Férias da Páscoa de 1998. Os meus progenitores, então com 73 anos, o pai, e a completar 75, a mãe ... andavam em digressão pelo sul de Espanha. Os "peregrinos" das autocaravanas Riviera e Pilote tinham
Inaugurada havia dias, atravessamos
a nova Ponte Vasco da Gama, 4.04.98
delineado para as férias da Páscoa igualmente uma visita a Córdova, Granada, Ronda...! Reunidas estavam as condições ... para nos encontrarmos para a comemoração dos três quartos de século da minha mãe! E assim foi. Ponto de encontro ... o Camping "Sierra Nevada", em Granada, onde havíamos estado 14 anos antes ... na velhinha VW "pão-de-forma"!
Assim, pela recém inaugurada Ponte Vasco da Gama, no sábado 4 de
6.04.1998 - 3/4 de século em Granada...J
Abril dirigimo-nos a Sul, rumo a Badajoz e a Córdova, onde passaríamos o dia seguinte. O dia 6, dia do aniversário, levou-nos ainda à enigmática cidade de Guadix, escavada na rocha argilosa ... e a meio da tarde estava reunida a "equipa". O "banquete" teve lugar no apartamento onde a aniversariante estava alojada, no Motel anexo ao parque de campismo de Granada...J!
O dia seguinte, ainda com toda a "equipa", foi dedicado a Granada.
Granada: o apelo da Serra Nevada, 7.04.1998
Para além dos sempre atractivos motivos da cidade, a Serra Nevada chamava por nós, mas a estrada que 14 anos antes nos levara ao Veleta estava agora cortada, pela neve e pela passagem da zona a Parque Nacional. Assim, no dia 8, cada família seguiu seu caminho. A nós, cabía-nos a serrania de Ronda e o Parque Natural de Grazalema. Em Ronda, o espectacular desfiladeiro que atravessa a cidade vale só por si uma visita.
O Parque Natural de Grazalema é um conjunto de serranias cobertas de verde, no interior da província de Cádiz. Um agradável camping rural em plena serra alojou-nos nestas paragens, antes de um regresso a casa que incluiria ainda contudo
Grazalema, 8.04.1998
uma passagem por Matalascañas e um dia familiar passado em Monte Gordo.
Poucos dias depois estaria de novo em Matalascañas ... com alunos. Para além dos 10º anos que tinham ido à Arrábida e ao Gerês, eu leccionava também 12º ano. Em conjunto com alunos do habitual colega e amigo de Português, no dia 28 de Abril partíamos para Sevilha, já que esta viagem tinha também a natureza de viagem de finalistas. Esse primeiro dia destinava-se também a uma curta visita à alentejana Serpa, bem como às Grutas de Aracena.
Visita a Sevilha e Doñana, 28.04 a 2.05.1998
Todo o dia 29 foi dedicado à capital da Andaluzia, tendo por base a Pousada de Juventude de Sevilha. Depois, o destino foi Doñana, começando pelos centros de interpretação e pelos pequenos percursos pedestres de La Rocina e El Acebuche. E o dia 1 de Maio era o dia da "aventura" em profundidade, a visita nos grandes jeeps de Doñana. Talvez mais do que nunca, o espectáculo grandioso das aves aquáticas acompanhando os jeeps emprestavam aventura e "magia" àqueles épicos quilómetros sem estradas.
E por Huelva e Vila Real de Santo António ... o dia seguinte marcaria o regresso. 5 dias marcados, mais uma vez, pelo convívio e solidariedade entre todos.
Depois da "descoberta" de Somiedo, no Outono e Inverno de 1997/1998 sucederam-se pequenos passeios na autocaravana, intervalados por actividades de campo com alunos. Em 20 e 21 de Setembro passámos um fim de semana em Monte Gordo, pouco mais de um mês depois em Alpiarça.
Com duas turmas de novos alunos do 10º ano, num cinzento e chuvoso dia 17 de Novembro levo-os à Arriba Fóssil da Costa da Caparica e ao Parque Natural da Arrábida. Seria o treino para, 4 meses depois, levar esses mesmos alunos ... ao Alvão e ao Gerês. Estava a nascer mais um grupo, entre tantos, a ficar para sempre na memória, nas memórias de uma escola vivida muito para além da escola, mais um grupo a viver, durante os 3 anos do secundário, as "aventuras" e os muitos momentos de convívio e camaradagem que lhes proporcionámos.
