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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Caminheiros ... e terras raianas...
(Agosto de 2008 a Março de 2009)

Depois da "aventura" no Gerês e do Intercéltico de Sendim ... regressámos a Vale de Espinho. E o segundo semestre de 2008, bem como a Primavera de 2009,  foram  caracterizados  por  sucessivas  fugas
Torres das Ellas, Serra do Espiñazo, 12.08.2008
para o nosso retiro arraiano, intervaladas pelas actividades com os Caminheiros Gaspar Correia ... uma delas na raia... J!
A 12 de Agosto de 2008 parto do Lameirão dos Foios e da nascente do Côa para os Llanos de Navasfrias, passando pela nascente do Águeda, para depois cruzar a Serra do Espiñazo (as Torres das Ellas) e terminar no Puerto de Santa Clara, sobre San Martín de Trevejo. 14 km de panorâmicas fabulosas, que eu já conhecia de outras "andaduras", mas que dei a conhecer à minha "colega especial", ao sobrinho dela mais novo ... e ao filho que, menos de um mês antes, tinha protagonizado a "aventura" no Gerês.
Numa caminhada muito mais acessível ... ele lá se redimiu em parte... J!
Dia 21 de Agosto guiei outra "equipa familiar" numa jornada de quase 20 km pela Serra Alta e Matança, sobre Aldeia do Bispo. No dia seguinte, estabeleço aquele que é ainda hoje o meu record pessoal de distância percorrida num dia: atravesso a Serra da Malcata pelo Espigal, Espiguinho e Forninhos, do Meimão subo à cumeada do Muro de Facas, sobrancei-
ro a Santo Estevão, a noroeste, e à barragem da Meimoa, a sudeste. Desço à Feiteira e ao Vale da Senhora da Póvoa. Com 33 km já percorridos, o plano era apanhar boleia do meu filho mais novo no Terreiro das Bruxas, já que era dia de ele vir para Vale de Espinho. Mas ... quando passei no terreiro das Bruxas ainda ele estava no caminho ... e eu segui o caminho de regresso. Apanhou-me quase no Sabugal, com quase 46 km percorridos em 12 horas e meia J.
A 14 de Setembro faço mais uma romagem ao vale da ribeira dos Urejais ... e às Fontes Lares.  E  no fim  de
Castanhal de Ojesto, San Martín de Trevejo, 25.10.2008
Outubro levamos mais uma vez o nosso "grupo dos sete" a Vale de Espinho, para um Outono na raia. Do lado espanhol, no dia 25 fazemos com eles a fabulosa descida do castanhal de Ojesto, do Puerto de Santa Clara a San Martín de Trevejo.
Entre San Martín de Trevejo e as Ellas, em data "especial", de 5 a 8 de Dezembro entregamo-nos ao luxo da "Almazara de San Pedro", na base da Serra da Gata. Com Vale de Espinho ali tão perto, mas foi uma maneira de comemorar, em plena Natureza ... 35 anos de vida em comum...J! E até o fim de ano foi raiano; de 26 de Dezembro a 2 de Janeiro ... Vale de Espinho.

Entretanto claro que continuavam em pleno as nossas andanças com a "grande família" Caminheira - os Caminheiros Gaspar Correia. De Setembro a Janeiro, da Arruda dos Vinhos ao curso do Trancão, passando por terras de Mora e de Grândola, as actividades sucediam-se, sempre em ambiente de franca e sã camaradagem. Por sinal, as actividades de Dezembro, Janeiro e Fevereiro foram de minha responsabilidade: as de Dezembro e Janeiro à descoberta do curso do Trancão, da Póvoa da Galega a Bucelas e a Sacavém; a de Fevereiro ... nas terras raianas dos Foios, Navasfrias e Serra da Enxalma, no fim de semana de 14 e 15 de Fevereiro. Sábado começamos a caminhada na praia fluvial dos Foios, subindo à nascente do Côa e atravessando depois a raia pelas antigas bredas do contrabando. Tanto nos Foios como em Navasfrias, fomos recebidos pelos respectivos Presidente da Junta e Alcalde, visitando a seguir o Centro de Interpretação da Natureza, junto à área de El Bardal, em cujas instalações o grupo ficou alojado ... e onde fizemos a tradicional festa de Carnaval Caminheiro.
Domingo era o dia da "grande caminhada" do Xalmas, que nos brindava com o manto branco da neve a partir de meia encosta. O espectáculo da progressão na neve, as extraordinárias panorâmicas do cume e a descida para a encosta estremenha fizeram desta caminhada uma jornada memorável. O autocarro esperava-nos na pequena aldeia de Trevejo, cujo castelo medieval, dominando a planície de Valverde, com a Marvana ao fundo, constituiu um excelente quadro final de actividade. Dali regressámos a Lisboa.
Subida ao cume do Xálama, com Payo ao fundo, 15.02.2009
Rumo ao cume do Xálama (1493m alt.), 15.02.2009

