiña seguiram-se mais de 4 km praticamente planos, entre os 1000 e os 1060m de altitude, sempre sobre o vale do rio de Vilameá. Deu para acelerar por vezes para os 8 km/h … e para ganhar forças e balanço para o "ataque" à subida para as Sombras e para as alturas do Gerês/Xurés. Às 10:15h tinha 12 km feitos e estava junto à cancela do antigo estradão para as Minas das Sombras, com a muralha quase vertical do Pión de Paredes à minha esquerda, a parede oposta da Chan da Vella e o Fitoiro à direita … e o resto do vale das Sombras para subir, à minha frente. Da cancela às Minas não chega a 1,5 km de estradão, vencendo nele cerca de 220m de desnível. Com 3 horas certas de caminhada desde Lobios, as ruínas das Minas das Sombras começaram a surgir, iluminadas pelos raios do astro rei que começa, finalmente, a sobressair das alturas do Pión de Paredes e dos Cabrós. O momento é quase mágico, como talvez as fotografias ilustrem um pouco.
E o Sol vai começar a iluminar as Sombras! 20.10.2010, 10:35h
Memórias que o tempo não esquece...     Minas das Sombras, 20.10.2010
O complexo das Minas das Sombras é bem mais pequeno que o dos Carris. Mesmo assim, as edificações, velhas máquinas, carris, tudo parece estar ali perdido no tempo, perdido na corrosão e no envolvimento vegetal … ou então de repente ganhando vida,  imaginando a labuta  dos homens que ali  ganharam o  seu
Interior da mina
pão e sustento, que ali deixaram o suor de um trabalho duro e desgastante. No interior das galerias abandonadas, a água corre agora célere por onde dantes corriam os vagões e o minério; lá dentro, perde-se a noção do tempo e do espaço, tudo é negritude e mistério.
Cumprida a "peregrinação" nas Minas das Sombras, o desafio era agora subir directamente ao Altar dos Cabrós (Altar de Cabrões). À minha frente estava uma parede dominada por toneladas de cascalho grosso e solto, salpicada aqui e ali por rocha nua e algum mato. Havia que passar dos 1220 para os 1490m de altitude. Nenhum vestígio de carreiro, quando muito aqui e ali, muito espaçados, possíveis vestígios de mariolas que nem sei se o eram. E, acima já das Minas das Sombras, ainda havia que contornar uma longa e profunda fenda rochosa, possivelmente vestígio de velhas galerias desabadas pelo abandono e pelo tempo.  Não direi que
Subida do Pión de Paredes para o Altar de Cabrões, 20.10.2010
a subida não foi penosa, mas as panorâmicas e a constante sensação de desafio recompensavam largamente o esforço. Nos meus tempos de escola, quando se aprendiam as serras, os rios e até as linhas de combóio, ensinava-se que o Altar de Cabrões era o ponto mais alto da Serra do Gerês. No entanto, conforme qualquer carta mostra, o Altar de Cabrões nem é o ponto mais alto … nem é em Portugal. Situado a pouco mais de 300 metros em linha recta da linha de fronteira, o Altar de Cabrós é portanto ainda na Galiza, e os seus 1490m de altitude são 58 metros mais abaixo dos 1548m do Pico da Nevosa, esse sim o ponto mais alto do Gerês e de todo o norte de Portugal. O Altar de Cabrões é no entanto um local mítico e mágico, convidativo à meditação e à contemplação, à entrega aos deuses do céu e da Terra, à aceitação da energia telúrica que dele emana e, em dias esplendorosos de Sol, da energia retemperadora do astro-rei. Sem me dar conta, estive mais de uma hora naquele ponto mítico, onde há muito queria ir. A hora aconselhava algum reforço alimentar; melhor local não podia haver.
Altar de Cabrões (Altar de Cabrós), 1490m alt., Xurés, 20.10.2010: a entrega aos deuses do céu e da Terra!
Fronteira luso-galaica, no Pico do Sobreiro, 1538m alt., 20.10.2010
À minha frente, ligeiramente a nordeste, o Curral de Marabaixo separava-me da Nevosa, imponente e destacada, a Nevosa que me havia acolhido quando da travessia de Lapela a Pitões das Júnias; um pouco mais à direita, percebe-se o início da Garganta das Negras. Para sul, os Picos do Sobreiro e dos Carris (ambos acima dos 1500m) não deixam ver ainda as Minas nem a represa dos Carris, escondendo também parte do vale da Amoreira. A sudoeste percebe-se o início do vale do Alto Homem, o Outeiro da Meda, o Alto da Amoreira. E a oeste e noroeste … o vale das Sombras, de onde havia subido. Que êxtase, que catarse purificadora, que entrega. Ali, imerso na luz do Sol e na imensidão da serra, da rocha, do verde, da água, do som do silêncio, ali esquecem-se problemas, ali sentimo-nos pequenos e insignificantes, ali entregamo-nos apenas à imponência das panorâmicas, à grandiosidade e à força da Natureza.
O Altar de Cabrões e os Picos do Sobreiro e dos Carris sucedem-se numa "espinha dorsal" disposta no sentido NW/SE, a pouca distância uns dos outros. O Sobreiro é o mais alto dos três, a 1538m de altitude, exactamente na linha de fronteira. À uma e meia da tarde entrava portanto em Portugal. A fronteira luso-galega segue para SW, mas a cumeada acompanha uma outra fronteira, entre os distritos de Vila Real e de Braga, entre terras transmontanas e minhotas. Entre o Sobreiro e o Pico dos Carris … eis que nos surge repentinamente a Lagoa dos Carris, a represa sobre o vale da Ribeira das Negras.
E de repente ... surge a Lagoa dos Carris!   20.10.2010
A leste, a Nevosa (1548m alt.), o ponto mais alto do Gerês e de todo o norte de Portugal, 20.10.2010
À medida que a Nevosa vai ficando para norte … eis que surge no horizonte a aldeia "mágica" de Pitões das Júnias, de onde havíamos saído na véspera. Um pouco mais à esquerda, os Cornos da Fonte Fria, ainda na véspera vistos da face norte; entre mim e Pitões, os Cornos de Candela, a sul dos quais ainda em Junho tinha conduzido os Caminheiros na travessia de Pitões à Portela do Homem.
14:10h: Pico dos Carris, 1508m de altitude. Estou agora sobre a represa dos Carris e sobre todo o complexo mineiro do mesmo nome, já meu bem conhecido de anteriores "expedições". Da última vez, tinha-o atingido vindo de Lapela, pelo Castanheiro, Ribeira das Negras e subindo o Salto do Lobo. Agora, como que me sentia a sobrevoar aquelas ruínas, 60 metros acima delas e do início do velho estradão que desce o vale do Alto Homem, que ainda em Junho havia descido com os Caminheiros. Para sul, as Lamas de Homem e a zona das Abrótegas e das Águas Chocas permitem adivinhar as águas do jovem rio Homem. Mas desta vez … havia que regressar ao vale das Sombras. Exactamente com metade do percurso previsto feito (cerca de 16,5 km), a encosta do Pico dos Carris para o vale da Amoreira marcou o início do regresso. E, lá em baixo, corre a Corga dos Salgueiros da Amoreira, primeiro afluente da margem direita do Homem. É para lá que me dirijo, seguindo agora de novo para noroeste.
Minas dos Carris, do Pico dos Carris: mais memórias perdidas no tempo...    20.10.2010
Regresso ao vale das Sombras ... agora ao Sol de Outono    20.10.2010
Às três e pouco de uma tarde radiosa atravesso de novo a fronteira, regressando a terras galegas … e preparando-me para uma descida vertiginosa que me levaria de novo às Minas das Sombras. Muitas vezes as descidas são bem mais penosas que subir, mas o desnível do percurso escolhido é bem menor do que de manhã … além de que aqui há carreiro feito. Agora nas poucas horas em que o Sol ilumina o vale, as cores do Outono pintam à minha frente uma aguarela de sonho, enquanto atravesso um frondoso carvalhal ao longo da encosta entre o Rio da Amoreira e o Pico do Sobreiro. Precisamente quando admiro as cores e a espectacularidade do vale, recebo um telefonema de um amigo de longa data; "se aqui estivesses extasiavas-te como eu", foi só o que consegui dizer ... mas menos de um ano depois ele estaria lá comigo e com os Caminheiros Gaspar Correia!

