As "aventuras" do ano de 2010 começaram com uma caminhada em Tremês, próximo de Santarém, no dia
A velha ponte vê de novo passar o Côa transbordando as margens, 19.01.2010
16 de Janeiro. Dois dias depois ... estava em Vale de Espinho. O Inverno de 2009/2010 foi bastante chuvoso ... e os campos e lameiros do Côa foram felizmente voltando à vida. Em Janeiro, Março e Abril, palmilhei aquelas minhas terras sagradas, do vale da Maria ao Alcambar e ao Espírito Santo, da Ervaginha aos Urejais e às Fontes Lares, às Braciosas, às Colesmas. Maravilhei-me com a maravilha das águas transbordando as margens, dando côr e vida às paisagens ribeirinhas. Com a minha "sócia" de sempre, subimos a velha quelhe das pedras, deliciámo-nos com a água divina das Fontes Lares, deixámo-nos embalar pela energia do barroco "sagrado", a energia que tinha voltado a dar vida àqueles campos, depois da tragédia que eu tinha contemplado meio ano antes.
Ribeira do Vale da Maria, 19.01.2010: impressionate!
Fontes Lares, no barroco "sagrado", 10.03.2010
"E de repente damo-nos conta que envelhecemos, a ver envelhecer estas pedras que não envelhecem" (Sérgio Paulo Silva)
O Côa no Moinho do Rato, Vale de Espinho, 26.04.2010
Contemplação a dois... O Côa na açude junto ao moinho da Nogueira, 27.04.2010
Em Março, durante os dias em Vale de Espinho, a Serra da Gata chamava-me, para além do Xálima e da Cervigona. Há muito que queria ir à velha Torre Almenara, a velha torre árabe que domina a vila de Gata e que se vê destacada desde longe. Foi no dia 13 de Março. Deixando o carro entre Gata e Torre Don Miguel, esta curta caminhada proporcionou-me momentos belíssimos de contemplação e de sonho.
Vila de Gata e a Torre Almenara ao fundo, à direita, 13.03.2010
A caminho da Torre Almenara, Gata, 13.03.2010
E eis que chego à velha torre árabe, 13.03.2010
Do Alto da Almenara sobre a vila de Gata, 13.03.2010
Mas, para além do Côa, da Malcata e da Gata, em Janeiro tínhamos feito uma incursão ... a terras francesas do Loire! Apesar de se tratar de uma "excursão" urbana e familiar, em Tours ... também incluiu três caminhadas, ao longo do Loire e do Cher.
Tours, ao longo do Cher: Promenade de Ségovie, 27.01.2010
Verão de 2001: assinalando precisamente o início da estação estival, passamos mais um fim-de-semana em Alpedrinha, respirando os ares da Gardunha e em amenas cavaqueiras de amigos … incluindo o nosso júnior mais velho, então nos seus 23 anos.
E um mês depois partimos para novo périplo europeu a quatro, na caravana. À semelhança do ano anterior, a "equipa" é constituída pelo autor destas linhas, "sócia" e cunhados. No dia 20 de Julho de 2001, a partida
No Zell am See, 29.07.2001
é … às dez e meia da noite, para uma longa "etapa" de 1600 km seguidos até Tours, para os habituais dias em família. A verdadeira partida é portanto de Tours, 4 dias depois. Atravessada a França e cruzado o Reno, entramos na Alemanha. A Baviera é a primeira região a visitar, começando por Ulm … ao encontro do Danúbio. Em Dachau sentimos ainda viva a barbárie nazi. E depois de Munique, em direcção ao sul, começam as paisagens de lagos e montanhas, que nos iriam acompanhar ao longo dos dias seguintes. O lago de Starnberg e as montanhas de Neuschwanstein, com a mais fantástica das fantasias arquitecturais de Luís II da Baviera, foram o cartão de visita para a poesia que íamos viver naquelas paragens bávaras e austríacas, a caminho de Innsbrück, onde passámos o dia 27. Depois, sempre para leste, as cascatas de Krimml e o romântico Zell am See.