Entretanto, a 6 de Fevereiro, o jornal "Cinco Quinas", do Sabugal, publicara uma entrevista onde surjo como "filho adoptivo e adoptado da raia"... J
E no último dia de Fevereiro ... a minha "colega especial" recebia a sua "carta de alforria" e chegava também ao fim do "nosso" Ensino. Estávamos os dois aposentados! Agora passávamos a ter "todo o tempo do mundo" para nós, para os filhos e netos, para as nossas paixões. Em Vale de Espinho, passaríamos a estar mais tempo em cada "fuga"; a primeira foi no fim de Março de 2009, para no início de Abril partirmos da raia ... para as terras mágicas de Somiedo!
25/08/2011

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Uma "aventura" no Gerês...
ou quando atravesso a serra por duas vezes em menos de uma semana...

Tinham passado 19 anos sobre a travessia do Gerês, de Pitões das Júnias ao Vidoeiro, pelos Carris e Portela do Homem! Em Outubro de 2006, a tentativa de a repetir foi abortada pela intensa chuva que se abateu, quando já ia nas alturas da Fonte Fria. E o fermento claro que tinha ficado a trabalhar cá dentro...
Como "no canto de cada sonho nasce a vontade" ... no canto dos meus sonhos tinha-se alimentado a vontade de voltar a atravessar o Gerês a pé. Assim, dois anos depois, no fim de Julho de 2008, planeamos as férias (as tais que viriam a ser eternas...) a incluir, mais uma vez, o meu amado Gerês. O filho mais velho, nora e neto manifestaram vontade de partilhar connosco parte das férias. Para inovar
A "aventura" de um pai e dois filhos à conquista do Gerês... J
26.07.2008
em termos de bases logísticas, tinha descoberto na net uma casa rural, na aldeia de Lapela, a Casa Cabrilho, que pertenceu ao navegador João Rodrigues Cabrilho. Lapela permitiria refazer a ambicionada travessia (com a alternativa de descer dos Carris à Portela do Homem ou a Lapela), bem como conhecer a área central da encosta sul do Gerês, pelo velho estradão do Porto da Laje. Indo o filho e nora ... era outro carro e "motorista" que portanto também estavam disponíveis, para me ir levar ou buscar a qualquer dos extremos da travessia... J. Reservo, portanto, dois quartos na Casa Cabrilho, para os dias 25 a 30 de Julho. Mas ... o filho começa a interessar-se por fazer a travessia comigo! Tento dissuadi-lo, é uma caminhada que não é para qualquer um, que em qualquer das hipóteses se aproxima dos 30 km de serra, com desníveis acentuados. Tento apelar à necessidade de uma preparação física adequada. Mas ele herdou a pertinácia da família ... e somou a de todos... J! E eu ... lembro-me que ele, com 5 anos ... fez quase 20 km a pé nos Pirenéus! Apesar da actual vida sedentária ... alguma coisa havia de ter ficado...; e portanto vamos ... para o que desse e viesse... J!
Mas ... ainda não é tudo...! O outro filho, nora e neta ... acham igualmente engraçada a ideia de, pelo menos, um fim de semana familiar ... no Gerês! Assim, a travessia do Gerês poderia ser feita a três - pai e dois filhos - enquanto a mãe e duas noras descansavam em Lapela... J! O filho mais novo não me oferecia grandes dúvidas de resistência; apesar de pouco batido em caminhadas, o exercício físico frequente dá-lhe boa preparação. E marco mais um quarto na Casa Cabrilho, embora o deles apenas para o fim de semana, já que infelizmente não estavam de férias.
A "aventura" de um pai e 2 filhos no Gerês..., 26.07.2008 (clique para abrir o álbum)
É portanto assim que, no dia 25 de Julho de 2008, nós chegamos a Lapela a meio da tarde, vindos de Vale de Espinho, o filho mais novo, nora e neta chegam ao início da noite, e o filho mais velho, nora e neto pouco depois! Estava reunida a família ... preparados para a "aventura"... J! No dia seguinte de manhã ... antes das 7 horas estávamos em Pitões. O carro do filho mais velho, em que fomos os três, ficou à entrada da aldeia ... e iniciámos a marcha, rumo ao Outeiro do Grosal, Fornos, Brazalite. O dia apresentava algumas nuvens, mas nada de ameaçador. Era desta que iria repetir a travessia do Gerês! Passada a Fonte Fria, lá fomos ziguezagueando ao longo da raia, com as encostas do Xurés galego a norte e fabulosas panorâmicas para ambas as vertentes. A progressão do elemento menos preparado não era das melhores, mas também sem motivos de grande alarme ... por enquanto...! À hora do almoço tínhamos feito 14,5 km. Estávamos a noroeste dos Cornos de Candela, com toda a encosta sul do Gerês aos nossos pés. Mas a condição física do meu júnior mais velho começava a revelar-se insuficiente para a jornada. Começava a queixar-se das pernas, de dores e de prisão de movimentos ... e o ritmo abrandou substancialmente. Voltar para trás estava fora de questão, teríamos a mesma distância a percorrer. Mas chegar aos Carris naquelas condições seria praticamente impossível, pelo que tomo a decisão de abortar a travessia, iniciando a descida ao longo do vale da ribeira da Biduiça, com o objectivo de desviar depois para a ribeira das Negras e Castanheiro, para chegar ao estradão do Porto da Laje ... onde o "lesionado" aguardaria que fosse buscar o carro a Lapela. Este era o plano "de emergência", estudado no GPS e na carta ... mas o pior ainda estava para vir... L! Nalguns troços, as paragens começaram a ser de 5 em 5 minutos, ou pouco mais.



