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sábado, 6 de março de 1999

Regresso ao Alvão e ao Gerês ... como orientador de estágio

No ano lectivo de 1998/1999 - 22 anos depois do Estágio Pedagógico, no então Liceu Padre António Vieira, e de me ter tornado professor - aceito uma proposta para orientar estágios do ramo educacional da Licenciatura em Biologia e Geologia. São então colocados 3 estagiários na Escola Secundária de Sacavém, sob minha coordenação, em estreita ligação com a Faculdade de Ciências de Lisboa.
Lamas de Olo (Alvão), 3.03.1999
Evidentemente que um dos valores que desde logo quis transmitir aos meus jovens estagiários, foi a concepção de escola aberta, de uma escola para além da escola, da íntima ligação com o mundo real e com a Natureza "apregoada" e "esquematizada" nos programas curriculares. Assim, no âmbito do núcleo de estágio, recuperámos a ideia do velho Clube "Amigos da Natureza", em que tanto as minhas turmas como as dos meus estagiários funcionaram como polo dinamizador de diversas actividades de campo, da Arrábida à Serra d'Aire, ao Alvão, ao Gerês ... aos Picos de Europa!
A primeira foi de 3 a 6 de Março. Destino: Alvão e Gerês! Turmas: 10º1A e 10º1C. Alguns destes alunos e alunas vinham de trás, tinham
Pitões das Júnias, 4.03.1999
sido meus no 7º e 8º anos, tinham participado nas "aventuras" na Tapada de Mafra e Serra d'Aire, em 95/96, e no Gerês em 96/97. Mais um conjunto de alunos que fez história na Escola ... e nas minhas recordações!
No dia 3 de Março de 1999, partíamos portanto para Trás-os-Montes, bem cedo, que o dia era longo. Primeira escala: o Parque Natural do Alvão. Numa tarde muito cinzenta e meio chuvosa, a aldeia "perdida" de Lamas de Olo parecia mais perdida ainda ... principalmente para olhos que nunca tinham visto aquele outro mundo. "É uma daquelas aldeias que parecem perdidas no tempo, com as ruas de pedra cobertas dos "presentes" das vaquinhas e das cabrinhas!! Estava imenso frio e uma chuva que até doía!! ......
Por volta das 18h45 chegámos a Pitões das Júnias, uma aldeia serrana, situada no planalto da Mourela, frente aos picos mais altos da Serra do Gerês, os Cornos das Alturas e... estava a nevar!! É verdade!! Alguns de nós nunca tinham visto nevar e pudemos confirmar que é uma experiência única!! Chegámos àquela aldeia serrana e deparámo-nos com um lindo manto branco que nos veio cumprimentar!!"
Regresso do Mosteiro de Pitões, 4.03.1999
(descrito por Cristiana Franco, aluna, no site do Clube "Amigos da Natureza", Março de 1999)

