Este blog está programado e paginado para Microsoft Internet Explorer. Noutros browsers, é natural alguma desconfiguração.

sábado, 23 de outubro de 1976

Os anos revolucionários (2): 1975 / 76

A "descoberta" do Gerês, no "verão quente" de 1975, acentuou definitivamente a revolução que me transformaria no amante da montanha, das serras e dos vales, das florestas. Não, não tinha ainda carro, nem carta de condução, que os magros salários não davam para esses luxos. Por isso ... até as idas a Vale de Espinho eram de comboio ou de autocarro ... ou as duas coisas. Em Agosto de 1975, grande parte das férias lá foi de novo na aldeia arraiana que já começava a ser minha. O Freixial era sempre o ponto de convívio, de brincadeiras, dos banhos nas águas gélidas mas límpidas do Côa. Mas as "minhas botas, velhas, cardadas" já começavam também a palmilhar as "léguas sem fim" da Serra da Malcata. Contemplei pela primeira vez Vale de Espinho do Cabeço da Pelada, subi ao Cabeço da Moura, à raia de Espanha ... e extasiei-me ante a imponência das panorâmicas a perder de vista! Lá ao fundo, para sul, o cabeço de Monsanto destacava-se; a oeste e sudoeste,  a Estrela e a Gardunha altaneiras;  a nascente,  as  serranias
Acampamento nas nascentes do
Alviela, 12 de Setembro de 1975
de onde vem descendo o Côa ... cuja nascente só me seria revelada muitos anos mais tarde.
Mas ... a Espeleologia tinha deixado raízes ... e saudades! Na continuação dos trabalhos para a cadeira de Ecologia, porque não levar o Dr. Magalhães e os colegas que quisessem alinhar ... aos Olhos de Água do Alviela? O fim de semana de 12 a 14 de Setembro de 1975 foi o primeiro de vários ali passados, acampados junto ou dentro da gruta dos Amiais, em trabalhos de recenseamento das populações de morcegos ali existentes.
17 de Junho de 1976 -
a caminho da Serra da Nogueira
Já em Junho de 1976, levei-os também às grutas de Leceia. E voltámos à Tapada de Mafra ... no regresso da qual passámos uma memorável noite de Santo António em casa do Dr. Magalhães!

17 a 19 de Junho de 1976: também pela mão do Dr. Carlos Magalhães, conheço outra importante área natural de montanha, a Serra da Nogueira, lá nas terras de Trás-os-Montes. Ficámos todos alojados na Casa Florestal da Nogueira, participando e acompanhando trabalhos de recenseamento de lobos e de cervídeos, mas também num mais uma vez excepcional ambiente de convívio e camaradagem.
Na Casa Florestal da Nogueira,
18 de Junho de 1976
Nos carvalhais da Nogueira,
18 de Junho de 1976
Casa da Nogueira, 18 de Junho de 1976 - uma cria de lobo cuja mãe havia sido abatida
A viagem Bragança - Lisboa, feita numa velha Portaro dos Serviços Florestais ... foi uma aventura. Mas, mesmo assim ... "desviámos" a Portaro: a família Magalhães foi conhecer Vale de Espinho!

E as cadeiras do curso de Biologia iam avançando; no verão de 1976, estávamos a completar o 4º ano ... e
17.07.1976 - Nos salgados de Corroios, com o Professor
Fernando Catarino
a precisar de férias...J! 1ª semana de Agosto: uma semana acampados no Portinho da Arrábida! Depois ... Santa Cruz e o regresso às Berlengas!
13.08.1976 - Praia de Santa Rita, ruínas do
antigo mosteiro de Penafirme
No dia 13 fizemos uma jornada a pé  ao  longo  das arribas, de Santa Cruz à praia da Corva, a norte de
Porto Novo.
13.08.1976 - Praia de Porto Novo
















E na 3ª semana voltámos a acampar no paraíso das Berlengas, com 3 amigos feitos ainda no velho "Cabo Avelar Pessoa".
No paraíso da Berlenga, 18 de Agosto de 1976
Acampamento na Berlenga

