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domingo, 22 de abril de 1973

Vale de Espinho, uma melodia a 4 estações...

Pelos  caminhos  da  Espeleologia,  dos acampamentos,  das muitas fragas  e trilhos percorridos, os nossos
Vale de Espinho, Rio Côa
19 de Abril de 1973
campos e as nossas aldeias tinham-me ensinado a respirar o ar puro, a conviver, a criar uma paixão pela Natureza e pelo mundo rural. Em Abril de 1973, o romance havia pouco iniciado levou-me a uma aldeia raiana que, 20 anos antes, vira nascer aquela que viria a ser minha mulher; aldeia, terras e gentes que adoptei e que me adoptaram, que tenho calcorreado e desbravado ao longo de quase 40 anos! Vale de Espinho, nas terras de RibaCôa do concelho do Sabugal, separada da Beira Baixa pelas alturas da Serra da Malcata ... passou a ser a "minha" aldeia, o retiro espiritual de tantos e tantos encontros com a Natureza ... desde esses primeiros 5 dias maravilhosos ... nas férias da Páscoa de um longínquo 1973.
Trinta e três anos depois, em 2006 escrevi para um filme a que precisamente chamei ... "Vale de Espinho, uma melodia a 4 estações":

"Em Abril de 1973, conheci pela primeira vez Vale de Espinho. Desde então, apaixonei-me verdadeiramente pelas terras e gentes raianas, por esta aldeia que viu nascer gente que passou a fazer parte da minha vida.
Sem nele ter tido aparentemente origem, o mundo rural sempre me fascinou. Aqui, na "minha" Vale de Espinho, sinto que pertenço a estas terras e a estas gentes, aos blocos de granito imponentes, às lâminas de xisto brilhando ao Sol, à "minha" Malcata, onde infelizmente já não correm os linces, mas em cujas encostas verdejantes cantam as águas que se juntam no Côa, no Bazágueda, na ribeira da Meimoa.
Ao longo de mais de 30 anos, a minha paixão por estas terras foi-me levando a calcorrear cabeços e vales, das paisagens ribeirinhas do Côa às serras do Homem de Pedra, de Aldeia Velha, das Mezas, por trilhos de lobos e de javalis, por barrocos e nascentes.
Conheci os Urejais, as Fontes Lares, as Colesmas, o vale dos Abedoeiros, o vale da Maria, a Fonte Moura, o Nabo da Cresta, o Alcambar; de Vale de Espinho cheguei a Valverde, subi à Pedra Monteira, ao barroco ratchado, percorri os caminhos da Ventosa e do Espigal, da Malhada do Barroso, do Poço do Inferno, da Marvana; passei a Quinta do Major, fui ao Fragão, ao Salgueirinho, aos moinhos do Bazágueda, ao Vale Longo, às Quelhinhas ... e a tantos e tantos outros lugares cheios de energia telúrica, convidativos à poesia, à contemplação, à meditação.
A maioria destes caminhos fi-los sozinho, só eu e a Natureza, numa verdadeira melodia a 4 estações, por vezes partindo antes de o Sol raiar, precisamente para o ir ver levantar-se ante a imponência das fragas e do horizonte a perder de vista. Só assim se vivem e se sentem os ares, os sons, os cheiros da Natureza.
Nas Veigas com o avô Quim,
19 de Abril de 1973
Este filme é a minha singela homenagem a estas terras de encanto e encantamento, às suas raízes e tradições, a todas estas cores, sons e cheiros, às vozes das suas gentes simples e sãs, para quem a roda das estações gira ao sabor das melodias de uma Natureza agreste, inspiradora e saudável."