Poesia de cores outonais, vale das Sombras, 20.10.2010
Antes das 4 da tarde passo de novo nas Minas das Sombras e desço rapidamente o estradão até à cancela onde passara 6 horas antes. A partir daí, o percurso ia ser de novo diferente do da manhã, descendo o velho trilho que conheceu os passos de tantos e tantos homens que labutavam nas minas e subiam e desciam o vale do Rio de Vilameá, ou vale das Sombras.  6,2 km  de  descida  foram percorridos
Rio de Vilameá, Vale das Sombras, 20.10.2010
em pouco mais de uma hora, mas as numerosas cascatas e piscinas naturais do Rio de Vilameá não foram por isso menos apreciadas, embora maioritariamente mergulhadas já de novo nas Sombras das apertadas encostas que, de um e outro lado, escondem o vale. A Ponte de Porta Paredes cruza o rio para a margem esquerda, já a 710m de altitude, e o trilho continua sempre a descer para Vilameá, a aldeia que deu o nome ao rio. Pouco antes, um ligeiro desvio à esquerda permite ver a Ermida de Nosa Señora do Xurés.
Seis da tarde, Vilameá, 28,3 km percorridos. Faltava … uma das partes mais penosas da jornada ... 4,2 km de alcatrão, até Lobios e ao "nosso" Hotel Lusitano, pela estrada proveniente da Portela do Homem. Esses pouco mais de 4 km pareceram-me intermináveis, mas lá foram percorridos em pouco mais de 40 minutos. O telefonema de um outro grande amigo de longa data ajudou a amenizá-los. À chegada a Lobios, a minha "sócia" estava fresquinha que nem uma alface, com um dia de completo descanso em que praticamente não saiu do Hotel... J.


