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sábado, 12 de novembro de 2005

A pé e de "burro", nos trilhos da Malcata e das Mesas

Regressado de Somiedo a 28 de Julho, com os Caminheiros, no dia seguinte parto para uma estadia de quase um mês em Vale de Espinho. Agora que tínhamos casa e "burro" (o UMM...), natural seria que as férias se passassem naquele que era já o nosso "retiro espiritual".  Ao longo desse quase  mês,  sucederam-
No bosque do Rio Bazágueda, junto
à Quinta do Major, 31.07.2005
se filhos e noras, irmão, cunhada, primos, amigos ... a quem eu tinha de mostrar as "minhas" terras!
Logo na manhã do dia 31, o "burro" levou-nos a nós e ao filho mais novo e nora à Quinta do Major. Naquele verão bastante seco, o Bazágueda praticamente não tinha água, mas a mancha florestal que encerra a Quinta, com a sua história e os seus segredos, é sempre aprazível e inspira carinho e respeito. Quantos homens e mulheres não labutaram naquelas terras toda a sua vida?  Quantas recordações gravadas nas memórias...

Nós vamos à Quinta,
da Quinta pois vimos.
Rio Bazágueda, 31.07.2005
Eu amo a Quinta
com todo o carinho!
.....................
Quando vou à Quinta
esqueço paixões...
Lembro-me velhos tempos,
lindas recordações!
.....................
Fui ali criado,
fui ali crescido,
que nunca me esqueci
do tempo antigo.
.....................
No tempo antigo
não havia carrinhos...
Mas Deus ajudava
Quinta do Major, 31.07.2005
a andar o caminho.
.....................
Desses lindos tempos,
dessa boa idade...
Agora de velho
é que chega a saudade!
.....................
Adeus LINDOS TEMPOS
e adeus BOA IDADE...
Eu morro de desgosto
com tanta saudade!!!

José Manuel F. Andrade,
natural de Vale de Espinho,
in http://andrade-ve.blogspot.com/

No primeiro dia de Agosto, a digressão foi até à barragem do Sabugal ... e até à primeira "doença" do "burro"...J! Fora as avarias ... o velho UMM trepou sempre onde o mandaram! Nos dias 8 e 10, foi a vez da Serra das Mesas, incluindo a nascente do Côa e o ponto mais alto da serra, já do lado de lá da raia ... para onde supostamente não há caminhos transitáveis para veículos motorizados.
De "burro" no alto da Serra das Mesas (1256m), 10.08.2005
De "burro" no alto da Serra das Mesas (1256m), 10.08.2005
Sobre o barroco "ratchado", na linha de fronteira, 10.08.2005
A fronteira "ratchou" o barroco...J, 10.08.2005
Caseta de Carabineiros e panorâmica para a Extremadura
Antiga caseta dos carabineiros, 10.08.2005
No dia 13 subi à Machoca, pela Pelada e Cabeço da Moira. E de 16 a 24 de Agosto sucederam-se mais 6 périplos pelos montes e vales daquelas minhas terras e serras. As Fontes Lares, claro, não podiam faltar. Mas também conheci as ruínas do Sabugal velho, na serra da Senhora dos Prazeres, sobre Aldeia Velha, "descobri" os recantos perdidos do Alcambar, conheci o Espigal e a sua água puríssima!
Opções na Malcata, 20.08.2005
No dia 20 de Agosto faço quase 80 km na Serra da Malcata, com o filho mais velho e nora. Cruzo a Ventosa e desço ao Bazágueda, procurando um outro caminho para a Quinta do Major. Passo os Basteiros e a Malhada Medronheira, subo aos Concelhos e ao Cabeço do Pão e Vinho, desço à barragem da Meimoa e ao Meimão, volto a subir ao Alízio e ao Espigal ... e dois dias depois rumo a Valverde!

No fim de Setembro e no fim de Outubro voltamos ao nosso retiro, aproveitando a ligação respectivamente ao feriado do 5 de Outubro e aos Santos. E lá vai o desbravar do Alcambar, do Nabo da Cresta, do vale da Maria, da Fonte Moura, dos Urejais, de cantos e recantos de uma serra cada vez mais minha.

Em Setembro levo de novo os Caminheiros à Gardunha, no fim-de-semana do Festival "Caminhos da Transumância". A caminhada de domingo ... é a caminhada transumante, do Fundão a Alpedrinha, acompanhando os rebanhos. E com os Caminheiros percorro a Mata Nacional dos Medos, da Caparica à Fonte da Telha, em 15 de Outubro, e a zona de Mação e Cardigos, em 12 de Novembro.
 
