Este blog está programado e paginado para Microsoft Internet Explorer. Noutros browsers, é natural alguma desconfiguração.
Mostrar mensagens com a etiqueta Vale de Espinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vale de Espinho. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de novembro de 2005

A pé e de "burro", nos trilhos da Malcata e das Mesas

Regressado de Somiedo a 28 de Julho, com os Caminheiros, no dia seguinte parto para uma estadia de quase um mês em Vale de Espinho. Agora que tínhamos casa e "burro" (o UMM...), natural seria que as férias se passassem naquele que era já o nosso "retiro espiritual".  Ao longo desse quase  mês,  sucederam-
No bosque do Rio Bazágueda, junto
à Quinta do Major, 31.07.2005
se filhos e noras, irmão, cunhada, primos, amigos ... a quem eu tinha de mostrar as "minhas" terras!
Logo na manhã do dia 31, o "burro" levou-nos a nós e ao filho mais novo e nora à Quinta do Major. Naquele verão bastante seco, o Bazágueda praticamente não tinha água, mas a mancha florestal que encerra a Quinta, com a sua história e os seus segredos, é sempre aprazível e inspira carinho e respeito. Quantos homens e mulheres não labutaram naquelas terras toda a sua vida?  Quantas recordações gravadas nas memórias...

Nós vamos à Quinta,
da Quinta pois vimos.
Rio Bazágueda, 31.07.2005
Eu amo a Quinta
com todo o carinho!
.....................
Quando vou à Quinta
esqueço paixões...
Lembro-me velhos tempos,
lindas recordações!
.....................
Fui ali criado,
fui ali crescido,
que nunca me esqueci
do tempo antigo.
.....................
No tempo antigo
não havia carrinhos...
Mas Deus ajudava
Quinta do Major, 31.07.2005
a andar o caminho.
.....................
Desses lindos tempos,
dessa boa idade...
Agora de velho
é que chega a saudade!
.....................
Adeus LINDOS TEMPOS
e adeus BOA IDADE...
Eu morro de desgosto
com tanta saudade!!!

José Manuel F. Andrade,
natural de Vale de Espinho,
in http://andrade-ve.blogspot.com/

No primeiro dia de Agosto, a digressão foi até à barragem do Sabugal ... e até à primeira "doença" do "burro"...J! Fora as avarias ... o velho UMM trepou sempre onde o mandaram! Nos dias 8 e 10, foi a vez da Serra das Mesas, incluindo a nascente do Côa e o ponto mais alto da serra, já do lado de lá da raia ... para onde supostamente não há caminhos transitáveis para veículos motorizados.
De "burro" no alto da Serra das Mesas (1256m), 10.08.2005
De "burro" no alto da Serra das Mesas (1256m), 10.08.2005
Sobre o barroco "ratchado", na linha de fronteira, 10.08.2005
A fronteira "ratchou" o barroco...J, 10.08.2005
Caseta de Carabineiros e panorâmica para a Extremadura
Antiga caseta dos carabineiros, 10.08.2005
No dia 13 subi à Machoca, pela Pelada e Cabeço da Moira. E de 16 a 24 de Agosto sucederam-se mais 6 périplos pelos montes e vales daquelas minhas terras e serras. As Fontes Lares, claro, não podiam faltar. Mas também conheci as ruínas do Sabugal velho, na serra da Senhora dos Prazeres, sobre Aldeia Velha, "descobri" os recantos perdidos do Alcambar, conheci o Espigal e a sua água puríssima!
Opções na Malcata, 20.08.2005
No dia 20 de Agosto faço quase 80 km na Serra da Malcata, com o filho mais velho e nora. Cruzo a Ventosa e desço ao Bazágueda, procurando um outro caminho para a Quinta do Major. Passo os Basteiros e a Malhada Medronheira, subo aos Concelhos e ao Cabeço do Pão e Vinho, desço à barragem da Meimoa e ao Meimão, volto a subir ao Alízio e ao Espigal ... e dois dias depois rumo a Valverde!

No fim de Setembro e no fim de Outubro voltamos ao nosso retiro, aproveitando a ligação respectivamente ao feriado do 5 de Outubro e aos Santos. E lá vai o desbravar do Alcambar, do Nabo da Cresta, do vale da Maria, da Fonte Moura, dos Urejais, de cantos e recantos de uma serra cada vez mais minha.

Em Setembro levo de novo os Caminheiros à Gardunha, no fim-de-semana do Festival "Caminhos da Transumância". A caminhada de domingo ... é a caminhada transumante, do Fundão a Alpedrinha, acompanhando os rebanhos. E com os Caminheiros percorro a Mata Nacional dos Medos, da Caparica à Fonte da Telha, em 15 de Outubro, e a zona de Mação e Cardigos, em 12 de Novembro.
 