No dia seguinte, 21 de Outubro, era o regresso. Situando-se Lobios a cerca de 15 km do Lindoso, por estrada, o Lindoso teria de marcar forçosamente o términus deste nosso périplo por terras do Gerês luso-galaico. Mas claro que por estrada seria desagradável, embora o estudo das alternativas indicasse que muitos troços teriam mesmo de o ser. Assim, 15 minutos antes das 10 da manhã de 5ª feira, estávamo-nos a despedir das simpáticas senhoras do Hotel Lusitano e a partir, de novo os dois, de mochilas carregadas às costas. Durante menos de 1 km retrocedemos o percurso feito a solo na véspera, para logo inflectir para caminhos secundários e carreiros, sempre com a Serra de Santa Eufémia como pano de fundo. Rial e Barreal são duas pequenas aldeias atravessadas, um cruzeiro a seguir a esta última abençoava a nossa despedida. Com rumo nitidamente a oeste, começámos a descer para o vale do Lima, mas acompanhando também o vale do Rio Caldo, que nele desagua. O Rio Caldo é o que vem das alturas da Portela do Homem e que deu origem aos famosos Baños de Río Caldo, piscinas naturais de águas quentes.
Rial, ainda próximo de Lobios, 21.10.2010
Entre Manín e o vale do alto Lima, em quase fim de jornada, 21.10.2010
Uma hora de caminho e chegámos à estrada marginal do Lima, mas apenas para atravessar a ponte na foz do Rio Caldo. Logo a seguir, voltámos a sair em direcção a Manín, por uma estradinha secundária que na aldeia passou a caminho de pé feito. Manín é uma típica aldeia serrana na base da Serra de Santa Eufémia … onde vimos um único habitante. A Ermida de Santa Eufémia saudou-nos à saída. Estávamos apenas a 510m de altitude, mas os meandros da barragem do Alto Lima estão à nossa frente e, para poente, avista-se já a Louriça e percebe-se o Lindoso. Pouco depois do meio dia, com 8 km percorridos, regressamos à estrada principal, agora sem grandes alternativas. O almoço foi junto à ponte que, atravessando o Lima, conduz à galega Entrimo e à nossa Castro Laboreiro, pela fronteira da Ameixoeira.


5 km depois passávamos a fronteira da Madalena, deixando assim terras galegas e entrando no concelho de Ponte da Barca. Mais 1,5 km e estávamos no viaduto da foz do Rio Cabril. Depois das fotografias vistas em Agosto, tiradas deste viaduto, e da imagem da Serra Amarela, agora negra, que se me tinha deparado na 2ª feira anterior … estava com medo do que ia ver ao longo do vale do Rio Cabril. A minha previsão mais terrífica não se concretizou contudo, felizmente, percebendo-se mesmo assim a encosta negra para os lados da Cruz do Touro e das Ruivas; imaginei como estaria a zona do Ramisquedo e a encosta sul, virada à barragem de Vilarinho das Furnas...
Depois de uma pausa na fonte próxima do cruzamento do Muro (o estradão que sobe à Louriça), às 15:45h e com 17,3 km percorridos chegámos ao Lindoso … muito a tempo do suposto autocarro das 16:15h para Ponte da Barca. Eis-nos, portanto, no "Café Vilarinho", perguntando descontraidamente onde é a paragem do autocarro. Resposta: "é ali … mas hoje já não há carreira"!!! Como é isso, foi a própria empresa Salvador a informar o horário! Bem, telefonema para a empresa, passagem do telefonema para o "chefe" … e lá vem uma resposta: "pedimos desculpa, foi um lapso, houve uma alteração de horário"; "então e como se resolve?", pergunto eu! "Bem, vão de táxi para Ponte da Barca e envie-nos a factura". E assim ... pouco depois estávamos em Ponte da Barca ... e no dia seguinte estávamos a apanhar o Expresso para Lisboa. Rapidamente as serras ficaram para trás...