6 de Julho de 2011

domingo, 29 de maio de 2005

Era uma vez uma casa em Vale de Espinho...

2005 foi o ano da "inauguração" da casa de Vale de Espinho. Os meus "instantâneos de ar livre", na raia Sabugalense, passavam a ter uma base! A primeira noite foi a de 25 de Fevereiro de 2005, mas 3 semanas antes tínhamos lá passado o Carnaval, assistindo por exemplo à montagem das mobílias. O Carnaval de 2005, em Vale de Espinho e na raia ... foi um Carnaval branco, como há muito não havia memória!
Mesmo assim, dia 7 ainda desafiei uns primos para me acompanharem na "minha" serra; subimos ao cabeço redondo e à raia, descobri a velha casa florestal do Canto da Ribeira, descemos às Braciosas ... e fizemos quase 15 km naquela tarde.
E temos uma casa em Vale de Espinho!
Vale de Espinho em tons de branco, 6.02.2005
Nunca desejei tanto um "objecto" como aquela casa! Do outro lado da vida, o nosso saudoso Zé "Malhadinhas" tinha também certamente acompanhado a sua construção, na terra onde nasceu e na qual quis ficar. A sua memória permanecerá para sempre, no granito das espessas paredes de pedra, na brancura da neve daquele primeiro inverno, no sussurrar do vento, no frio daquele gélido Fevereiro...

Rio Côa, com o CAAL, 2.04.2005
Em Março, passámos a Páscoa em Vale de Espinho. E eu acabo por passar lá quase duas semanas, já que o CAAL - Clube Ar Livre - tinha uma actividade programada ... a passar em Vale de Espinho. É claro que eu não podia perdê-la...J! Foi no dia 2 de Abril, uma jornada de Quadrazais até aos Llanos de Navasfrias, totalizando quase 25 km e cruzando a Serra das Mesas. Mas, dado que o grupo chegava a Quadrazais pelo Soito ... manhã bem cedo fiz 7 km suplementares, pela Có Pequena e Malhada Alta, até ao Soito.
Chegamos à velha ponte de Vale de Espinho, 2.04.2005
Grande parte do percurso foi feito com chuva, nomeadamente a subida ao marco geodésico das Mesas e a descida para os Llanos, pela nascente do Águeda, o rio irmão do Côa. Rio Águeda que no dia seguinte iria encontrar de novo, na segunda caminhada deste fim de semana com o CAAL, entre a castelhana San Felices de los Gallegos e Escarigo, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. De 2 para 3 de Abril, fiquei com o CAAL na aldeia de S. Sebastião, perto de Vilar Formoso ... onde uns anos depois levaria os "meus" Caminheiros Gaspar Correia. E regressei a Lisboa com o CAAL.
Casualmente, é durante a breve passagem pelos Foios, com o CAAL, que conheço o respectivo Presidente da Junta de Freguesia. Apaixonado pela sua terra e pelas suas gentes, a iniciativa e a dinâmica deste carismático autarca é conhecida em toda a raia; daquele encontro casual, no bem conhecido "El Dorado", resultou uma amizade e um contacto permanente, veiculando-me também o conhecimento e o contacto com outros autarcas, escritores, jornalistas e outras forças vivas das terras de Riba-Côa.
Quadrazais - Llanos de Navasfrias, com o CAAL, 2.04.2005
Alto da Serra das Mesas, com o CAAL, 2.04.2005
Mas o mês de Abril de 2005 seria pródigo em idas a Vale de Espinho: o fim de semana de 16 e 17, passamo-lo lá com os meus pais ... 31  anos  depois  de lá  terem ido a  primeira vez.  Uma  semana  depois,
aproveitando o feriado do 25 de Abril, é a vez do nosso "grupo dos seis": os dois casais que connosco partilham tantas "aventuras" vividas, vão conhecer o nosso retiro espiritual, como lhe comecei a chamar. Numa manhã chuvosa, vamos com eles à nascente do Côa, descemos aos Foios feitos "num pinto". Com eles, percorremos os lameiros do Côa ... que volto a percorrer na manhã de 25 de Abril, sozinho, enquanto os 5 dormem...J!
Entretanto as caminhadas sucedem-se, todos os meses, com os Caminheiros e/ou com o CAAL: no Paul de Tornada, Salir do Porto e Santiago do Cacém, em Março; em Porto de Mós e pela serra da Lua (Serra d'Aire), em Abril; no Castelo do Bode, Lorvão e Penacova, em Maio ... e de 25 a 29 de Maio voltamos a Vale de Espinho! Nas manhãs dos dias 27 e 29 faço mais de 45 km a pé e de bicicleta, desbravando a minha Malcata, saindo de casa pouco depois das 6 da manhã. Pela Pelada e Moura, revela-se-me a Malhada do Barroso, o comedouro de abutres da Ventosa; pelo Clérigo, desço a Lomba, o Poço do Inferno, a Casa do Preto.
Cruzamento de trilhos da Ventosa, 27.05.2005
O verde da Malcata salpicado pela chara e rosmaninho, 27.05.04
Ruínas da "Casa do Preto", 29.05.2005
Cabeço da Moura, 29.05.2005
Vale de Espinho, da Pelada, 29.05.2005
Lameiros de beira Côa, 29.05.2005
Os cantos e recantos da minha Malcata vão passando a ser cada vez mais meus, vou passando a conhecê-los como se com eles tivesse sempre vivido e convivido. E precisamente para conhecer melhor a minha Malcata ... em Junho de 2005 comprei um velho UMM, um heróico resistente às "aventuras" em que o meti, por trilhos e ladeiras de raposas e de javalis! Eu chamava-lhe "o meu burro" ... embora ele fosse menos teimoso que os asnos. O meu "burro" conheceu Vale de Espinho no dia 25 de Junho de 2005, quando o levei de Lisboa, aproveitando para uma passagem pelas terras da Gardunha, em prospecção para uma futura caminhada. E foi "baptizado" logo no dia seguinte, com uma travessia de 25 km ao longo da raia, da nascente do Côa a Vale de Espinho, pelo Lameirão dos Foios, Pedra Monteira e Cabeço da Moura.
O meu "burro" no Moinho do Rato, 26.06.2005
Aos comandos..., 26.06.2005
Cabeço da Pelada, 26.06.2005
Sobre os Foios, 26.06.2005
Enquanto durou ... creio que o meu "burro" também se apaixonou por Vale de Espinho, pelas bredas e veredas da Malcata, das Mesas e até de Espanha!
 