6 de Julho de 2011

domingo, 29 de maio de 2005

Era uma vez uma casa em Vale de Espinho...

2005 foi o ano da "inauguração" da casa de Vale de Espinho. Os meus "instantâneos de ar livre", na raia Sabugalense, passavam a ter uma base! A primeira noite foi a de 25 de Fevereiro de 2005, mas 3 semanas antes tínhamos lá passado o Carnaval, assistindo por exemplo à montagem das mobílias. O Carnaval de 2005, em Vale de Espinho e na raia ... foi um Carnaval branco, como há muito não havia memória!
Mesmo assim, dia 7 ainda desafiei uns primos para me acompanharem na "minha" serra; subimos ao cabeço redondo e à raia, descobri a velha casa florestal do Canto da Ribeira, descemos às Braciosas ... e fizemos quase 15 km naquela tarde.
E temos uma casa em Vale de Espinho!
Vale de Espinho em tons de branco, 6.02.2005
Nunca desejei tanto um "objecto" como aquela casa! Do outro lado da vida, o nosso saudoso Zé "Malhadinhas" tinha também certamente acompanhado a sua construção, na terra onde nasceu e na qual quis ficar. A sua memória permanecerá para sempre, no granito das espessas paredes de pedra, na brancura da neve daquele primeiro inverno, no sussurrar do vento, no frio daquele gélido Fevereiro...

Rio Côa, com o CAAL, 2.04.2005
Em Março, passámos a Páscoa em Vale de Espinho. E eu acabo por passar lá quase duas semanas, já que o CAAL - Clube Ar Livre - tinha uma actividade programada ... a passar em Vale de Espinho. É claro que eu não podia perdê-la...J! Foi no dia 2 de Abril, uma jornada de Quadrazais até aos Llanos de Navasfrias, totalizando quase 25 km e cruzando a Serra das Mesas. Mas, dado que o grupo chegava a Quadrazais pelo Soito ... manhã bem cedo fiz 7 km suplementares, pela Có Pequena e Malhada Alta, até ao Soito.
Chegamos à velha ponte de Vale de Espinho, 2.04.2005
Grande parte do percurso foi feito com chuva, nomeadamente a subida ao marco geodésico das Mesas e a descida para os Llanos, pela nascente do Águeda, o rio irmão do Côa. Rio Águeda que no dia seguinte iria encontrar de novo, na segunda caminhada deste fim de semana com o CAAL, entre a castelhana San Felices de los Gallegos e Escarigo, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. De 2 para 3 de Abril, fiquei com o CAAL na aldeia de S. Sebastião, perto de Vilar Formoso ... onde uns anos depois levaria os "meus" Caminheiros Gaspar Correia. E regressei a Lisboa com o CAAL.
Casualmente, é durante a breve passagem pelos Foios, com o CAAL, que conheço o respectivo Presidente da Junta de Freguesia. Apaixonado pela sua terra e pelas suas gentes, a iniciativa e a dinâmica deste carismático autarca é conhecida em toda a raia; daquele encontro casual, no bem conhecido "El Dorado", resultou uma amizade e um contacto permanente, veiculando-me também o conhecimento e o contacto com outros autarcas, escritores, jornalistas e outras forças vivas das terras de Riba-Côa.
Quadrazais - Llanos de Navasfrias, com o CAAL, 2.04.2005
Alto da Serra das Mesas, com o CAAL, 2.04.2005
Mas o mês de Abril de 2005 seria pródigo em idas a Vale de Espinho: o fim de semana de 16 e 17, passamo-lo lá com os meus pais ... 31  anos  depois  de lá  terem ido a  primeira vez.  Uma  semana  depois,
aproveitando o feriado do 25 de Abril, é a vez do nosso "grupo dos seis": os dois casais que connosco partilham tantas "aventuras" vividas, vão conhecer o nosso retiro espiritual, como lhe comecei a chamar. Numa manhã chuvosa, vamos com eles à nascente do Côa, descemos aos Foios feitos "num pinto". Com eles, percorremos os lameiros do Côa ... que volto a percorrer na manhã de 25 de Abril, sozinho, enquanto os 5 dormem...J!
Entretanto as caminhadas sucedem-se, todos os meses, com os Caminheiros e/ou com o CAAL: no Paul de Tornada, Salir do Porto e Santiago do Cacém, em Março; em Porto de Mós e pela serra da Lua (Serra d'Aire), em Abril; no Castelo do Bode, Lorvão e Penacova, em Maio ... e de 25 a 29 de Maio voltamos a Vale de Espinho! Nas manhãs dos dias 27 e 29 faço mais de 45 km a pé e de bicicleta, desbravando a minha Malcata, saindo de casa pouco depois das 6 da manhã. Pela Pelada e Moura, revela-se-me a Malhada do Barroso, o comedouro de abutres da Ventosa; pelo Clérigo, desço a Lomba, o Poço do Inferno, a Casa do Preto.
Cruzamento de trilhos da Ventosa, 27.05.2005
O verde da Malcata salpicado pela chara e rosmaninho, 27.05.04
Ruínas da "Casa do Preto", 29.05.2005
Cabeço da Moura, 29.05.2005
Vale de Espinho, da Pelada, 29.05.2005
Lameiros de beira Côa, 29.05.2005
Os cantos e recantos da minha Malcata vão passando a ser cada vez mais meus, vou passando a conhecê-los como se com eles tivesse sempre vivido e convivido. E precisamente para conhecer melhor a minha Malcata ... em Junho de 2005 comprei um velho UMM, um heróico resistente às "aventuras" em que o meti, por trilhos e ladeiras de raposas e de javalis! Eu chamava-lhe "o meu burro" ... embora ele fosse menos teimoso que os asnos. O meu "burro" conheceu Vale de Espinho no dia 25 de Junho de 2005, quando o levei de Lisboa, aproveitando para uma passagem pelas terras da Gardunha, em prospecção para uma futura caminhada. E foi "baptizado" logo no dia seguinte, com uma travessia de 25 km ao longo da raia, da nascente do Côa a Vale de Espinho, pelo Lameirão dos Foios, Pedra Monteira e Cabeço da Moura.
O meu "burro" no Moinho do Rato, 26.06.2005
Aos comandos..., 26.06.2005
Cabeço da Pelada, 26.06.2005
Sobre os Foios, 26.06.2005
Enquanto durou ... creio que o meu "burro" também se apaixonou por Vale de Espinho, pelas bredas e veredas da Malcata, das Mesas e até de Espanha!
 