E mais uma vez a Sr.ª Maria, na sua "Casa do Preto", recebeu um grupo de alunos, a somar aos tantos outros que já lhe havia levado.
No dia 4 de manhã ... o espectáculo era grandioso. Tinha nevado toda a noite! "Ao abrirmos as janelas dos quartos, não podíamos ser surpreendidos com melhor espectáculo: as ruas, os telhados, os campos... tudo coberto de neve!! Completamente indescritível!!" (idem)
E foi sob pequenos nevões intervalados com pequenas abertas que descemos ao Mosteiro e à Cascata de Pitões. Um ou dois bonecos de neve ficaram durante algum tempo a marcar a passagem do nosso grupo...
Em tantas e tantas "aventuras", este foi o único ano em que tivemos de cancelar a visita a Tourém. A estrada que desce da Mourela àquela aldeia "perdida" estava completamente coberta pela neve. Tourém estava isolada. Assim, mais cedo do que previsto, descemos o curso do Cávado, em direcção às Caldas do Gerês e à "velha" camarata do Vidoeiro.
O  "programa",  mais uma vez,  não diferiu do habitual: brincadeiras e convívios  e,  no dia 5,  o percurso  da
Próximo da Pedra Bela, 5.03.1999
geira romana, passando por S. Bento da Porta Aberta e Covide, até Vilarinho da Furna. "Foi aí que iniciámos um percurso a pé de cerca de 12 Km, ao longo do Rio Homem, por vezes com a companhia da chuva! Atravessámos as Matas da Bouça da Mó e de Albergaria, onde vimos os chamados marcos miliários romanos, junto à estrada romana (geira romana) que ligava "Bracara Augusta" (Braga) a Astorga, em Espanha. Ao longo do percurso, e particularmente na parte final, admirámos as sucessivas cascatas do rio Homem. .... Continuámos a andar (agora sempre a subir) e a paragem seguinte foi numa ponte junto à cascata onde há uns anos alguns corajosos tinham tomado banho, só que desta vez não houve nenhum corajoso!! Andámos mais cerca de 2 km e chegámos ao nosso destino – Portela do Homem. .... Às 14h partimos em transporte do Parque Nacional em direcção ao miradouro da Pedra Bela, um dos mais importantes do Parque e que proporciona uma vista sobre todo o vale, avistando-se daí todas as serranias em redor. Daí seguimos para a Cascata do Arado e alguns ainda se aventuraram a seguir o professor Callixto (as duas professoras também se aventuraram...) por aquelas pedras acima até às piscinas naturais do Arado. Da cascata do Arado seguimos para a aldeia de Ermida, outra aldeia típica, cujas ruas, assim como Lamas de Olo, também estão cobertas de "alcatrão derretido"!!""
(descrito por Cristiana Franco, aluna, no site do Clube "Amigos da Natureza", Março de 1999)
Lamas de Olo e Pitões das Júnias, 3 e 4.03.1999
Gerês e regresso, 5 e 6.03.1999
Regressados ao Gerês e jantados, esta última noite ainda teria uma história que ficou para os anais da Escola, das nossas "aventuras" ... e das memórias de todos. "Foi assim: o Cláudio, do 10º1A, perguntou o que é que íamos fazer nessa noite e a Patrícia, da mesma turma, respondeu: "Vamos caçar gambuzinos!". Então não é que o rapaz acreditou?! Passado algum tempo, já estava o pessoal todo a falar dos gambuzinos e a arranjar maneiras de os ir caçar!! Até o professor Callixto disse que era uma espécie protegida pelo WWF (World Wildlide Fund)!! Mas é que não foi só o Cláudio a acreditar... Também a Sara e a Mafalda, da mesma turma, caíram que nem uns "patinhos"!!! Arranjámos uns sacos e lanternas e fomos à caça dos ditos bichinhos!! Andávamos a gritar "Oh gambuzino, gambuzino, gambuzino!!", ou então "Gambuzino ao saco!"!! O Carlos até fingiu que lhe tinham mordido (sim, porque os gambuzinos mordem, são como os gafanhotos só que maiores, assustam-se com a luz e gostam de locais mais ou menos húmidos...)... Às tantas, até o Cláudio afirmava que tinha visto um a saltar da mão do Carlos!!! A Sara tremia, mas continuava à procura com o saco na mão, a Mafalda estava mais calma mas sempre na expectativa...
A professora Ana é que nos chamou à realidade (a nós e ao professor Callixto...), dizendo que já bastava de caçadas!! Dirigimo-nos para o salão das camaratas e aí, com a professora Ana a filmar, o professor Callixto fez uma espécie de discurso! Disse que os gambuzinos eram uma espécie em vias de extinção e que daquele tipo só existiam no Gerês ("Gambuzius geresinus"). No final, agradeceu a todos a forma como participaram ... especialmente ao Cláudio, à Sara e à Mafalda ... porque foram apanhados para os "Apanhados"!!!"
(descrito por Cristiana Franco, aluna, no site do Clube "Amigos da Natureza", Março de 1999)

Com os meus três estagiários, 6.03.1999
Nesta história, é impagável a altura em que, no decorrer da "caçada" nocturna, toca o telemóvel de um dos que foram "apanhados". Era o pai dele ... que lhe pergunta o que está a fazer. Resposta: "estou a apanhar gambuzinos"!!! E ... resposta do pai: "estás a gozar comigo?"...J!
Mas chegava o último dia. Visitámos ainda o Parque Biológico de Gaia, sempre uma muito agradável forma de terminar estas actividades fora da escola.
E ... "Assim terminaram aqueles quatro dias de ar puro e paisagens bucólicas, que transpiram paz e tranquilidade!! Foi sem dúvida uma viagem inesquecível!!!" (Cristiana Franco)
21 de Abril de 2011

sábado, 3 de junho de 1978

E um dia eu sou professor ... das Ciências da vida ao ar livre!

