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sábado, 30 de dezembro de 1972

Os "anos loucos" (2): 1971 / 72

Regressado da "aventura" africana, em 1971 as aulas no Passos Manuel começaram um pouco mais tarde ... pelo que os primeiros dias de Outubro foram no Portinho da Arrábida, depois de atravessarmos a serra a pé, desde Azeitão, passando pelo cume do Formosinho. E em Novembro, à Espeleologia, aos acampamentos, às caminhadas ... juntei o Mergulho Amador!
Porto de abrigo de Sesimbra,
Abril de 1972
No mergulho fiz novos amigos. Aí convivi também bastantes vezes, aí adquiri novas e ricas experiências. Às sessões de piscina do curso, seguiram-se as sessões de mar, em Sesimbra ... e em 21 de Novembro de 1971 tornei-me Mergulhador Amador diplomado. Mas ainda me lembro da minha primeira sessão de mar: fui o 4º a saltar, um salto no desconhecido; lá em baixo, via os outros agarrados à corda da âncora, os monitores descendo ao nosso lado. A 20 metros já não se via a superfície. Bastava-me agora uma ligeira movimentação do corpo para nadar noutra direcção e descobrir mais maravilhas.
O destino era quase sempre o litoral da Arrábida, Sesimbra particularmente, onde tínhamos uma casa-abrigo e uma traineira por nossa conta, a velha Barca do Joaquim Zé. Ainda fizemos nela uma épica viagem de Sesimbra a Sines, em Maio de 1972, com regresso no dia seguinte: 6 horas contra a nortada, com as nossas entranhas a quererem abandonar-nos o corpo! Nem coragem tivemos para despir os fatos de borracha...!

Porto de abrigo de Sesimbra, Agosto
de 1972 - Erguer a voz e cantar...
9 de Agosto de 1972 foi o dia do meu mergulho mais profundo, ao largo de Sesimbra: 65 metros de profundidade. Senti-me um Cousteau ou um Hans Hass...! O mundo do silêncio revelou-se-me também o mundo das trevas eternas; a luz abandonou-nos quase completamente por volta dos 40 metros, seguindo-se uma penumbra cada vez mais densa e misteriosa. Tocámos por fim o fundo, de uma vasa mole e escorregadia, evidenciando os efeitos da pressão já razoável: quase 8 vezes mais do que à superfície.
Mas, para além das maravilhas do mundo submarino que em cada mergulho se nos patenteavam ... mais uma vez não faltavam, nunca, as horas de convívio, de sã camaradagem, de cânticos cantados no velho "Tic" ou nas escadas do porto de abrigo, enquanto os compressores enchiam as garrafas para as novas "aventuras" que nos esperavam no dia seguinte.

Março de 1972 - Gruta nova, Chãos,
Alcobertas (Sª de Candeeiros)
Mas o Mergulho não fez esmorecer a Espeleologia e os acampamentos. Que será feito daquela boa gente que nos recebeu em Chãos, na Serra de Candeeiros, em Março de 1972 ... durante 11 dias?! O café do lugar foi logo baptizado: "Café cá do sítio"...! O neto do dono do café … até participou connosco na exploração das grutas. As grutas de Alcobertas são as maiores, mas muitas mais grutas e algares ali explorámos ao longo daqueles dias; algar das Cancelinhas, lapa do vale da lagoa, algar da Chouza do Luís, algar da Ortinha, são nomes que nunca mais me saíram da memória. Num esplendoroso dia em que subimos ao cruzeiro e marco geodésico, via-se toda a costa, de Peniche à Figueira da Foz, as Berlengas, a Lagoa de Óbidos, S. Martinho do Porto, a Nazaré, tudo em redor.
Chãos, Março de 1972: à porta do...
"Café cá do sítio"...
Destes 11 dias em Chãos também recordo ... quando levámos 6 horas para fazer o almoço...! Ambicionando um pitéu mais sofisticado, resolvemos que a ementa seriam batatas fritas com "lanche" ("lanche" era uma carne enlatada típica nos anos 70 do século passado...). Fomos comprar óleo, juntámos lenha, acendemos a fogueira, pendurámos a panela por cima com o óleo, mas ... há sempre um mas...: a lenha estava molhada, tentámos avivar o lume com pedras de carbureto dos gasómetros ... e 6 horas depois estávamos a comer batatas cozidas ... em óleo...J!

