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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pitões das Júnias - Salgueiro - Lobios
Travessia do Gerês luso - galaico

Como tenho tentado contar através deste blogue, a minha paixão pelas terras "mágicas" do Gerês já vem de há quase 40 anos! Depois da "descoberta", pela mão do saudoso Prof. Carlos Almaça, levei eu durante anos, já como professor, largas centenas de alunos a conhecerem aquelas serras, terras e gentes, de Tourém a Castro Laboreiro. Em Março de 1989, fiz pela primeira vez a travessia Pitões das Júnias – Fonte Fria – Carris – Portela do Homem – Caldas do Gerês, acompanhado de um grupo de 12 alunos e um
Pitões das Júnias, 19.10.2010, 8:30 h, 4ºC
outro professor e grande amigo. Tanto antes como depois dessa "histórica" travessia, perdi a conta às minhas deambulações pelo Gerês, com alunos, em família, sozinho, ou com os Caminheiros a que em boa hora entretanto me associei. Sem que para isso haja grande explicação, afeiçoei-me sempre mais às zonas centro e leste do Parque Nacional, particularmente à Serra do Gerês.
Apesar dos périplos atrás referidos, muitas zonas havia e há ainda para conhecer e descobrir naquelas terras mágicas. Há algum tempo que tinha começado por isso a congeminar uma travessia mais ou menos em autonomia, passando precisamente por algumas dessas zonas que ainda queria conhecer. Já tinha subido por duas vezes ao Borrageiro, a partir da Teixeira e do Camalhão, mas nunca tinha percorrido as Sombrosas ou o vale do Conho, por exemplo; e outras zonas, claro. Assim, "desenhei" um projecto e lancei um desafio a alguns amigos, sabendo contudo de antemão que não seria  fácil  arranjar acompanhantes,  já  que  o projecto implicaria uns  5  dias  e  a maioria  dos amigos com
"estaleca" para o fazer não estão reformados como eu…! Por outro lado, não seria nunca possível marcar uma data específica para concretizar o projecto, já que o mesmo dependeria essencialmente das previsões meteorológicas. Jamais me passaria pela cabeça a inconsciência de me meter e meter alguém numa "aventura" … com o objectivo de "passear" de helicóptero e de aparecer nas televisões…! A data de concretização do projecto … seria portanto a primeira em que a meteorologia garantisse pelo menos 5 dias seguidos de tempo seco e pouco nublado. O FreeMeteo é uma das muitas "bíblias" que hoje permitem que só se vá para a serra em dias de temporal e chuva forte … se se for completamente inconsciente.
Vai começar a "aventura"...   19.10.2010
Até meados de Outubro de 2010, apesar de reformado, os dias livres na minha agenda não coincidiram com bom tempo. Estando na disposição de avançar mesmo que eventualmente sozinho, a minha "sócia" e possível acompanhante ergueu contudo a "bandeira" das temperaturas que começavam a descer, dos dias que começavam a ter poucas horas de luz, das dificuldades daí resultantes para a eventual passagem de uma ou mais noites na serra. E ditou, assim, duas "leis": "proibia-me" de ir sozinho, mas dispunha-se a acompanhar-me … desde que ficássemos "debaixo de telha". Bem, como as "leis" são para se cumprir … estudei as alternativas que o permitissem. Por exemplo, já tinha estado na Nevosa … mas nunca tinha subido ao Altar de Cabrões; já tinha estado nos Carris, vindo de Pitões ou de Lapela … mas não conhecia as Minas das Sombras, as "irmãs" galegas dos Carris; do lado galego, há muito queria conhecer o carvalhal da Barxa e a aldeia abandonada de Salgueiro. E assim, pegando nestes elementos, foi-se desenhando uma travessia entre Pitões das Júnias e Lobios, maioritariamente portanto pelo Xurés galego, que permitiria cumprir a "lei" de dormir "debaixo de telha" e de, a partir de Lobios, "conquistar" as alturas das Sombras e dos picos fronteiriços. Isto sabendo de antemão que esta jornada de ida e volta, a partir de Lobios, seria relativamente dura: cerca de 33 km … e mais de 1100 metros de desnível a vencer!
Ao fundo a barragem de Paradela, rumo à raia, 19.10.2010