Para cúmulo, já abaixo dos 1200 metros de altitude, a tensão e a preocupação levaram-me inadvertidamente a um desvio não programado, entre a Biduiça e a Corga das Lamelas ... que nos obrigou a voltar para trás quase 2 km! Não estávamos a viver nenhuma aflição, mas a tarde avançava a passos largos ... muito mais largos do que os do meu pobre "mártir"... L! Começávamos a ponderar seriamente a hipótese de ter de dormir na serra, o que de qualquer modo também não seria aflitivo, no verão. Mas eis senão quando, após corrigida a rota, vindos dos lados da Lamalonga e dos Carris, vimos dois montanhistas a descerem em direcção à Biduiça! "Pelo menos temos companhia", pensámos. E rapidamente de três passámos a cinco! Feitas as apresentações e relatada a nossa situação, ficámos a saber que se tratava de dois montanhistas do Clube de Montanhismo de Braga, que tinham deixado o carro ao fundo do vale da Abelheira, na estrada de Sirvozelo e Paradela, para uma jornada de ida e regresso aos Carris. Estávamos sensivelmente a 4 km daquele ponto!
Mas nem as frias águas do ribeiro da Biduiça
reavivaram aqueles músculos exaustos..., 26.07.2008
Levámos mais de três horas a fazer os citados 4 km...! Primeiro, tentou-se que as águas bem frias do ribeiro da Biduiça reavivassem os músculos exaustos dos membros inferiores do lesionado. Depois, a experiência daqueles providenciais montanhistas levou-os a administrarem-lhe pastilhas de magnésio. Por instantes, a "coisa" melhorava ... mas quase logo as pernas se recusavam de novo a andar! Incrédulos, ouvimos um deles dizer ...
Passagem da Biduiça para a Abelheira, 26.07.2008
"eu levo-o aos ombros"...! E foi aos ombros daquele intrépido amante do Gerês que o nosso protagonista fez grande parte do restante vale da Biduiça, bem como grande parte da descida do vale da Abelheira! Chegados ao carro ... até as pernas já pareciam funcionar melhor ... e os "salvadores" levaram-nos a Lapela, à porta da Casa Cabrilho!
É da mais elementar justiça que fique registada, neste artigo, a inestimável ajuda prestada por aqueles dois montanhistas, Narciso Marques e Vitor Veloso, sem a qual teríamos sido certamente obrigados a passar a noite na serra. Tal como referido pelo Presidente do Clube de Montanhismo de Braga, em resposta ao agradecimento que posteriormente lhes enderecei ... "A solidariedade é um ideal que devemos encarnar sempre que nos é dada a oportunidade de demonstrar tal nobreza". Após esse agradecimento e resposta, não mais soube daqueles dois montanhistas ... até há poucos dias. As novas tecnologias e a paixão pelo Gerês das montanhistas responsáveis por dois dos blogues que acompanho ... levaram-me a encontrá-los nas teias do Facebook. Ainda um dia voltaremos a caminhar juntos no Gerês ... esperemos que em melhores condições... J
Alto da Surreira do Meio Dia, 28.07.2008
Regressados a Lapela, no dia seguinte havia que ir buscar o carro que tinha ficado em Pitões. O filho, nora e neta mais novos ainda tinham de regressar a Lisboa nesse domingo ... pelo que aproveitámos para um almoço familiar na "Casa do Preto", nas sempre amigas Sr.as Marias.  O  "lesionado" da véspera já estava
Lagoas do Marinho ... secas, 28.07.2008
bem melhor ... embora coxeando ligeiramente. Mas estes herdeiros ainda ficavam connosco mais uns dias, pelo que no dia 28 fomos "explorar" as alturas da Surreira do Meio Dia e as Lagoas do Marinho ... de carro, pelo estradão que conduz ao Porto da Laje. Mesmo apenas de carro, esta zona agreste do Gerês é espectacular. Os sucessivos "postais" sobre o vale do rio Cabril e as suas piscinas naturais, as panorâmicas das Lajes dos Infernos e a beleza selvagem junto às Lagoas do Marinho ... chamavam para digressões mais a fundo. As Lagoas do Marinho estavam praticamente secas, mas percebia-se o nível freático perto da superfície. Não descemos ao Porto da Laje; eu sabia que menos de 3 anos depois eu desceria aquele estradão a pé, sozinho, a caminho de Fafião... J