Em Junho de 1972 voltámos ao Alviela. Recordo-me de um dia em que regressámos às tendas quase à meia noite, depois de mais uma exploração nas grutas do Amiais. Mas a noite estava uma maravilha, convidativa a um passeio nocturno. E assim, sob um céu repleto de estrelas, ao luar, cantando velhos cânticos, subimos e descemos encostas, atravessámos pinhais, ouvindo o rio que corre ligeiro mais abaixo, a música da Natureza. Às duas e meia da manhã estávamos de novo nas tendas.

Em Julho de 1972 acampámos, eu e mais dois, nos pinhais junto à Praia de Santa Cruz (fotografia no artigo de apresentação). E, no mês seguinte ... que dizer da semana vivida no Campo de Trabalho da Godinha, perto de Campo Maior, na apanha do tomate? Para lá fui a pé e à boleia. 6 boleias, incluindo um táxi, um tractor ... e uma carroça! Saído de Lisboa às 7 da manhã ... às 10 da noite ainda estava em Elvas ... e a noite foi debaixo de uma oliveira, num terreno lavrado, com as estrelas por tecto. Às 6 e meia da manhã do dia seguinte, 14 de Agosto, o Sol já há algum tempo havia lançado os seus primeiros raios. A minha 84ª noite de campo ... foi a primeira noite completamente ao relento.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
Depois ... depois foi uma das melhores semanas da minha vida, nos meus quase 19 anos! Tratava-se de um Campo de Trabalho para jovens, onde o "tema" principal ... era a apanha do tomate. Mas aqueles dias foram uma experiência ímpar de solidariedade, de vivências, de camaradagem entre todos os rapazes e raparigas que ali estiveram. A imensidão dos campos da Godinha, o trabalho nas plantações, debaixo de um Sol ardente e um céu sempre azul, a convivência com a gente do monte e no grupo, proporcionaram-me recordações que jamais esquecerei. No grupo de jovens havia alguns timorenses, ensinando-nos canções da sua terra distante. Um deles, viria mais tarde a ser conhecido nacional e internacionalmente: D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
O trabalho na Godinha era remunerado, claro. Lembro-me que ganhei o suficiente ... para no último dia me instalar confortavelmente numa Pensão em Elvas, ir ao cinema ... e regressar de autocarro a Lisboa. Mais um fascículo d'"A Fauna", do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente, foi a leitura que ocupou o regresso a casa. Ao chegar, já tudo me parecia um sonho: os campos a perder de vista, a noite ao relento, Elvas, a apanha do tomate ... mas principalmente o que trazia de vivência e de enriquecimento interior.

Poucos dias depois da Godinha, percorri com meus pais todas as ilhas dos Açores, de Santa Maria ao Corvo. E m
enos de 2 meses depois ... o "meu" Liceu Passos Manuel tinha passado à história. Sem dúvida por influência do Ribau, iniciei em Outubro de 1972 a minha Licenciatura em Biologia. A velhinha Faculdade de Ciências, ainda na Rua da Escola Politécnica, recebia-me para os 5 anos académicos seguintes.

Mas, para fechar este ciclo, Novembro e Dezembro de 72 foram de novo dois "meses loucos": voltámos por três vezes a Chãos e à boa gente que tão bem nos havia recebido em Março, para novas explorações nas grutas de Alcobertas e alguns algares próximos. No fim de Novembro ... mais um fim de semana de mergulho, em Sesimbra. E, nos últimos dias do ano, de 27 a 30 de Dezembro, uma actividade ao largo de Setúbal, Tróia e Arrábida, no 1º Encontro Nacional de Mergulhadores Juvenis, fechou estes dois intensos anos ... aos quais na altura me referia muitas vezes como os melhores anos da minha vida!
13 de Janeiro de 2011

3 comentários:

JORGE FIGUEIREDO SANTOS disse...

Boa oportunidade, para evocar o Félix Rodriguez La Fuente, que foi determinante para mim, adolescente, no gosto pela Natureza. Em termos televisivos, foi preciso esperar muitos anos, para conhecer outro "mestre" de calibre, o David Attenborough.

António disse...

É muito agradável acompanhar as crónicas destas viagens, também no tempo, à descoberta dos picos e das entranhas desta nossa terra e das suas gentes! Não há quatro sem cinco...

Mousinho

José Carlos Callixto disse...

Obrigado a todos, aos que já comentaram e aos que eventualmente ainda venham a dizer algo. Continuem a acompanhar ... porque ainda falta muito para chegar à actualidade... :-)