Transportando as bicicletas na autocaravana, um dia de descanso nas margens do lago permitiu-me um passeio de bicicleta matinal. 24 km à volta do Zell am See, desde as seis e meia da manhã, proporcionaram-me ver e filmar perspectivas de um extraordinário despertar da Natureza. Depois, no dia 30, seria a subida ao Grossglockner, o ponto mais alto da Áustria, com 3798 metros de altitude, integrado no Parque Nacional Hohe Tauern. A estrada sobe até aos 2369m, no Franz-Joseph's Höhe, frente ao Grossglockner e ao espectacular glaciar de Pastersee. Igualmente espectacular, o Edelweisspitz (2571m) é uma espectacular varanda sobre todo o maciço do Höhe Tauern.
Edelweisspitze, 30.07.2001
E o último dia de Julho foi dedicado a duas espectaculares obras da Natureza: as gargantas de Liechtenstein Klamm e as Grutas de Eisriesenwelt, as maiores grutas de gelo do mundo! O que ali vemos e sentimos é indescritível. Mesmo no verão, a temperatura no interior da gruta varia entre os -2º e os 0ºC! É o mundo subterrâneo do gelo.
Mas depois das maravilhas da Natureza, a natureza das coisas pregava-nos uma partida: dois rebentamentos de pneus obrigaram-nos a uma estadia ... à porta de uma garagem que nos fornecesse os
pneus no dia seguinte de manhã...J
Mas nos dois primeiros dias de Agosto estávamos em Salzburgo, a reviver Mozart, para depois seguirmos para o Salzkammergut, um mundo de lagos e montanhas que faz a imagem perfeita dos Alpes austríacos. O encanto destas paragens levou-nos a ficar um dia na pequena Traunkirchen, nas margens do Traunsee. Manhã desse dia ... novo passeio ciclista: 31 km até Gmunden e quase contornando o lago; à tarde ... mais 20 km! A panorâmica das colinas, sobre o lago ... parecia saída de um filme! Havia poesia e música no ar...
E ao 16º dia de viagem chegávamos de novo ao Danúbio, que 11 dias antes tínhamos visto bem mais jovem, em Ulm. E nesse dia 5 de Agosto chegávamos a Viena de Áustria, capital à qual reservámos os dois
dias seguintes. Depois ... iniciava-se o regresso. De Viena a Veneza, podíamos ir directamente, ou pela Eslovénia. A distância era sensivelmente a mesma. A curiosidade de conhecermos aquele jovem país, saído da ex-Jugoslávia, levou-nos a optar por essa segunda hipótese, passando mesmo pela capital, Ljubljana.
A magia de Veneza, Pádua e Verona construiu as últimas etapas propriamen-te ditas deste périplo.
E do Lago de Garda a Lisboa fizemos 2336 km ... em 3 dias.
Menos de um mês depois, a 11 de Setembro de 2001, assistia com o resto do mundo à derrocada das Torres Gémeas ... e à mudança do mundo em que vivemos!
22 de Julho de 2000. Terminara mais um ano lectivo. Na caravana, partimos rumo a Segovia e aos Pirenéus. Ao segundo dia, estamos no vale de Hecho, extremo ocidental dos Pirenéus aragoneses. Era mais um paraíso para descobrir, ao longo do rio Aragón Subordán e entre picos que ultrapassam os 2300
Ao longo do A. Subordán, a caminho de Aguas Tuertas, 24.07.2000
metros de altitude. Passada Hecho, a estrada aperta-se entre os enormes paredões rochosos da Boca del Infierno, para terminar na Selva de Oza, magnífico bosque de faias, abetos e pinheiros silvestres.
O dia 24 foi assim dedicado a uma esplêndida caminhada, subindo o curso do Aragón Subordán, paralelamente à fronteira francesa. Nos céus, cruzavam-se abutres e milhafres. Foram cerca de 11 km até ao lugar de Aguas Tuertas, nome aragonês para os meandros que o rio desenhou naqueles prados de altitude, para os quais correm numerosas cascatas e torrentes. Estávamos a 1600 metros de altitude e a pouco mais de 2 km já da fronteira ... mas havia que regressar à caravana, na Selva de Oza, e a Hecho. A aldeia é também uma pequena jóia arquitectónica, denotando já a influência da proximidade com Navarra. Tínhamos conhecido mais um recanto paradisíaco dos Pirenéus!
