Este blog está programado e paginado para Microsoft Internet Explorer. Noutros browsers, é natural alguma desconfiguração.
Mostrar mensagens com a etiqueta Malcata. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Malcata. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 28 de abril de 2003

Um doloroso regresso a Vale de Espinho...

18 meses depois de diagnosticada a praga que o assolara, em Abril de 2003 a luta pela vida tornara-se inglória. Reinternado na véspera da minha partida para a Madeira, o nosso timoneiro ainda vem passar a Páscoa a casa, mas perde a última batalha, serenamente, a 28 de Abril de 2003. À cabeceira, na cama de hospital, estou eu, os meus dois filhos, uma irmã e aquela que o acompanhou durante 51 anos de uma vida de casal ... que se comemoravam naquele fatídico dia!

A MORTE CHEGA CEDO

A morte chega cedo,
Pois breve é toda a vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa

No dia seguinte, 29 de Abril ... regressamos a Vale de Espinho. Parecendo-me hoje de novo impossível, há mais de 4 anos que não íamos lá. Mas este é o mais doloroso regresso àquela Natureza benfazeja, à aldeia que viu nascer um homem que era uma força dessa mesma Natureza. Aquelas terras foram, para ele, terras de luta, de amargura, de sofrimento. Delas teve de partir, um dia, primeiro para as Áfricas, depois para terras de França ... "pela viela da esperança, sempre de mudança". Cedo regressou contudo, pondo a família à frente de todas as lutas. Foi barbeiro, jardineiro, operário fabril, fez de Moscavide e do Bairro da Figueira a sua nova "aldeia", orgulhou-se do núcleo familiar que gerou, das filhas, dos 4 netos ... e como se orgulharia dos bisnetos, se a morte não o tivesse levado, quando tinha ainda tanto para dar.
Mas foi para a sua aldeia que sempre quis voltar, quando um dia partisse para a última mudança. Ironias do destino, mal sonhava ele o mal que o assolava, quando mandou construir ele próprio a sua última morada, para ele e para a mãe das filhas que gerou, o seu jazigo no jardim da eternidade, no cemiteriozinho da sua Vale de Espinho. No dia 29 de Abril de 2003, acompanhámo-lo a essa última morada, mas o seu carisma perdura nas recordações. A voz dele parece cantar nas águas do Côa, a presença dele parece sentir-se nas lombas e nos vales da Malcata, na Pelada, no Areeiro, no vale da Maria ... nas Fontes Lares!
Se já antes eu tinha "descoberto" Vale de Espinho, que adoptei como "terra natal", o desaparecimento físico do meu saudoso sogro exponenciou a minha relação com a aldeia que o viu nascer, com o ar livre daquelas terras e gentes, com toda a raia Sabugalense, inclusive de ambos os lados dessa mesma raia. 5 meses depois da sua morte, compramos conjuntamente com os cunhados dois palheiros e uma pequena casa adjacente ao respectivo curral ... a casa que ele havia alugado, 51 anos antes, ao casar-se com a mãe das suas duas filhas. Menos de 2 anos depois ... temos uma casa em Vale de Espinho! E passou a ser raro passar mais de um mês sem ir respirar os ares daquela que é, sem dúvida alguma ... a minha terra.
Orgulho-me de, casualmente, ter o mesmo nome dele ... e de ser hoje o "avô Zé" dos meus netos ... tal como ele era o "Avô Zé" dos meus filhos. Pelo menos o meu neto e a minha neta mais velha, ambos com 3 anos, sabem bem quem é o seu "avô Zé" ... e quem era o "Avô Zé velhinho" ... o "Avô Zé" do pai deles.
1 de Junho de 2011

domingo, 30 de junho de 1996

De Vale de Espinho ao "desbravar" da Malcata...