A paixão pelo Ensino, pela docência, pelo lidar com os jovens ... ganhou! Tanto mais que a minha companheira, "saída na rifa" das lides académicas, também perspectivava a carreira do ensino. Assim, num
Na Tapada de Mafra, a caminho da
Tojeira, com o primeiro de muitos
grupos de alunos - 28.05.1977
ano lectivo ainda meio agitado pelas turbulências (1976 / 77), em Janeiro de 1977 iniciámos a última "etapa" da licenciatura em Biologia: o estágio educacional, no ainda Liceu Padre António Vieira. Íamos começar a tentar transmitir a sucessivas gerações de jovens a nossa paixão pelas Ciências da Vida, pela Natureza, pelos grandes espaços naturais!
28 de Maio de 1977 assinalaria a primeira de muitas actividades de campo realizadas com alunos. Pequena, modesta ... mas demos a conhecer aos nossos alunos de estágio a Tapada de Mafra, que nos havia sido revelada dois anos antes.
E a 20 de Julho terminávamos a Licenciatura. Éramos, doravante ... professores...J!
Santa Cruz, Agosto de 1977

O estágio educacional, tal como aliás a maior parte do curso, tinha sido  feito em paralelo com o emprego,  que,  desde  Agosto  de 1974,
Cabo Carvoeiro, Peniche, 4.08.1977
tinha sido no Arquivo de Identificação de Lisboa. Ali fiz bons amigos ... e com eles passámos os verões de três anos consecutivos, em Santa Cruz e "arredores". Como já se nota na foto à esquerda, a Natureza ía-nos também trazer ... o primeiro filho! Na primeira quinzena de Outubro de 1977 deixei o Arquivo de Identificação, fomos colocados como professores ... e nasceu o João...J!

A Escola Secundária de Sacavém ia começar a fazer parte da minha vida, constituindo também ela origem e fim, em si mesma, da minha paixão pela Natureza, pelo pedestrianismo, pelo desbravar dos grandes espaços. Ao longo de 31 anos - apenas com 3 anos intermédios noutras escolas - largas centenas de alunos deixaram-me recordações as mais gratificantes. Se lhes transmiti a minha paixão pela Natureza e pelos seres vivos, o meu amor pelos campos, montanhas e vales - do  estuário  do  Tejo  aos  Pirenéus,  de
Trabalhos de campo nos jardins do
Seminário dos Olivais, 20.02.1978
Castro Marim e de Doñana ao Gerês e à Cordilheira Cantábrica, a quase todas as ilhas dos Açores e da Madeira - também com eles aprendi de certo modo a viver e a conviver, a revivificar as minhas experiências e vivências. Muitos deles são, ainda hoje, bons amigos. A lição do Ribau tinha sido, creio ... bem aprendida.

Logo no primeiro ano de docência "a sério", o programa de Ciências da Natureza do 7º ano de escolaridade apontava para a realização de trabalhos de campo, fora dos muros da escola. Os jardins do Seminário dos Olivais, na Portela, estavam ali mesmo à mão para esses trabalhos. Mas, na manhã do dia 18 de Março de 1978, os noticiários disseram-me que a "minha" Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica, tinha sido consumida pelo fogo! As lágrimas correram-me fáceis e, à tarde, depois das aulas, não me contive sem ir ver o que restou da tragédia, naquela que tinha sido a minha "casa", durante 5 anos.
E ainda nesse mesmo ano, dois locais "de culto" tinham de receber os meus alunos: a Arrábida ... e a Tapada de Mafra!
Em excursão à Arrábida, 27.05.1978
Tapada de Mafra, 3.06.1978