15 de Junho de 2011

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Do Alentejo ao Douro ... com Vale de Espinho à vista...

Setembro de 2004.  A  escola  preparava-se  para mais um ano lectivo ... cada vez mais "morno",  cada  vez
Monte do Salgueirinho, Cercal, 3.9.2004
mais insípido. Entretanto o filho mais velho havia casado com uma alentejana ... e no primeiro fim de semana do mês fomos em "excursão" familiar ao Monte do Salgueirinho, perto da barragem de Campilhas, nas terras alentejanas do Cercal. Porto Covo também fez parte do "programa".
Outubro. 23 anos depois, dia 16 voltamos à ruralidade da aldeia de Vale de Urso, concelho de Proença-a-Nova, nos 50 anos de um meu ex-colega do velho Arquivo de Identificação. E no fim de Outubro ... vamos mais uma vez a Vale de Espinho. O feriado dos Santos permitia  um  fim  de  semana  prolongado  ...  e  as  obras   da   casa
Lameiros do Côa em tons de Outono, 30.10.2004
    avançavam.
Lameiros do Côa em tons de Outono, 30.10.2004
No dia 31,  subo  à  Portela  da Arraia  e  à  Pedra
Caseta de carabineiros, Picoto, 31.10.2004
Monteira, em busca da antiga caseta de carabineiros, que encontro em ruínas, perto do barroco "ratchado" e com as espectaculares panorâmicas sobre o Picoto e Valverde! Regresso a casa com 22km feitos ... e no dia seguinte faço mais 20, pelo Passil, Cabeço da Moura e barroco branco. Vou ver as panorâmicas à Machoca, desço ao estradão Malcata - Quadrazais, regresso a Vale de Espinho pelo Espírito Santo e Ponte Nova.
Pela raia até à Caseta dos Carabineiros, 31.10.2004
E o fim de semana dos Santos tinha-se passado...