Depois do périplo açoreano ... 1996 continuava a avançar. Em Junho, quase em fim de ano lectivo, levo os alunos mais jovens à Arrábida, em passeio e praia. Também em passeio, mas familiar, o parque de campismo de Porto Covo recebeu-nos para mais um fim de semana autocaravanístico. E, também na autocaravana ... a 28 de Julho partimos para férias.
Vale de Espinho foi o primeiro destino. A autocaravana "acampou" na Rua da Fonte, frente  à  casa  da  tia
Comunhão com a Malcata, 30.07.1996
onde costumávamos ficar ... e muito perto do palheiro que mais tarde viria a ser a minha casa! A autocaravana tinha permitido levar também a bicicleta ... e 1996 foi o primeiro de muitos anos de "explorações" pela Serra da Malcata, a solo, só eu e a Natureza. Até aí, já tinha subido à Pelada, às Fontes Lares, já tinha percorrido os lameiros do Côa, do Vale da Maria, do Alcambar. De carro, já tinha ido à Machoca, ao Meimão e à barragem da Meimoa. Mas a bicicleta permitia outros "voos" ... desbravando as terras do velho lince ... que infelizmente nunca vi na serra. Assim ... "dobrei" o limite das Beiras, pela Fonte Moira e Cabeço do Clérigo, corri ao longo da raia, com a Marvana no horizonte e Pesqueiro aos pés ... e desci à Quinta do Major, à beira do Bazágueda, o "gémeo" do Côa na vertente sul da Malcata. Na altura, ainda não conhecia as lendas da Marvana, a história das gentes que viveram na serra, que labutaram nos olivais ou nos campos de milho da Quinta do Major, justificando a velha eira que fui encontrar ao lado das ruínas da casa grande da quinta. Regressando pela Lomba do Espigal e pela Ventosa, voltei a Vale de Espinho, guiado por velhos mapas e pela minha orientação. Os GPSs estavam ainda muito incipientes...


Estes dias em Vale de Espinho foram também os de uma ligação mais íntima às memórias do Côa, dos velhos moinhos de água que faziam rodar as mós agora inertes. O velho moinho do Engenho parecia querer contar bem alto as histórias da fábrica de mantas e da "fábrica" de luz, que ali existiram em tempos. Histórias saídas do baú das recordações, das memórias contadas pelo meu saudoso sogro ... e a ele contadas pelas gerações antes dele. O velho moinho da Nogueira, que ainda tinha pertencido à família, num dos locais mais paradisíacos do Côa. E muitos mais lugares mágicos, ao longo do Côa, na serra ... e nas serras em redor. Viessem mais anos ... que eu tinha muito para explorar.
30 de Março de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 1994

Por terras da Gardunha ... com regresso a Vale de Espinho!

Em Março do ano anterior, tínhamos almoçado na sempre simpática vila de Alpedrinha,  terra  adoptiva  de
Alpedrinha, 10.06.1994
um dos professores da "equipa" que levou os alunos à Serra da Estrela. Em Junho de 1994, aproveitando o feriado de dia 10, o homem da poesia e da literatura proporcionou ao resto da "equipa" 4 espectaculares dias em Alpedrinha e na Serra da Gardunha.
Na Serra da Gardunha, 10.06.94
Casa da floresta de Alcongosta
Éramos três casais e filhos, instalados na vetusta casa de pedra da família Boavida,  no  centro  da  vetusta vila de Alpedrinha. A piscina, a velha vinha, e, claro, a Serra da Gardunha, preencheram o feriado. Pelo Fundão e Alcongosta, subimos de carro à casa florestal e à Penha; não os consegui cativar para uma jornada pedestre...L.
No sábado, o destino foram as terras de Idanha, bem como o "pog" de Monsanto; e no domingo, 12 de Junho, tinha de ser o regresso.
Nas muralhas de Monsanto, 11.06.1994
"Ressuscitarei dos mortos"...J
Palácio do Picadeiro, Alpedrinha, 12.06.94
 
A 29 de Julho estava a partir para férias. Passados uns tempos, nem nós próprios acreditávamos: seria possível que ... há 7 anos que não íamos a Vale de Espinho?!  Como tinha sido possível?  Mais  ainda  do
que naquela época, hoje parece-me impensável que tivessem passado 7 anos sem ir à "minha" terra, à "minha" Vale de Espinho, à "minha" Malcata, aos "meus" campos e lameiros. A terra já havia levado o velho Zé Joaquim Malhadas, pai de meu sogro, bem como as duas avós da minha arraiana, as velhas "ti Guta" e a "ti Maria Clementa". Mas principalmente o ramo familiar emigrado em Tours continuava a ter lá casa ... uma das quais tinha sido e iria continuar a ser o nosso "poiso".
E de Vale de Espinho partimos um dia à descoberta das Serras da Gata e da Penha de França, atravessando a região de Alberca e de Las Hurdes. Las Hurdes, onde Luís Buñuel encontraria em 1933 a matéria-prima para as suas idéias cinematográficas; as lentes da câmara captam de maneira crua a vida miserável dos hurdanos, os seus costumes e tradições, as doenças, as migrações, a precariedade da agricultura, a distância que os habitantes precisam percorrer para levar os seus mortos ao cemitério mais próximo; um lugar esquecido, retratado no célebre documentário "Las Hurdes, tierra sin pan".
Cume da Penha de França, 26.07.1994
Paisagem, Malcata, 1.08.1994
Torre da Machoca, Malcata, 1.08.1994
 