Lagoa de Albufeira, 17.11.1997
Cabo Espichel, 17.11.1997
Vale do Zêzere,
Serra da Estrela, 22.02.1998
No Carnaval de 1998, a caravana leva-nos a uma volta pela Serra da Estrela, com passagem pela Sortelha. O vale glaciar do Zêzere, as aldeias serranas de Melo e Linhares da Beira e a vetusta cidade da
Camping Quinta das Cegonhas, Melo, 22.02.1998
Quando se atropela um carro... (24.02.1998)
Guarda recebem-nos por 4 dias. E na Guarda ... vejo o meu júnior entrar pelo pára-brisas de um carro, ao atravessar uma rua! Felizmente sem consequências de maior.
A 11 de Março de 1998 parto com os alunos do 10º ano para o Alvão e Gerês. O programa não foi muito diferente do que havíamos feito quatro anos antes, mas os alunos eram outros, claro, e outros olhos têm
Na ruralidade de Lamas de Olo, 11.03.1998
sempre novas visões, novas percepções, novos testemunhos de novas vivências. O rio Olo, as Fisgas de Ermelo, o caos granítico de Muas, a aldeia de Lamas de Olo, perdida no tempo, levaram estes alunos, a sua professora de inglês e o de Química, estreantes como eles nestas andanças, a um outro mundo, completamente desconhecido da maioria.
À noite, na Pousada de Juventude de Vila Real, houve lugar à música, à camaradagem entre todos, à alegria de viver e de conviver.
Erguer a voz e cantar
Pousada de Juventude de Vila Real, 11.03.98
No dia seguinte partíamos para norte, rumo às terras do Barroso e do Gerês. O velho Mosteiro de Pitões, a cascata e, claro ... a Srª Maria! Mas desta vez não dormimos lá, a "Casa do Preto" serviu apenas o almoço do grupo ... e que almoço! À tarde seria a visita a Tourém, para depois descermos o curso do Cávado ... e chegar à Pousada de Juventude de Vilarinho das Furnas já ao pôr-do-Sol. Mas na Pousada de Juventude ... havia uma discoteca à espera...J!
13 de Março, dia dedicado ao Gerês. Saímos a pé da Pousada de Juventude, atravessamos S. João do Campo, abeiramo-nos do rio Homem. A albufeira está cheia, não se vê a aldeia submersa. Subimos a velha geira romana, chegamos à Mata de Albergaria e à Portela do Homem. Aí, espera-nos como habitualmente o transporte do Parque Nacional, desta vez o "cómodo", a carrinha fechada, para nos levar à Pedra Bela e à Cascata do Arado ... e a um "brinde" extra, a aldeia de Ermida. Mais uma vivência rural de montanha, onde inclusivamente se testemunhou o quão cedo na vida começa a labuta dos campos, como se pode ver no segundo vídeo que acompanha este texto.
Parque Natural do Alvão, 11.03.1998
Parque Nacional da Peneda-Gerês, 12 e 13.03.1998
No último dia, de regresso à cidade, visitámos ainda pela segunda vez o Parque Biológico de Gaia, onde este prometedor grupo de alunos terminaria as suas "aventuras" ... deixando-nos testemunhos como estes:
“Cada passo, cada árvore, cada flor, eram novidade para mim”
Sónia Cordeiro
“Senti uma calma interior como nunca sentira antes; toda aquela força inofensiva, a beleza virgem mas mutável das terras altas, o respeito do Homem pela Natureza, fizeram-me pensar que talvez exista uma esperança, um caminho para tudo. O contacto com a Natureza fazia-me sentir cada vez mais pequena em relação à sua grandiosidade."
Ana Pepe
“Muito obrigado por nos ter dado a conhecer aquele outro lado da vida, com o desejo de regressar e encontrar novos mundos"
Sandra Nunes
“Ao estarmos em contacto directo com a Natureza, aprendemos a respeitá-la e a admirá-la. Também acho importante a realização deste tipo de visitas, para que valores como a solidariedade, o companheirismo e a amizade possam transparecer."
Ana Isabel Barão
“Que estrondo! Que será isto?! Um terramoto? Um furacão? Gente não é certamente e a chuva não bate assim. Fomos ver. Ups, era o nosso naturalista a bater à porta! Rapidamente (que remédio) tivemos que nos arranjar, para mais um passeio ao ar livre...J!"