Mas às caminhadas a solo, na minha Vale de Espinho, claro que se continuavam a somar as feitas na companhia do Grupo de Caminheiros. No dia 20 de Novembro, contudo ... estreio-me também noutro grupo de pedestrianismo, o CAAL - Clube de Actividades de Ar Livre. E a estreia foi no Alentejo, nas Rotas do Endovélico, no concelho do Alandroal. Gostei da experiência, mas logo observei que, em termos de convívio ... nada se compara àquela que já era a minha "família" caminheira!
Rotas do Endovélico, Alandroal
Rotas do Endovélico, 20.11.2004
Rotas do Endovélico, 20.11.2004

Chegamos a Dezembro. E de Vale de Espinho vamos à Serra da Estrela, ao Museu do Pão, em Seia, e subimos mais uma vez ao Douro, das fragas do Canhão da Valeira ao Porto Antigo de Cinfães.
S. Salvador do Mundo, sobre o Douro, 6.12.2004
S. Salvador do Mundo, 6.12.2004
 
15 de Junho de 2011

quarta-feira, 20 de agosto de 2003

Por trilhos e bredas da Malcata e das Mesas

No verão de 2003, a necessária catarse levou-nos a umas férias sediadas em Vale de Espinho. Acampámos a autocaravana à porta da tia que habitualmente nos dava guarida ... e de lá parti, a pé e de bicicleta, ao desbravar da Serra da Malcata, das Mesas, do Homem de Pedra. A comunhão com a serra dava-me paz, conversava com as águas, com o vento, com as perdizes fugidias ... com a memória de quem tinha trilhado aquelas bredas. Entre uma estadia no final de Julho e outra em Agosto - intervaladas por uma digressão a terras de Miranda - percorri cerca de 170 km, a pé e de bicicleta, pelas "minhas" terras raianas. E a melhor forma de catarse ... é sozinho. Sempre tive bom sentido de orientação, mas tinham entretanto chegado os tempos da navegação por GPS. Há pouco mais de um ano tinha comprado um aparelho Magellan, que já me havia acompanhado à Irlanda e nas primeiras caminhadas com os Caminheiros Gaspar Correia. Na internet, tinha também descoberto o OziExplorer, o software que ainda hoje considero ideal para o pedestrianismo. E tinha conseguido velhas cartas militares das  "minhas"  terras  raianas.  Uma  fase
Cabeço do Clérigo, a caminho de Valverde, 23.07.2003
interessantíssima do estudo dessas cartas foi a confrontação entre a toponímia nelas constante e a tradição oral para os nomes de tantos e tantos lugares que eu iria conhecer e desbravar.
Valverde del Fresno é a povoação espanhola mais próxima de Vale de Espinho ... e há muito que me chamava. Cruzar a raia, pelas velhas "bredas" do contrabando, ou dos tantos e tantos Valespinhenses que tinham olivais em Pesqueiro - o vale fértil para lá da raia - que conheciam os trilhos da serra como as suas mãos, era um apelo há muito sentido. Eu não conhecia ainda a maioria dos trilhos da serra ... mas no dia 23 de Julho parti bem cedo, a pé, para uma jornada que ultrapassaria os 34 km ... rumo a Valverde! O percurso foi o que, na carta, me pareceu mais directo, pela Quinta do Passarinho e Cabeço do Clérigo, onde me esperava a grande descida para o vale de Sobrero ... seguido da subida ao Muro Julian e Rascaderos, antes de descer para Valverde.
Regresso Valverde - Foios: a parede do Picoto, 23.07.2003
Um providencial tanque que virou piscina privativa,
antes de atacar o Picoto...J!
Os primeiros quase 6 km do regresso foram ao longo da estrada Valverde - Navasfrias, com panorâmicas cada vez mais espectaculares sobre Valverde e a planície estremenha, os vales de Corral Hidalgo e Sobrero e os extensos olivais de Pesqueiro,
Vale de Espinho - Valverde e regresso: 34 km, 23.07.2003
com a Marvana ao fundo. Mas depois, já por um estradão florestal a meia encosta ... tinha a impressionante parede do Picoto e Toriña à minha frente. Um providencial tanque de água límpida e fresca permitiu um bom e retemperador banho ... e depois "ataquei" o Picoto, em direcção ao geodésico da Pedra Monteira, na fronteira. Em pouco mais de 1,5 km ... subi 370m de desnível, dos 720m aos 1090m da Pedra Monteira ... onde descansei uns bons 15 a 20 minutos. Esta não tinha sido definitivamente a melhor opção de percurso ... particularmente no regresso...J! Mais tarde viria a ter conhecimento - e a conhecer in loco... - o percurso mais aconselhável de e para Valverde, pelo Piçarrão ... e para o qual me teria bastado continuar o estradão da vertente espanhola. Mas é assim que se aprende ... e que se conhece a Serra.
Dois dias depois estava a pegar na bicicleta para, em Quadrazais, me embrenhar na Malcata. Da aldeia de Malcata subi ao Alízio, e, de novo para leste, à Torre de vigia da Machoca. Tinha o vale do Côa aos meus pés, Sabugal e Quadrazais à vista. Ao longo da cumeada que separa a Beira Alta da Beira Baixa, passo o Barroco Branco, o Cabeço da Moura, o Passil, o Coxino. Já tenho Vale de Espinho à vista, e desço pela Quinta do Passarinho, por onde 2 dias antes tinha subido. 37 km feitos...