Cabana das Lagoas do Marinho, 28.07.2008
Sobre o vale do Porto da Laje, 28.07.2008
Estradão e vale do Porto da Laje, 28.07.2008
Rainhas e senhoras das alturas, 28.07.2008
Dia 29, já com o júnior operacional, fizemos uma curta caminhada de menos de 5 km, mas a um local "de culto" do sul da serra do Gerês: a cascata e lagoas de Cela Cavalos. Até o neto, então com apenas 7 meses, fez esta caminhada ... às minhas costas, em mochila de transporte de bebés... J!
De pequenino se torce o destino..., 29.07.2008
A caminho de Cela Cavalos, 29.07.2008
Sobre a Lagoa de Cela Cavalos, 29.07.2008
Sobre a Lagoa de Cela Cavalos, 29.07.2008
Cascata e Lagoa de Cela Cavalos, 29.07.2008
Lagoa superior de Cela Cavalos, 29.07.2008
Ainda tínhamos mais duas noites reservadas na Casa Cabrilho. Um dia completo, portanto ... o que me permitiria quebrar o enguiço e fazer, finalmente, a travessia pelos Carris! Da ideia à acção não medearam muitas horas ... e pouco depois das 5 da manhã do dia 30 de Junho estava a sair de Lapela a pé, sozinho! E é assim que, em 4 dias, atravesso por duas vezes a serra do Gerês e volto finalmente aos Carris, na travessia Lapela - Castanheiro - Carris - Nevosa - Fonte Fria - Pitões das Júnias.
Subindo a Lamalonga, rumo aos Carris, 30.07.2008
Esta travessia solitária foi uma caminhada espectacular. De Lapela subi ao estradão do Porto da Laje e deste ao geodésico do Castanheiro. Depois, rumo à Lamalonga e aos Carris! Começar a ver os Carris vindo de baixo foi um misto de estranheza e de afastamento no espaço e no tempo. Dir-se-ia que estava no Tibete, a começar a ver aquilo que de início pareciam mosteiros budistas lá no alto, mas que na realidade era uma cidade fantasma, uma cidade mineira constituída por construções arruinadas, à beira de precipícios de cortar a respiração, à vista de uma panorâmica fabulosa. E depois, a subida à Nevosa (1548 m de altitude) foi qualquer coisa de indescritível ... e até de "infilmável". Nos Carris já tinha estado, mas à Nevosa nunca tinha subido. A Nevosa é um pico estreito e mais ou menos triangular, qual obelisco a apontar aos céus. Almocei lá em cima, só eu e os 360º de panorâmica em redor. Isso mesmo, 360º! Indescritível! Para noroeste viam-se ao longe nuvens escuras que cobriam terras galegas, na direcção do mar; o António, da Casa Cabrilho, disse-me depois que efectivamente, em dias de completa visibilidade, vê-se dali o Atlântico, a “Costa da Morte”, como é chamada a costa da Galiza, das ilhas Cíes à Fisterra Corunhesa. Mas dentro dos 360º que se deparavam ante os meus olhos, viam-se nítida e perfeitamente as serras da Peneda e do Soajo, a poente, a barragem do Lindoso, as serranias galegas até aos Ancares, a norte e nordeste, a encosta galega do Xurés, mais perto, com Pitões das Júnias e as terras do Couto Mixto, a leste, as serras do Larouco e do Barroso por trás delas, estendendo-se para terras de Vilar de Perdizes e de novo para a Galiza, a barragem de Paradela, bem perto, a sudeste, e, para sul, toda a encosta da "minha" serra do Gerês, complementada pela Cabreira, que, mais baixa, deixava adivinhar por trás dela, lá longe, o vale do Douro. Indescritível!
Nevosa (1548m alt.), 30.07.2008
Quando eu andava na escola, aprendia-se que o ponto mais alto da serra do Gerês (a segunda serra mais alta de Portugal) era o Altar de Cabrões, que aliás se vê da Nevosa, a noroeste. Mas hoje sabe-se que efectivamente o Altar de Cabrões, além de ser mais baixo que a Nevosa … é em Espanha! Quase encostado à fronteira, mas do lado espanhol. A Nevosa é, portanto, o ponto mais alto da segunda serra mais alta de Portugal Continental.