Esta não foi a travessia em autonomia que havia idealizado, mas foi uma nova e bem interessante experiência, que me e nos levou a vários locais onde ainda não tínhamos estado nas terras mágicas do Gerês. Em todos os aspectos … aqueles 5 dias (3 de caminhada) purificaram-nos o corpo e a alma. Mas como ambicionava e ambiciono percorrer ainda muitos mais locais naquelas terras mágicas (e noutras…), as "peregrinações" seguintes não tardaram muito ... quando a duração das horas de luz e o clima primaveril permitiram a "sonhada" autonomia. A Serra, o Monte, a Natureza, sempre foi e é cada vez mais o meu modo de estar na vida! Enquanto puder … é a caminhar que quero mostrar a mim próprio quem sou e o que sou. No Gerês, em Somiedo, na Malcata – as minhas três "terras natais"... – mas também em qualquer outro lugar onde haja verde, água, montanha, céu, onde haja o som do silêncio, os sons e os cheiros da Natureza, mas também das terras e gentes que nelas labutaram e labutam, que nelas deixaram as suas tradições, a sua cultura, a sua poesia, a sua música tradicional.

Álbum de fotos completo neste link

19/09/2011

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pitões das Júnias - Salgueiro - Lobios
Travessia do Gerês luso - galaico

