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sábado, 8 de fevereiro de 2003

E um dia, em Outubro de 2002 ... descubro a minha "família" caminheira!

Ao longo das minhas "aventuras" e andaduras, já tinha ouvido falar de algumas caminhadas organizadas por um grupo de pessoas inicialmente ligadas à Escola Gaspar Correia, na Portela de Sacavém, até porque duas ou três colegas da minha velha escola pertenciam a esse grupo. Através de uma dessas colegas, então Presidente da Direcção, quis o destino que em Outubro de 2002 eu me "alistasse" no
Por terras de Almoster, 19.10.2002
Grupo de Caminheiros Gaspar Correia. É talvez a única coisa de que me arrependo na vida, não ter entrado mais cedo para este grupo...!
Fundado em Março de 1985, o Grupo de Caminheiros Gaspar Correia "emancipou-se" da Escola onde se formou, transformando-se numa das mais antigas Associações de Caminheiros portuguesas, com actividades pedestres realizadas um pouco por toda a Península Ibérica e ilhas, para além de actividades culturais, ciclistas e de canoagem. Mas, para além das actividades em si, vim a encontrar nos Caminheiros Gaspar Correia uma autêntica família, um grupo extraordinariamente coeso, com um extraordinário sentido de grupo, elevando bem alto valores como os da amizade, da camaradagem, do são convívio. Considerando-me "exigente" a nível de amizades (amigos verdadeiros não se fazem de um momento para o outro), vim a alargar nos Caminheiros o leque de amigos
Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, Malveira, 14.12.2002
com quem gosto de estar, de partilhar emoções, vivências e experiências. Paralelamente às caminhadas, dediquei-me ao Grupo nas áreas em que os meus préstimos pudessem ser mais úteis, nas áreas das minhas carolices e interesses; rapidamente passei a ser o camaraman de serviço, por exemplo...J!
A "estreia" foi no dia 19 de Outubro de 2002. Uma caminhada simples, na zona de Almoster e da ribeira do mesmo nome, próximo de Santarém. Mas uma caminhada na qual senti, desde logo ... que estava ali para ficar. E fiquei...! A 14 de Dezembro estava de novo com eles na Malveira, numa caminhada que envolveu a visita ao CRLI, o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico.
Por terras da Malveira, 14.12.2002
Pela costa de Sesimbra ao Cabo Espichel, 8.02.2003
Já em 2003, a 8 de Fevereiro, percorremos a costa de Sesimbra ao Cabo Espichel. Revisitei o Forte da Baralha, ao largo do qual tantas vezes havia mergulhado nos meus velhos e longínquos tempos do mergulho amador! Seria fastidioso enumerar neste blog todas as caminhadas realizadas com os Caminheiros Gaspar Correia. À data em que este post é escrito ... seriam 88 actividades, englobando muitas delas duas e mais caminhadas. Referenciarei portanto as mais significativas, aquelas que por uma razão ou por outra mais recordações me deixaram ... dentro de um todo que é, sem dúvida alguma, uma das minhas referências mais importantes.
Obrigado, Caminheiros!

Neste post, contudo, voltemos por momentos a Outubro de 2002. Pouco antes da minha entrada para os
Nas nascentes do Alviela, 5.10.2002
Caminheiros, no fim de semana de 4 a 6 de Outubro, as nascentes do Alviela voltaram a receber-me, na caravana, com a "sócia" e um casal de grandes amigos. Estreantes num alojamento autocaravanístico, demos-lhes a cama maior, a do cappucino. Para memória futura ficou um célebre telefonema para a filha: "olha, estamos deitados com o nariz a 20cm do tecto"... J!
Também na caravana, de 1 a 3 de Novembro fizemos uma incursão por Olivença, Mourão, Barrancos, Aracena e Serpa. Em Mourão ... encontrámo-nos com o filho mais velho e a namorada, em digressão a Cáceres e Trujillo!
28 de Maio de 2011