15 de Junho de 2011

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Do Alentejo ao Douro ... com Vale de Espinho à vista...

Setembro de 2004.  A  escola  preparava-se  para mais um ano lectivo ... cada vez mais "morno",  cada  vez
Monte do Salgueirinho, Cercal, 3.9.2004
mais insípido. Entretanto o filho mais velho havia casado com uma alentejana ... e no primeiro fim de semana do mês fomos em "excursão" familiar ao Monte do Salgueirinho, perto da barragem de Campilhas, nas terras alentejanas do Cercal. Porto Covo também fez parte do "programa".
Outubro. 23 anos depois, dia 16 voltamos à ruralidade da aldeia de Vale de Urso, concelho de Proença-a-Nova, nos 50 anos de um meu ex-colega do velho Arquivo de Identificação. E no fim de Outubro ... vamos mais uma vez a Vale de Espinho. O feriado dos Santos permitia  um  fim  de  semana  prolongado  ...  e  as  obras   da   casa
Lameiros do Côa em tons de Outono, 30.10.2004
    avançavam.
Lameiros do Côa em tons de Outono, 30.10.2004
No dia 31,  subo  à  Portela  da Arraia  e  à  Pedra
Caseta de carabineiros, Picoto, 31.10.2004
Monteira, em busca da antiga caseta de carabineiros, que encontro em ruínas, perto do barroco "ratchado" e com as espectaculares panorâmicas sobre o Picoto e Valverde! Regresso a casa com 22km feitos ... e no dia seguinte faço mais 20, pelo Passil, Cabeço da Moura e barroco branco. Vou ver as panorâmicas à Machoca, desço ao estradão Malcata - Quadrazais, regresso a Vale de Espinho pelo Espírito Santo e Ponte Nova.
Pela raia até à Caseta dos Carabineiros, 31.10.2004
E o fim de semana dos Santos tinha-se passado...

Mas às caminhadas a solo, na minha Vale de Espinho, claro que se continuavam a somar as feitas na companhia do Grupo de Caminheiros. No dia 20 de Novembro, contudo ... estreio-me também noutro grupo de pedestrianismo, o CAAL - Clube de Actividades de Ar Livre. E a estreia foi no Alentejo, nas Rotas do Endovélico, no concelho do Alandroal. Gostei da experiência, mas logo observei que, em termos de convívio ... nada se compara àquela que já era a minha "família" caminheira!
Rotas do Endovélico, Alandroal
Rotas do Endovélico, 20.11.2004
Rotas do Endovélico, 20.11.2004

Chegamos a Dezembro. E de Vale de Espinho vamos à Serra da Estrela, ao Museu do Pão, em Seia, e subimos mais uma vez ao Douro, das fragas do Canhão da Valeira ao Porto Antigo de Cinfães.
S. Salvador do Mundo, sobre o Douro, 6.12.2004
S. Salvador do Mundo, 6.12.2004
 
15 de Junho de 2011

sábado, 14 de agosto de 2004

No paraíso de Somiedo e das terras de Narcea e de Ibias

A 3 de Agosto de 2004, partia com a minha "parceira" ... para o paraíso de Somiedo. Agora sem autocaravana, fomos conhecer o turismo rural nas Astúrias ... e concluímos que é bem mais barato do que em Portugal. Depois de uma breve "escala" em Vale de Espinho, para ver as obras da casa, Zamora e a já bem conhecida auto-estrada del Huerna ... conduziram-nos ao paraíso no sudoeste das Astúrias.