Em Setembro/Outubro de 1976 ... nova "revolução"! Como todas as revoluções, implicava uma decisão: ia fazer  o  final  do curso  de Biologia com Formação Científica ou  Educacional ?  A chama da Espeleologia
Acampamento junto às grutas de Assafora, Sintra,
2 de Outubro de 1976
estava ainda acesa e os trabalhos com morcegos tinham-na reactivado.
Colónia de morcegos nas grutas do
Amiais, Alviela, 23 de Outubro de 1976


Com o objectivo de uma possível especialização científica na ecologia e comportamento daqueles nossos parentes cavernícolas, em Outubro de 1976 acampámos nas grutas de Assafora, Sintra, e, dois fins de semana depois, de novo nas minhas velhas conhecidas nascentes do Alviela. Ainda comecei, aliás, um estágio científico no Instituto de Medicina Tropical, precisamente sobre parasitologia em Quirópteros.

Mas outra chama tinha estado também sempre latente: porque não ... tornar-me um Ribau? Cativar os jovens para as Ciências da Vida, para os grandes espaços naturais que eu aprendera a amar? A paixão pela docência começou a fermentar ... e viria a ocupar-me ao longo de 3 décadas!
26 de Janeiro de 2011

segunda-feira, 28 de julho de 1975

À descoberta do Parque Nacional da Peneda-Gerês

Pela mão do saudoso Professor Carlos Almaça, que nos leccionava a cadeira de Zoogeografia, parti a 24 de Julho de 1975, com a minha mulher e outros colegas daquela cadeira ... para 5 dias à descoberta do Parque Nacional da Peneda-Gerês. A postura firme, respeitosa e séria do Professor Almaça, que já conhecíamos das aulas ... era afinal também uma extraordinária postura de jovialidade, de camaradagem, de perfeito à-vontade.
Recordo como se fosse hoje as primeiras sensações naquele paraíso. O Professor Almaça e os mais "endinheirados" ficaram no Hotel, na vila do Gerês. Nós ... ficámos no velhinho Parque de Campismo da Mata de Albergaria, junto à fronteira. Que cenário! Que sensação de comunhão! Nesse tempo não havia incêndios! Mas, em nome de uma pseudo-conservação ... o parque de campismo de Albergaria foi fechado pouco tempo depois. O Clube Académico do Porto ainda ali construiu uma casa abrigo ... mas os "abutres" voltaram a surgir e fecharam a casa. Hoje ... está no mais completo abandono...
No Parque Nacional da Peneda-Gerês, 26.07.1975                                                       Turfeiras no Planalto da Mourela, 27.07.1975
Aqueles 5 dias foram para mim de deslumbramento. Percorremos o Parque Nacional, do Planalto de Castro Laboreiro ao Planalto da Mourela. É certo que pouco percorremos os trilhos da serra - andámos basicamente nos caminhos em que a carrinha do Parque podia circular - mas todos os momentos eram para mim de emoção, de contemplação, de êxtase. A serra do Soajo, a anta do Mezio, no outro extremo Tourém, a barragem de Salas, Pitões das Júnias (a que mais tarde eu chamaria "a aldeia mágica"), a aldeia perdida de Vilarinho da Furna, desaparecida havia apenas pouco mais de 3 anos, o vale do Alto Homem, as panorâmicas da Junceda e da Pedra Bela, a cascata do Arado ... nomes que me passariam a ser familiares, locais que passariam a ser um pouco "meus", águas, matas e fragas que me passariam a chamar ao longo de toda a vida.
Vale do Alto Homem, 28.07.1975                                                                     Miradouro da Junceda, 28.07.1975
Criado havia menos de 5 anos, o nosso único Parque Nacional cativou-me para sempre. Outras terras, outras gentes ... que passaram a ser "minhas", especialmente a Serra "mágica" do Gerês. Aquelas fragas apontadas aos céus, entre Pitões e o vale do alto Homem - os Cornos das Alturas, os Carris, o mítico Altar de Cabrões - tinham-me ficado gravadas como imagens vivas, lá longe, no cume da serra a que o Professor Almaça me levara. Saí de lá dizendo ... tenho de um dia me embrenhar naquelas serras, galgar aquelas fragas, beber aquelas águas, entregar-me àquela catarse purificadora.
As fragas do destino ditariam que, se eu tinha descoberto o Gerês como aluno ... voltaria lá como professor durante as duas décadas seguintes!
25 de Janeiro de 2011