30 de Janeiro de 2011

sábado, 19 de julho de 1975

Os anos revolucionários (1): 1974 / 75

30 de Março de 1974: as primeiras fragas da "nova vida" foram na Arrábida ... com a família Ribau. Tinha combinado com eles e outros da Espeleologia participar numa actividade que incluía o treino inicial de novos espeleólogos. Outros iam começar a vida fabulosa que eu tinha começado 3 anos e meio antes! Acampámos na mata sobre o fojo dos morcegos, onde descemos no dia seguinte. O céu estrelado que se via por entre as clareiras transportava-nos em silêncio para um universo sem tempo. E de novo vieram os cânticos, a convivência ... mas também o amor.
Quando o grupo voltou a Lisboa - na velha VW do Ribau - nós dois seguimos a pé para o Portinho, onde acampámos em plena praia; tínhamos acabado o 1º semestre do 2º ano da nossa Licenciatura em Biologia. Quis o destino que só voltasse a ver o meu ex-professor Ribau 5 anos depois; e a filha Ana Maria, que viveu com o grupo em que eu estava tantas "aventuras" espeleológicas ... 37 anos mais tarde!
Nestes três dias acampados na Arrábida, apenas pensávamos em nós mesmos. Passeávamos pela areia, íamos até à pequena mercearia comprar leite e pão, vestíamos a nossa "farda" submarina, explorávamos a costa rochosa, íamos até à Pedra da Anicha. De regresso, mochila às costas e alegria na alma, fomos a pé do Portinho ao Outão, para apanhar o autocarro ... mas também uma valente carga de água...J!
Acampamento no Portinho da Arrábida, 31 de Março de 1974

Em Abril de 1974 - poucos dias antes da Revolução - voltámos  a  Vale de Espinho ... no  novo  "estatuto"
Vale de Espinho, 16 de Abril de 1974
de recém-casados...J! Era o início de um desbravar da "minha" Malcata, das águas do Côa, dos convívios e patuscadas à beira-rio; eram as terras e as gentes que eu estava a começar a adoptar.
A 25 de Abril de 1974, assistimos com o resto do País e do mundo à queda do Estado Novo. Seguem-se os anos revolucionários, revolu-cionários a todos os níveis, incluindo na Faculdade de Ciências e na nossa Licenciatura em Biologia, como em todas as outras.
Mas o ano de 1974 também teve outro rótulo: casados desde Dezembro, ambos precisávamos tanto "de amor e de sossego" ... mas também "preciso dum emprego"...J! Em Agosto de 1974 ... arranjaram-me um emprego! Empregado no Arquivo de Identificação de Lisboa, desde Agosto de 1974 ... encontrávamos contudo sempre tempo para os acampamentos na Arrábida, para as idas a Vale de Espinho ... tempo para viver e conviver.
Entretanto, o espectro da guerra colonial dissipava-se com a revolução. Com sucessivos adiamentos de incorporação, devido à frequência da licenciatura, quando 3 anos depois a terminei passei directamente à reserva territorial. O serviço militar não fez parte, portanto, das minhas vivências.
Portinho da Arrábida, 4 de Agosto de 1974
25 de Agosto de 1974 - Acampamento no Parque de Campismo do Guincho
Os anos conturbados de 1974 a 76 marcaram também uma certa viragem nas minhas e agora nossas "aventuras". Já não mergulhava desde Abril de 73, a não ser pequenas "explorações" em apneia. Mas a viragem também operada na estrutura do Curso de Biologia, trouxe-me uma cadeira de Oceanografia Biológica ... e trouxe-me a possibilidade de voltar a mergulhar, desta vez "pela mão" do saudoso professor Luís Saldanha. Em Maio de 1975, acampei e mergulhei com ele e com os colegas daquela cadeira.
11.05.1975 - Mergulho ao largo de Tróia                                                                      28.05.1975 - Lagos, preparativos de mergulho
Contudo, o "verão quente" de 1975 parecia estar a operar uma certa "revolução" também em mim: o apelo do mar estava a diminuir ... na mesma proporção em que aumentava o apelo do campo, das florestas, da serra. Afinal ... não tinha eu começado as minhas "aventuras" em terra...J? Não voltei a mergulhar com garrafa, desde Maio de 1975. E a "revolução" foi tão grande que, nas cadeiras opcionais do curso, à citada
Tapada de Mafra, 19 de Julho de 1975
Oceanografia Biológica seguiu-se ... a Dinâmica dos Ecossistemas Terrestres. Dois espectaculares fins de semana passados na Tapada de Mafra, em Junho e Julho de 1975, em trabalhos práticos para a cadeira de Ecologia Geral, terão contribuído também para esta viragem. Obrigado Dr. Carlos Magalhães! Passámos esses fins de semana com ele, a família e os colegas da cadeira, instalados na Pousada Real, percorrendo quase toda a Tapada, a pé e de jeep. Ele e a família ainda hoje são felizmente grandes amigos! Que maravilhosas recordações do convívio entre todos, dos trabalhos de campo, das contagens de roedores, da procura dos dejectos de cervídeos ... e da noite em que julgámos ouvir o ronco de um javali ... confundindo-o com o ressonar de um colega que adormeceu...J!
Poucos dias depois ... iria começar a apaixonar-me pela segunda das minhas actuais "terras natais".
25 de Janeiro de 2011