terça-feira, 17 de abril de 1973

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

Mar de Ancão, Sesimbra,
7 de Janeiro de 1973
No dia 7 de Janeiro de 1973, fiz talvez um dos meus mais belos mergulhos. Saímos para o mar pelas 11:30h, em direcção ao Espichel. Decidimos ir para o Ancão, a melhor zona da costa de Sesimbra. Caímos directamente a 20 metros ... e deslumbrámo-nos imediatamente. Num cenário esplendoroso, "voávamos" sobre rochas arborescentes, cobertas de anémonas, espirógrafos, esponjas, por entre cardumes de peixes coloridos, que nos acompanhavam intrigados. Éramos quatro naquela maravilhosa paisagem submarina,
até que o ar das garrafas o permitiu. Abrimos as reservas e subimos; 38 minutos de mergulho ... pareceram-nos segundos! Na velha barca ... fomos e viemos a cantar. E três fins de semana depois estava de novo a mergulhar, mas desta feita em água doce, na Barragem de Santa Clara, perto da alentejana vila de Sabóia.

E em Fevereiro de 1973 ... "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"...J! Tinha iniciado a Licenciatura em Biologia em Outubro de 72, ganhando com ela novos amigos, novo ambiente de sã camaradagem, tanto entre colegas como com a maioria dos professores da então velhinha Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica. Entre as colegas ... surgiu uma "fraga" que me viria a acompanhar toda a vida...J! A minha paixão pela Natureza, pelo mundo rural, pela gente sã dos nossos campos e das nossas aldeias, amadurecida em tantos e tantos acampamentos e "aventuras" vividas nos "anos loucos" anteriores ... trouxe-me uma estudante de Biologia, como eu, precisamente oriunda desse mundo rural! E como " todo o mundo é composto de mudança " ... a minha e agora nossa vida também mudaram: conhecemo-nos no primeiro ano ... casámos no segundo...J!

Casais do Vale da Pedra, Cartaxo,
10 de Março de 1973
Mudaram os tempos, mudaram as vontades ... mas nasceram vontades construídas a dois ... sempre ligadas à Natureza, ao mundo rural, aos grandes espaços naturais. A primeira "fraga" vivemo-la em Casais do Vale da Pedra, Cartaxo, onde os pais da minha "musa" tinham  uma  pequena  quinta.  À  luz  de  um  candeeiro  de  petróleo,
Portinho da Arrábida, 31.03.1973
Uma viola, uma voz, um ritmo...
ouvindo o vento assobiar por entre as oliveiras e pinheiros, a minha paixão pelo campo crescia ao ritmo do nosso romance ... mas acampadinho à porta, que na época não se permitiam ousadias...J!
E ainda em Março daquele longínquo ano de 1973, a Associação de Estudantes de Ciências organizou uma excursão ao Portinho da Arrábida ... e claro que não podíamos faltar. Que hino à nossa juventude e camaradagem! À volta da tradicional fogueira, todos erguemos bem alto as nossas vozes!
Portinho da Arrábida, 31.03.1973 - Convívio da Faculdade de Ciências

De 14 a 18 de Abril de 1973, realizou-se mais uma actividade de Mergulho, em Sesimbra. O Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador tinha entretanto passado a Serviço de Exploração Subaquática do Secretariado para a Juventude (mais tarde FAOJ). Pela primeira vez ficámos instalados no Forte de Sesimbra, em vez da velha casa-abrigo no porto. Para mim, foram mais três mergulhos espectaculares, na baía de Sesimbra, na Varanda e na Ponta de S. Pedro ... mas os ventos de mudança começavam a soprar fortes: a minha nova estrela não era mergulhadora ... e as saudades levaram-me a regressar um dia antes dos restantes elementos do grupo!
Poucos dias depois ... iria conhecer pela primeira vez as "terras mágicas" da raia Sabugalense, que viram nascer a "fraga" que ainda hoje me acompanha...J!
14 de Janeiro de 2011