Como tenho tentado contar através deste blogue, a minha paixão pelas terras "mágicas" do Gerês já vem de há quase 40 anos! Depois da "descoberta", pela mão do saudoso Prof. Carlos Almaça, levei eu durante anos, já como professor, largas centenas de alunos a conhecerem aquelas serras, terras e gentes, de Tourém a Castro Laboreiro. Em Março de 1989, fiz pela primeira vez a travessia Pitões das Júnias – Fonte Fria – Carris – Portela do Homem – Caldas do Gerês, acompanhado de um grupo de 12 alunos e um
Pitões das Júnias, 19.10.2010, 8:30 h, 4ºC
outro professor e grande amigo. Tanto antes como depois dessa "histórica" travessia, perdi a conta às minhas deambulações pelo Gerês, com alunos, em família, sozinho, ou com os Caminheiros a que em boa hora entretanto me associei. Sem que para isso haja grande explicação, afeiçoei-me sempre mais às zonas centro e leste do Parque Nacional, particularmente à Serra do Gerês.
Apesar dos périplos atrás referidos, muitas zonas havia e há ainda para conhecer e descobrir naquelas terras mágicas. Há algum tempo que tinha começado por isso a congeminar uma travessia mais ou menos em autonomia, passando precisamente por algumas dessas zonas que ainda queria conhecer. Já tinha subido por duas vezes ao Borrageiro, a partir da Teixeira e do Camalhão, mas nunca tinha percorrido as Sombrosas ou o vale do Conho, por exemplo; e outras zonas, claro. Assim, "desenhei" um projecto e lancei um desafio a alguns amigos, sabendo contudo de antemão que não seria  fácil  arranjar acompanhantes,  já  que  o projecto implicaria uns  5  dias  e  a maioria  dos amigos com
"estaleca" para o fazer não estão reformados como eu…! Por outro lado, não seria nunca possível marcar uma data específica para concretizar o projecto, já que o mesmo dependeria essencialmente das previsões meteorológicas. Jamais me passaria pela cabeça a inconsciência de me meter e meter alguém numa "aventura" … com o objectivo de "passear" de helicóptero e de aparecer nas televisões…! A data de concretização do projecto … seria portanto a primeira em que a meteorologia garantisse pelo menos 5 dias seguidos de tempo seco e pouco nublado. O FreeMeteo é uma das muitas "bíblias" que hoje permitem que só se vá para a serra em dias de temporal e chuva forte … se se for completamente inconsciente.
Vai começar a "aventura"...   19.10.2010
Até meados de Outubro de 2010, apesar de reformado, os dias livres na minha agenda não coincidiram com bom tempo. Estando na disposição de avançar mesmo que eventualmente sozinho, a minha "sócia" e possível acompanhante ergueu contudo a "bandeira" das temperaturas que começavam a descer, dos dias que começavam a ter poucas horas de luz, das dificuldades daí resultantes para a eventual passagem de uma ou mais noites na serra. E ditou, assim, duas "leis": "proibia-me" de ir sozinho, mas dispunha-se a acompanhar-me … desde que ficássemos "debaixo de telha". Bem, como as "leis" são para se cumprir … estudei as alternativas que o permitissem. Por exemplo, já tinha estado na Nevosa … mas nunca tinha subido ao Altar de Cabrões; já tinha estado nos Carris, vindo de Pitões ou de Lapela … mas não conhecia as Minas das Sombras, as "irmãs" galegas dos Carris; do lado galego, há muito queria conhecer o carvalhal da Barxa e a aldeia abandonada de Salgueiro. E assim, pegando nestes elementos, foi-se desenhando uma travessia entre Pitões das Júnias e Lobios, maioritariamente portanto pelo Xurés galego, que permitiria cumprir a "lei" de dormir "debaixo de telha" e de, a partir de Lobios, "conquistar" as alturas das Sombras e dos picos fronteiriços. Isto sabendo de antemão que esta jornada de ida e volta, a partir de Lobios, seria relativamente dura: cerca de 33 km … e mais de 1100 metros de desnível a vencer!
Ao fundo a barragem de Paradela, rumo à raia, 19.10.2010
Num projecto deste género (bem como no inicialmente delineado), o carro seria um estorvo. Deixávamo-lo em Pitões? E depois? Não tenho telecomando para o teletransportar para Lobios... J! Mas de Lobios ao Lindoso são apenas 15 km, que com uma ou outra variante pela base da Serra de Santa Eufémia … dariam para uma terceira caminhada. Assim, havia portanto que chegar a Pitões das Júnias … e que regressar a partir do Lindoso. O passo seguinte era fácil: estudar as empresas e os horários dos autocarros. Entretanto a meteorologia apontou para uma semana entre 18 e 22 de Outubro com céu limpo praticamente em todo o país … nomeadamente nas terras "mágicas" do Gerês. As condições estavam reunidas ... para uma "modalidade" de viajar que, adoptada aos quase 60 anos, convenhamos que não será muito usual... J! Nalguns troços pedestres em que necessariamente tivemos de ir ao longo de estradas … até gostava de saber o que terá passado pela cabeça de quem se deparava com a imagem de dois "peregrinos" quase sexagenários, estrada fora, de mochilas às costas (a minha bem grande…), um deles careca e a outra de cabelos brancos...
E assim, na 2ª feira 18 de Outubro de 2010, pouco antes das dez da manhã, estávamos a sair de casa a pé, de mochilas às costas, despedindo-nos ainda da nora e netas … com estas últimas muito admiradas com o "filme" que estavam a ver... J! O primeiro dia foi rumo a Braga e depois a Montalegre. Na viagem Braga / Montalegre tive um choque: só pode ter sido por autodefesa … mas não me lembrei que ia ver a Serra Amarela... Além do choque resultante de não me ter lembrado que ia ver a imagem que vi … a imagem que vi era pura e simplesmente dantesca! Em momento algum da minha muita indignação daquele verão imaginei que o cenário era aquele! E obviamente … só vi uma parte. Ainda pensei puxar rapidamente da câmara … mas não quis reter ainda mais aquele cenário. Toda a Serra Amarela … era uma Serra Negra! Mas negra de carvão! Toda a zona adjacente ao S. Bento da Porta Aberta; toda a encosta a oeste da barragem da Caniçada, portanto a zona da Junceda e da Calcedónia, com o Pé de Cabril ao fundo, único morro que sobressai do inferno negro abaixo dele; toda a encosta oeste do vale do Rio Gerês e até parte da encosta leste (portanto já Serra do Gerês), todo esse cenário era dantesco … e a acrescentar ao cenário duas grossas colunas de fumo soltavam-se da meia encosta; acredito que fossem queimadas controladas … mas não sei. Felizmente o autocarro passou a mostrar a Serra do Gerês, a Amarela agora negra ficou para trás … mas a imagem ficou gravada. As alturas das Rocas Alva e Negra, as barragens do Cávado e o planalto da Mourela lá ao fundo, para onde íamos naquele dia esplendoroso, conseguiram-me consolar um pouco. E depois de Salamonde o autocarro passou a ser quase que exclusivamente de transporte de escolas … pelo que o motorista resolveu pôr o Dartacão a passar no vídeo de bordo... J!