En cada rincón de Asturias hay un pedazo de paraíso: un arroyo que desaparece en las entrañas de la tierra, una casa que se alza para dejar crecer la yerba, un bosque habitado por los últimos y filosóficos duendes, o una montaña que quebra el cielo para adornarse con su envés blanco.

Luis Frechilla García, "Por la Naturaleza Asturiana"
Na ruralidade de Villar de Vildas, 4.08.2004

Ao fim da tarde estávamos em Pola de Somiedo ... mas o nosso destino era Villar de Vildas, no vale do Pigueña, onde tínhamos estado em Abril de 2000, com os alunos. Villar de Vildas tinha ganho recentemente o prémio Príncipe de Astúrias, como pueblo ejemplar. E tínhamos à nossa espera uma típica casa rural, "La Corte", excelentemente transformada para turismo rural, decorada com recordações de um passado de trabalho e de lavoura. Pena foi que a minha parceira tenha estado "desarranjada",
alegadamente devido à pureza extrema da água bebida nas fontes,  pelo menos  segundo o  farma-
cêutico de Belmonte de Miranda, onde fomos.
Peña Michu, Cordal de la Mesa, 5.08.2004
No dia 5, não sendo aconselhável fazer uma caminhada sem estar completamente bem, a minha fada optou por ficar no conforto da "Corte" de Villar de Vildas ... e eu parti à "aventura". De novo por Aguasmestas e La Riera, deixei o carro junto à velha ponte ... e comecei a subida a pé ao Puerto de San Lorenzo. Mas passado pouco tempo ... surgiu uma boleia providencial, que antes das 9 da manhã de um esplendoroso dia de Sol me deixou naquele ponto, entre Somiedo e Teverga. Ia fazer, sozinho, parte do Cordal de la Mesa, a cumeada entre as duas comarcas, para depois descer a Saliencia. Logo se veria como voltava a La Riera e ao carro; podia ser que o amigo Roberto, do Albergue de Saliencia, me arranjasse transporte ... e arranjou...J!
O Camín Real de La Mesa é uma das caminhadas mais míticas de Somiedo. De origem pré-romana, este caminho terá funcionado mais tarde como prolongamento até ao mar da Via de la Plata, desde Asturica Augusta (Astorga), sendo uma das mais emblemáticas vias antigas que cruzam a Cordilheira Cantábrica.
Uma hora depois de partir, estava já próximo dos 1700 metros de altitude, aos pés do Peña Michu e sobre o vale de Villarín e do rio Saliencia, a sul, e as terras de Teverga, a norte. Que espectáculo de panorâmicas se me ofereciam, para ambos os lados. Que comunhão com o verde dos prados de altitude, com o azul do céu. Eu falava com toda aquela Natureza, com as vacas pachorrentas dos prados de Piedraxueves ou de La Magdalena, com a história que parecia brotar dos teitos, nas brañas de La Corra ou de La
Desfiladeiro de Los Arroxus,
Saliencia, 5.08.2004
Mesa
. No alto de La Magdalena, estava acima das Morteras de Saliencia, onde havia estado com os alunos, em brincadeiras na neve, no fim da semana mágica de 2000.
E assim, descendo o espectacular desfiladeiro de Los Arroxus, antes das quatro da tarde estava em Saliencia. O meu "velho" amigo Roberto ficou admirado de me ver; explicada a minha caminhada ... logo me arranjou transporte para La Riera ... com o padeiro...J!