Hecho, Selva de Oza e Aguas Tuertas, 24.07.2000
O percurso da Selva de Oza a Aguas Tuertas
no Wikiloc / Google Earth
No dia seguinte, passámos de terras aragonesas para terras Navarras, por Ansó e Roncal. É o reino da montanha, em que tão depressa subimos a um puerto como descemos a um profundo vale. Passámos Isaba, subimos, e, a 1760 metros de altitude ... entrámos em França. Estávamos no Col da Pierre St-Martin. Nos meus tempos da Espeleologia, tinha ouvido falar muito da gruta do mesmo nome, situada nas proximidades do Col. Com os seus mais de 1300 metros, era considerada a gruta mais profunda do mundo.
Depois, por Pau - de onde dissemos adeus aos Pirenéus - Tarbes, Auch e Agen - onde cruzámos o Garona - o destino era a Dordogne, as terras da Dordonha, especialmente o vale do Vézère, ou Vallée de l'Homme, o berço do Homem moderno. Em Les Eyzies e nas grutas de Lascaux, revivemos o quotidiano dos nossos antepassados do Neanderthal. E, ao longo do Dordogne, sucediam-se belas paisagens, complementadas por imponentes castelos e culminando nas construções monásticas de Rocamadour, onde "venerámos" a respectiva Virgem Negra.
Rocamadour, Dordogne, 28.07.2000
Tours e o Loire, 30.07.2000
Ao fim da tarde do dia 28 de Julho estávamos mais uma vez em Tours ... e mais uma vez a bela cidade do Loire nos recebia. Lá passámos os 3 dias seguintes, em família ... para depois seguirmos para os Alpes!
Em Maio de 1989, pouco depois da grande travessia do Gerês e do gélido acampamento no Mezio, as fragas e pragas do destino tinham-me trazido nuvens negras. Para além do que então escrevi, não voltei a falar dos distúrbios da minha companheira de tantas fragas vividas. Para quê falar? Foram anos de oscilações, alturas mais estáveis alternando com crises depressivas ou eufóricas. Mas, no verão de 1998 ... deu-se um "milagre". Não ainda o milagre duradouro ... mas um estranho "milagre".
Tínhamos passado o fim de semana prolongado dos feriados de Junho na Barragem de Cabril, perto de Pedrógão. Foi a última vez que o júnior mais novo ainda nos acompanhou. Ambos haviam crescido, ganho as suas próprias asas, seguido as suas próprias fragas. Nesses dias, voltei a Almoster e ao Alto de Pousaflores, na Serra de Alvaiázere (Sicó), onde tinha acampado 11 dias, em 1971. Tinham-se passado
Fronteira francesa, próximo de Roncesvalles, 25.07.1998
quase 30 anos! 30 anos de deambulações, de "aventuras" ... por fragas e pragas...
Diversos períodos da praga que nos assolara tinham sido já caracterizados pela coincidência entre crises depressivas em casa e uma melhoria quando saíamos. Mas o verão de 1998 trazia-nos as primeiras férias exclusivamente a dois. Em plena crise depressiva profunda, o receio dos efeitos da partida e da falta dos filhos era grande ... mas poucas horas depois tudo parecia renascer ... e estas férias viriam a ser as mais estáveis dos últimos 9 anos ... e alguns dos melhores dias das nossas vidas!
A 24 de Julho de 1998, partíamos para as nossas
Tours, 27.07.1998 ... "ressuscitada"
primeiras férias a dois, na autocaravana. Destino: França. A primeira e longa etapa, de mais de 900 km, levou-nos aos arredores de Pamplona, para no dia seguinte entrar em França por Roncesvalles. Nas montanhas pirenaicas ecoavam os sons da batalha, ouvia-se a gesta da Chanson de Roland ...
Puy-de-Dôme visto de
Clermont-Ferrand, 29.07.1998
enquanto a minha musa acordava para a vida. Nesta primeira parte, o destino era mais uma vez Tours, nas margens do Loire que mais tarde quase íamos ver nascer, onde passámos 3 dias, agradecendo a San Martin o "milagre" que se começava a dar.