Às 18:15h estávamos em Montalegre ... e uma taxista levou-nos rapidamente à aldeia "mágica" de Pitões
Prosseguimos no Xurés galego, 19.10.2010
das Júnias! Em Pitões, as minhas "velhas" amigas Marias já nos esperavam. A "Casa do Preto" e a Srª Maria (mãe) são o nosso poiso em Pitões desde a primeira vez que lá fomos, há mais de 30 anos. Quantos serões passados à sua velha lareira, com grupos de alunos que ficavam aos 4 e aos 5 em cada um dos poucos e pequenos quartos que então ela alugava; a Srª Maria (filha) conhecemo-la desde jovem e a Sandra (neta) … quase desde que nasceu! Num dia de semana e em época já baixa … é claro que fomos os únicos hóspedes … mas a bela posta de vitela barrosã claro que não podia faltar … até porque precisávamos de energias para a caminhada do dia seguinte.
E no dia seguinte, 19 de Outubro, sete horas e pouco, ainda noite, estávamos a pé. Temperatura exterior … 4ºC; já está fresquinho…! Higiene, arrumações, mochilas carregadas com toda a "tralha" necessária. O padeiro vinha às 7:45h, as Sr.as Marias serviram-nos o habitual pequeno-almoço, trocamos impressões sobre as caminhadas que vamos fazer ... e às 8:30h estávamos a partir a pé, rumo a norte, à Portela de Pitões, por caminho meu bem conhecido, já que este troço inicial é o mesmo que segue para as alturas da Brazalite e da Fonte Fria. Recentemente alcatroado até à fronteira, abandonámos contudo o caminho principal por alturas do Outeiro do Grosal e das Lamas da Portela, com a Fraga da Espinheira a dominar a paisagem a poente … onde o velho carreiro desapareceu na vegetação e nos obrigou a um pequeno troço de corta-mato. Pouco mais de 5 km feitos … e estávamos a entrar no Xurés galego, a 1290m de altitude, mais 170 do que Pitões. A panorâmica era magnífica tanto para terras lusas, com a barragem de Paradela ao fundo, o sempre visível ponto branco da Capela de S. João da Fraga, a espinha dorsal da Serra do Gerês a sudoeste; para norte e nordeste, terras galegas e parte do "dedo" português onde se situa Tourém, que contudo não se vê; a barragem de Salas e as aldeias galegas de Randín, Maus de Salas, Guntumil e outras, essas salpicavam a paisagem. O Albergue da Serra do Pisco também se via, na encosta junto à estrada fronteiriça da Portela de Pitões.
Carballeira da Barxa, Xurés galego, 19.10.2010
Agora a descer a encosta galega, rapidamente começamos a ver a poente a mancha florestal para onde nos dirigimos: a Carballeira da Barxa, um carvalhal espectacular, onde o musgo invadiu as pedras e as árvores. A barragem de Salas continua a dominar a paisagem a nordeste, agora sim chegam-se a ver as últimas casas de Tourém, e a sul surge-nos uma imagem bem minha conhecida … mas nunca vista daquele ângulo: os Cornos da Fonte Fria destacam-se contra o céu azul. Pouco passava das 11 da manhã (hora portuguesa), quando entrámos nas sombras de um mundo saído de uma história de gnomos e duendes do bosque. Cores outonais havia ainda poucas, mas água jorrava de todas as encostas, por vezes mesmo acompanhando-nos na marcha ao longo de velhos carreiros. Ultrapassado um caudaloso regato vindo das alturas das Gralleiras … recomeçamos a subir, primeiro em direcção SW e inflectindo depois para NW, saídos já do carvalhal. Com 10,2 km percorridos e novamente a descer para a aldeia abandonada de Salgueiro, resolvemos fazer a paragem para almoço pouco antes de lá chegar. O dia continuava esplendoroso, uma sombra no caminho e umas pedras que fizeram de bancos foram providenciais. E o almoço foi … arroz de tamboril! Enlatado e pré-cozinhado, claro... J! Mas não deixou de ser acompanhado por um néctar do Douro … embora também por água do último regato por onde tínhamos passado.
A aldeia de Salgueiro foi abandonada em meados do século passado, pertencendo hoje ao Governo da Galiza, que está a restaurar as casas e a transformá-la naquela que virá a ser a primeira aldeia ambiental galega. É necessária uma autorização, a pedir ao "Parque Natural Baixa Limia / Serra do Xurés", autorização que obviamente tínhamos pedido e transportávamos connosco … mas que ninguém nos pediu … até porque naquele dia não havia ninguém a trabalhar no restauro da aldeia. Trata-se de uma típica aldeia serrana, com as suas casas de pedra, algumas com telhados de colmo, todas elas em processo de restauro, algumas a ser transformadas em museu, bem como a sua velha igrejinha.
Carballeira da Barxa em tons de Outono, Xurés galego, 19.10.2010
A aldeia abandonada de Salgueiro, Xurés galego, 19.10.2010
Passada Salgueiro … nova subida! Permite-nos apreciar o conjunto da aldeia. Dirigimo-nos agora francamente para oeste, passamos a Corga das Cuartas, junto da qual deixamos o concelho de Muiños, para entrar no de Lobios. Ao fundo, parecendo chamar-nos ao longe, vemos já as antenas da Louriça, na Serra Amarela, e as de Santa Eufémia, por cima do nosso destino, Lobios. A barragem do Alto Lima também aparece já no nosso horizonte. Começamos definitivamente a descer, agora para o vale do rio Mao. Com 16,7 km feitos, às três da tarde chegamos à estrada OU-1206, Cela – Lobios, e pouco depois atravessamos a aldeia de Puxedo. A distância que nos faltava percorrer para Lobios sabíamos que teria de
Vale do Rio Mao, Xurés galego, 19.10.2010
ser maioritariamente por estrada, mas felizmente estradas muito secundárias e com bermas que davam para a fuga ao alcatrão. Mesmo assim, sempre que possível procurámos os atalhos que a carta nos indicava, no sentido de sair da estrada e encurtar distância. A primeira "saída de estrada", a seguir a uma aldeia chamada Vila, não correu muito bem: o velho sendeiro que a carta indicava era tão velho … que já não existia; obrigou-nos a um troço de corta-mato um pouco fastidioso, ainda por cima numa zona onde as moscas proliferavam. O segundo corte correu melhor: no vale do rio Cabaleiro, desembocámos facilmente na Ponte de San Martiño, a poucos quilómetros já do nosso destino. E assim, às 17:20h e com 25,1 km percorridos, estávamos em Lobios … e no também já nosso velho conhecido "Hotel Lusitano".
Veja o vídeo desta "aventura", mas também o álbum de fotos completo neste link)