terça-feira, 17 de abril de 1973

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

Mar de Ancão, Sesimbra,
7 de Janeiro de 1973
No dia 7 de Janeiro de 1973, fiz talvez um dos meus mais belos mergulhos. Saímos para o mar pelas 11:30h, em direcção ao Espichel. Decidimos ir para o Ancão, a melhor zona da costa de Sesimbra. Caímos directamente a 20 metros ... e deslumbrámo-nos imediatamente. Num cenário esplendoroso, "voávamos" sobre rochas arborescentes, cobertas de anémonas, espirógrafos, esponjas, por entre cardumes de peixes coloridos, que nos acompanhavam intrigados. Éramos quatro naquela maravilhosa paisagem submarina,
até que o ar das garrafas o permitiu. Abrimos as reservas e subimos; 38 minutos de mergulho ... pareceram-nos segundos! Na velha barca ... fomos e viemos a cantar. E três fins de semana depois estava de novo a mergulhar, mas desta feita em água doce, na Barragem de Santa Clara, perto da alentejana vila de Sabóia.

E em Fevereiro de 1973 ... "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"...J! Tinha iniciado a Licenciatura em Biologia em Outubro de 72, ganhando com ela novos amigos, novo ambiente de sã camaradagem, tanto entre colegas como com a maioria dos professores da então velhinha Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica. Entre as colegas ... surgiu uma "fraga" que me viria a acompanhar toda a vida...J! A minha paixão pela Natureza, pelo mundo rural, pela gente sã dos nossos campos e das nossas aldeias, amadurecida em tantos e tantos acampamentos e "aventuras" vividas nos "anos loucos" anteriores ... trouxe-me uma estudante de Biologia, como eu, precisamente oriunda desse mundo rural! E como " todo o mundo é composto de mudança " ... a minha e agora nossa vida também mudaram: conhecemo-nos no primeiro ano ... casámos no segundo...J!

Casais do Vale da Pedra, Cartaxo,
10 de Março de 1973
Mudaram os tempos, mudaram as vontades ... mas nasceram vontades construídas a dois ... sempre ligadas à Natureza, ao mundo rural, aos grandes espaços naturais. A primeira "fraga" vivemo-la em Casais do Vale da Pedra, Cartaxo, onde os pais da minha "musa" tinham  uma  pequena  quinta.  À  luz  de  um  candeeiro  de  petróleo,
Portinho da Arrábida, 31.03.1973
Uma viola, uma voz, um ritmo...
ouvindo o vento assobiar por entre as oliveiras e pinheiros, a minha paixão pelo campo crescia ao ritmo do nosso romance ... mas acampadinho à porta, que na época não se permitiam ousadias...J!
E ainda em Março daquele longínquo ano de 1973, a Associação de Estudantes de Ciências organizou uma excursão ao Portinho da Arrábida ... e claro que não podíamos faltar. Que hino à nossa juventude e camaradagem! À volta da tradicional fogueira, todos erguemos bem alto as nossas vozes!
Portinho da Arrábida, 31.03.1973 - Convívio da Faculdade de Ciências

