Nas infelizmente contínuas mudanças curriculares do Ensino, a disciplina de Ecologia desapareceu do Secundário e a componente geológica voltou a surgir, numa disciplina com o bonito nome de Ciências da Terra e da Vida. Em 1994, leccionava duas turmas daquela disciplina; numa delas ... um dos alunos era sobrinho da minha mulher. A integração da geologia e as noções de geodinâmica deram o mote para conhecer, como actividade de campo, paisagens de caos graníticos, de vales glaciários. E assim surge pela primeira vez a ideia do Parque Natural do Alvão como potencial objectivo de "aventuras" com alunos, podendo sempre associá-lo ao Gerês ou a Montesinho. Programa-se assim para Março de 1994 uma
Mar de nuvens no Alvão, 12.02.1994
visita aos Parques Naturais do Alvão e de Montesinho. Dado que não conhecia o Alvão, antes de levar os alunos entendi fazer o reconhecimento prévio do que lhes ia mostrar, pelo que em 11 de Fevereiro partia com a família para 3 dias no Alvão, com "base" em Vila Real, para preparação daquela visita. A aldeia de Lamas de Olo, as Fisgas de Ermelo, a serra do Alvão em geral ... passaram desde logo a fazer parte da minha lista de espaços naturais a recomendar, dar a conhecer, partilhar. Nesses dias de Fevereiro, grande parte da serra estava aliás debaixo de neve, testemunhando espaços, gentes e vivências perdidas no tempo e calejadas pela labuta tradicional.
Fisgas de Ermelo,
12.02.1994
O Alvão com neve, 12.02.1994
No regresso destes 3 dias, fomos também conhecer o Parque Biológico de Gaia, excelente local para dar a conhecer aos alunos espécies emblemáticas da nossa fauna e flora, para além de aspectos ligados à desejável harmonia Homem / Natureza.
Mas antes da visita ao Alvão e Montesinho com alunos, no início de Março acompanhei colegas e turmas da área de humanísticas numa visita às ruínas romanas de Mérida. Curiosamente, destas turmas de humanísticas e das minhas turmas de ciências, havia de vir a formar-se um grupo interdisciplinar que, nos anos seguintes ... se iria "aventurar" nos Pirenéus e nas ilhas atlânticas dos Açores!
Para além da visita e dos conhecimentos transmitidos e adquiridos, esta excursão a Mérida ficaria também nas memórias por alguns acontecimentos "insólitos": acampados no parque de campismo local, o pessoal acorda de manhã ... sem saber dos ténis ou botas que havia deixado junto à entrada das tendas. Mas, começando a olhar em redor ... apercebemo-nos de umas estranhas árvores que tinham por "frutos" ... ténis pendurados! Quem havia sido? Bem ... o motorista do autocarro! O mesmo que inicialmente, de vassoura em punho, limpava os pés ao pessoal antes de entrar no autocarro...! É também neste parque de campismo que se assiste, talvez pela única vez na vida, à tentativa de um professor de Literatura e grande amigo ... de prender a atenção de um gato para a poesia que ele pacientemente lhe lia! Bem ... e tudo isto depois de, na tenda dos professores, termos ficado os 4, até altas horas da noite, a filosofar à volta do fio que nos conduz, da probabilidade da origem e evolução da matéria por uma sucessão de acasos, da inteligência do universo ... ou daquilo que se lhe queira chamar ou crer.
E, a 23 de Março, os meus alunos de Ciências da Terra e da Vida partem então para a visita ao Alvão e Montesinho. Os meus dois filhos, já ambos alunos da Escola, embora não daquelas turmas, acompanham-nos nessa qualidade, a única que sempre tiveram no que respeita à escola: alunos.