19/09/2011

quarta-feira, 15 de março de 1989

Pitões das Júnias - Fonte Fria - Carris - Portela do Homem - Vidoeiro: a grande travessia do Gerês!

Desde a primeira descoberta do Gerês - e já tinham passado quase 14 anos! - que aquelas serras, terras e gentes me cativavam, me chamavam, como se fossem efectivamente minhas. As anteriores "aventuras" com alunos tinham aumentado essa paixão ... mas também tinham fomentado o desejo de correr mais e conhecer mais! Na "aldeia mágica" de Pitões das Júnias, conversas à lareira falavam-me da Fonte Fria, das muitas fragas da serra, da aldeia esquecida do Juriz, da Capela do S. João da Fraga, de histórias de lobos, da Brazalite, do correr das águas do Ribeiro dos Fornos, ou das muitas outras Corgas que descem da serra, da raia galega. Conversas à lareira falavam-me de velhos trilhos, falavam-me das Minas dos Carris, da labuta de mineiros por vezes isolados pela neve e pelo frio, "perdidos" nos altos cumes ou nas entranhas daquela Serra do Gerês. Como Torga, a lareira da "Casa do Preto", em Pitões, cada vez mais me ensinava que ...

Há sítios do mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles.
(Miguel Torga, "Diário VII")

Não tínhamos ainda chegado à era dos GPSs,  mas o estudo dos mapas e cartas militares  permitia  sonhar
Barragem da Venda Nova, a caminho
de Pitões das Júnias, 14.03.1989
com uma travessia pedestre que unisse os dois pontos a que até aí mais vezes havia levado os alunos: Pitões das Júnias às Caldas do Gerês, pela Serra! A Srª Maria dizia-me que era possível, contava-me histórias de quem já a tinha feito, mas o mesmo estudo e um cálculo empírico mostrava-me tratar-se de um projecto completamente diferente dos "passeios" feitos até aí com alunos: seria uma jornada seguramente superior a 40 km, de todo não aconselhável a pessoas sem qualquer treino de pedestrianismo, fossem elas alunos ou professores. Mas ... não tinham diversos alunos meus chegado ao Lago de Marboré, nos Pirenéus, no verão de 1988, vencendo um desnível superior a 1300 metros?...
Pitões das Júnias: ao fundo... os cumes da grande travessia!
Contactado o Parque Nacional da Peneda-Gerês, disponibilizou este de imediato um guia para nos acompanhar, homem bem conhecedor do terreno. Regras, metodologias e percepções bem diferentes daquelas que actualmente infelizmente se praticam... Assim, em Março de 1989 estavam reunidas as condições para uma "aventura" que ficou histórica. No dia 14 de Março, estava em Pitões das Júnias com um grupo de cerca de 50 alunos e professores, agora no âmbito do Clube "Amigos da Natureza". Nessa tarde ainda fomos ao velho Mosteiro e à cascata ... preparando-nos para a grande travessia do dia seguinte. A selecção dos participantes já ia mais ou menos feita de Lisboa, consoante as opções individuais, a resistência que eu já conhecia daqueles alunos ... e até consoante o calçado com que cada um se propunha meter pés à serra.
E começa a grande aventura, 15.03.1989
Não havia, como agora, helicópteros para ir buscar turistas ... e, mesmo que os houvesse, eu não queria ser notícia de televisões e de jornais...
Pouco passava das 6 e meia da manhã de 15 de Março de 1989, um grupo de 25 alunos estava a partir de Pitões rumo à serra, acompanhados por mim e por outro professor e grande amigo ... e "comandados" pelo guia do Parque Nacional, que havia sido pastor, quase dançando no cajado ao longo dos trilhos e fragas da serra. Como em tantas outras ocasiões, apoderou-se de mim uma sensação
Fornos, a caminho da Brazalite, 1200m alt.
de libertação e de êxtase, de catarse. Eu pertenço às serras, às fragas, às águas que correm cintilantes, ao azul do céu ou à alvura da neve. Sim, da neve, que, não muita, mas ainda existia nalguns pontos da nossa histórica travessia.

PÁTRIA
(Miguel Torga, "Diário II")
Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
- sob a garra dos pés a fraga dura,
e o bico a picar estrelas verdadeiras...