Mas voltemos a recuar no tempo. Aqueles 5 dias de Abril de 1973 foram inesquecíveis. Conheci os avós da minha  "tão  linda
Fontes Lares, foto "histórica" no
barroco "sagrado", 1963
arraiana"; conheci as ruas e as estreitas "quelhes" da aldeia, de casas de pedra, as lojas para os animais por baixo da habitação, conheci os lameiros onde labutavam homens e animais, conheci a vida rude, sã e pura do campo. Logo no segundo dia, fomos às Fontes Lares a pé, a cerca de 4 km da aldeia. É um sítio com recordações gravadas nas memórias da família onde estava a entrar, com a sua nascente de água pura e cristalina, o barroco do qual parece brotar energia telúrica, a que mais tarde eu viria a chamar o "barroco sagrado".
E, claro, o Côa, ali ainda relativamente perto da nascente, antes de atravessar toda a Beira Alta e se precipitar no Douro. Que saudades do velho Freixial, das Aleguinhas, das trutas que víamos correr nas águas cristalinas e gélidas.
A minha arraiana e os pais ficaram em casa da avó materna; eu, claro ... fiquei em casa dos avós paternos. E mesmo assim, em 1973, já era uma grande ousadia alguém de fora querer "roubar" uma moça da aldeia. Sempre que um rapaz de fora iniciava namoro com alguma, era autuado pelos da terra, isto é, intimado a pagar a "patenta". Esta constava geralmente de um cântaro de vinho, acompanhado por tremoços e amendoins e, por vezes, por uma bucha – pão com chouriço ou com outro petisco. As raparigas envolvidas nesses namoros sentiam-se, por um lado, envaidecidas por serem procuradas, mas ao mesmo tempo criticadas face à aceitação de um rapaz de fora. A recusa do pagamento da patenta podia ser interpretada como querer fazer pouco, não só da rapariga como da rapaziada local. O forasteiro ou assumia e pagava, ou desandava dali. Contudo ... nunca paguei a patenta...J! Talvez porque a rapaziada de Vale de Espinho já sabia que eu viria a ser filho adoptivo da raia...J!
Fontes Lares, 20 de Abril de 1973                                                                    Freixial, Rio Côa, 21 de Abril de 1973
Aqueles 5 dias foram inesquecíveis ... mas muitos outros se seguiram naquelas terras de encanto e encantamento ... ao longo já de quase 4 décadas!
Tal como o filme de 2006, este artigo é dedicado à memória do meu saudoso sogro, José Clemente Malhadas, o "Zé Malhadinhas", filho de Vale de Espinho e das terras raianas.
19 de Janeiro de 2011

terça-feira, 17 de abril de 1973

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

Mar de Ancão, Sesimbra,
7 de Janeiro de 1973
No dia 7 de Janeiro de 1973, fiz talvez um dos meus mais belos mergulhos. Saímos para o mar pelas 11:30h, em direcção ao Espichel. Decidimos ir para o Ancão, a melhor zona da costa de Sesimbra. Caímos directamente a 20 metros ... e deslumbrámo-nos imediatamente. Num cenário esplendoroso, "voávamos" sobre rochas arborescentes, cobertas de anémonas, espirógrafos, esponjas, por entre cardumes de peixes coloridos, que nos acompanhavam intrigados. Éramos quatro naquela maravilhosa paisagem submarina,
até que o ar das garrafas o permitiu. Abrimos as reservas e subimos; 38 minutos de mergulho ... pareceram-nos segundos! Na velha barca ... fomos e viemos a cantar. E três fins de semana depois estava de novo a mergulhar, mas desta feita em água doce, na Barragem de Santa Clara, perto da alentejana vila de Sabóia.

E em Fevereiro de 1973 ... "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"...J! Tinha iniciado a Licenciatura em Biologia em Outubro de 72, ganhando com ela novos amigos, novo ambiente de sã camaradagem, tanto entre colegas como com a maioria dos professores da então velhinha Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica. Entre as colegas ... surgiu uma "fraga" que me viria a acompanhar toda a vida...J! A minha paixão pela Natureza, pelo mundo rural, pela gente sã dos nossos campos e das nossas aldeias, amadurecida em tantos e tantos acampamentos e "aventuras" vividas nos "anos loucos" anteriores ... trouxe-me uma estudante de Biologia, como eu, precisamente oriunda desse mundo rural! E como " todo o mundo é composto de mudança " ... a minha e agora nossa vida também mudaram: conhecemo-nos no primeiro ano ... casámos no segundo...J!