Desci da Nevosa rumo a leste ... e o resto do percurso foi, com uma ou outra ligeira variante, o mesmo que tinha feito com os filhos no sábado anterior, em sentido inverso. E assim, às 18:20h estava a entrar em Pitões pela segunda vez em 4 dias, com 31 Km percorridos desde Lapela (com várias voltas junto aos Carris).
Despedida da Casa Cabrilho, Lapela, 31.07.2008
Contactado entretanto o filho (que já estava operacional...), às 18:40h vi aparecer um Fiat Punto branco (que por acaso até já tinha sido meu…), com aspecto de me vir buscar... J!
Estava quebrado o enguiço...! 19 anos depois, tinha voltado aos Carris e atravessado a serra. Nos 3 anos seguintes (que nos separavam da actualidade presente) ... atravessei o Gerês diversas vezes, em diversos sentidos ... e voltei mais duas vezes aos Carris. No dia 31 de Julho ... partia do Gerês para o Festival Intercéltico de Sendim, em terras de Miranda. E ficámos amigos da Tina e do António, da "Casa Cabrilho", em Lapela... J.
19/08/2011

terça-feira, 22 de julho de 2008

Nas faldas do Xálima ... e quando chego ao fim do "meu" Ensino

Em Maio de 2008, tínhamos levado pela primeira vez toda a nova "prole" a Vale de Espinho. O neto e neta
Ponte de Carrecia, Acebo, nas faldas do Xálima, 30.06.2008
tinham de começar a conhecer o nosso "retiro espiritual"... J! Regressámos lá no fim de Junho. Do lado espanhol, a Serra da Gata e o Xálima continuavam a chamar-me. No dia 30, desço sozinho as encostas do Xálima, para sul, em direcção a Trevejo, mas depois para leste, atravessando a povoação de Acebo. Descubro o paraíso das piscinas naturais de Jevero e da ponte de Carrecia e subo o vale da Cervigona, até à pequena barragem do Prado de Las Monjas, para acompanhar depois a ribeira de Acebo até à base da cascata da Cervigona, junto à antiga "fábrica de luz". O regresso ao carro ... foi um trepar sucessivo, ao longo das velhas tuberías da velha fábrica, até ao planalto, já castelhano, de onde se precipita a ribeira.
Cascata da Cervigona, 30.06.2008
Ao longo das tuberías da velha fábrica de luz, Cervigona
Ao chegar ao carro, tinha completado 34 km de mais uma bela caminhada solitária em terras do Xálima.
Menos de um mês depois, estávamos em férias. A 22 de Julho voltávamos a Vale de Espinho. Mas as férias de verão de 2008 iam ser especiais...! Apaixonado que sempre fui pela minha profissão, a minha relação com o estado actual do ensino tinha-se contudo deteriorado por completo, como já deixei expresso nos artigos relativos ao ano lectivo de 2003/2004 e a Outubro de 2006. Em 2008, com 34 anos de serviço, uma nova legislação permitia-me pedir a aposentação antecipada, com penalização. Não pensei duas vezes! Gostei muito, mas muito mesmo, de ser professor ... quando era professor...! E antes que a paixão se transformasse em ódio, pedi a aposentação. Se 2003/2004 foi o princípio do fim do "meu" Ensino ... 2007/2008 viria a ser o fim ... e o início de umas "férias eternas"... J! Efectivamente, a aposentação chegou nestas férias de verão de 2008 ... que se transformaram em eternas! A minha "colega especial", companheira de uma vida, ainda lá teve de ficar até ao início de 2009, mas seguiu-me o exemplo assim que lhe foi possível. A penalização não foi pequena (e muito menos multiplicada por dois...) ... mas o dinheiro não é tudo na vida ... nem sequer o mais importante! O mais importante na vida ... é vivê-la...

Caminante, no hay camino, se hace camino al andar
Antonio Machado
A 25 de Julho estávamos a sair de Vale de Espinho ... rumo às terras mágicas do Gerês!
17/08/2011

terça-feira, 10 de junho de 2008

... e no Parque Nacional da Peneda - Gerês

De 7 a 10 de Junho de 2008, levei os Caminheiros Gaspar Correia ao Parque Nacional da Peneda-Gerês. Já os tinha levado a dois dos meus três "berços": a Malcata e Somiedo. Faltava o Gerês!
Mas a organização de uma actividade para a minha "família" Caminheira implicava algumas dificuldades e desafios: por um lado, a maioria dos percursos mais belos e "selvagens" implica uma extensão e/ou um grau
Chã do Monte, Serra da Peneda, 7.06.2008
de dificuldade que não é acessível a diversos elementos do grupo; por outro lado, o acesso às zonas mais recônditas dificulta ou inviabiliza de todo as deslocações em autocarro. Assim, naquela actividade, quis dar-lhes de certo modo uma amostragem das diversas zonas do Parque Nacional, nas suas duas principais vertentes: a paisagística e natural (a fauna e flora típicas, a geologia) e a etnográfica (a ruralidade, as tradições, a cultura). Para aqueles 4 dias, elegi 4 caminhadas em áreas distintas do Parque Nacional: a Serra da Peneda, a Serra do Soajo, o vale da Teixeira, como "postal" da Serra do Gerês, e, por fim, em área limítrofe, a Ponte da Misarela.
Pouco depois da hora do almoço do dia 7 de Junho, estávamos assim em plena Serra da Peneda, para fazer a travessia da branda da Bouça dos Homens à Senhora da Peneda, pela Chã do Monte e descendo junto à fraga da Meadinha. Uma caminhada curta, de menos de 5 km, mas fabulosa, baseada na caminhada que eu havia feito em Março de 2007.