Num projecto deste género (bem como no inicialmente delineado), o carro seria um estorvo. Deixávamo-lo em Pitões? E depois? Não tenho telecomando para o teletransportar para Lobios... J! Mas de Lobios ao Lindoso são apenas 15 km, que com uma ou outra variante pela base da Serra de Santa Eufémia … dariam para uma terceira caminhada. Assim, havia portanto que chegar a Pitões das Júnias … e que regressar a partir do Lindoso. O passo seguinte era fácil: estudar as empresas e os horários dos autocarros. Entretanto a meteorologia apontou para uma semana entre 18 e 22 de Outubro com céu limpo praticamente em todo o país … nomeadamente nas terras "mágicas" do Gerês. As condições estavam reunidas ... para uma "modalidade" de viajar que, adoptada aos quase 60 anos, convenhamos que não será muito usual... J! Nalguns troços pedestres em que necessariamente tivemos de ir ao longo de estradas … até gostava de saber o que terá passado pela cabeça de quem se deparava com a imagem de dois "peregrinos" quase sexagenários, estrada fora, de mochilas às costas (a minha bem grande…), um deles careca e a outra de cabelos brancos...
E assim, na 2ª feira 18 de Outubro de 2010, pouco antes das dez da manhã, estávamos a sair de casa a pé, de mochilas às costas, despedindo-nos ainda da nora e netas … com estas últimas muito admiradas com o "filme" que estavam a ver... J! O primeiro dia foi rumo a Braga e depois a Montalegre. Na viagem Braga / Montalegre tive um choque: só pode ter sido por autodefesa … mas não me lembrei que ia ver a Serra Amarela... Além do choque resultante de não me ter lembrado que ia ver a imagem que vi … a imagem que vi era pura e simplesmente dantesca! Em momento algum da minha muita indignação daquele verão imaginei que o cenário era aquele! E obviamente … só vi uma parte. Ainda pensei puxar rapidamente da câmara … mas não quis reter ainda mais aquele cenário. Toda a Serra Amarela … era uma Serra Negra! Mas negra de carvão! Toda a zona adjacente ao S. Bento da Porta Aberta; toda a encosta a oeste da barragem da Caniçada, portanto a zona da Junceda e da Calcedónia, com o Pé de Cabril ao fundo, único morro que sobressai do inferno negro abaixo dele; toda a encosta oeste do vale do Rio Gerês e até parte da encosta leste (portanto já Serra do Gerês), todo esse cenário era dantesco … e a acrescentar ao cenário duas grossas colunas de fumo soltavam-se da meia encosta; acredito que fossem queimadas controladas … mas não sei. Felizmente o autocarro passou a mostrar a Serra do Gerês, a Amarela agora negra ficou para trás … mas a imagem ficou gravada. As alturas das Rocas Alva e Negra, as barragens do Cávado e o planalto da Mourela lá ao fundo, para onde íamos naquele dia esplendoroso, conseguiram-me consolar um pouco. E depois de Salamonde o autocarro passou a ser quase que exclusivamente de transporte de escolas … pelo que o motorista resolveu pôr o Dartacão a passar no vídeo de bordo... J!
Às 18:15h estávamos em Montalegre ... e uma taxista levou-nos rapidamente à aldeia "mágica" de Pitões
Prosseguimos no Xurés galego, 19.10.2010
das Júnias! Em Pitões, as minhas "velhas" amigas Marias já nos esperavam. A "Casa do Preto" e a Srª Maria (mãe) são o nosso poiso em Pitões desde a primeira vez que lá fomos, há mais de 30 anos. Quantos serões passados à sua velha lareira, com grupos de alunos que ficavam aos 4 e aos 5 em cada um dos poucos e pequenos quartos que então ela alugava; a Srª Maria (filha) conhecemo-la desde jovem e a Sandra (neta) … quase desde que nasceu! Num dia de semana e em época já baixa … é claro que fomos os únicos hóspedes … mas a bela posta de vitela barrosã claro que não podia faltar … até porque precisávamos de energias para a caminhada do dia seguinte.
E no dia seguinte, 19 de Outubro, sete horas e pouco, ainda noite, estávamos a pé. Temperatura exterior … 4ºC; já está fresquinho…! Higiene, arrumações, mochilas carregadas com toda a "tralha" necessária. O padeiro vinha às 7:45h, as Sr.as Marias serviram-nos o habitual pequeno-almoço, trocamos impressões sobre as caminhadas que vamos fazer ... e às 8:30h estávamos a partir a pé, rumo a norte, à Portela de Pitões, por caminho meu bem conhecido, já que este troço inicial é o mesmo que segue para as alturas da Brazalite e da Fonte Fria. Recentemente alcatroado até à fronteira, abandonámos contudo o caminho principal por alturas do Outeiro do Grosal e das Lamas da Portela, com a Fraga da Espinheira a dominar a paisagem a poente … onde o velho carreiro desapareceu na vegetação e nos obrigou a um pequeno troço de corta-mato. Pouco mais de 5 km feitos … e estávamos a entrar no Xurés galego, a 1290m de altitude, mais 170 do que Pitões. A panorâmica era magnífica tanto para terras lusas, com a barragem de Paradela ao fundo, o sempre visível ponto branco da Capela de S. João da Fraga, a espinha dorsal da Serra do Gerês a sudoeste; para norte e nordeste, terras galegas e parte do "dedo" português onde se situa Tourém, que contudo não se vê; a barragem de Salas e as aldeias galegas de Randín, Maus de Salas, Guntumil e outras, essas salpicavam a paisagem. O Albergue da Serra do Pisco também se via, na encosta junto à estrada fronteiriça da Portela de Pitões.