sábado, 30 de dezembro de 1972

Os "anos loucos" (2): 1971 / 72

Regressado da "aventura" africana, em 1971 as aulas no Passos Manuel começaram um pouco mais tarde ... pelo que os primeiros dias de Outubro foram no Portinho da Arrábida, depois de atravessarmos a serra a pé, desde Azeitão, passando pelo cume do Formosinho. E em Novembro, à Espeleologia, aos acampamentos, às caminhadas ... juntei o Mergulho Amador!
Porto de abrigo de Sesimbra,
Abril de 1972
No mergulho fiz novos amigos. Aí convivi também bastantes vezes, aí adquiri novas e ricas experiências. Às sessões de piscina do curso, seguiram-se as sessões de mar, em Sesimbra ... e em 21 de Novembro de 1971 tornei-me Mergulhador Amador diplomado. Mas ainda me lembro da minha primeira sessão de mar: fui o 4º a saltar, um salto no desconhecido; lá em baixo, via os outros agarrados à corda da âncora, os monitores descendo ao nosso lado. A 20 metros já não se via a superfície. Bastava-me agora uma ligeira movimentação do corpo para nadar noutra direcção e descobrir mais maravilhas.
O destino era quase sempre o litoral da Arrábida, Sesimbra particularmente, onde tínhamos uma casa-abrigo e uma traineira por nossa conta, a velha Barca do Joaquim Zé. Ainda fizemos nela uma épica viagem de Sesimbra a Sines, em Maio de 1972, com regresso no dia seguinte: 6 horas contra a nortada, com as nossas entranhas a quererem abandonar-nos o corpo! Nem coragem tivemos para despir os fatos de borracha...!

Porto de abrigo de Sesimbra, Agosto
de 1972 - Erguer a voz e cantar...
9 de Agosto de 1972 foi o dia do meu mergulho mais profundo, ao largo de Sesimbra: 65 metros de profundidade. Senti-me um Cousteau ou um Hans Hass...! O mundo do silêncio revelou-se-me também o mundo das trevas eternas; a luz abandonou-nos quase completamente por volta dos 40 metros, seguindo-se uma penumbra cada vez mais densa e misteriosa. Tocámos por fim o fundo, de uma vasa mole e escorregadia, evidenciando os efeitos da pressão já razoável: quase 8 vezes mais do que à superfície.
Mas, para além das maravilhas do mundo submarino que em cada mergulho se nos patenteavam ... mais uma vez não faltavam, nunca, as horas de convívio, de sã camaradagem, de cânticos cantados no velho "Tic" ou nas escadas do porto de abrigo, enquanto os compressores enchiam as garrafas para as novas "aventuras" que nos esperavam no dia seguinte.

Março de 1972 - Gruta nova, Chãos,
Alcobertas (Sª de Candeeiros)
Mas o Mergulho não fez esmorecer a Espeleologia e os acampamentos. Que será feito daquela boa gente que nos recebeu em Chãos, na Serra de Candeeiros, em Março de 1972 ... durante 11 dias?! O café do lugar foi logo baptizado: "Café cá do sítio"...! O neto do dono do café … até participou connosco na exploração das grutas. As grutas de Alcobertas são as maiores, mas muitas mais grutas e algares ali explorámos ao longo daqueles dias; algar das Cancelinhas, lapa do vale da lagoa, algar da Chouza do Luís, algar da Ortinha, são nomes que nunca mais me saíram da memória. Num esplendoroso dia em que subimos ao cruzeiro e marco geodésico, via-se toda a costa, de Peniche à Figueira da Foz, as Berlengas, a Lagoa de Óbidos, S. Martinho do Porto, a Nazaré, tudo em redor.
Chãos, Março de 1972: à porta do...
"Café cá do sítio"...
Destes 11 dias em Chãos também recordo ... quando levámos 6 horas para fazer o almoço...! Ambicionando um pitéu mais sofisticado, resolvemos que a ementa seriam batatas fritas com "lanche" ("lanche" era uma carne enlatada típica nos anos 70 do século passado...). Fomos comprar óleo, juntámos lenha, acendemos a fogueira, pendurámos a panela por cima com o óleo, mas ... há sempre um mas...: a lenha estava molhada, tentámos avivar o lume com pedras de carbureto dos gasómetros ... e 6 horas depois estávamos a comer batatas cozidas ... em óleo...J!