"La llegada'l ñuberu", Xuacu Amieva, "Tiempu de mitos"
Uma terra natal é onde se nasce ... normalmente...J! Também se pode adoptar uma terra natal, quando descobrimos terras que passam a chamar-nos, às quais nos sentimos pertencer, pelas quais nos apaixonamos, quando cada fraga, cada cheiro, cada cor e cada som nos trazem sensações de comunhão, purificação, libertação, catarse. Nos primeiros artigos deste blog, desde logo falei nas minhas três "terras natais". Duas delas descobri-as há quase 4 décadas: a raia Sabugalense, num largo raio à volta da minha
Íamos virar para o paraíso..., 4.08.1997
Vale de Espinho ... e o Gerês! A terceira, a minha terceira "terra natal" ... só vim a descobri-la em 1997! Com vários périplos pelas comunidades do norte da Península, com uma paixão crescente pelo paraíso asturiano ... como tinha sido possível deixar para trás o Parque Natural de Somiedo, as montanhas e os vales "perdidos" de Teverga e de Quirós, os valles del oso, bem no coração da cordilheira cantábrica, no sudoeste das Astúrias?...
Embora em condições meteorologicamente muito pouco favoráveis, como veremos, mas seriam as férias de 1997 que me iam revelar o paraíso de Somiedo. Depois do Alto Tejo, Douro e Ebro, depois do Canyon de Rio Lobos e do Pico Tres Mares, depois da praia na costa cantábrica, passámos Ribadesella, Arriondas, passámos próximo de Oviedo, e por alturas de San Antolin, junto ao rio Narcea ... a placa de Somiedo chamava finalmente por mim! Passaram-se 14 anos, passaram muitas fragas, mas lembro-me
Estávamos a entrar no paraíso de Somiedo, 4.08.1997
como se fosse hoje daquele dia 4 de Agosto de 1997. Contrariamente aos anteriores, o céu estava enevoado, ameaçando chuva, mas à medida que nos aproximávamos de Belmonte de Miranda e, passada esta, nos embrenhávamos no apertado vale do rio Pigueña ... a minha sensação era a de estar a entrar num outro mundo, o mundo das montanhas "mágicas", das encostas verdejantes, as montanhas e as encostas de "onde l'agua ñaz", onde pululam xanas, ñuberus e tantas outras figuras da riquíssima mitologia asturiana. Sentia-me a fazer parte daqueles bosques, protagonista de um "tiempu de mitos", companheiro dos últimos ursos pardos, que ainda habitam aqueles bosques e vales encantados.
Agüerina, Aguasmestas, La Riera, eram nomes que iriam ficar para sempre gravados nas minhas recordações e nas imagens de um paraíso por descobrir. Parámos a caravana num pequenino parque, já no vale do rio Somiedo, que corre para o Pigueña. Lembro-me da emoção que senti, uma emoção que não se explica, sente-se. Algo naquelas terras me disse logo que eu lhes pertencia, que iria lá voltar! E voltei ... oito vezes...
A magia de Somiedo, 4.08.1997
Desta primeira vez ... os deuses de Somiedo estavam contudo contra mim. Os picos à volta de Pola de Somiedo estavam já mergulhados no nevoeiro, quando visitámos esta tão simpática capital do concelho e sede do Parque Natural. Mas nós íamos para mais alto, para o Camping "Lagos de Somiedo", na pequena aldeia "perdida" de Valle de Lago, a 1250 metros de altitude, na esperança de, no dia seguinte, podermos ir conhecer, a pé, o maior lago glaciário da cordilheira cantábrica, o Lago del Valle.
Mas o dia 5 de Agosto acordou chuvoso...! No desalento de mal poder sair da caravana, eu sentia contudo o cheiro da erva fresca, da ruralidade daquela aldeia perdida nos confins das montanhas de Somiedo. Eu sabia que o lago estava apenas a uns escassos 6 km, o que já tinha lido falava-me das brañas e dos vaqueiros de alzada, dos Picos Albos ... do muito que por ali tinha a viver e a aprender. Mas a chuva e o nevoeiro continuavam implacáveis ... e os meus companheiros, cara-metade e filhos, apelavam às desvantagens de por ali ficarmos à espera de uma melhoria do tempo incerta ... e à "necessidade" de regressar a tempo dos anos de uma prima...
O "concílio" ordenou portanto um bater em retirada ... com muita pena minha. Ao descer de Valle de Lago de regresso a Pola de Somiedo (quantas vezes iríamos fazer esta estrada nos anos seguintes...), algumas nuvens desvendaram as encostas verdejantes que correm para o rio Somiedo, que iríamos agora subir, em direcção ao Puerto de Somiedo ... deixando as Astúrias para entrar em terras leonesas. Coincidência, providência ou contingência ... ao começar a descer a encosta leonesa as nuvens foram-se afastando, revelando-nos uma igualmente maravilhosa vertente sul daquelas montanhas "mágicas" ... e dando gradualmente lugar a um dia de Sol! A primeira "descoberta" de Somiedo ficaria para sempre ligada aos nevoeiros e às chuvas ... que me "expulsaram" do paraíso. Para trás pareciam ficar os urros dos ursos, o canto do urogalo, a magia daquelas terras, mitos, tradições, música; para trás ficava o chamamento que, naquela tarde, noite e manhã chuvosas, tinha já feito de Somiedo a minha terceira "terra natal"!