Carballeira da Barxa, Xurés galego, 19.10.2010
Agora a descer a encosta galega, rapidamente começamos a ver a poente a mancha florestal para onde nos dirigimos: a Carballeira da Barxa, um carvalhal espectacular, onde o musgo invadiu as pedras e as árvores. A barragem de Salas continua a dominar a paisagem a nordeste, agora sim chegam-se a ver as últimas casas de Tourém, e a sul surge-nos uma imagem bem minha conhecida … mas nunca vista daquele ângulo: os Cornos da Fonte Fria destacam-se contra o céu azul. Pouco passava das 11 da manhã (hora portuguesa), quando entrámos nas sombras de um mundo saído de uma história de gnomos e duendes do bosque. Cores outonais havia ainda poucas, mas água jorrava de todas as encostas, por vezes mesmo acompanhando-nos na marcha ao longo de velhos carreiros. Ultrapassado um caudaloso regato vindo das alturas das Gralleiras … recomeçamos a subir, primeiro em direcção SW e inflectindo depois para NW, saídos já do carvalhal. Com 10,2 km percorridos e novamente a descer para a aldeia abandonada de Salgueiro, resolvemos fazer a paragem para almoço pouco antes de lá chegar. O dia continuava esplendoroso, uma sombra no caminho e umas pedras que fizeram de bancos foram providenciais. E o almoço foi … arroz de tamboril! Enlatado e pré-cozinhado, claro... J! Mas não deixou de ser acompanhado por um néctar do Douro … embora também por água do último regato por onde tínhamos passado.
A aldeia de Salgueiro foi abandonada em meados do século passado, pertencendo hoje ao Governo da Galiza, que está a restaurar as casas e a transformá-la naquela que virá a ser a primeira aldeia ambiental galega. É necessária uma autorização, a pedir ao "Parque Natural Baixa Limia / Serra do Xurés", autorização que obviamente tínhamos pedido e transportávamos connosco … mas que ninguém nos pediu … até porque naquele dia não havia ninguém a trabalhar no restauro da aldeia. Trata-se de uma típica aldeia serrana, com as suas casas de pedra, algumas com telhados de colmo, todas elas em processo de restauro, algumas a ser transformadas em museu, bem como a sua velha igrejinha.
Carballeira da Barxa em tons de Outono, Xurés galego, 19.10.2010
A aldeia abandonada de Salgueiro, Xurés galego, 19.10.2010
Passada Salgueiro … nova subida! Permite-nos apreciar o conjunto da aldeia. Dirigimo-nos agora francamente para oeste, passamos a Corga das Cuartas, junto da qual deixamos o concelho de Muiños, para entrar no de Lobios. Ao fundo, parecendo chamar-nos ao longe, vemos já as antenas da Louriça, na Serra Amarela, e as de Santa Eufémia, por cima do nosso destino, Lobios. A barragem do Alto Lima também aparece já no nosso horizonte. Começamos definitivamente a descer, agora para o vale do rio Mao. Com 16,7 km feitos, às três da tarde chegamos à estrada OU-1206, Cela – Lobios, e pouco depois atravessamos a aldeia de Puxedo. A distância que nos faltava percorrer para Lobios sabíamos que teria de
Vale do Rio Mao, Xurés galego, 19.10.2010
ser maioritariamente por estrada, mas felizmente estradas muito secundárias e com bermas que davam para a fuga ao alcatrão. Mesmo assim, sempre que possível procurámos os atalhos que a carta nos indicava, no sentido de sair da estrada e encurtar distância. A primeira "saída de estrada", a seguir a uma aldeia chamada Vila, não correu muito bem: o velho sendeiro que a carta indicava era tão velho … que já não existia; obrigou-nos a um troço de corta-mato um pouco fastidioso, ainda por cima numa zona onde as moscas proliferavam. O segundo corte correu melhor: no vale do rio Cabaleiro, desembocámos facilmente na Ponte de San Martiño, a poucos quilómetros já do nosso destino. E assim, às 17:20h e com 25,1 km percorridos, estávamos em Lobios … e no também já nosso velho conhecido "Hotel Lusitano".
Veja o vídeo desta "aventura", mas também o álbum de fotos completo neste link