Começando sensivelmente aos 1000 metros de altitude, ascendemos por um carreteiro por onde antes passavam os carros de bois que ligavam a Bouça dos Homens à Senhora da Peneda. Rapidamente o carreteiro transforma-se num antigo caminho de pé-posto, de romeiros devotos à imagem da Senhora da Peneda.  Dois  quilómetros depois  (e já acima dos 1100 metros),  estávamos aos pés da  Penameda,  com
A caminho de Bostelinhos, Serra do Soajo, 8.06.2008
uma panorâmica que se estende da branda que deixámos para trás ao vale da Gavieira, a sul. Aí começou a descida, aproximando-nos da Chã do Monte; esta represa servia uma mini-hídrica que, há anos atrás, fornecia a energia eléctrica ao povoado da Peneda. Cruzado o lago, a descida é espectacular, observando-se lá no fundo a igreja e o aldeamento da Peneda, assim como, do lado esquerdo, a Fraga da Meadinha, procurada por inúmeros escaladores nacionais e estrangeiros.
O Hotel da Peneda recebeu-nos nessa noite, para no dia seguinte rumarmos à Serra do Soajo, por Rouças, Tibo e Adrão, direitos ao núcleo megalítico do Mezio, onde íamos iniciar a 2ª caminhada: do Mezio à branda de Bostelinhos e desta a Vilela de Lajes e Boimo.
Iniciámos o trilho por entre um bosque misto de vidoeiros, pinheiros bravos, pinheiros silvestres e cedros, que rapidamente nos conduziu a um planalto coberto de vegetação rasteira, constituída por urzes e tojos.