No dia seguinte ... mais uma caminhada solitária. A partir de Villar de Vildas, a ideia era fazer a já conhecida Ruta de La Pornacal, mas continuá-la até à braña vaqueira de La Peral, pela Braña de los Cuartos e o Collado de La Enfistiella. Mas o estudo das cartas também me falava da Sierra del Páramo e das suas lagoas glaciárias de altitude.
Assim, aquele dia 6 de Agosto foi o de uma jornada superior a 25 km,
subindo o curso do Pigueña até à base do vale de Cereizales, passando portanto pela Pornacal e pela Braña de los Cuartos, também chamada a Braña Viella, uma das mais antigas brãnas somedanas. Sentia-me num mundo distante, ao mesmo tempo puro e selvagem ... o meu mundo!
Subindo o Collado de La Enfistiella, os horizontes abriram-se. A sul estava o Cornón, imponente, o ponto mais alto de Somiedo, nos seus quase 2200 metros de altitude. Para noroeste estendia-se o vale do Pigueña, de onde viera; a nascente, o vale do Trabanco ... e lá estava La Peral, lá ao fundo, próxima já da estrada do Puerto de Somiedo. E à minha frente, para norte, a Sierra del Páramo, dividindo o vale do Pigueña do vale de Somiedo.
As Lagunas del Páramo são três: Chamazo, Redonda e Cabera, ao longo da cumeada, de onde se têm espectaculares panorâmicas para o vale do Pigueña. Ainda procurei a possibilidade de descer directamente da Laguna Cabera para Villar de Vildas, mas a inclinação e a densidade da vegetação não o aconselhavam. E foi nessa pesquisa, no meio de denso arvoredo ... que rapidamente vi passar um veado fugidio, certamente admirado com a minha presença naquelas paragens! O fim da tarde ameaçava tormenta ... aconselhando o regresso, que portanto repetiu basicamente o mesmo caminho.
Villar de Vildas e estas duas fabulosas caminhadas tinham-me revelado mais umas fantásticas imagens ... da minha terceira "terra natal"!
Percurso do Cordal de La Mesa, 5.08.2004
Percurso das Lagunas del Páramo, 6.08.2004
Depois destas duas espectaculares jornadas nos montes de Somiedo, no dia 7 partimos para o extremo ocidente das Astúrias, para terras de Cangas de Narcea e de Ibias.  A  ideia era  ir conhecer  outro  lugar
mítico da Natureza, no paraíso natural asturiano: o bosque de Muniellos, um dos carvalhais melhor conservados da Europa, declarado pela Unesco Reserva da Biosfera. Por Belmonte de Miranda, fomos ao encontro do rio Narcea, que descemos até Cangas e à pequena aldeia de Moal, às portas de Muniellos, onde tínhamos também uma casa rural à espera. Mas, embora portadores da necessária autorização para visitar Muniellos, um protesto dos mineiros de Cangas de Narcea impedia afinal as visitas ... alterando-nos os planos para aqueles dias. Muniellos teria de continuar a guardar os seus segredos, que aliás continua a guardar, já que ainda lá não voltei.
2 duendes do bosque de Moal...J, 13.08.2004
Assim, os dias em Moal foram ocupados com passeios pela região ... e com duas caminhadas, na Sierra del Pando e no Bosque de Moal. De carro, fomos conhecer Ibias e a serra de Luiña e de Tormaleo, paredes meias com os Ancares leoneses e galegos. Pelo Puerto de Rañadoiro, fomos a Monasterio de Hermo e às fuentes do Narcea. Por todo o lado, o verde, a água, a magia dos bosques e das montanhas asturianas.
Percurso da Sierra del Pando, 11.08.2004
Percurso do Bosque de Moal, 13.08.2004
E assim, 11 dias depois de termos saído de Vale de Espinho ... estávamos em Vale de Espinho, regressados desta "andaina" por terras do paraíso.
 
14 de Junho de 2011

domingo, 11 de abril de 2004

Das margens do Minho a Vale de Espinho ... com outras terras de permeio

No início de Dezembro de 2003, conseguimos uma "aberta" de 6 dias para uma comemoração especial. Não
Vila Nova de Cerveira, Rio Minho, 4.12.2003
é todos os dias que se completam 30 anos de uma vida em comum...J. A  paixão pelo campo e pelo mundo rural leva-nos ao Alto Minho, à freguesia de Lanhelas e à "Casa da Anta", depois de um primeiro dia e noite na Invicta. Debruçados sobre o Rio Minho, os dias na "Casa da Anta" foram de descanso, mas também de passeios, tanto em terras lusas como por terras dos nossos irmãos galegos. As panorâmicas do alto do Monte de Santa Tecla são sempre espectaculares. Mas espectaculares foram também as paisagens rurais de Vilar de Mouros - recordando o mítico festival - e da Serra de Arga. Agora que já não tínhamos autocaravana, na "Casa da Anta" estreámo-nos no chamado turismo rural; e a "experiência" foi para continuar ... principalmente nas Astúrias.
Lanhelas, Rio Minho, 5.12.2003
Vilar de Mouros, 5.12.2003
Foz do Minho, do Monte de Santa Tecla, 7.12.2003
Pôr-do-Sol na praia de Moledo, 7.12.2003
As caminhadas com aquela que cada vez mais era a nossa "família" caminheira - os Caminheiros Gaspar Correia - também claro que continuavam: Rio Maior, os arrozais de Santo Estevão, a barragem de Pêgo
21 km na Serra da Gardunha, 25.03.2004
do Altar, sucederam-se, de Outubro a Dezembro. Já em 2004, os lapiás da Granja dos Serrões, o sudoeste alentejano - com um Carnaval Caminheiro em Almograve - Portel e a barragem de Alvito, a minha velha Serra d'Aire ... as caminhadas sucedem-se. Em 25 de Março de 2004 faço 21 km a pé, sozinho, na Serra da Gardunha, em prospecção para aquela que viria a ser a actividade de Maio com os Caminheiros. No dia seguinte, junta-se a mim a habitual "equipa de Alpetrinenses"; passamos mais um fim de semana em Alpedrinha e fazemos, agora todos, mais duas caminhadas de preparação para aquela actividade.