19/09/2011

sábado, 16 de outubro de 2010

Das aldeias do xisto ao Alto Douro vinhateiro
e ao Buçaco

No rescaldo do turbilhão de sentimentos de revolta pela tragédia que se tinha abatido sobre o Parque Nacional da Peneda-Gerês, em Setembro de 2010 proporcionou-se conhecer um outro grupo de caminhadas e percursos pedestres, o CAOS. Há mais de um ano que não participava em actividades do CAAL, desde os cimos de Mogadouro e Montemuro; e quis experimentar outro grupo. Sinceramente, gostei. Mas os moldes do CAOS são diferentes: não há autocarro, as pessoas organizam-se e juntam-se para participarem nas actividades calendarizadas ou noutras que vão surgindo.
Subindo o vale da Ribeira de Quelhas,
Coentral,  11.09.2010
E assim foi: sem nos conhecermos previamente, eu e duas caminheiras combinámos via site do grupo deslocarmo-nos em conjunto para Figueiró dos Vinhos, onde no fim de semana de 11 e 12 de Setembro iam decorrer duas caminhadas, a de sábado nas faldas da Serra da Lousã, junto à aldeia do Coentral, e a de domingo junto à aldeia de Cumeeira. As caminhadas foram complementadas com uma visita e um almoço convívio na típica aldeia de Casal de S. Simão ... de onde eram naturais os organizadores. E o fim de semana contou ainda, ao entardecer de sábado, com uma tentativa de ver e/ou ouvir os veados que povoam a Serra da Lousã. Foi uma espera inglória ... mas proporcionou agradáveis momentos de silêncio e de comunhão com a serra.
Descendo do Santo António da Neve, 11.09.2010
Clique para ver o álbum
À espera que os veados bramem..., Serra da Lousã, 11.09.2010

                                                             
Uma semana depois estava no Alto Douro com os Caminheiros Gaspar Correia. A 18 e 19 de Setembro, o destino era Vila Real, o Santuário de Panoias e as terras vinhateiras de Santa Marta de Penaguião, com uma bela caminhada pelas faldas da Serra do Viso.
A caminho do Miradouro de S. Pedro de Fontes, Santa Marta de Penaguião, 19.09.2010
Também com a minha "família" caminheira, a 16 de Outubro estava na Serra do Buçaco, subindo da vila à Cruz Alta e, depois, na zona dos moinhos da Serra do Buçaco, entre as aldeias de Aveledo e Carvalho.
18/09/2011

sábado, 14 de agosto de 2010

O Parque Nacional da Peneda - Gerês em chamas,
no trágico mês de Agosto de 2010

Nos primeiros dias de Setembro de 2009, tinha chorado pela tragédia que se abateu sobre o concelho do Sabugal, inclusive nas terras de Vale de Espinho. Em 2010, ainda nos Açores, a 7 de Agosto começo a ouvir notícias de uma calamidade que se viria a revelar trágica: o Parque Nacional da Peneda - Gerês estava em chamas! A praga dos incêndios florestais e as mãos criminosas que todos os anos os provocam iriam, em Agosto de 2010, transformar aquelas "minhas" terras sagradas em cenários dantescos.
Vale e Mata do Cabril, 15.08.2010
(Foto do blogue "Portugal Nature")
Regressado dos Açores, é principalmente no refúgio de Vale de Espinho que assisto, de longe, à tragédia que iria devorar vastíssimas zonas essencialmente da Serra do Soajo e da Serra Amarela; que assisto à guerra de informação e desinformação que a comunicação social veiculava; que procuro acompanhar, por fontes fidedignas, o evoluir da situação no terreno, inteirando-me da completa descoordenação de forças operacionais, da completa incompetência das instituições que tinham a obrigação de há muito ter prevenido a catástrofe, do completo desconhecimento dos (ir)responsáveis de gabinete do que se estava a passar e, muitas vezes, de onde se estava a passar. Mais do que nunca ... este foi um país do "faz de conta"...
Muito mais do que através dos jornais ou televisões, passo aqueles dias de Agosto a acompanhar a tragédia através dos diversos blogues e sítios na net de outros apaixonados pelo Gerês, que lá vivem perto, que estavam a viver a catástrofe por dentro, a sofrer in loco como eu tinha sofrido em Setembro do ano anterior. Apenas para citar alguns exemplos de entre os que mais acompanhei, os blogues "Carris" e "Monte Acima" fizeram um excelente trabalho de informação, com pontos da situação por vezes de hora a hora. Também o site "bordejar" e o blogue "Portugal Nature" acompanhou a triste realidade que se abateu sobre o nosso único Parque Nacional. Permito-me transcrever algumas frases retiradas do post de 14 de Agosto do blog "Monte Acima":