Sobre as Fisgas de Ermelo, 23.03.1994
O primeiro dia foi dedicado à zona de Ermelo, no Parque do Alvão, incluindo um pequeno percurso a pé entre as cascatas das Fisgas de Ermelo e a ponte romana do Rio Olo ... onde houve lugar a banhos naquelas águas límpidas mas gélidas. Em Vila Real, alojámo-
nos na Pousada de Juventude, para no dia seguinte partir "à descoberta" do caos granítico de Muas e da aldeia de Lamas de Olo. Para a maioria dos alunos - que haviam de ser meus durante 3 anos seguidos - era mais uma vez a descoberta do mundo rural, de um mundo completamente diferente daquele que conheciam e em que cresceram. Em 94, o velho aqueduto de Lamas de Olo ainda levava a água ao seu moinho...
Depois, foi uma tarde de viagem, entre o Alvão e Montesinho. Pela segunda vez, íamos ficar na casa da Lama Grande, "perdida" na imensidão da serra, quase na raia espanhola. E o terceiro dia começaria por uma "aventura" a cavalo, no Centro hípico da aldeia de França. Acompanhados por uma guia do Parque Natural, seguiu-se um percurso ao longo do vale do alto Sabor, no seio de carvalhais ainda quase únicos
na Europa.
À semelhança de 1990 ... a posta mirandesa de Gimonde fez as delícias ao almoço...J! E à tarde seguiu-se Rio de Onor. Desta vez com guia, pudemos assim inclusivamente conversar com duas simpáticas aldeãs, ouvindo um pouquinho do seu Rio-de-Onorês ... e aprendendo a fazer meia.
O fim de tarde foi dedicado ao Castelo e Domus de Bragança ... e a última noite na Lama Grande ficaria memorável. Desde uma caminhada nocturna até à raia espanhola aos cantares ao desafio, houve de tudo um pouco ... até mesmo uma sessão de "levitação"...J!
A manhã do último dia ... foi para pôr os sonos em dia! Entre Montesinho e o Porto, o autocarro mais parecia uma camarata ambulante...J! Mas ainda havia uma visita: ao Parque Biológico de Gaia, onde aliás almoçámos. E assim, ao longo de 4 dias, se juntou mais uma vez juventude, alegria de viver, vivências e aprendizagens, numa escola muito para além das matérias e das paredes da Escola.
“Estes foram, sem dúvida ... os melhores dias da minha vida !”
(Ana Patrícia Santos, 10º Ano, Visita aos Parques Naturais de Alvão e Montesinho, Março de 1994)
8 a 14 de Setembro de 1990. Início de mais um ano lectivo. Para os "Amigos da Natureza", antes de começarem as aulas propriamente ditas ... estava reservada uma "aventura" nos Picos de Europa, com
8.09.1990 - Vilar Formoso,
quando ainda havia fronteiras
regresso pelo Parque Natural de Montesinho! Para a maioria dos alunos, era a última actividade vivida na Escola; antes das 6 da manhã já havia gente à porta, para uma jornada de 700 km sem história até ao Camping de Cubillas, para lá de Valladolid. A primeira aventura foi montar as tendas; é que o chão ... parecia de cimento! Mas no dia seguinte a paisagem mudava radicalmente: o árido planalto castelhano dava lugar à magnífica paisagem verdejante das montanhas. Estávamos na Cordilheira Cantábrica!
Ainda nesse segundo dia, Santander e Santillana del Mar foram visitas obrigatórias. Estava a levar os alunos à Espanha verde, que havíamos conhecido oito anos antes. Ao longo do desfiladeiro de La Hermida e do Rio Deva, fomos percorrendo aquele maravilhoso cenário natural, terminando em Potes e no Camping "La Isla - Picos de Europa", onde igualmente havíamos ficado em 1982. Este Camping seria aliás base para várias "expedições" aos Picos de Europa, nos anos seguintes. À beira do Deva, o parque fica num verdejante vale rodeado de montanhas, atrás das quais o Sol se preparava já para desaparecer, naquele fim de tarde. O solo relvado contrastava com o de Cubillas. O café e esplanada, junto ao rio, construídos em madeira, prendiam-nos àquele recanto saído como que de um conto de fadas.