Os restantes alunos e professores permaneceram em Pitões até depois do almoço, seguindo depois no autocarro para as Caldas do Gerês e o Vidoeiro ... onde esperávamos chegar ao fim do dia, sãos, salvos ... e purificados pela serra!
Há que subir...
... para atingir a cumeada
Por alturas da Fonte Fria, 1370m alt.
A jornada prossegue, ao longo da raia galega
O primeiro troço levou-nos ao Outeiro do Grosal, para atravessar depois o carvalhal de Fornos, em direcção à Fraga de Brazalite e à Fonte Fria. Só aí ganhámos a cumeada e a raia galega. Até lá, tínhamos andado para NW, para ganhar altitude, só então inflectindo para SW, rumo aos Carris ainda distantes. Restos de neve lembravam-nos que faltavam ainda uns dias para a Primavera. À hora do almoço ... uma fogueira saída por magia das mãos do nosso guia, serviu para aquecer as almas; o friozinho era de respeito.
Restos de neve de um Inverno ainda presente
"Serra! E qualquer coisa dentro de mim se acalma..."
E, já ao fundo, os Cornos da Fonte Fria
Horas de almoço ... mas o frio aperta...
... pelo que a fogueira é arte providencial
"Eu sou um homem de granito..."










Cabeços de Mação, Fraga do Paul, umas vezes do lado português, outras do lado galego, íamos progredindo ao longo de uma paisagem de cortar a respiração. A leste, Pitões das Júnias continuava-nos a aparecer no horizonte, com a alva Capelinha do S. João da Fraga como guarda avançada; a sul, o vale do Cávado, a barragem de Paradela; a nordeste, o rio Salas e a sua barragem, deixando adivinhar Tourém; a norte, a encosta do Xurés galego, com as cicatrizes do rio Mao e do rio de Lobios, correndo para o Lima; e, a sudoeste, percebe-se já o Pico da Nevosa, tecto do Gerês e do norte de Portugal. Estamos já aos 1500 metros de altitude, mas contornamos a Nevosa pelo lado galego, à vista do Sobreiro e do mítico Altar de Cabrões, ziguezagueando ao longo da fronteira, entre o Curral de Marabaixo e a Garganta das Negras ... para chegarmos enfim aos Carris!
Chegamos à Lagoa dos Carris, 1470m alt., 15.03.1989
Minas dos Carris, 15.03.1989: à direita, o nosso guia
A sensação de estar nos Carris é uma experiência fantástica. É um lugar mágico, em que a energia telúrica toca os céus, as nuvens, o vento. Por entre as ruínas, quase se ouvem e se sentem os sons da "multidão que minava as fragas à procura de volfrâmio, por conta da guerra e de quem a fazia". E também, tal como a Torga, "Pitões acenava-me lá longe", já não tanto "de tectos colmados e de chancas ferradas", mas a "aldeia mágica" lá estava no horizonte, naquela tarde em que pela primeira vez subi aos Carris, na atmosfera límpida de uma tarde fria de fim de Inverno ... naquele "Reino Maravilhoso" em que estávamos.
Mas ... era preciso chegar ao Vidoeiro de dia! O nosso guia e mestre daquela fantástica "aventura" alertava: "temos de descer, temos de descer". E descemos! Descemos às Abrótegas, ao encontro do jovem Rio Homem, agora ao longo do velho estradão mineiro, por onde circularam tantos e tantos homens e máquinas. E entrámos no fantástico vale do alto Homem, o mesmo que Miguel Torga subiu, em sentido inverso, a caminho dos Carris. Entre as alturas do Madorno ou do Cantarelo, a sul, e as da Encosta do Sol, a norte, o jovem rio Homem desce abruptamente, recebendo as águas do Cagarouço, da Água da Pala, de muitas outras ribeiras e torrentes. Em 1989, o velho estradão ainda se subia ou descia muito razoavelmente; hoje ... está transformado numa torrente de pedra solta.
E assim, com mais de metade daquela tarde de 15 de Março passada, chegámos às já velhas conhecidas piscinas naturais do Rio Homem, junto à Ponte de S. Miguel. Ponte e piscinas velhas conhecidas ... inclusivamente de alguns daqueles "heróicos" alunos, que haviam lá estado havia um ano. Os outros, os que não conheciam ... estavam longe de saber que ainda faltavam mais de 10 km para o Gerês! Alguns pés já estavam bastante sofridos, mas a camarata do Vidoeiro e os outros camaradas de "aventura" esperavam-nos. Muitas das curvas da velha estrada Portela do Homem - Gerês - que os autocarros não sobem - foram feitas a corta mato ... e a luz do dia já praticamente se tinha esvaído quando entrei, acompanhando os mais retardatários, na "nossa" Casa-Abrigo do Parque Nacional, no Vidoeiro.
E a caminho do Gerês e do Vidoeiro, passando o cruzamento da Bouça da Mó. Já "só" faltavam ... 10 km
Esta travessia do Gerês foi uma "aventura" memorável. Exaustos, mas felizes, as instalações da Casa-Abrigo do Vidoeiro pareceram-nos o mais confortável dos hotéis! Era preciso descansar ... até porque ainda iríamos viver mais "aventuras", para os lados do Soajo e de Castro Laboreiro!
Andávamos a percorrer ... um "Reino Maravilhoso"!

"Sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade".       (Miguel Torga)


A travessia do Gerês no Wikiloc / Google Earth:



17 de Fevereiro de 2011