É também pela primeira vez que, a partir de Vale de Espinho, nos embrenhamos a sério no paraíso da Malcata. A partir da velha estrada da carreira de tiro da Meimoa, chegamos às margens da barragem, passamos o Meimão, subimos ao alto da Machoca ... e maravilhamo-nos com a paisagem a perder de vista: da Serra da Estrela às Mesas, com o vale do Côa aos pés ... aquelas eram efectivamente as "minhas" terras!
Mas as férias prosseguiriam a sul: uma volta pelas praias do Sudoeste Alentejano fez-nos recordar a excursão com alunos. E, no fim ... Santa Cruz uma vez mais ... e mais uma vez uma ida às Berlengas.
 
15 de Março de 2011

sábado, 1 de março de 1980

Os primeiros anos de ensino

1977 / 78 foi o primeiro ano lectivo da minha carreira,  após  o  estágio.  E,  já com um filho,  claro  que  tudo
16.07.1978 - Num dia de festival aéreo ... nova forma de ver
Santa Cruz e toda a costa, da Ericeira às Berlengas!
concorreu para que se seguissem alguns anos "mornos", em termos de "aventuras" e do sempre  desejado  contacto com  a  Natureza.  As
Agosto de 1978 - o João em Santa
Cruz ... em contacto com a Natureza...J!
férias dividiam-se entre San-ta Cruz - de novo com os amigos feitos no Arquivo, meu primeiro emprego - ou acampando, na Arrábida, no Guincho, onde se proporcionava.
17.08.1978 - De novo no Portinho de Arrábida
19.08.1978 - No Tejo, de regresso da Arrábida
Só em fins de 78, início de 1979, surgiu a carta de condução e o primeiro carro. O "ensaio" ... tinha de ser numa área protegida, numa comunhão natural! A Reserva Natural do Estuário do Tejo era a que estava mais próxima.
22.04.1979 - Em Pancas, Estuário do Tejo
22.04.1979 - a estreia natural do 1º automóvel...J!














Nas aulas, claro que as saídas de campo continuavam, fermentando as grandes excursões que mais tarde viria a organizar. As arribas fósseis do litoral da Caparica, até ao Cabo Espichel - e a "velha" Arrábida, claro - foram destino de várias destas saídas de campo, sempre num misto de aprendizagem e de são convívio entre todos, alunos e professores ... como me ensinara o Ribau.
26.05.1979 - Cabo Espichel, com alunos do 8º ano
02.06.1979 - Cabo Espichel, com alunos do 10º ano














Nas primeiras férias "automobilizadas" ... "corremos" para Vale de Espinho!  Mais ar puro,  mais Côa,  mais
Em Vale de Espinho, no Freixial,
em amena cavaqueira - 05.08.1979
Malcata, mais verde ... mais vida! Mas infelizmente, ao fim de poucos dias, tivemos de bater em  retirada,  já que o nosso pimpolho resolveu entrar em "greve da fome"...L!
É por esta altura que um biólogo, como nós, e que bem conhecíamos dos tempos da Faculdade, lança a famosa campanha "Salvemos o Lince e a Serra da Malcata". A campanha e os estudos de Luis Palma sobre a espécie conduziriam à criação da Reserva Natural da Serra da Malcata, da qual contudo, infelizmente, o lince acabou mesmo por desaparecer.