A 29 de Julho saíamos de Tours para terras de Auvergne. Terras de vulcões e de montes dourados, Clermont-Ferrand, o Puy-de-Dôme, Le Mont-Dore, St. Nectaire, Murol, seriam nomes que nos ficaram para sempre gravados como uma canção, a canção de uma paz que há muito não conhecíamos. Chegámos a fazer etapas ... de menos de 50 km. No simpático camping de Mont-Dore descansámos um dia inteiro. Em St. Nectaire encantámo-nos nas "Fontaines pétrifiantes" e vivemos "Les Mystères de Farges" ... de onde aliás trouxe uns bons queijos St Nectaire...J. E no castelo de Murol, à noite, assistimos a um espectáculo de recriação medieval, "Le Cercle Magique", pelos "Compagnons de Gabriel".
Por terras de Auvergne, 29 a 31.07.1998
"Le Cercle Magique", Castelo de Murol, 31.07.1998
No primeiro dia de Agosto dirigíamo-nos ao alto Loire. Por Besse e St. Flour, chegámos a Le Puy-en-
Parque Natural dos Vulcões de Auvergne, 1.08.1998
Velais, debruçada sobre o Loire. Dedicámos também um dia inteiro a esta bonita e simpática cidade, afamada pelas suas rendas de bilros.
De Murol ao Alto Loire, 1 a 3.08.1998
Depois de Puy-en-Velais, subimos o curso do alto Loire, rumámos a sul, passámos de Auvergne para o Parque Nacional de Cévennes, onde o principal atractivo natural são as Gorges du Tarn et du Jonte, verdadeiras muralhas naturais de paredes traçadas por aqueles pequenos rios, cujas águas correm para o Garona. Em Le Rozier, na confluência dos dois rios, reservámos um dia para um dos muitos percursos
Parque Nacional de Cévennes e regresso, 3 a 11.08.1998
pedestres possíveis, o da Ermitage de St.-Michel, ao longo do Jonte e da Corniche du Causse Noir. Uma caminhada pequena, de cerca de 8 km, mas com perspectivas fabulosas sobre o desfiladeiro, alternando com grandes zonas arborizadas e frescas.
E no dia 6 de Agosto, em Le Rozier ... encontrámo-nos com a "equipa" da Pilote, que também andava por terras de França! Com eles visitámos duas atracções naturais desta região perdida do sul de França: as grutas de Aven Armand e o Abîme de Bramabiau. Seguiu-se Nîmes, Pont du Gard, Avignon, Arles, um cheirinho da Camargue em Aigues Mortes ... e depois passámos um dia na praia, em Gruissan Plage, próximo de Narbonne.
Os últimos três dias foram o "coming home", com uma passagem pela Costa Brava e um matar de saudades de Barcelona, onde também nos despedimos da Pilote e dos seus ocupantes, que, em primeira visita, por lá ficaram mais tempo. Confirmando da pior maneira o "milagre" destas férias ... assisto contudo a uma queda brusca para a depressão ... no dia seguinte a chegar a casa! A "praga" duraria ainda mais um ano.
A caminhada das Gorges du Jonte / Ermitage Saint Michel no Wikiloc / Google Earth ... e em vídeo:
Agora que estávamos "autocaravanados", cerca de um mês depois da "aventura Pirenaica" com os alunos, de 19 a 21 de Maio, fazíamos um fim de semana no parque de campismo de Alcobaça. O mote foi o descanso, mas também, no sábado, um almoço de confraternização de naturais de Vale de Espinho, realizado nas Grutas de Santo António, na minha velha Serra d'Aire. Mais cerca de um mês ... e mais um fim de semana, agora na Arrábida, nos parques do Outão e CampiMeco, de 9 a 11 de Junho. E, de 14 a 16
Travessia da Mancha, 31.07.1995
de Julho, as duas autocaravanas e a "equipa" estreada em Outubro do ano anterior, ensaiava em S. Pedro de Muel um projecto começado a esboçar alguns meses antes ... e que viria a ser a nossa maior viagem de sempre: de Lisboa ao fim da Escócia ... e para além dele!
Assim, a 26 de Julho de 1995, as autocaravanas punham-se a caminho, percorrendo em dois dias os 1400 km que nos separavam do relativamente recente Futuroscope, em Poitiers. O "parque do futuro" foi realmente o nosso primeiro objectivo, bem como um dia passado em família, em Tours. E no último dia de Julho, partindo de Calais ... estávamos à vista das rochas brancas de Dover!
A primeira parte desta "aventura" percorreu o sul de Inglaterra, até ao mítico Land's End, extremo
As rochas brancas de Dover, 31.07.1995
Blake's Cottage, Felpham, 1.08.1995
ocidental da Cornualha.