"Guedeya roxa'al vientu", Xuacu Amieva, "Tiempu de mitos"
Vale de Somiedo, 5.08.1997
La Peral, Somiedo, 5.08.1997
Em terras leonesas, por Villablino e Ponferrada descemos o vale do Sil, em direcção à Galiza e a Portugal. No limite Leão/Galiza, as Médulas de Carrucedo foram a última visita das férias de 1997. Fantasmagóricas formações rochosas resultantes do trabalho de milhares de escravos romanos, em explorações auríferas, as Médulas transmitem-nos uma sensação enigmática. E por Orense e Valença ... regressámos a casa.
Quando descubro a minha terceira "terra natal", 4 e 5.08.1997
Depois das "aventuras" com alunos, nos Picos de Europa, a autocaravana deu "asas" a dois fins de semana caseiros, por sinal seguidos: um em Setúbal (28 e 29 de Junho) e outro em Serpa (4 a 6 de Julho).
No parque de campismo
de Toledo, 25.07.1997
E a 25 de Julho de 1997, a "Riviera" levou-nos de partida para umas férias que foram uma espécie de volta por algumas das belezas naturais do centro e norte da nossa Ibéria. Começámos por Toledo, Aranjuez ... e Cuenca. Cuenca encanta-nos pelo insólito das suas "casas colgadas", quase suspensas sobre o rio Huécar, e, a caminho já de terras aragonesas, pela "Cidade Encantada". Estávamos em terras do Alto Tejo, com a mítica nascente do maior rio ibérico, perto da aragonesa Albarracín.
Cuenca, casas colgadas, 27.07.97
Um monumento, próximo da nascente do Tejo, personaliza o rio e as três províncias que lhe servem de cabeceira: Teruel,
Próximo da nascente do Tejo, 27.07.97
Cuenca e Guadalajara. Depois de um dia de descanso em Albarracín, inflectimos para noroeste, rumo a Soria (onde do Tejo passámos ao Douro) e ao Parque Natural do Canyon de Rio Lobos. Fantástica garganta aberta na rocha calcárea pela acção erosiva do rio Lobos, este canyon constitui um impressionante monumento natural. Do alto da planície a norte, a vista para o apertado vale subjuga-nos e leva-nos ao sabor do voo dos muitos grifos que por ali proliferam. Ao fundo, o velho castelo de Ucero, bem
Parque Natural do Canyon de Rio Lobos:
Castelo de Ucero, 29.07.1997
como o excelente parque de campismo onde iríamos ficar nas duas noites seguintes, já que reservámos o dia 30 para o percurso pedestre do canyon.
O último dia de Julho e o primeiro dia de Agosto levaram-nos à costa cantábrica, passando pela beneditina Santo Domingo de Silos, Burgos, e, já na Cantábria, à nascente do Ebro e ao Pico Tres
Ermita de San Bartolomé, Canyon de Rio Lobos, 30.07.1997
Mares, que com os seus 2175m de altitude é um dos pontos mais altos a que se pode chegar por estrada, na Cordilheira Cantábrica. Deve o seu nome ao facto dos 3 rios que nele nascem correrem para o Douro, para o Ebro e directamente para o Mar Cantábrico ... e portanto para três mares diferentes. As panorâmicas do topo são fabulosas, vendo-se toda a cordilheira ao longo das Fuentes Carrionas e Alto Campoo, no limite entre Palencia e a Cantábria.
Havíamos de ali voltar ... com alunos!
Do Pico Tres Mares descemos à costa ... e fizemos dois dias de praia, no Camping "La Paz", próximo de Llanes, Astúrias. É que ... tínhamos combinado um encontro entre a Riviera e a Pilote da viagem à Escócia...J!
Pico Tres Mares (2175m), 1.08.1997
Panorâmica para norte, Pico Tres Mares, 1.08.1997
Camping "La Paz", Llanes, 2.08.1997
Encontro autocaravanístico no
Camping "La Paz"...J
E um almoço em conjunto, 3.08.1997
De Llanes seguimos ao longo da costa asturiana, para oeste. Passámos as já nossas conhecidas Ribadesella e Arriondas ... após o que regressámos às montanhas. A seguir ... ia conhecer o paraíso!...