De 14 a 18 de Abril de 1973, realizou-se mais uma actividade de Mergulho, em Sesimbra. O Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador tinha entretanto passado a Serviço de Exploração Subaquática do Secretariado para a Juventude (mais tarde FAOJ). Pela primeira vez ficámos instalados no Forte de Sesimbra, em vez da velha casa-abrigo no porto. Para mim, foram mais três mergulhos espectaculares, na baía de Sesimbra, na Varanda e na Ponta de S. Pedro ... mas os ventos de mudança começavam a soprar fortes: a minha nova estrela não era mergulhadora ... e as saudades levaram-me a regressar um dia antes dos restantes elementos do grupo!
Poucos dias depois ... iria conhecer pela primeira vez as "terras mágicas" da raia Sabugalense, que viram nascer a "fraga" que ainda hoje me acompanha...J!
14 de Janeiro de 2011

sábado, 30 de dezembro de 1972

Os "anos loucos" (2): 1971 / 72

Regressado da "aventura" africana, em 1971 as aulas no Passos Manuel começaram um pouco mais tarde ... pelo que os primeiros dias de Outubro foram no Portinho da Arrábida, depois de atravessarmos a serra a pé, desde Azeitão, passando pelo cume do Formosinho. E em Novembro, à Espeleologia, aos acampamentos, às caminhadas ... juntei o Mergulho Amador!
Porto de abrigo de Sesimbra,
Abril de 1972
No mergulho fiz novos amigos. Aí convivi também bastantes vezes, aí adquiri novas e ricas experiências. Às sessões de piscina do curso, seguiram-se as sessões de mar, em Sesimbra ... e em 21 de Novembro de 1971 tornei-me Mergulhador Amador diplomado. Mas ainda me lembro da minha primeira sessão de mar: fui o 4º a saltar, um salto no desconhecido; lá em baixo, via os outros agarrados à corda da âncora, os monitores descendo ao nosso lado. A 20 metros já não se via a superfície. Bastava-me agora uma ligeira movimentação do corpo para nadar noutra direcção e descobrir mais maravilhas.
O destino era quase sempre o litoral da Arrábida, Sesimbra particularmente, onde tínhamos uma casa-abrigo e uma traineira por nossa conta, a velha Barca do Joaquim Zé. Ainda fizemos nela uma épica viagem de Sesimbra a Sines, em Maio de 1972, com regresso no dia seguinte: 6 horas contra a nortada, com as nossas entranhas a quererem abandonar-nos o corpo! Nem coragem tivemos para despir os fatos de borracha...!

Porto de abrigo de Sesimbra, Agosto
de 1972 - Erguer a voz e cantar...
9 de Agosto de 1972 foi o dia do meu mergulho mais profundo, ao largo de Sesimbra: 65 metros de profundidade. Senti-me um Cousteau ou um Hans Hass...! O mundo do silêncio revelou-se-me também o mundo das trevas eternas; a luz abandonou-nos quase completamente por volta dos 40 metros, seguindo-se uma penumbra cada vez mais densa e misteriosa. Tocámos por fim o fundo, de uma vasa mole e escorregadia, evidenciando os efeitos da pressão já razoável: quase 8 vezes mais do que à superfície.
Mas, para além das maravilhas do mundo submarino que em cada mergulho se nos patenteavam ... mais uma vez não faltavam, nunca, as horas de convívio, de sã camaradagem, de cânticos cantados no velho "Tic" ou nas escadas do porto de abrigo, enquanto os compressores enchiam as garrafas para as novas "aventuras" que nos esperavam no dia seguinte.

Março de 1972 - Gruta nova, Chãos,
Alcobertas (Sª de Candeeiros)
Mas o Mergulho não fez esmorecer a Espeleologia e os acampamentos. Que será feito daquela boa gente que nos recebeu em Chãos, na Serra de Candeeiros, em Março de 1972 ... durante 11 dias?! O café do lugar foi logo baptizado: "Café cá do sítio"...! O neto do dono do café … até participou connosco na exploração das grutas. As grutas de Alcobertas são as maiores, mas muitas mais grutas e algares ali explorámos ao longo daqueles dias; algar das Cancelinhas, lapa do vale da lagoa, algar da Chouza do Luís, algar da Ortinha, são nomes que nunca mais me saíram da memória. Num esplendoroso dia em que subimos ao cruzeiro e marco geodésico, via-se toda a costa, de Peniche à Figueira da Foz, as Berlengas, a Lagoa de Óbidos, S. Martinho do Porto, a Nazaré, tudo em redor.
Chãos, Março de 1972: à porta do...
"Café cá do sítio"...
Destes 11 dias em Chãos também recordo ... quando levámos 6 horas para fazer o almoço...! Ambicionando um pitéu mais sofisticado, resolvemos que a ementa seriam batatas fritas com "lanche" ("lanche" era uma carne enlatada típica nos anos 70 do século passado...). Fomos comprar óleo, juntámos lenha, acendemos a fogueira, pendurámos a panela por cima com o óleo, mas ... há sempre um mas...: a lenha estava molhada, tentámos avivar o lume com pedras de carbureto dos gasómetros ... e 6 horas depois estávamos a comer batatas cozidas ... em óleo...J!