Depois de uma digressão às Arribas do Douro (próximo post) ... regressámos a Vale de Espinho. E a segunda quinzena de Agosto foi de um contínuo desbravar: pelo caminho de Castelo Velho e pelos Nheres (Linhares), subi ao sítio mais mítico e mágico: as Fontes Lares! Tinha conhecido aquele lugar mágico havia 30 anos, quando da minha primeira visita à minha "terra natal". Na altura, a casita rústica, o abrigo que pertencera à família, ainda estava de pé. Agora testemunhava a passagem do tempo, o abandono naquele ermo esquecido ... mas um ermo onde a água divina daquele oásis escondido continuava a brotar da terra, da nascente singela, como as gentes singelas que em tempos ali viviam e ali amavam. Contam velhas lendas perdidas no tempo e nas fragas que a menina raiana, que um dia me passou a acompanhar ... foi ali "feita". Junto às ruínas da casa e à pequena presa que guarda a água divina, o barroco "sagrado" parece igualmente transmitir energia telúrica ... ou talvez a energia do tempo e
Destino: Quinta do Major, 17.08.2003
da história, das ligações familiares àquele "altar sagrado".
Das Fontes Lares subi ao Cabeço Melhano, ao Homem de Pedra; com o Soito aos pés e a Guarda no horizonte, desci à Malhada Alta, cruzei os Urejais, desci à Có Pequena, ao Areeiro ... e estava em Vale de Espinho. Três dias depois, a 17 de Agosto, voltei à Quinta do Major, que tinha conhecido 7 anos antes. Pedalava agora ao longo da raia, com Pesqueiro bem lá no fundo, deixando para trás o morro dos Enamorados e a Escaleriña. É claro que muitos dos topónimos me intrigavam. Mais tarde viria a descobrir a origem de muitos deles, pela leitura, entre outros, do histórico "Caçadas aos Javalis", do velho Dr. Francisco Maria Manso, sob o pseudónimo de
O Bazágueda junto à Quinta do Major, 17.08.2003
Dr. Framar; por ele conheci igualmente algumas das lendas e segredos da Marvana, que reservarei para um futuro post. À beira do Bazágueda, a 620m de altitude, a Quinta do Major pode bem considerar-se o coração da Malcata. Ali já foi uma rica e grande propriedade, com história perdida nos tempos. Seguiu-se a penosa subida ao Cabeço do Pão e Vinho (outro curioso topónimo...) e ao geodésico dos Concelhos (de novo acima dos 1000m), para daí descer vertiginosamente à Ribeira da Meimoa e às margens da respectiva barragem. Mais um pouco ... e estava a entrar no Meimão, guarda avançada do concelho de Penamacor, Beira Baixa, onde nasceu a mãe da minha arraiana.
Ruínas da Quinta do Major, 17.08.2003
Ribeiro da Casinha, Quinta do Major, 17.08.2003
Faltava ... subir à Malcata e regressar a Vale de Espinho. Com quase 30 km a pedalar por "sobes e desces", a ladeira Meimão / Malcata foi penosa. Ao chegar a Malcata ... recorri aos serviços do meu júnior, para me lá ir buscar em 4 rodas, a mim e às duas rodas que transportava. Ficou o sentimento de culpa de o ter obrigado a deixar a capeia de Vale de Espinho, a que estava a assistir...L!
Quinta do Major e Meimão, 17.08.2003
Navegação por GPS, Agosto de 2003
Mas 2 dias depois ... já estava em demanda da nascente do Côa! Estrada para os Foios, desta vez é à Serra das Mesas que subo, pela Rodeira e rodeando o Cabeço dos Currais. Um estradão (hoje alcatroado) leva-me ao Lameirão dos Foios, planalto acima já dos 1100m. A carta assinala mais ou menos a nascente. Deixo a bicicleta, vou a pé à procura ... e encontro a nascente do "meu" rio, do "meu" Côa, entre 3 pequenas fragas! Hoje todo o local está diferente, sinalizado e facilmente acessível, mas em 2003 a nascente do Côa só era conhecida dos "eleitos", daqueles que a haviam descoberto...
Em demanda da nascente do Côa, 19.08.2003
Fragas singelas, águas divinas: nascente do Côa, 19.08.2003
O penedo redondo, Lameirão, 19.08.2003
Cabeço da Pedra Monteira, 19.08.2003
Do Lameirão segui para a raia. Queria acompanhar a cumeada, passar a Pedra Monteira - onde dias antes chegara meio exausto... - queria procurar o verdadeiro caminho de Valverde. E encontrei-o ... bem como às espectaculares panorâmicas para a vertente estremenha, que já no regresso de Valverde tinha percebido.  Lá  em  baixo,  numa
Piçarrão (Pizarrón), vertente espanhola, 19.08.2003
encosta, estavam também as Ellas, ou Eljas, a aldeia branca, onde se fala "lagarteiru". Nestas aldeias perdidas nos confins da Extremadura espanhola, paredes meias com as nossas Beiras, não se habla ... fala-se! Valverde du Fresnu, as Ellas e Sa Martin de Trevellu (S. Martín de Trevejo) têm uma Fala própria, que "num é castelhanu ni português", é uma fala específica de cada uma das três localidades, respectivamente o Valverdeiru, Lagarteiru e Manhegu.
E nos dois dias seguintes ... mais duas caminhadas, embora mais curtas: dia 20, à Cruz Alta e ao Cabeço do Canto da Ribeira, sobre o Côa. E no dia 21 ... volto à nascente do Côa, agora com a família. E da nascente do Côa subimos ao alto mesmo da Serra das Mesas, do lado de lá da raia, a 1256 metros de altitude. Do alto do grande marco, parecíamos dominar o mundo ... pelo menos o "meu" mundo. Para leste, os Llanos de Navasfrías e a serra para além deles, as Torres das Ellas, ainda minhas desconhecidas. A sul, o grande vale de Valverde, com a Marvana ao fundo, já a sudoeste. A Estrela e a Gardunha percebem-se ao longe. E, para oeste, a linha das Mesas e da Malcata, à direita da qual se percebe o vale do Côa, nascido ali quase mesmo aos nossos pés. Vale de Espinho lá estava, onde o Côa já corre mais célere e mais  largo  do
Cume das Mesas, 1256m alt., 21.08.2003
que nesta sua serra mãe.