Casais do Vale da Pedra, Cartaxo,
10 de Março de 1973
Mudaram os tempos, mudaram as vontades ... mas nasceram vontades construídas a dois ... sempre ligadas à Natureza, ao mundo rural, aos grandes espaços naturais. A primeira "fraga" vivemo-la em Casais do Vale da Pedra, Cartaxo, onde os pais da minha "musa" tinham  uma  pequena  quinta.  À  luz  de  um  candeeiro  de  petróleo,
Portinho da Arrábida, 31.03.1973
Uma viola, uma voz, um ritmo...
ouvindo o vento assobiar por entre as oliveiras e pinheiros, a minha paixão pelo campo crescia ao ritmo do nosso romance ... mas acampadinho à porta, que na época não se permitiam ousadias...J!
E ainda em Março daquele longínquo ano de 1973, a Associação de Estudantes de Ciências organizou uma excursão ao Portinho da Arrábida ... e claro que não podíamos faltar. Que hino à nossa juventude e camaradagem! À volta da tradicional fogueira, todos erguemos bem alto as nossas vozes!
Portinho da Arrábida, 31.03.1973 - Convívio da Faculdade de Ciências

De 14 a 18 de Abril de 1973, realizou-se mais uma actividade de Mergulho, em Sesimbra. O Centro Nacional Juvenil de Mergulho Amador tinha entretanto passado a Serviço de Exploração Subaquática do Secretariado para a Juventude (mais tarde FAOJ). Pela primeira vez ficámos instalados no Forte de Sesimbra, em vez da velha casa-abrigo no porto. Para mim, foram mais três mergulhos espectaculares, na baía de Sesimbra, na Varanda e na Ponta de S. Pedro ... mas os ventos de mudança começavam a soprar fortes: a minha nova estrela não era mergulhadora ... e as saudades levaram-me a regressar um dia antes dos restantes elementos do grupo!
Poucos dias depois ... iria conhecer pela primeira vez as "terras mágicas" da raia Sabugalense, que viram nascer a "fraga" que ainda hoje me acompanha...J!
14 de Janeiro de 2011

sábado, 30 de dezembro de 1972

Os "anos loucos" (2): 1971 / 72

Regressado da "aventura" africana, em 1971 as aulas no Passos Manuel começaram um pouco mais tarde ... pelo que os primeiros dias de Outubro foram no Portinho da Arrábida, depois de atravessarmos a serra a pé, desde Azeitão, passando pelo cume do Formosinho. E em Novembro, à Espeleologia, aos acampamentos, às caminhadas ... juntei o Mergulho Amador!
Porto de abrigo de Sesimbra,
Abril de 1972
No mergulho fiz novos amigos. Aí convivi também bastantes vezes, aí adquiri novas e ricas experiências. Às sessões de piscina do curso, seguiram-se as sessões de mar, em Sesimbra ... e em 21 de Novembro de 1971 tornei-me Mergulhador Amador diplomado. Mas ainda me lembro da minha primeira sessão de mar: fui o 4º a saltar, um salto no desconhecido; lá em baixo, via os outros agarrados à corda da âncora, os monitores descendo ao nosso lado. A 20 metros já não se via a superfície. Bastava-me agora uma ligeira movimentação do corpo para nadar noutra direcção e descobrir mais maravilhas.
O destino era quase sempre o litoral da Arrábida, Sesimbra particularmente, onde tínhamos uma casa-abrigo e uma traineira por nossa conta, a velha Barca do Joaquim Zé. Ainda fizemos nela uma épica viagem de Sesimbra a Sines, em Maio de 1972, com regresso no dia seguinte: 6 horas contra a nortada, com as nossas entranhas a quererem abandonar-nos o corpo! Nem coragem tivemos para despir os fatos de borracha...!