Ao alcançarmos uma pequena elevação, a panorâmica abre-se até ao rio Lima e a Arcos de Valdevez. Iniciámos então uma descida por um carreteiro que nos conduziu a Vilela de Lajes, para depois seguirmos para montante da ribeira de Vilela por um denso bosque de carvalhos. Seguiu-se a subida para Bostelinhos; ao alcançar os primeiros cortelhos do lugar, atravessámos a ribeira e entrámos na branda, onde invertemos caminho em sentido descendente, por entre os socalcos,  para  atravessarmos novamente
Barragem da Caniçada, da Pedra Bela, 9.06.2008
a ribeira de Vilela, à beira da qual almoçámos. Depois, do rústico e bucólico lugar de Vilela de Lajes, a partir do núcleo de espigueiros, seguimos por um caminho que, por entre muros de pedra solta, nos conduziu até ao pequeno lugar de Boimo … onde nos esperava o autocarro, na estrada para Arcos de Valdevez. As duas noites seguintes foram na Pousada de Juventude de Vilarinho das Furnas. Na porta do Parque Nacional, visitámos a exposição etnográfica alusiva à aldeia "perdida" de Vilarinho da Furna.
Mas a caminhada mestra desta actividade com os Caminheiros foi a do dia 9 de Junho. Ligando dois dos pontos mais turísticos do Gerês - o miradouro da Pedra Bela e a Cascata do Arado - levei o grupo ao coração da Serra do Gerês, a um dos mais recônditos e desconhecidos lugares deste paraíso natural: o vale da ribeira de Teixeira!
Por entre pinhais, começámos por acompanhar parte do PR3, até ao Curral da Carvalha das Éguas, onde os horizontes se abrem para oeste, numa panorâmica que tem por pano de fundo as alturas da Junceda e da Calcedónia. Continuando a ziguezaguear em permanente sobe e desce (mais sobe do que desce…), o nosso destino inflectiu depois para leste. Já acima dos 1000m de altitude … eis que os nossos olhos descobrem o autêntico "Shangri-la" do vale da Teixeira. Como no “Horizonte Perdido” de James Hilton ... "o tempo parece deter-se em ambiente de paz e felicidade". Aqui habitualmente pastam garranos em liberdade. E, como pano de fundo, por trás do vale, a mole imensa do maciço do Borrageiro.
Descida para o Shangri-la do Vale da Teixeira, 9.06.2008
Descida a encosta e atravessada a ribeira,  estávamos  junto  à cabana que me havia protegido  em  Março.
Prado e cabana da Teixeira, local de almoço, 9.06.2008
Foi aí o almoço ... e foi aí também a opção para quem quis aventurar-se a subir ao Borrageiro! Em Março não tinha chegado ao Borrageiro, devido à chuva, mas tinha o registo GPS da descida com o CAAL, em Julho de 2005. Um grupo de quase 20 "destemidos" seguiu-me então pelo vale da Teixeira, subindo ao Curral do Camalhão e deste à Chã da Presa. No início da subida, ainda junto ao rio do Camalhão, por momentos perdi o trilho ... e obriguei os meus seguidores a um "aventuroso" corta-mato ascendente... J! Contudo, mesmo depois de reencontrado o trilho, o grupo teve algumas "baixas". Da Chã da Fonte ao Borrageiro já só éramos 14 ... que às 14:40h daquele dia 9 de Junho "conquistámos" os 1430 metros de altitude do Borrageiro.