sábado, 19 de julho de 1975

Os anos revolucionários (1): 1974 / 75

30 de Março de 1974: as primeiras fragas da "nova vida" foram na Arrábida ... com a família Ribau. Tinha combinado com eles e outros da Espeleologia participar numa actividade que incluía o treino inicial de novos espeleólogos. Outros iam começar a vida fabulosa que eu tinha começado 3 anos e meio antes! Acampámos na mata sobre o fojo dos morcegos, onde descemos no dia seguinte. O céu estrelado que se via por entre as clareiras transportava-nos em silêncio para um universo sem tempo. E de novo vieram os cânticos, a convivência ... mas também o amor.
Quando o grupo voltou a Lisboa - na velha VW do Ribau - nós dois seguimos a pé para o Portinho, onde acampámos em plena praia; tínhamos acabado o 1º semestre do 2º ano da nossa Licenciatura em Biologia. Quis o destino que só voltasse a ver o meu ex-professor Ribau 5 anos depois; e a filha Ana Maria, que viveu com o grupo em que eu estava tantas "aventuras" espeleológicas ... 37 anos mais tarde!
Nestes três dias acampados na Arrábida, apenas pensávamos em nós mesmos. Passeávamos pela areia, íamos até à pequena mercearia comprar leite e pão, vestíamos a nossa "farda" submarina, explorávamos a costa rochosa, íamos até à Pedra da Anicha. De regresso, mochila às costas e alegria na alma, fomos a pé do Portinho ao Outão, para apanhar o autocarro ... mas também uma valente carga de água...J!
Acampamento no Portinho da Arrábida, 31 de Março de 1974

Em Abril de 1974 - poucos dias antes da Revolução - voltámos  a  Vale de Espinho ... no  novo  "estatuto"
Vale de Espinho, 16 de Abril de 1974
de recém-casados...J! Era o início de um desbravar da "minha" Malcata, das águas do Côa, dos convívios e patuscadas à beira-rio; eram as terras e as gentes que eu estava a começar a adoptar.
A 25 de Abril de 1974, assistimos com o resto do País e do mundo à queda do Estado Novo. Seguem-se os anos revolucionários, revolu-cionários a todos os níveis, incluindo na Faculdade de Ciências e na nossa Licenciatura em Biologia, como em todas as outras.
Mas o ano de 1974 também teve outro rótulo: casados desde Dezembro, ambos precisávamos tanto "de amor e de sossego" ... mas também "preciso dum emprego"...J! Em Agosto de 1974 ... arranjaram-me um emprego! Empregado no Arquivo de Identificação de Lisboa, desde Agosto de 1974 ... encontrávamos contudo sempre tempo para os acampamentos na Arrábida, para as idas a Vale de Espinho ... tempo para viver e conviver.
Entretanto, o espectro da guerra colonial dissipava-se com a revolução. Com sucessivos adiamentos de incorporação, devido à frequência da licenciatura, quando 3 anos depois a terminei passei directamente à reserva territorial. O serviço militar não fez parte, portanto, das minhas vivências.
Portinho da Arrábida, 4 de Agosto de 1974
25 de Agosto de 1974 - Acampamento no Parque de Campismo do Guincho
Os anos conturbados de 1974 a 76 marcaram também uma certa viragem nas minhas e agora nossas "aventuras". Já não mergulhava desde Abril de 73, a não ser pequenas "explorações" em apneia. Mas a viragem também operada na estrutura do Curso de Biologia, trouxe-me uma cadeira de Oceanografia Biológica ... e trouxe-me a possibilidade de voltar a mergulhar, desta vez "pela mão" do saudoso professor Luís Saldanha. Em Maio de 1975, acampei e mergulhei com ele e com os colegas daquela cadeira.
11.05.1975 - Mergulho ao largo de Tróia                                                                      28.05.1975 - Lagos, preparativos de mergulho
Contudo, o "verão quente" de 1975 parecia estar a operar uma certa "revolução" também em mim: o apelo do mar estava a diminuir ... na mesma proporção em que aumentava o apelo do campo, das florestas, da serra. Afinal ... não tinha eu começado as minhas "aventuras" em terra...J? Não voltei a mergulhar com garrafa, desde Maio de 1975. E a "revolução" foi tão grande que, nas cadeiras opcionais do curso, à citada
Tapada de Mafra, 19 de Julho de 1975
Oceanografia Biológica seguiu-se ... a Dinâmica dos Ecossistemas Terrestres. Dois espectaculares fins de semana passados na Tapada de Mafra, em Junho e Julho de 1975, em trabalhos práticos para a cadeira de Ecologia Geral, terão contribuído também para esta viragem. Obrigado Dr. Carlos Magalhães! Passámos esses fins de semana com ele, a família e os colegas da cadeira, instalados na Pousada Real, percorrendo quase toda a Tapada, a pé e de jeep. Ele e a família ainda hoje são felizmente grandes amigos! Que maravilhosas recordações do convívio entre todos, dos trabalhos de campo, das contagens de roedores, da procura dos dejectos de cervídeos ... e da noite em que julgámos ouvir o ronco de um javali ... confundindo-o com o ressonar de um colega que adormeceu...J!
Poucos dias depois ... iria começar a apaixonar-me pela segunda das minhas actuais "terras natais".
25 de Janeiro de 2011