"Das Caldas até à Calcedonia, passando pela barragem de Vilarinho até Brufe, Germil, Soajo, Cabril... tudo preto! As manchas verdes são agora a mais rara e fugidia virtude do PNPG!
Toda a zona da (ex) Amarela virada à albufeira, até Brufe e Germil o cenário é quase pós nuclear, preto, preto, preto e mais preto... Ao longe as enormes colunas de fumo a sair do Mezio e do Soajo e depois outra coluna de fumo tão ou mais espessa a sair da Mata de Cabril.
Antes ainda, na zona do Vidoeiro (toda a encosta Oeste está queimada) o fumo continuava a sair por entre as árvores já queimadas e onde apenas a largura da estrada tinha, na noite anterior, separado o fogo das casas.
.....
Chegados a Entre Ambos os Rios, as colunas de fumo do Soajo e Mezio preenchiam o ceu, a do Soajo era qualquer coisa de assustador, enorme, de fumo preto e com labaredas visiveis a km´s, preenchiam a sua base.
.....
Paragem seguinte: onde desse para ver alguma coisa da Mata de Cabril... só possivel no viaduto sobre o Rio Cabril já junto à fronteira. O fumo era tão ou mais assustador que no Soajo, só diferente na cor, menos preto mas sempre com as labaredas visiveis no pouco que se conseguia "espreitar".
.....
quem conhecia o PNPG já não conhece!"
A 27 de Agosto, o "Público" noticia que "Durante o mês de Agosto arderam 8162 hectares no Parque Nacional da Peneda-Gerês, correspondendo a 11,7 por cento da área total daquela área protegida."
12.06.2010, Serra Amarela  /  A 12 de Agosto publico esta foto no Facebook, com a legenda ... " Esta paisagem já não existe ! "
A Serra do Soajo foi fustigada sucessivas vezes. A zona da Calcedónia foi devorada, dobrando mesmo o fogo a serra e passando para a encosta sobre a barragem da Caniçada. Diversos focos surgiram no Gerês, nas zonas de Fafião e Lapela. Mas a Serra Amarela e, particularmente, a mata do Cabril, da albufeira de Vilarinho da Furna ao Ramisquedo e descendo deste ao vale do Cabril, foi talvez a área mais martirizada. A Mata do Cabril esteve mais de 15 dias a arder!
A paisagem que eu respirei na minha caminhada solitária de Maio, a paisagem que, com os Caminheiros, havíamos visto e vivido 2 meses antes, durante a TransGerês, a paisagem que nos havia levado ao minuto de silêncio em louvor à Natureza ... tinha deixado de existir! Como é possível? Em que país vivemos?...

Anacronicamente, escrevo e publico este post quando mais uma vez as chamas deflagraram no Parque Nacional da Peneda-Gerês! Ontem e hoje, um incêndio de origem quase seguramente criminosa consumiu áreas de mato na Serra da Peneda. Mais uma vez, o blogue "Carris" esteve e está em cima do acontecimento.
17 de Setembro de 2011

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Com os Caminheiros em terras de S. Miguel