Mas voltemos a Dezembro de 2003. Passado o Natal ... regressámos a Vale de Espinho, onde passámos três
Vale de Espinho: casa e palheiros viram casas, Dez.2003
dias. Desta vez não houve caminhadas, mas houve, claro, o respirar daqueles ares "mágicos" ... e houve a assistência às primeiras obras de transformação de uma casa velha e dois palheiros ... em casas...J. Essa assistência repetiu-se na Páscoa de 2004 ... bem como no fim de Maio ... em Junho, no S. João ... em Julho...
O nosso futuro retiro espiritual ia crescendo...J!
Na velha quelhe das pedras, 11.04.2004
A água divina das Fontes Lares, 11.04.2004
Regresso a Vale de Espinho, pelo Areeiro, 11.04.2004
Mas Junho e Julho foram também ricos em caminhadas. Para além de 4 dias em terras do Minho e da Galiza, que serão objecto de post específico, a 3 de Julho participamos numa caminhada nocturna com os Caminheiros, do Cabeço de Montachique ao Tojal.
 
8 de Junho de 2011

quarta-feira, 20 de agosto de 2003

Por trilhos e bredas da Malcata e das Mesas

No verão de 2003, a necessária catarse levou-nos a umas férias sediadas em Vale de Espinho. Acampámos a autocaravana à porta da tia que habitualmente nos dava guarida ... e de lá parti, a pé e de bicicleta, ao desbravar da Serra da Malcata, das Mesas, do Homem de Pedra. A comunhão com a serra dava-me paz, conversava com as águas, com o vento, com as perdizes fugidias ... com a memória de quem tinha trilhado aquelas bredas. Entre uma estadia no final de Julho e outra em Agosto - intervaladas por uma digressão a terras de Miranda - percorri cerca de 170 km, a pé e de bicicleta, pelas "minhas" terras raianas. E a melhor forma de catarse ... é sozinho. Sempre tive bom sentido de orientação, mas tinham entretanto chegado os tempos da navegação por GPS. Há pouco mais de um ano tinha comprado um aparelho Magellan, que já me havia acompanhado à Irlanda e nas primeiras caminhadas com os Caminheiros Gaspar Correia. Na internet, tinha também descoberto o OziExplorer, o software que ainda hoje considero ideal para o pedestrianismo. E tinha conseguido velhas cartas militares das  "minhas"  terras  raianas.  Uma  fase
Cabeço do Clérigo, a caminho de Valverde, 23.07.2003
interessantíssima do estudo dessas cartas foi a confrontação entre a toponímia nelas constante e a tradição oral para os nomes de tantos e tantos lugares que eu iria conhecer e desbravar.
Valverde del Fresno é a povoação espanhola mais próxima de Vale de Espinho ... e há muito que me chamava. Cruzar a raia, pelas velhas "bredas" do contrabando, ou dos tantos e tantos Valespinhenses que tinham olivais em Pesqueiro - o vale fértil para lá da raia - que conheciam os trilhos da serra como as suas mãos, era um apelo há muito sentido. Eu não conhecia ainda a maioria dos trilhos da serra ... mas no dia 23 de Julho parti bem cedo, a pé, para uma jornada que ultrapassaria os 34 km ... rumo a Valverde! O percurso foi o que, na carta, me pareceu mais directo, pela Quinta do Passarinho e Cabeço do Clérigo, onde me esperava a grande descida para o vale de Sobrero ... seguido da subida ao Muro Julian e Rascaderos, antes de descer para Valverde.
Regresso Valverde - Foios: a parede do Picoto, 23.07.2003
Um providencial tanque que virou piscina privativa,
antes de atacar o Picoto...J!
Os primeiros quase 6 km do regresso foram ao longo da estrada Valverde - Navasfrias, com panorâmicas cada vez mais espectaculares sobre Valverde e a planície estremenha, os vales de Corral Hidalgo e Sobrero e os extensos olivais de Pesqueiro,
Vale de Espinho - Valverde e regresso: 34 km, 23.07.2003
com a Marvana ao fundo. Mas depois, já por um estradão florestal a meia encosta ... tinha a impressionante parede do Picoto e Toriña à minha frente. Um providencial tanque de água límpida e fresca permitiu um bom e retemperador banho ... e depois "ataquei" o Picoto, em direcção ao geodésico da Pedra Monteira, na fronteira. Em pouco mais de 1,5 km ... subi 370m de desnível, dos 720m aos 1090m da Pedra Monteira ... onde descansei uns bons 15 a 20 minutos. Esta não tinha sido definitivamente a melhor opção de percurso ... particularmente no regresso...J! Mais tarde viria a ter conhecimento - e a conhecer in loco... - o percurso mais aconselhável de e para Valverde, pelo Piçarrão ... e para o qual me teria bastado continuar o estradão da vertente espanhola. Mas é assim que se aprende ... e que se conhece a Serra.
Dois dias depois estava a pegar na bicicleta para, em Quadrazais, me embrenhar na Malcata. Da aldeia de Malcata subi ao Alízio, e, de novo para leste, à Torre de vigia da Machoca. Tinha o vale do Côa aos meus pés, Sabugal e Quadrazais à vista. Ao longo da cumeada que separa a Beira Alta da Beira Baixa, passo o Barroco Branco, o Cabeço da Moura, o Passil, o Coxino. Já tenho Vale de Espinho à vista, e desço pela Quinta do Passarinho, por onde 2 dias antes tinha subido. 37 km feitos...