Antes, contudo, havia dois pontos "obrigatórios": a Blake's Cottage, a casa onde viveu William Blake, em Felpham, no Sussex, e as pedras milenares de Stonehenge. Então com 17 anos, o meu filho mais velho, tão ou mais romântico do que Blake ... conseguiu mobilizar os outros 11 viajantes para o
Em Stonehenge, 2.08.1995
Em Stonehenge em 1968, 27 anos antes!
desvio por Felpham ... à procura da casa ... que era particular...; só faltou entrar e pedir para ser convidado para o jantar...J!
Quanto a Stonehenge é um lugar sempre místico, onde nos sentimos recuar no tempo. Pessoalmente ... recuei 27 anos: em 1968 tinha igualmente contemplado o mais famoso círculo de pedras pré-histórico, com meus pais, durante uma viagem por Inglaterra e pela Irlanda. Land's End é outro ponto mágico. Sente-se ali o "fim da Terra", como o sentimos no nosso Cabo da Roca, como o sentira 31 anos antes no Cabo Norte, nas Terras do Sol da Meia Noite, como no Fisterra galego ...
Land's End, o "fim" da Cornualha, 3.08.1995
ou como o sentiríamos uma semana depois no "fim" da Escócia! Estávamos no extremo SW da ilha da Grã-Bretanha ... a 1400 km de John o' Groats, o extremo NE!
Ligada também às lendas arturianas, a Land's End seguir-se-ia o castelo de Tintagel, o lendário local onde teria nascido o não menos lendário Rei Artur.
Enseada de Tintagel, 4.08.1995
Tintagel, 4.08.1995
Tintagel, 4.08.1995
"Who so pulled out this sword from this stone and anvil, is the true-born King of all Britain"
(Rick Wakeman, "The myths and legends of King Arthur and the knights of the round table")
E a jornada prosseguiu pela esplêndida costa norte da Cornualha, atravessando o Parque Nacional de Exmoor, rumo a Bath. O País de Gales ficaria para outras "núpcias", e começámos a "corrida" para o norte: Liverpool (onde recordámos os Beatles...), Lancaster ... e estávamos no paraíso de Lake District. Lake District é uma sucessão de paisagens espectaculares, de lagos e de florestas, celebrizada pelos escritos e poesia de William Wordsworth, normalmente considerado o maior poeta romântico inglês. Acompanhar o lago de Windermere é um convite ao romantismo e à poesia ... e às caminhadas, para as quais, numa viagem com estas características, raramente há tempo suficiente.
Panorâmica do Lake District, a caminho de Keswick, 7.08.1995
No dia 8 de Agosto, 14 dias depois de sair de Lisboa ... estávamos a entrar em terras escocesas!
A 15 de Julho de 1993, iniciava um périplo europeu de quase sete mil quilómetros. 3 anos antes, tínhamos percorrido as costas da Normandia e Bretanha; agora, o destino era o centro e sul da Europa ... com
Parque Strunfs, Metz, 28.07.1993
especial destaque para as fragas da região alpina. Esta "aventura" teve também várias fases e intervenientes: uma primeira fase foi de convívios e encontros familiares, em Tours (onde igualmente havíamos estado em 90) e no Luxemburgo (onde, em casa do meu irmão, havíamos também passado o Natal de 1990). Nesta viagem até Tours e Luxemburgo, acompanhou-nos um sobrinho ... e ao Luxemburgo foram ter o filho mais velho (vindo de Londres, de avião) e os cunhados e outro sobrinho (vindos de Portugal, de carro). Depois de uma visita ao Parque dos Strunfs, em Metz, França ... reunida estava a "equipa" para partir no último dia de Julho rumo aos Alpes.
De Portugal a Tours e ao Luxemburgo
Suiça, região dos lagos, 1.08.1993
Vevey, 3.08.93 - Em restaurante com empregada portuguesa
Saarbrücken, Estrasburgo e a floresta negra foram as primeiras passagens, com Schaffhausen e as cascatas do Reno como primeiro destino. Seguiu-se Zürich, Lucerna, Interlaken, Faulensee, Lausanne e Montreux; o paraíso dos lagos da Suiça ... a caminho de Chamonix e do Monte Branco!