Serra! Serra Mãe, Serra Dor, Serra Pão,
Traço de união entre irmãos da mesma luta!
Do teu ventre brota a voz do passado
E um sussuro magoado
Ecoa pelos ares, a contar histórias

"Serra! Serra Mãe, Serra Dor, Serra Pão"
Amélia Rei
Neste verão de 2003, neste meu intenso desbravar da Natureza, onde cabem os lameiros, as margens do Côa, as águas turbulentas do meu rio? Couberam nos convívios em família, nos banhos corajosos, nos dias e horas de permeio entre o trilhar das velhas bredas. O velho Freixial dos anos 70 já não era o mesmo, mas a nossa "praia privativa" havia-se mudado para a açude acima do Moinho do Engenho.
Bebendo os ares das margens do Côa, 18.08.2003
Açude acima do Engenho ... a "nossa" praia, 20.08.2003
E assim, este intenso mês de Agosto de 2003 - o primeiro depois da perda de um grande filho de Vale de Espinho - reforçou os meus laços àquelas terras e àquelas gentes. Usando uma expressão típica dos verdadeiros Valespinhenses ... eu já tinha bebido e saboreado a água da Fonte Grande. Era, definitivamente, um filho adoptivo da terra. E, parafraseando os contos que inspiraram o título deste blog, pelas "bredas feitas à sorte" eu havia descoberto a fonte do meu Côa, a fonte de onde brotam as "claras águas", que saltam fragas, alimentam lameiros, dão cor e vida à paisagem, "nas terras de onde se contam velhas lendas, quase negras" ... nas minhas terras raianas.

   "Fraga", (dos "Contos de Fragas e Pragas", Sebastião Antunes, Quadrilha, 1992)
 
3 de Junho de 2011