Depois de uma digressão às Arribas do Douro (próximo post) ... regressámos a Vale de Espinho. E a segunda quinzena de Agosto foi de um contínuo desbravar: pelo caminho de Castelo Velho e pelos Nheres (Linhares), subi ao sítio mais mítico e mágico: as Fontes Lares! Tinha conhecido aquele lugar mágico havia 30 anos, quando da minha primeira visita à minha "terra natal". Na altura, a casita rústica, o abrigo que pertencera à família, ainda estava de pé. Agora testemunhava a passagem do tempo, o abandono naquele ermo esquecido ... mas um ermo onde a água divina daquele oásis escondido continuava a brotar da terra, da nascente singela, como as gentes singelas que em tempos ali viviam e ali amavam. Contam velhas lendas perdidas no tempo e nas fragas que a menina raiana, que um dia me passou a acompanhar ... foi ali "feita". Junto às ruínas da casa e à pequena presa que guarda a água divina, o barroco "sagrado" parece igualmente transmitir energia telúrica ... ou talvez a energia do tempo e
Destino: Quinta do Major, 17.08.2003
da história, das ligações familiares àquele "altar sagrado".
Das Fontes Lares subi ao Cabeço Melhano, ao Homem de Pedra; com o Soito aos pés e a Guarda no horizonte, desci à Malhada Alta, cruzei os Urejais, desci à Có Pequena, ao Areeiro ... e estava em Vale de Espinho. Três dias depois, a 17 de Agosto, voltei à Quinta do Major, que tinha conhecido 7 anos antes. Pedalava agora ao longo da raia, com Pesqueiro bem lá no fundo, deixando para trás o morro dos Enamorados e a Escaleriña. É claro que muitos dos topónimos me intrigavam. Mais tarde viria a descobrir a origem de muitos deles, pela leitura, entre outros, do histórico "Caçadas aos Javalis", do velho Dr. Francisco Maria Manso, sob o pseudónimo de
O Bazágueda junto à Quinta do Major, 17.08.2003
Dr. Framar; por ele conheci igualmente algumas das lendas e segredos da Marvana, que reservarei para um futuro post. À beira do Bazágueda, a 620m de altitude, a Quinta do Major pode bem considerar-se o coração da Malcata. Ali já foi uma rica e grande propriedade, com história perdida nos tempos. Seguiu-se a penosa subida ao Cabeço do Pão e Vinho (outro curioso topónimo...) e ao geodésico dos Concelhos (de novo acima dos 1000m), para daí descer vertiginosamente à Ribeira da Meimoa e às margens da respectiva barragem. Mais um pouco ... e estava a entrar no Meimão, guarda avançada do concelho de Penamacor, Beira Baixa, onde nasceu a mãe da minha arraiana.
Ruínas da Quinta do Major, 17.08.2003
Ribeiro da Casinha, Quinta do Major, 17.08.2003
Faltava ... subir à Malcata e regressar a Vale de Espinho. Com quase 30 km a pedalar por "sobes e desces", a ladeira Meimão / Malcata foi penosa. Ao chegar a Malcata ... recorri aos serviços do meu júnior, para me lá ir buscar em 4 rodas, a mim e às duas rodas que transportava. Ficou o sentimento de culpa de o ter obrigado a deixar a capeia de Vale de Espinho, a que estava a assistir...L!
Quinta do Major e Meimão, 17.08.2003
Navegação por GPS, Agosto de 2003
Mas 2 dias depois ... já estava em demanda da nascente do Côa! Estrada para os Foios, desta vez é à Serra das Mesas que subo, pela Rodeira e rodeando o Cabeço dos Currais. Um estradão (hoje alcatroado) leva-me ao Lameirão dos Foios, planalto acima já dos 1100m. A carta assinala mais ou menos a nascente. Deixo a bicicleta, vou a pé à procura ... e encontro a nascente do "meu" rio, do "meu" Côa, entre 3 pequenas fragas! Hoje todo o local está diferente, sinalizado e facilmente acessível, mas em 2003 a nascente do Côa só era conhecida dos "eleitos", daqueles que a haviam descoberto...
Em demanda da nascente do Côa, 19.08.2003
Fragas singelas, águas divinas: nascente do Côa, 19.08.2003
O penedo redondo, Lameirão, 19.08.2003
Cabeço da Pedra Monteira, 19.08.2003
Do Lameirão segui para a raia. Queria acompanhar a cumeada, passar a Pedra Monteira - onde dias antes chegara meio exausto... - queria procurar o verdadeiro caminho de Valverde. E encontrei-o ... bem como às espectaculares panorâmicas para a vertente estremenha, que já no regresso de Valverde tinha percebido.  Lá  em  baixo,  numa
Piçarrão (Pizarrón), vertente espanhola, 19.08.2003
encosta, estavam também as Ellas, ou Eljas, a aldeia branca, onde se fala "lagarteiru". Nestas aldeias perdidas nos confins da Extremadura espanhola, paredes meias com as nossas Beiras, não se habla ... fala-se! Valverde du Fresnu, as Ellas e Sa Martin de Trevellu (S. Martín de Trevejo) têm uma Fala própria, que "num é castelhanu ni português", é uma fala específica de cada uma das três localidades, respectivamente o Valverdeiru, Lagarteiru e Manhegu.
E nos dois dias seguintes ... mais duas caminhadas, embora mais curtas: dia 20, à Cruz Alta e ao Cabeço do Canto da Ribeira, sobre o Côa. E no dia 21 ... volto à nascente do Côa, agora com a família. E da nascente do Côa subimos ao alto mesmo da Serra das Mesas, do lado de lá da raia, a 1256 metros de altitude. Do alto do grande marco, parecíamos dominar o mundo ... pelo menos o "meu" mundo. Para leste, os Llanos de Navasfrías e a serra para além deles, as Torres das Ellas, ainda minhas desconhecidas. A sul, o grande vale de Valverde, com a Marvana ao fundo, já a sudoeste. A Estrela e a Gardunha percebem-se ao longe. E, para oeste, a linha das Mesas e da Malcata, à direita da qual se percebe o vale do Côa, nascido ali quase mesmo aos nossos pés. Vale de Espinho lá estava, onde o Côa já corre mais célere e mais  largo  do
Cume das Mesas, 1256m alt., 21.08.2003
que nesta sua serra mãe.