Saídos "às pressas" de Vale de Espinho, rumámos a sul; o rebento precisava de praia ... e lá rumámos aos Algarves. 5 anos depois da última "aventura", quem havia de encontrar na praia de Lagos? O meu "guia" de tanto do que eu fui e sou na vida ... o Dr. Ribau! E os velhos tempos lá vieram à conversa, as recordações reavivaram-se. Que será feito de toda aquela boa gente dos campos, que sempre nos recebeu de braços abertos, quando nos instalávamos próximo, para "desvendar os buracos" das suas terras? Tinham sido realmente belos tempos, dias excepcionais, recordações que o tempo não apagará nunca da memória!
À "conquista" dos Algarves, Agosto de 1979
Praia de Portimão, Agosto de 1979
Ponta da Piedade, Lagos, Agosto de 1979
Parque de Campismo de Milfontes, Agosto de 1979













No ano lectivo de 1979 / 1980,  passei  ao  quadro efectivo  de  uma  escola  secundária  ...  na  "terra  dos
Acção de Educação Ambiental para a
Escola do Entroncamento, 1.03.1980
fenómenos". Mas, se a minha efectivação no Entroncamento me obrigava a quase 4 horas de comboio diárias ... por outro lado proporcionou-me o contacto diário com a beira-Tejo, com o espectáculo grandioso do nascer do Sol sobre os mouchões, por vezes com o voo dos flamingos a preencher um cenário que me passou a ser familiar.
Para a Escola do Entroncamento, organizei a primeira de três acções sobre Educação Ambiental, para professores, dinamizadas pela então Comissão Nacional do Ambiente (CNA). A sessão de campo foi na Barragem do Castelo do Bode ... e na "minha" Serra d'Aire.
30 de Janeiro de 2011

sábado, 23 de outubro de 1976

Os anos revolucionários (2): 1975 / 76

A "descoberta" do Gerês, no "verão quente" de 1975, acentuou definitivamente a revolução que me transformaria no amante da montanha, das serras e dos vales, das florestas. Não, não tinha ainda carro, nem carta de condução, que os magros salários não davam para esses luxos. Por isso ... até as idas a Vale de Espinho eram de comboio ou de autocarro ... ou as duas coisas. Em Agosto de 1975, grande parte das férias lá foi de novo na aldeia arraiana que já começava a ser minha. O Freixial era sempre o ponto de convívio, de brincadeiras, dos banhos nas águas gélidas mas límpidas do Côa. Mas as "minhas botas, velhas, cardadas" já começavam também a palmilhar as "léguas sem fim" da Serra da Malcata. Contemplei pela primeira vez Vale de Espinho do Cabeço da Pelada, subi ao Cabeço da Moura, à raia de Espanha ... e extasiei-me ante a imponência das panorâmicas a perder de vista! Lá ao fundo, para sul, o cabeço de Monsanto destacava-se; a oeste e sudoeste,  a Estrela e a Gardunha altaneiras;  a nascente,  as  serranias
Acampamento nas nascentes do
Alviela, 12 de Setembro de 1975
de onde vem descendo o Côa ... cuja nascente só me seria revelada muitos anos mais tarde.
Mas ... a Espeleologia tinha deixado raízes ... e saudades! Na continuação dos trabalhos para a cadeira de Ecologia, porque não levar o Dr. Magalhães e os colegas que quisessem alinhar ... aos Olhos de Água do Alviela? O fim de semana de 12 a 14 de Setembro de 1975 foi o primeiro de vários ali passados, acampados junto ou dentro da gruta dos Amiais, em trabalhos de recenseamento das populações de morcegos ali existentes.
17 de Junho de 1976 -
a caminho da Serra da Nogueira
Já em Junho de 1976, levei-os também às grutas de Leceia. E voltámos à Tapada de Mafra ... no regresso da qual passámos uma memorável noite de Santo António em casa do Dr. Magalhães!

17 a 19 de Junho de 1976: também pela mão do Dr. Carlos Magalhães, conheço outra importante área natural de montanha, a Serra da Nogueira, lá nas terras de Trás-os-Montes. Ficámos todos alojados na Casa Florestal da Nogueira, participando e acompanhando trabalhos de recenseamento de lobos e de cervídeos, mas também num mais uma vez excepcional ambiente de convívio e camaradagem.
Na Casa Florestal da Nogueira,
18 de Junho de 1976
Nos carvalhais da Nogueira,
18 de Junho de 1976
Casa da Nogueira, 18 de Junho de 1976 - uma cria de lobo cuja mãe havia sido abatida
A viagem Bragança - Lisboa, feita numa velha Portaro dos Serviços Florestais ... foi uma aventura. Mas, mesmo assim ... "desviámos" a Portaro: a família Magalhães foi conhecer Vale de Espinho!