E a primeira "aventura" foi a subida de teleférico ao Balcón del Cable, em Fuente De, 22 km a oeste de Potes e no coração do maciço oriental dos Picos de Europa. Rodeados pelos altos Picos Tesorero, Peña Vieja e Torre Cerredo, estávamos também bem perto do mítico Naranjo de Bulnes. E o almoço foi no Refúgio de Aliva, na parte inicial de um percurso de 16 km a pé, que nos havia de levar de regresso ao vale e à aldeia de Espinama, onde nos aguardava o Sr. Agostinho e o seu autocarro. Este motorista, não muito mais velho que os alunos mais velhos ... havia de ficar para a história das nossas "aventuras".
Maciço central dos Picos de Europa, 10.09.1990
Percurso a pé Balcón del Cable - Espinama, 10.09.1990
Mais um dia ... e saímos de Potes, contornando os maciços oriental e central dos Picos. Deixávamos a Cantábria para entrar nas Astúrias. Seguiu-se Covadonga e os seus Lagos Enol e Ercina ... não sem alguns arrepios ao longo dos 12km da estrada estreita e íngreme que leva do Santuário àqueles lagos de altitude.
Covadonga, Gruta Santa, 11.09.1990
Lago Enol, Covadonga, 11.09.1990
Uma visita a Cangas de Onís e à sua medieva ponte e, ao fim da tarde, estávamos no Camping de Ribadesella. Preparados para montar tendas por uma noite ... soubemos que podíamos ficar em bungalows pelo mesmo preço! Foi uma festa! Tão grande que o grupo comprou todos os frangos do supermercado do parque, para um churrasco nocturno de convívio e camaradagem. No dia seguinte ... soubemos que um "utente" de um beliche superior tinha vindo parar ao chão...J!
Em Ribadesella, situam-se as grutas de Tito Bustillo. À falta das de Altamira, que em 1990 já não se podiam visitar, Tito Bustillo ilustrou a arte paleolítica que os alunos haviam aprendido nas aulas de História.
Ribadesella marcava o ponto de inflexão para sul: por Oviedo e León, o destino seguinte ... era já em Portugal: o Parque Natural de Montesinho, em terras transmontanas. E íamos ficar em plena serra, na
Casa-abrigo da Lama Grande, perfeitamente integrada na rocha e na espectacular paisagem que nos rodeava.
A Lama Grande foi a nossa "base" para exploração da zona de Bragança, incluindo a própria cidade. É claro que não podia faltar a visita a Rio de Onor; o guia do Parque Natural que nos acompanhou falou-nos das vezeiras para a guarda do gado, à vez, pelos diferentes habitantes; falou-nos mais uma vez do boi do povo, do forno e de outros hábitos comunitários destas aldeias perdidas no tempo. Falou-nos também do Rio-de-Onorês, o dialecto local, com alguma mistura de português e leonês.
O almoço desse dia foi em Gimonde ... e ficou histórico. A tradicional e deliciosa posta mirandesa foi o prato escolhido ... e foi a primeira vez, em tantas e tantas "aventuras" com gente jovem e normalmente "esfomeada" ... que vi carne ir para dentro em relativa quantidade ... porque aquela gente já não conseguia comer mais posta..J!
Mas o nosso guia falou-nos também da riqueza florestal e faunística de Montesinho, das manchas de carvalhos, das maiores da Europa e dos trabalhos para a preservação do lobo, do corço e de outras espécies. Tal como em 84, visitámos também o picadeiro e viveiro de trutas, na aldeia de França.
A última noite, como tradicionalmente acontece, foi "liberalizada": uma fogueira, música, conversas, convívio ... nalguns casos até às 6 da manhã. Porque a seguir era o regresso a casa, sem história.
E esta história teve ainda uma estória original: à chegada a Sacavém ... porque não irmos todos jantar ao "famoso" bacalhau assado, na Bobadela? É que o restaurante ... era e ainda é da família de um dos alunos que participaram nesta actividade!
Esta actividade nos Picos de Europa e Montesinho inspirou também a "construção" de um genérico do Clube "Amigos da Natureza", para os respectivos vídeos. E que gozo deu essa montagem! Naqueles tempos ... funcionava a imaginação e o improviso; o efeito de focagem do emblema do Clube sobre a paisagem ... foi conseguido com uma folha de acetato que se deslocava em peças de LEGO, puxadas com cordéis, frente à projecção de um slide com a paisagem...! Mais tarde, já na era do digital, viríamos a montar um segundo genérico do Clube.