Subida ao Borrageiro, 9.06.2008
Os 14 "destemidos" no cume do Borrageiro, 1430m alt., 9.06.2008
A panorâmica do alto do Borrageiro é sempre espectacular, estendendo-se das serras da Peneda, Soajo e Amarela, a oeste, às moles graníticas do Gerês, a leste e nordeste; para sul e sueste, o maciço das Rocas, próximo, e a serra da Cabreira, ao fundo.
Cascata do Arado, 9.06.2008
Regressando ao Camalhão e ao prado da Teixeira, reunimo-nos com os que tinham ficado no repouso, seguindo depois caminho rumo ao Arado. Uma vez chegados à "mariola gigante" … dava-nos vontade de voar! Atrás de nós, para norte, tínhamos o vale da Teixeira, o "Shangri-la" acabado de atravessar; aos nossos pés, para sul, a vertente abrupta do vale do Arado. Ziguezagueando ao longo de cerca de 2 Km, ora nos aproximávamos das primeiras "piscinas" e cascatas do rio Arado, ora cruzávamos pequenos afluentes, como a Corga da Giesteira. Lá em baixo, começámos a ver a ponte do Arado ... e estávamos no final da caminhada!
Restava o quarto e último dia, 10 de Junho. Em dia de regresso a Lisboa, impunha-se uma caminhada curta. Programei a pequena caminhada de descoberta da Ponte da Misarela, em versão mais curta do que a que tínhamos feito em Março. Começámos na aldeia de Frades, abaixo de Ruivães, no vale do Cávado. Na outra margem, avistavam-se pequenas povoações da encosta sul do Gerês, como Fafião e Pincães. É um muito bonito troço rural, entre muros cobertos de musgos e campos de cultivo. Com pouco mais de 2 km percorridos, cruzámos a estrada e apontámos então à Ponte da Misarela, ou Ponte do Diabo, sobre o rio Rabagão, ligando terras minhotas a terras transmontanas … e contando-nos velhas lendas cheias de história, de crenças e de tradições populares, a que já aludi quando da primeira incursão, em Outubro de 2006.
Ponte da Misarela, ou do Diabo, 10.06.2008
As águas revoltas do Rabagão, junto à Ponte da Misarela
É tradição muito antiga nas populações circunvizinhas que, quando algo ia mal na gravidez, a mulher se dirigisse à ponte e debaixo dela pernoitasse, na expectativa de ajuda celeste para o seu problema. Na sequência da operação, a primeira pessoa que atravessasse a ponte no dia seguinte seria o padrinho ou madrinha da criança, à qual seria posto o nome de Gervaz, se rapaz viesse ao mundo, ou de Senhorinha, se de rapariga se tratasse. E isto para que, por obra e graça do pré-baptismo, a mulher tivesse um bom sucesso na sua gravidez.
A caminhada terminou em Sidrões. Uma boa costeleta barrosã foi o prato principal de um almoço que encerrou a actividade caminheira, despedindo-nos do Parque Nacional junto à estreita ponte sobre o rio Cávado, entre Sidrões e Cabril.
Despedida do Parque Nacional da Peneda-Gerês, 10.06.2008

15/08/2011