Em Junho de 1972 voltámos ao Alviela. Recordo-me de um dia em que regressámos às tendas quase à meia noite, depois de mais uma exploração nas grutas do Amiais. Mas a noite estava uma maravilha, convidativa a um passeio nocturno. E assim, sob um céu repleto de estrelas, ao luar, cantando velhos cânticos, subimos e descemos encostas, atravessámos pinhais, ouvindo o rio que corre ligeiro mais abaixo, a música da Natureza. Às duas e meia da manhã estávamos de novo nas tendas.

Em Julho de 1972 acampámos, eu e mais dois, nos pinhais junto à Praia de Santa Cruz (fotografia no artigo de apresentação). E, no mês seguinte ... que dizer da semana vivida no Campo de Trabalho da Godinha, perto de Campo Maior, na apanha do tomate? Para lá fui a pé e à boleia. 6 boleias, incluindo um táxi, um tractor ... e uma carroça! Saído de Lisboa às 7 da manhã ... às 10 da noite ainda estava em Elvas ... e a noite foi debaixo de uma oliveira, num terreno lavrado, com as estrelas por tecto. Às 6 e meia da manhã do dia seguinte, 14 de Agosto, o Sol já há algum tempo havia lançado os seus primeiros raios. A minha 84ª noite de campo ... foi a primeira noite completamente ao relento.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
Depois ... depois foi uma das melhores semanas da minha vida, nos meus quase 19 anos! Tratava-se de um Campo de Trabalho para jovens, onde o "tema" principal ... era a apanha do tomate. Mas aqueles dias foram uma experiência ímpar de solidariedade, de vivências, de camaradagem entre todos os rapazes e raparigas que ali estiveram. A imensidão dos campos da Godinha, o trabalho nas plantações, debaixo de um Sol ardente e um céu sempre azul, a convivência com a gente do monte e no grupo, proporcionaram-me recordações que jamais esquecerei. No grupo de jovens havia alguns timorenses, ensinando-nos canções da sua terra distante. Um deles, viria mais tarde a ser conhecido nacional e internacionalmente: D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
O trabalho na Godinha era remunerado, claro. Lembro-me que ganhei o suficiente ... para no último dia me instalar confortavelmente numa Pensão em Elvas, ir ao cinema ... e regressar de autocarro a Lisboa. Mais um fascículo d'"A Fauna", do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente, foi a leitura que ocupou o regresso a casa. Ao chegar, já tudo me parecia um sonho: os campos a perder de vista, a noite ao relento, Elvas, a apanha do tomate ... mas principalmente o que trazia de vivência e de enriquecimento interior.

Poucos dias depois da Godinha, percorri com meus pais todas as ilhas dos Açores, de Santa Maria ao Corvo. E m
enos de 2 meses depois ... o "meu" Liceu Passos Manuel tinha passado à história. Sem dúvida por influência do Ribau, iniciei em Outubro de 1972 a minha Licenciatura em Biologia. A velhinha Faculdade de Ciências, ainda na Rua da Escola Politécnica, recebia-me para os 5 anos académicos seguintes.

Mas, para fechar este ciclo, Novembro e Dezembro de 72 foram de novo dois "meses loucos": voltámos por três vezes a Chãos e à boa gente que tão bem nos havia recebido em Março, para novas explorações nas grutas de Alcobertas e alguns algares próximos. No fim de Novembro ... mais um fim de semana de mergulho, em Sesimbra. E, nos últimos dias do ano, de 27 a 30 de Dezembro, uma actividade ao largo de Setúbal, Tróia e Arrábida, no 1º Encontro Nacional de Mergulhadores Juvenis, fechou estes dois intensos anos ... aos quais na altura me referia muitas vezes como os melhores anos da minha vida!
13 de Janeiro de 2011