Porto de abrigo de Sesimbra, Agosto
de 1972 - Erguer a voz e cantar...
9 de Agosto de 1972 foi o dia do meu mergulho mais profundo, ao largo de Sesimbra: 65 metros de profundidade. Senti-me um Cousteau ou um Hans Hass...! O mundo do silêncio revelou-se-me também o mundo das trevas eternas; a luz abandonou-nos quase completamente por volta dos 40 metros, seguindo-se uma penumbra cada vez mais densa e misteriosa. Tocámos por fim o fundo, de uma vasa mole e escorregadia, evidenciando os efeitos da pressão já razoável: quase 8 vezes mais do que à superfície.
Mas, para além das maravilhas do mundo submarino que em cada mergulho se nos patenteavam ... mais uma vez não faltavam, nunca, as horas de convívio, de sã camaradagem, de cânticos cantados no velho "Tic" ou nas escadas do porto de abrigo, enquanto os compressores enchiam as garrafas para as novas "aventuras" que nos esperavam no dia seguinte.

Março de 1972 - Gruta nova, Chãos,
Alcobertas (Sª de Candeeiros)
Mas o Mergulho não fez esmorecer a Espeleologia e os acampamentos. Que será feito daquela boa gente que nos recebeu em Chãos, na Serra de Candeeiros, em Março de 1972 ... durante 11 dias?! O café do lugar foi logo baptizado: "Café cá do sítio"...! O neto do dono do café … até participou connosco na exploração das grutas. As grutas de Alcobertas são as maiores, mas muitas mais grutas e algares ali explorámos ao longo daqueles dias; algar das Cancelinhas, lapa do vale da lagoa, algar da Chouza do Luís, algar da Ortinha, são nomes que nunca mais me saíram da memória. Num esplendoroso dia em que subimos ao cruzeiro e marco geodésico, via-se toda a costa, de Peniche à Figueira da Foz, as Berlengas, a Lagoa de Óbidos, S. Martinho do Porto, a Nazaré, tudo em redor.
Chãos, Março de 1972: à porta do...
"Café cá do sítio"...
Destes 11 dias em Chãos também recordo ... quando levámos 6 horas para fazer o almoço...! Ambicionando um pitéu mais sofisticado, resolvemos que a ementa seriam batatas fritas com "lanche" ("lanche" era uma carne enlatada típica nos anos 70 do século passado...). Fomos comprar óleo, juntámos lenha, acendemos a fogueira, pendurámos a panela por cima com o óleo, mas ... há sempre um mas...: a lenha estava molhada, tentámos avivar o lume com pedras de carbureto dos gasómetros ... e 6 horas depois estávamos a comer batatas cozidas ... em óleo...J!

Em Junho de 1972 voltámos ao Alviela. Recordo-me de um dia em que regressámos às tendas quase à meia noite, depois de mais uma exploração nas grutas do Amiais. Mas a noite estava uma maravilha, convidativa a um passeio nocturno. E assim, sob um céu repleto de estrelas, ao luar, cantando velhos cânticos, subimos e descemos encostas, atravessámos pinhais, ouvindo o rio que corre ligeiro mais abaixo, a música da Natureza. Às duas e meia da manhã estávamos de novo nas tendas.

Em Julho de 1972 acampámos, eu e mais dois, nos pinhais junto à Praia de Santa Cruz (fotografia no artigo de apresentação). E, no mês seguinte ... que dizer da semana vivida no Campo de Trabalho da Godinha, perto de Campo Maior, na apanha do tomate? Para lá fui a pé e à boleia. 6 boleias, incluindo um táxi, um tractor ... e uma carroça! Saído de Lisboa às 7 da manhã ... às 10 da noite ainda estava em Elvas ... e a noite foi debaixo de uma oliveira, num terreno lavrado, com as estrelas por tecto. Às 6 e meia da manhã do dia seguinte, 14 de Agosto, o Sol já há algum tempo havia lançado os seus primeiros raios. A minha 84ª noite de campo ... foi a primeira noite completamente ao relento.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
Depois ... depois foi uma das melhores semanas da minha vida, nos meus quase 19 anos! Tratava-se de um Campo de Trabalho para jovens, onde o "tema" principal ... era a apanha do tomate. Mas aqueles dias foram uma experiência ímpar de solidariedade, de vivências, de camaradagem entre todos os rapazes e raparigas que ali estiveram. A imensidão dos campos da Godinha, o trabalho nas plantações, debaixo de um Sol ardente e um céu sempre azul, a convivência com a gente do monte e no grupo, proporcionaram-me recordações que jamais esquecerei. No grupo de jovens havia alguns timorenses, ensinando-nos canções da sua terra distante. Um deles, viria mais tarde a ser conhecido nacional e internacionalmente: D. Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau.
Campo de Trabalho da Godinha,
Campo Maior, Agosto de 1972
O trabalho na Godinha era remunerado, claro. Lembro-me que ganhei o suficiente ... para no último dia me instalar confortavelmente numa Pensão em Elvas, ir ao cinema ... e regressar de autocarro a Lisboa. Mais um fascículo d'"A Fauna", do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente, foi a leitura que ocupou o regresso a casa. Ao chegar, já tudo me parecia um sonho: os campos a perder de vista, a noite ao relento, Elvas, a apanha do tomate ... mas principalmente o que trazia de vivência e de enriquecimento interior.