Serra! Serra Mãe, Serra Dor, Serra Pão,
Traço de união entre irmãos da mesma luta!
Do teu ventre brota a voz do passado
E um sussuro magoado
Ecoa pelos ares, a contar histórias

"Serra! Serra Mãe, Serra Dor, Serra Pão"
Amélia Rei
Neste verão de 2003, neste meu intenso desbravar da Natureza, onde cabem os lameiros, as margens do Côa, as águas turbulentas do meu rio? Couberam nos convívios em família, nos banhos corajosos, nos dias e horas de permeio entre o trilhar das velhas bredas. O velho Freixial dos anos 70 já não era o mesmo, mas a nossa "praia privativa" havia-se mudado para a açude acima do Moinho do Engenho.
Bebendo os ares das margens do Côa, 18.08.2003
Açude acima do Engenho ... a "nossa" praia, 20.08.2003
E assim, este intenso mês de Agosto de 2003 - o primeiro depois da perda de um grande filho de Vale de Espinho - reforçou os meus laços àquelas terras e àquelas gentes. Usando uma expressão típica dos verdadeiros Valespinhenses ... eu já tinha bebido e saboreado a água da Fonte Grande. Era, definitivamente, um filho adoptivo da terra. E, parafraseando os contos que inspiraram o título deste blog, pelas "bredas feitas à sorte" eu havia descoberto a fonte do meu Côa, a fonte de onde brotam as "claras águas", que saltam fragas, alimentam lameiros, dão cor e vida à paisagem, "nas terras de onde se contam velhas lendas, quase negras" ... nas minhas terras raianas.

   "Fraga", (dos "Contos de Fragas e Pragas", Sebastião Antunes, Quadrilha, 1992)
 
3 de Junho de 2011