quinta-feira, 23 de agosto de 1973

Cantando é como se dissesse: estou aqui !

Para além das paisagens e dos grandes espaços que as viagens paternas me tinham  mostrado,  para  além
Santa Cruz, 20 de Maio de 1973
das muitas fragas galgadas nos "anos loucos" de 1970 a 72, um recanto natural que me era e é familiar desde que nasci são os pinhais e as arribas costeiras da Praia de Santa Cruz, Torres Vedras.
Quantas contemplações daquele mar impetuoso, galgando as "varandinhas" da Praia Formosa, ou o sopé do Penedo do Guincho. Quantas caminhadas pinhais fora, ou pelas arribas, entre a Praia Azul e Porto Dinheiro. E, também ... quantas passeatas na bicicleta ou na motorizada alugada ao "velho" Sr. Filipe ... incluindo vários "malhanços"...J! Quantos anseios sonhados...
Agora que, em 1973, eu tinha uma companheira ... era "obrigatório" levá-la a Santa Cruz...J! E se em Abril eu tinha conhecido Vale de Espinho ... em Maio ela conheceu as arribas e os pinhais de Santa Cruz. Claro que, mais uma vez ... brasinha, brasinha, cada um em sua casinha...J!
E chegamos ao Verão de 1973.  A Paróquia de Moscavide, onde a minha arraiana vivia,  organizava  todos os anos uma Colónia de Férias para jovens, junto ao Santuário dos Remédios, no Cabo Carvoeiro, Peniche.
Colónia nos Remédios, Peniche,
12 de Agosto de 1973
Em 1973, foi de 10 a 25 de Agosto: 15 dias que passei, acampado ... em frente da Colónia de Férias dos Remédios...J! Mas não fui o único! Outros que, como eu, tinham o "estatuto" de namorados das gaiatas, ali estavam também!  Naqueles 15 dias,  muitas vezes  íamos
Cabo Carvoeiro, 16.08.1973
para o Cabo Carvoeiro depois do jantar, ver o mar e o céu, cantar, viver a nossa juventu-de. Outras vezes íamos a pé à vila, a Peniche, algumas vezes até de madrugada, ao pão quente. Era uma colónia de férias da paróquia, mas até a missa era momento de conví-vio e de canto. Obrigado Padre Cosme e Padre Cartageno ... obrigado Francisco Fanhais, pelas muitas músicas que dele cantávamos ... porque "cantando é como se dissesse: estou aqui ! "
No dia 22, fomos no velho "Cabo Avelar Pessoa" até ao paraíso das Berlengas. Passámos lá o dia, entre o mar e o céu. Parecia-nos que o tempo tinha parado, que nada mais havia no Universo senão nós, as águas transparentes e as rochas luzidias!

Ao regressar a Lisboa, deixei para trás a última "aventura" daquela etapa da minha vida ... a vida de solteiro. Ao passar, perto da Lourinhã, na placa que dizia "Bolhos 4 km", não deixei de relembrar que foi ali que tudo começou, na Espeleologia, nas grutas de Bolhos, quase 3 anos antes. Juntámos os "trapinhos" em Dezembro de 1973.
20 de Janeiro de 2011