E as cadeiras do curso de Biologia iam avançando; no verão de 1976, estávamos a completar o 4º ano ... e
17.07.1976 - Nos salgados de Corroios, com o Professor
Fernando Catarino
a precisar de férias...J! 1ª semana de Agosto: uma semana acampados no Portinho da Arrábida! Depois ... Santa Cruz e o regresso às Berlengas!
13.08.1976 - Praia de Santa Rita, ruínas do
antigo mosteiro de Penafirme
No dia 13 fizemos uma jornada a pé  ao  longo  das arribas, de Santa Cruz à praia da Corva, a norte de
Porto Novo.
13.08.1976 - Praia de Porto Novo
















E na 3ª semana voltámos a acampar no paraíso das Berlengas, com 3 amigos feitos ainda no velho "Cabo Avelar Pessoa".
No paraíso da Berlenga, 18 de Agosto de 1976
Acampamento na Berlenga

Em Setembro/Outubro de 1976 ... nova "revolução"! Como todas as revoluções, implicava uma decisão: ia fazer  o  final  do curso  de Biologia com Formação Científica ou  Educacional ?  A chama da Espeleologia
Acampamento junto às grutas de Assafora, Sintra,
2 de Outubro de 1976
estava ainda acesa e os trabalhos com morcegos tinham-na reactivado.
Colónia de morcegos nas grutas do
Amiais, Alviela, 23 de Outubro de 1976


Com o objectivo de uma possível especialização científica na ecologia e comportamento daqueles nossos parentes cavernícolas, em Outubro de 1976 acampámos nas grutas de Assafora, Sintra, e, dois fins de semana depois, de novo nas minhas velhas conhecidas nascentes do Alviela. Ainda comecei, aliás, um estágio científico no Instituto de Medicina Tropical, precisamente sobre parasitologia em Quirópteros.

Mas outra chama tinha estado também sempre latente: porque não ... tornar-me um Ribau? Cativar os jovens para as Ciências da Vida, para os grandes espaços naturais que eu aprendera a amar? A paixão pela docência começou a fermentar ... e viria a ocupar-me ao longo de 3 décadas!
26 de Janeiro de 2011

domingo, 22 de abril de 1973

Vale de Espinho, uma melodia a 4 estações...

Pelos  caminhos  da  Espeleologia,  dos acampamentos,  das muitas fragas  e trilhos percorridos, os nossos
Vale de Espinho, Rio Côa
19 de Abril de 1973
campos e as nossas aldeias tinham-me ensinado a respirar o ar puro, a conviver, a criar uma paixão pela Natureza e pelo mundo rural. Em Abril de 1973, o romance havia pouco iniciado levou-me a uma aldeia raiana que, 20 anos antes, vira nascer aquela que viria a ser minha mulher; aldeia, terras e gentes que adoptei e que me adoptaram, que tenho calcorreado e desbravado ao longo de quase 40 anos! Vale de Espinho, nas terras de RibaCôa do concelho do Sabugal, separada da Beira Baixa pelas alturas da Serra da Malcata ... passou a ser a "minha" aldeia, o retiro espiritual de tantos e tantos encontros com a Natureza ... desde esses primeiros 5 dias maravilhosos ... nas férias da Páscoa de um longínquo 1973.
Trinta e três anos depois, em 2006 escrevi para um filme a que precisamente chamei ... "Vale de Espinho, uma melodia a 4 estações":