Poucos dias depois da Godinha, percorri com meus pais todas as ilhas dos Açores, de Santa Maria ao Corvo. E m
enos de 2 meses depois ... o "meu" Liceu Passos Manuel tinha passado à história. Sem dúvida por influência do Ribau, iniciei em Outubro de 1972 a minha Licenciatura em Biologia. A velhinha Faculdade de Ciências, ainda na Rua da Escola Politécnica, recebia-me para os 5 anos académicos seguintes.

Mas, para fechar este ciclo, Novembro e Dezembro de 72 foram de novo dois "meses loucos": voltámos por três vezes a Chãos e à boa gente que tão bem nos havia recebido em Março, para novas explorações nas grutas de Alcobertas e alguns algares próximos. No fim de Novembro ... mais um fim de semana de mergulho, em Sesimbra. E, nos últimos dias do ano, de 27 a 30 de Dezembro, uma actividade ao largo de Setúbal, Tróia e Arrábida, no 1º Encontro Nacional de Mergulhadores Juvenis, fechou estes dois intensos anos ... aos quais na altura me referia muitas vezes como os melhores anos da minha vida!
13 de Janeiro de 2011

domingo, 26 de setembro de 1971

Uma viagem transafricana ... há 40 anos!

Entre 1961 e 1970, já tinha percorrido toda a Europa de automóvel, como referido no artigo de apresentação deste blog, bem como dois "aperitivos" africanos em Marrocos. Ora, a meio dos "anos loucos" de 1970 a 72 ... participei na maior "aventura" de sempre com meus pais e irmão: uma viagem transafricana, num VW "carocha", estabelecendo a ligação automóvel Luanda - Cidade do Cabo - Lourenço Marques - Beira! Quase 11 mil km percorridos!
Luanda, 15 de Agosto de 1971
Para um apaixonado pela Natureza que já era ... esta foi sem dúvida a viagem mais épica de sempre, até porque implicava a passagem por diversas áreas naturais que passavam frequentemente pelo meu imaginário. Comemorei aliás o meu 18º aniversário ... no Canyon de Fish River, em pleno deserto do Namib!
Assim, a 15 de Agosto de 1971 - poucos dias depois de regressado do acampamen-to na Berlenga... -  tive o meu baptismo de voo, um voo de cerca de 9 horas, até à então portuguesa Luanda! A Luanda dos anos 70 é talvez, ainda hoje, das mais belas cidades que conheci!
Quedas Duque de Bragança,
17 de Agosto de 1971
A primeira maravilha da Natureza foram as Quedas Duque de Bragança, no rio Lucala, próximo de Malange. O espectáculo das águas e da floresta tropical é inesquecível. Os sons e os cheiros também nos diziam bem que estávamos em África. Do mato vinham gritos de aves escondidas, o guinchar de macacos saltando nos ramos de um embondeiro, o restolhar de qualquer cobra ou lagarto nas ervas.
A Tundavala, próximo de Lubango,
23 de Agosto de 1971
Novo Redondo (actual Sumbe), Benguela e Lobito foram as primeiras etapas da viagem para sul, através de vastas plantações de algodão. Ao longo do planalto do Bié e depois da Huíla, seguiram-se Nova Lisboa (Huambo) e Sá da Bandeira (Lubango). A Tundavala, a 2250m de altitude, marca abruptamente o fim do planalto.
O Dedo de Deus de Mukorob, Namíbia,
26 de Agosto de 1971