No dia 4 de Agosto, estávamos a quase 4 mil metros de altitude, na Aiguille du Midi ... envolvidos pela magia da montanha e pelo branco das neves eternas. A minha tentação era passar para Itália ao longo da montanha ... mas passámos por baixo da montanha, no túnel do Monte Branco. Seis anos depois, um incêndio de grandes proporções provocaria a morte a 39 pessoas e o encerramento do túnel até 2002.
Dos lagos da Suiça ao Monte Branco
Caminhada no Parque Nacional Gran Paradiso, 5.08.1993
Do outro lado do túnel do Monte Branco, tínhamos o vale de Aosta ... e o Parque Nacional Gran Paradiso, o mais antigo e mais importante parque nacional italiano. Acampámos em Pont-Breuil, no vale de Valsavarenche, a principal via de acesso ao maciço do Gran Paradiso. E o dia 5 de Agosto foi dedicado àquele ... grande paraíso da montanha. De Pont, subimos ao Refúgio Vittorio Emanuele II, a 2732 metros de altitude, e daí até praticamente aos 3 mil metros, aos pés do imponente Gran Paradiso ... embora perdendo alguns desistentes pelo caminho; restaram 4 "heróis": este carola das fragas, dois filhos e um sobrinho...J. Mas depois da descida e apesar do esforço da caminhada ... ainda houve energias para uma "guerra" na tenda dos 4 jovens, todos entre os 11 e os 15 anos...J!
Deixando para trás os altos cumes dos Alpes, seguiu-se Turim ... e a Côte d'Azur. A 7 e 8 de Agosto
Monte Carlo, 8.08.1993
Na Camargue selvagem, 11.08.1993
Há vida na Camargue
Há vida na Camargue
estávamos em Nice e em Monte Carlo, e a 9 em Cannes e St. Tropez. E os dois dias seguintes foram dedicados à Camargue, o espectacular delta do Ródano, a "Doñana francesa". É um mundo de água e terra, de cavalos e bandos de aves aquáticas, numa planura a perder de vista.
O pog de Montségur, último refúgio cátaro, 13.08.1993
Últimas etapas deste périplo: a medieval Carcassonne, o pog de Montségur, último refúgio dos cátaros, Andorra e Barcelona, sem dúvida a mais monumental cidade espanhola ... mas também onde apanhámos a mais monumental tromba de água nas tendas...J!
15.08.1993: Barcelona ... quando
ficamos "de molho"...
Regresso pela Côte d'Azur, Andorra e Barcelona
A 17 de Agosto estávamos de regresso a casa. Santa Cruz completou o mês, como quase sempre.
A caminhada do Gran Paradiso no Wikiloc / Google Earth:
Ao contrário do ano anterior, o verão de 1990 foi relativamente estável, permitindo sonhar com a reconstituição da "aventura gaulesa" interrompida 7 anos antes, com o assalto em Paris. Assim, a 19 de
Monasterio de Piedra, 19.07.1990
Cascata no Monasterio
de Piedra, 20.07.1990
Julho de 1990, estávamos de partida para França ... com os Pirenéus de permeio. Passada a fase do atrelado-tenda e da carrinha VW ... regressámos ao campismo em tenda...J!
A caminho dos Pirenéus, havia um monumento natural para conhecer: o Monasterio de Piedra, um "oásis" fabuloso no meio da meseta castelhana, entre Madrid e Zaragoza. O rio Piedra modelou a rocha, formando lagos, grutas e cascatas, por entre os densos, frondosos e frescos bosques.
Por Huesca e Ainsa, ao longo do já nosso bem conhecido vale do Cinca ... fomos matar saudades do Monte Perdido, embora só de passagem para França. E, nos Pirenéus franceses, o destino era Gavarnie, a mais famosa estância pirenaica da primeira metade do século XX.
Estar em Gavarnie é uma sensação indescritível. Apesar do peso do muito turismo, sente-se ali a ruralidade e a imponência da montanha. Na aldeia, estamos a pouco mais de 1300 metros de altitude, mas da aldeia vê-se a famosíssima cascata, a mais alta da Europa, com os seus 423 metros, despenhando-se das alturas do Circo de Gavarnie. Lá em cima, por trás do Circo, está o Monte Perdido ... e o Lago de Marboré, onde dois anos antes havia subido com os alunos, a partir do vale de Pineta!