Em Junho de 1972 voltámos ao Alviela. Recordo-me de um dia em que regressámos às tendas quase à meia noite, depois de mais uma exploração nas grutas do Amiais. Mas a noite estava uma maravilha, convidativa a um passeio nocturno. E assim, sob um céu repleto de estrelas, ao luar, cantando velhos cânticos, subimos e descemos encostas, atravessámos pinhais, ouvindo o rio que corre ligeiro mais abaixo, a música da Natureza. Às duas e meia da manhã estávamos de novo nas tendas.

Em Julho de 1972 acampámos, eu e mais dois, nos pinhais junto à Praia de Santa Cruz (fotografia no artigo de apresentação). E, no mês seguinte ... que dizer da semana vivida no Campo de Trabalho da Godinha, perto de Campo Maior, na apanha do tomate? Para lá fui a pé e à boleia. 6 boleias, incluindo um táxi, um tractor ... e uma carroça! Saído de Lisboa às 7 da manhã ... às 10 da noite ainda estava em Elvas ... e a noite foi debaixo de uma oliveira, num terreno lavrado, com as estrelas por tecto. Às 6 e meia da manhã do dia seguinte, 14 de Agosto, o Sol já há algum tempo havia lançado os seus primeiros raios. A minha 84ª noite de campo ... foi a primeira noite completamente ao relento.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
Depois ... depois foi uma das melhores semanas da minha vida, nos meus quase 19 anos! Tratava-se de um Campo de Trabalho para jovens, onde o "tema" principal ... era a apanha do tomate. Mas aqueles dias foram uma experiência ímpar de solidariedade, de vivências, de camaradagem entre todos os rapazes e raparigas que ali estiveram. A imensidão dos campos da Godinha, o trabalho nas plantações, debaixo de um Sol ardente e um céu sempre azul, a convivência com a gente do monte e no grupo, proporcionaram-me recordações que jamais esquecerei. No grupo de jovens havia alguns timorenses, ensinando-nos canções da sua terra distante. Um deles, viria mais tarde a ser conhecido nacional e internacionalmente: D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
O trabalho na Godinha era remunerado, claro. Lembro-me que ganhei o suficiente ... para no último dia me instalar confortavelmente numa Pensão em Elvas, ir ao cinema ... e regressar de autocarro a Lisboa. Mais um fascículo d'"A Fauna", do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente, foi a leitura que ocupou o regresso a casa. Ao chegar, já tudo me parecia um sonho: os campos a perder de vista, a noite ao relento, Elvas, a apanha do tomate ... mas principalmente o que trazia de vivência e de enriquecimento interior.

Poucos dias depois da Godinha, percorri com meus pais todas as ilhas dos Açores, de Santa Maria ao Corvo. E m
enos de 2 meses depois ... o "meu" Liceu Passos Manuel tinha passado à história. Sem dúvida por influência do Ribau, iniciei em Outubro de 1972 a minha Licenciatura em Biologia. A velhinha Faculdade de Ciências, ainda na Rua da Escola Politécnica, recebia-me para os 5 anos académicos seguintes.

Mas, para fechar este ciclo, Novembro e Dezembro de 72 foram de novo dois "meses loucos": voltámos por três vezes a Chãos e à boa gente que tão bem nos havia recebido em Março, para novas explorações nas grutas de Alcobertas e alguns algares próximos. No fim de Novembro ... mais um fim de semana de mergulho, em Sesimbra. E, nos últimos dias do ano, de 27 a 30 de Dezembro, uma actividade ao largo de Setúbal, Tróia e Arrábida, no 1º Encontro Nacional de Mergulhadores Juvenis, fechou estes dois intensos anos ... aos quais na altura me referia muitas vezes como os melhores anos da minha vida!
13 de Janeiro de 2011