E ainda em 1990, no dia 14 de Dezembro, nova "geração" de alunos se estreava nas "andanças" e "aventuras" do Clube "Amigos da Natureza". O cenário ... foi mais uma vez a Tapada de Mafra.
A caminhada Balcón del Cable / Espinama no Wikiloc / Google Earth:
Em Maio de 1984, oito anos depois de nos ter levado como alunos, o Dr. Carlos Magalhães faz-me uma proposta irrecusável: levar-nos de novo à Serra da Nogueira, agora como professores ... e com um grupo de 20 alunos - lotação do mini-autocarro disponibilizado pelos Serviços Florestais - no sentido de, eventualmente, lhes despertar interesses nas áreas da Biologia, Silvicultura, gestão florestal e afins!
17.05.1984 - Na Casa Florestal da Nogueira, oito anos depois
A minha selecção recaiu sobre um grupo de alunos do 10º ano de escolaridade, de entre os que haviam conhecido o Gerês e Doñana, mas levando também 2 novos alunos do 7º ano que haviam já demonstrado uma grande paixão pelas ciências da vida.
E assim nos preparámos para 4 memoráveis dias, de 17 a 20 de Maio de 1984. Nós, a família Magalhães e os alunos ... todos ficámos instalados na pequena casa florestal que já nos havia acolhido em Junho de 1976! Como havia um palheiro, os alunos pediram-nos autorização para lá pernoitarem, autorização que lhes foi concedida ... até voluntariamente começarem a "migrar" para dentro de casa, durante a noite ... à
18.05.84 - A noite ... tinha sido de neve
Serra da Nogueira coberta de neve
medida que caía um considerável nevão...J!
Aqueles dias foram ricos em experiências e vivências inesquecíveis, tanto para os meus alunos como para nós. Acompanhámos por rádio alguns elementos da população de lobos da Serra da Nogueira,
No cercado dos lobos da Nogueira
Viveiro de trutas de Montesinho, 19.05.84
visitámos o cercado onde se encontravam alguns em recuperação, ou jovens cujas mães haviam sido abatidas, fizemos vigias nocturnas para tentar ouvir os uivos, identificar vestígios da sua presença, etc..
Mas também alargámos o "raio de acção": da Nogueira fomos à Serra de Montesinho e aos viveiros de trutas, próximo da aldeia de França, a aldeia onde, nos tempos da emigração para França, muitos dos nossos emigrantes eram deixados por "passadores" sem escrúpulos, dizendo-lhes que já tinham dado o "salto" e já se encontravam na "terra prometida".
E de França fomos ainda à lendária Rio de Onor, aldeia comunitária atravessada a meio pela fronteira entre Portugal e Espanha. As duas partes são conhecidas pelos seus habitantes como "povo de acima" e "povo de abaixo", numa única identidade que as fronteiras não dividem. Corremos as ruas de ambos os lados da imaginária linha divisória, admirámos as casas tradicionais, de pedra, compostas como em todo o norte pelo andar de cima, onde moram as famílias, ficando o gado, os cereais e outros produtos da terra na "loja", no andar de baixo.
Rio de Onor, 19.05.1984
Na linha de fronteira em Rio de Onor, 19.05.1984
Aspectos de Rio de Onor,
19.05.1984
Mais uma vez, regressámos mais ricos desta "ronda" por terras transmontanas. Ainda hoje contacto com alguns dos então alunos daquele grupo, para alguns dos quais esta era já a quarta "aventura" vivida pela minha mão. Nunca mais soube nada, contudo, dos tais dois alunos, então no 7º ano de escolaridade, que entendi levar também. Eram irmãos, rapaz e rapariga ... e ainda hoje tenho presente o fácies de satisfação e de gratidão, principalmente dele, por os ter seleccionado para aquela experiência e para aquelas vivências.