A sul de Sá da Bandeira, a planície desértica começa a dominar, antevendo o deserto do Namib. A actual Namíbia chamava-se então Sudoeste Africano, administrado pela África do Sul. Atravessado o Cunene e a fronteira sul de Angola, cruzámos também a zona dos lagos secos de Etosha (actualmente Parque Nacional Etosha Pan), até à primeira cidade importante, Tsumeb. E se a vegetação se tornara escassa, típica das savanas, a vida animal pelo contrário pululava: começávamos a ver elefantes, avestruzes, kudus, miríades de aves multicolores...! E nesse dia 24 de Agosto, pouco antes de chegar a Tsumeb, assistimos ao espectáculo grandioso do pôr-do-Sol sobre a savana.
De Windhoek, capital da Namíbia, continuámos para sul, sempre para sul ... e cruzámos o Trópico de Capricórnio. A savana dá lugar ao deserto, o imenso e desolado Kalahari, que próximo de Asab nos ofereceu uma das formações mais espectaculares da Natureza: o "Dedo de Deus" de Mukorob, imponente "dedo" arenítico apontado aos céus, rodeado de dunas de uma areia finíssima e encarniçada ... e já desaparecido: o "dedo de Deus" colapsou 17 anos depois, em Dezembro de 1988.
No dia seguinte ... tive a melhor prenda dos meus 18 anos (não, na altura não era ainda a maioridade...): o espectáculo grandioso do Fish River Canyon, espectacular vale cortado nas montanhas desérticas que separam o Kalahari do Namib. Ali, a terra abre-se à nossa frente, cai a pique mais de 800 metros, contorce-se, dobra-se em curvas pronunciadas e, no fundo do vale, corre um fio de água: o Fish River.
Fish River Canyon, Sudoeste Africano (actual Namíbia), 27 de Agosto de 1971
O que ali existe não é beleza de formas nem harmonia de cores; é uma beleza e uma grandiosidade selvagens, que nos tornam minúsculos seres, perdidos na imponência e grandiosidade natural. E aliás, já depois do Fish River Canyon, para sul, a pista proporcionou-nos também uma extraordinária visão do que é o Namib: uma imensa região montanhosa e árida, com extensos areais de uma brancura imaculada. Parecia estarmos na Lua, no fim do mundo, ou em qualquer lugar saído de um conto irreal.
Quando começámos a avistar o vale do rio Orange, pareceu-nos entrar num oásis. Tínhamos atravessado a actual Namíbia de norte a sul, percorrendo quase 1500 km de savana e deserto.
A África do Sul, entre o rio Orange e a Cidade do Cabo, contrasta radicalmente com a região que tínhamos acabado de atravessar: montanhas cobertas de verde, campos de flores multicolores, rios de águas cristalinas, onde se espelham as soberbas panorâmicas. Um autêntico paraíso!
Cabo das Boa Esperança,
29 de Agosto de 1971

A 29 de Agosto estávamos entre dois oceanos: o Cabo da Boa Esperança - o velho Cabo das Tormentas - transportou-nos da costa atlântica para o Índico. Senti ecoar nos ares as vozes de Bartolomeu Dias e de Vasco da Gama. Tínhamos vencido, também nós, o velho mito do Adamastor...
Na Cidade do Cabo, e como único elemento da "tripulação" com forte despertar pelas Ciências da Vida, recordo o espanto e admiração que me causou o South African Museum, sem dúvida o maior e mais rico Museu de História Natural que conheci na vida. Claro que recordo também o espectacular panorama do cimo da Table Mountain, bem como o espectáculo nocturno das luzes de Cape Town, visto do cimo da Signal Hill.