Em 1996 e 2000 já tinha percorrido diversas ilhas dos Açores, com alunos, subindo das duas vezes o Pico
Próximo de Algarvia, costa norte de S. Miguel, 3.08.2010
do Pico, topo do território português. 28 anos antes, em 1972, com os meus pais, tinha igualmente percorrido todas as ilhas. Como não há três sem quatro ... de 2 a 9 de Agosto de 2010 percorri a ilha de S. Miguel, com a minha "colega" e a minha "família" caminheira, os Caminheiros Gaspar Correia. Tratou-se de uma bela organização de dois casais da "família", que nos proporcionaram, naquela semana, 4 excelentes caminhadas pelas belezas naturais da ilha verde, para além do conhecimento da terra micaelense na generalidade. No próprio dia 2 visitámos a Gruta do Carvão, próximo de Ponta Delgada, e, para começar as caminhadas em grande ... no dia 3 fizemos a subida ao topo da ilha, o Pico da Vara.
A partir da povoação de Algarvia, na costa norte, o autocarro levou-nos até à base do trilho que atravessa
Sob a protecção dos duendes da floresta...    3.08.2010
a ilha de norte a sul, para iniciarmos então uma espectacular caminhada ao longo de luxuriantes matas de criptomérias, até ao planalto dos Graminhais. A meteorologia estava pouco convidativa, com muitas nuvens e alguma chuva (à boa maneira açoreana), mas mesmo assim fez-se ali a divisão do grupo em dois, optando ou não pela subida ao Pico da Vara. E a subida ao Pico da Vara revelou-se extraordinária, permitindo-nos até observar o raríssimo priolo (Pyrrhula murina), ave endémica destas montanhas de S. Miguel.
A descida fizemo-la depois pela encosta sul, rumo ao Monte Simplício e à povoação ... de Povoação.
Descida do Pico da Vara para Povoação, 3.08.2010
Fumarolas das Furnas, 4.08.2010
No dia seguinte estávamos nas Furnas, numa caminhada que, partindo do Pico do Ferro, nos levaria a contornar a Lagoa das Furnas e a terminar no imponente Parque Terra Nostra.
Depois de um dia livre em Ponta Delgada, o dia 6 era reservado à Lagoa do Fogo. Pela minha parte, das duas vezes que lá havia ido as nuvens esconderam aquelas que muitos consideram as mais belas imagens dos Açores. À terceira seria de vez? E foi! Partindo de Água de Alto, subimos à Serra de Água de Pau, com panorâmicas deslumbrantes sobre a costa sul da ilha. À medida que subíamos, o ambiente "mágico" parecia adensar-se, principalmente ao longo da levada que contorna o Pico da Praia e nos leva às alturas da Lagoa do Fogo. E quando esta se abre aos nossos olhos ... o espectáculo é inesquecível!
Espectáculo dos espectáculos: a Lagoa do Fogo abre-se-nos diante dos olhos, 6.08.2010
Lagoa do Fogo, 6.08.2010
E a Lagoa do Fogo voltava a esconder os seus segredos...    6.08.2010
No regresso, percorremos ainda um troço ao longo da encosta na margem sul da Lagoa. As nuvens e algum nevoeiro emprestavam um ar místico àquela paisagem grandiosa. Depois foi a descida para a praia de Água de Alto. Mas naquele dia ainda tínhamos mais um tesouro natural a descobrir: de barco a partir de Vila Franca do Campo, fomos ao encontro do ilhéu de Vila Franca, autêntico paraíso "perdido" nas águas tépidas do Atlântico. O regresso ... seria uma pequena "aventura"... J.
No ilhéu de Vila Franca do Campo, 6.08.2010
Dia 7 era a vez das famosas Lagoas das Sete Cidades. Depois da "vista do Rei", sobre as lagoas, iniciámos a caminhada junto à Lagoa do Canário, para contornar toda a cumeada sobranceira à Lagoa Azul e terminar na vila de Sete Cidades. E dali seguimos para a não menos espectacular beleza e experiência da Ponta da Ferraria. Que tal um banho de mar (e por sinal à chuva...), com a água do mar ... a mais de 40ºC?! Exactamente, é a experiência que ali se pode viver e que testemunhámos, graças a uma nascente termal submarina, evidência bem notável do vulcanismo que originou estas "ilhas da bruma".
As Lagoas das Sete Cidades, do miradouro da Vista do Rei, 7.08.2010
A "mágica" Ponta da Ferraria, extremo oeste de S. Miguel, 7.08.10
Temperatura da água: 68ºC na nascente termal!  7.08.2010
Costa leste de S. Miguel, do miradouro da Ponta da Madrugada, 8.08.2010
E estávamos no fim. O dia 8 foi de visita "turística" aos miradouros da costa leste ... e no dia 9 estávamos a voar de regresso a Lisboa.
Clique para ver o álbum
completo (500 fotos)
As 4 caminhadas percorridas em terras micaelenses

16/09/2011