À "sombra" do Monte Perdido, lado espanhol, 21.07.1990
E do lado francês, em Gavarnie, 22.07.1990
E ... aí vamos a pé à famosa Cascata de Gavarnie, 22.07.1990
Cascata de Gavarnie, 22.07.1990
Próximo do Puerto de Bujaruelo, sob a Brecha de Rolando, 22.07.90
Em Gavarnie, é obrigatório fazer a caminhada até ao Circo e à Cascata; são pouco mais de 10km, ida e volta. E é outro local "mágico", onde nos sentimos pequenos, onde nos sentimos parte da Natureza, da montanha que nos rodeia. Mas também é "obrigatório" ir até ao Col de Bucharo (em francês), ou Puerto de Bujaruelo (em espanhol), precisamente na linha de fronteira entre os dois países. As panorâmicas são espectaculares para ambas as vertentes; e não estamos longe da mítica Brecha de Rolando.
19 anos depois voltaria a Gavarnie, com o meu grupo de Caminheiros. E, precisamente pelo Puerto de Bujaruelo, atravessaríamos os Pirenéus a pé, no sentido França - Espanha.
A 23 de Julho estávamos a deixar para trás os Pirenéus ... viajando para norte. Uns dias em Tours, nas sempre belas margens do Loire, depois Paris. Desta vez não fomos assaltados ... e para quem "foge" das cidades e tanto ama o campo, a montanha, a água, o verde ... Paris é talvez a cidade simultaneamente mais acolhedora e imponente que conheço. Incluindo o Parque Asterix ... que fez as alegrias dos 4 viajantes...J!
Mas o destino principal deste périplo ... eram terras de brumas e mistérios: as terras da Normandia e da Bretanha. Em Arromanches, Omaha Beach, Utah Beach, Cherbourg ... sentimo-nos viver a epopeia do desembarque aliado, iniciando a libertação da Europa do jugo nazi. E pouco depois do célebre Monte de St. Michel ... entrámos em terra bretã.
Praias da Normandia, 1.08.1990 - A memória do Dia D
Pôr do Sol próximo de Vauville, 1.08.1990
Monte de St. Michel, 2.08.1990
Costa norte da Bretanha, 2.08.1990
A Bretanha é de certo modo um lugar mágico. Nas praias e nas falésias agrestes da costa ... quase recuamos 1500 anos no tempo, vendo desembarcar hordas de bretões, acossados pelos anglo-saxões na ilha da Grande Bretanha. Por entre as "brumas de Avalon" ... quase vemos chegar o Rei Artur e as suas tropas. Ou, recuando ainda mais no tempo ... assistimos aos grandes construtores dos megalitos "mágicos" que povoam estas terras de bruma.
A costa selvagem do oeste da Bretanha, 5.08.1990
Notre-Dame-des-Naufragés,
P.te du Raz, 5.08.1990
Marie-Jeanne-Gabrielle
Entre la mer et le ciel
Battu par tous les vents
Au raz de l'océan
Ton pays
S'est endormi
Sur de belles légendes
Illuminant son histoire
Gravées dans la mémoire
Des femmes qui attendent
Les marins D'île de Sein
P.te du Raz, frente à ilha de Sein ... a ilha de todas as lendas
("Marie-Jeanne-Gabrielle", do álbum "Marines", Tri Yann)
À volta da baía de Douarnenez e, principalmente, na Pointe du Raz, o vento, o mar e a bruma envolviam-nos nas lendas e na música bretãs. A ilha de Sein não se via, a lendária ilha de Is muito menos ... mas víamos, talvez, aquela Marie-la-Bretonne, ou a Marie-Jeanne-Gabrielle esperando os marinheiros da ilha de Sein...
Seguiu-se Carnac e o seu núcleo megalítico. Segundo o nosso júnior ... Obélix faria melhor...J! Depois ... foi descer toda a costa ocidental francesa, até às Landes ... e à Ibéria.
Carnac, 6.08.1990 - Obélix faria melhor...J!
Campismo na floresta das Landes, 8.08.1990
Baía de San Sebastian, País Basco, 10.08.1990
E no dia 11 de Agosto ... chegávamos a Santa Cruz, para, como habitualmente ... passar o resto das férias.