O Cabo marcaria a inflecção para nordeste, rumo a Moçambique. Em pleno Agosto, causaram-nos estranheza e sensação as montanhas cobertas de neve que acompanharam parte do percurso entre o Cabo e Port Elizabeth. Estávamos mesmo no hemisfério sul!
No dia 3 de Setembro entrávamos em Joanesburgo - a Golden City - e no dia 5 em Pretória. Com muita pena minha, entre esta e a fronteira moçambicana ... não fomos ao famoso Krüger Park. Atravessando os vastos laranjais do Umbeluzi ... chegámos a Lourenço Marques, a actual Maputo. Com pouco mais de 9 mil km percorridos, estava estabelecida a ligação entre as duas capitais africanas, Luanda e Lourenço Marques.
Beira, 11 de Setembro de 1971

Entre Lourenço Marques e a Beira ... a dúvida persistia na possibilidade de ligação automóvel: em 1971, a principal estrada moçambicana era ainda pouco mais que uma picada, principalmente a norte do rio Save. Mas, antes da "aventura", João Belo (Xai-Xai), Inhambane e Vilanculos mostraram-nos autênticos paraísos nas margens do Índico. Em Xai-Xai vimos pela primeira vez hipopótamos, no Limpopo. Para Inhambane, numa península frente a Maxixe, fomos ... de veleiro. E Vilanculos e as suas praias foram um pequeno "rebuçado" ... frente às paradisíacas ilhas do Paraíso, ou de Bazaruto. Destas praias de areias finas e águas azuis e tépidas, trouxe uma das maiores conchas marinhas da minha modesta colecção, uma Tridacna imaculada que ainda hoje guardo religiosamente.
No dia 11 de Setembro - 30 anos antes da tragédia das Twin Towers - assistimos ao espectáculo para nós insólito de ver o Sol nascer no mar: um esplendoroso nascer do Sol sobre a ilha de Santa Isabel e as águas imaculadas do Índico. 130 km depois chegámos ao Save ... e adeus alcatrão! A ponte encontrava-se ainda em início de construção e a passagem foi feita por um aterro; e, do outro lado ... picada! Durante cerca de 80 km ... por vezes nem se percebia bem onde estava a "estrada"; 5 ou 6 gazelas cruzaram-se à nossa frente. Aqueles 80 km levaram ... quase 3 horas! E já na quase noite das 6 da tarde daquele dia 11 de Setembro ... chegámos à Beira! A viagem transafricana estava completa!
Gorongosa, 15 de Setembro de 1971

Gorongosa, 15 de Setembro de 1971
Permanecemos quase duas semanas na Beira, período durante o qual se proporcionaram duas visitas importantes. Uma delas era "obrigatória": o Parque Nacional da Gorongosa! "A Fauna", do saudoso Félix Rodriguez de la Fuente, havía-me transmitido o imaginário dos grandes Parques Nacionais da África Oriental: "conhecia" o Serengeti, a cratera de Ngorongoro, as cataratas de Murchison, o Parque Masai-Mara, o Krüger Park ... mas agora estava, ao vivo e a cores, na não menos espectacular Gorongosa! O que ali vimos ficou-me para sempre gravado na memória; o que ali sentimos é difícil de descrever...! São as extensas savanas onde pastam enormes manadas de zebras e gnus. São as famílias de leões dormindo pachorrentamente à sombra das acácias. São as aves exóticas que esvoaçam, saltitam, planam, debicam e chilreiam à nossa volta. É o festim dos abutres que devoram o que ficou de uma zebra que um casal de leões abandonou. Relicário vivo da criação, a Gorongosa é uma das recordações mais latentes de uma aventura prodigiosa.
A bordo do Nord-Atlas, a caminho
de Tete, 20 de Setembro de 1971

A outra visita durante a estadia na Beira foi a Tete e Cabora Bassa. De Nord-Atlas desde Tete, fomos ver as obras daquela emblemática barragem ... e regressando à Beira de automóvel. Em 1971, apenas em Tete e no regresso à Beira, entre Tete e Vila Pery (actual Chimoio), era patente o movimento militar que nos alertava para a então guerra colonial. Infelizmente, poucos anos depois tanto Angola como Moçambique passariam por guerras civis, que inviabilizariam a viagem transafricana que então fizemos.

E a travessia da África austral ficou, nas minhas memórias, como a maior "aventura" de sempre das viagens com meus pais e irmão. Regressados a Lisboa no final de Setembro ... poucos dias depois eu estava com mais dois a subir a Arrábida a pé...J!
10 de Janeiro de 2011