"Em Abril de 1973, conheci pela primeira vez Vale de Espinho. Desde então, apaixonei-me verdadeiramente pelas terras e gentes raianas, por esta aldeia que viu nascer gente que passou a fazer parte da minha vida.
Sem nele ter tido aparentemente origem, o mundo rural sempre me fascinou. Aqui, na "minha" Vale de Espinho, sinto que pertenço a estas terras e a estas gentes, aos blocos de granito imponentes, às lâminas de xisto brilhando ao Sol, à "minha" Malcata, onde infelizmente já não correm os linces, mas em cujas encostas verdejantes cantam as águas que se juntam no Côa, no Bazágueda, na ribeira da Meimoa.
Ao longo de mais de 30 anos, a minha paixão por estas terras foi-me levando a calcorrear cabeços e vales, das paisagens ribeirinhas do Côa às serras do Homem de Pedra, de Aldeia Velha, das Mezas, por trilhos de lobos e de javalis, por barrocos e nascentes.
Conheci os Urejais, as Fontes Lares, as Colesmas, o vale dos Abedoeiros, o vale da Maria, a Fonte Moura, o Nabo da Cresta, o Alcambar; de Vale de Espinho cheguei a Valverde, subi à Pedra Monteira, ao barroco ratchado, percorri os caminhos da Ventosa e do Espigal, da Malhada do Barroso, do Poço do Inferno, da Marvana; passei a Quinta do Major, fui ao Fragão, ao Salgueirinho, aos moinhos do Bazágueda, ao Vale Longo, às Quelhinhas ... e a tantos e tantos outros lugares cheios de energia telúrica, convidativos à poesia, à contemplação, à meditação.
A maioria destes caminhos fi-los sozinho, só eu e a Natureza, numa verdadeira melodia a 4 estações, por vezes partindo antes de o Sol raiar, precisamente para o ir ver levantar-se ante a imponência das fragas e do horizonte a perder de vista. Só assim se vivem e se sentem os ares, os sons, os cheiros da Natureza.
Nas Veigas com o avô Quim,
19 de Abril de 1973
Este filme é a minha singela homenagem a estas terras de encanto e encantamento, às suas raízes e tradições, a todas estas cores, sons e cheiros, às vozes das suas gentes simples e sãs, para quem a roda das estações gira ao sabor das melodias de uma Natureza agreste, inspiradora e saudável."

Mas voltemos a recuar no tempo. Aqueles 5 dias de Abril de 1973 foram inesquecíveis. Conheci os avós da minha  "tão  linda
Fontes Lares, foto "histórica" no
barroco "sagrado", 1963
arraiana"; conheci as ruas e as estreitas "quelhes" da aldeia, de casas de pedra, as lojas para os animais por baixo da habitação, conheci os lameiros onde labutavam homens e animais, conheci a vida rude, sã e pura do campo. Logo no segundo dia, fomos às Fontes Lares a pé, a cerca de 4 km da aldeia. É um sítio com recordações gravadas nas memórias da família onde estava a entrar, com a sua nascente de água pura e cristalina, o barroco do qual parece brotar energia telúrica, a que mais tarde eu viria a chamar o "barroco sagrado".
E, claro, o Côa, ali ainda relativamente perto da nascente, antes de atravessar toda a Beira Alta e se precipitar no Douro. Que saudades do velho Freixial, das Aleguinhas, das trutas que víamos correr nas águas cristalinas e gélidas.
A minha arraiana e os pais ficaram em casa da avó materna; eu, claro ... fiquei em casa dos avós paternos. E mesmo assim, em 1973, já era uma grande ousadia alguém de fora querer "roubar" uma moça da aldeia. Sempre que um rapaz de fora iniciava namoro com alguma, era autuado pelos da terra, isto é, intimado a pagar a "patenta". Esta constava geralmente de um cântaro de vinho, acompanhado por tremoços e amendoins e, por vezes, por uma bucha – pão com chouriço ou com outro petisco. As raparigas envolvidas nesses namoros sentiam-se, por um lado, envaidecidas por serem procuradas, mas ao mesmo tempo criticadas face à aceitação de um rapaz de fora. A recusa do pagamento da patenta podia ser interpretada como querer fazer pouco, não só da rapariga como da rapaziada local. O forasteiro ou assumia e pagava, ou desandava dali. Contudo ... nunca paguei a patenta...J! Talvez porque a rapaziada de Vale de Espinho já sabia que eu viria a ser filho adoptivo da raia...J!
Fontes Lares, 20 de Abril de 1973                                                                    Freixial, Rio Côa, 21 de Abril de 1973
Aqueles 5 dias foram inesquecíveis ... mas muitos outros se seguiram naquelas terras de encanto e encantamento ... ao longo já de quase 4 décadas!
Tal como o filme de 2006, este artigo é dedicado à memória do meu saudoso sogro, José Clemente Malhadas, o "Zé Malhadinhas", filho de Vale de Espinho e das terras raianas.
19 de Janeiro de 2011