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domingo, 18 de julho de 2010

Rio Côa (1): da nascente a Vale de Espinho


RIO SAGRADO


No ventre das Mesas
ouviu-se um gemido
de um ser que quis nascer
e correr serra abaixo
……………
Eras tu, meu Rio Côa,
que querias ser gigante
e escolheste o teu caminho rasgando montes,
dormindo em vales fundos
……………
E, hoje, sou eu que paro junto a ti,
penetro nesse templo sacrossanto do tempo que passou,
e contemplo esse andar tão lento de séculos e milénios
p’ra concluir que quase nada sou

Bernardino Henriques, “Poemas da Terra”, 2009
Eu já conhecia o "ventre das Mesas" e o correr do Côa serra abaixo. Já conhecia muitos dos seus meandros, já tinha ouvido os seus lamentos, as suas histórias perdidas, contadas nas poldras, nas velhas açudes, nas ruínas dos velhos moinhos abandonados no " tempo que passou ". Mas há muito que me fervilhava a ideia de ligar esses meandros e essas histórias, de seguir o curso do Côa ... a pé.
Em Junho e Julho de 2010, nas nossas habituais estadias em Vale de Espinho ... iniciei a minha descida pedestre do Côa.  A primeira "etapa" foi nos dias 27 a 29 de Junho.  E a etapa começou acima  da  nascente
Abutre de asas abertas, porque não me dás boleia?...
Lameirão dos Foios, Serra das Mesas, 27.06.2010
do Côa, no Lameirão dos Foios, a 1160 metros de altitude, onde o lençol freático muito próximo da superfície será, provavelmente, a origem primária dos dois rios irmãos, o Côa e o Águeda. A Serra das Mesas, já minha velha conhecida, é bem o ventre de onde eles nascem, ponto de partida obrigatória desta minha "peregrinação".
Depois, foi seguir o curso do jovem "ser que quis nascer e correr serra abaixo". Contornando o Cabeço dos Currais e cruzada a estrada do Lameirão, chegamos aos primeiros declives acentuados e entramos na ampla curva do Prado da Barrosa. Do curso sul/norte que o caracteriza na generalidade, nos Foios o Côa corre no sentido nordeste/sudoeste. Primeiros lameiros, primeiros campos de cultivo ... e estamos nos Foios.
Atravessando o prado da Barrosa, 28.06.2010
Praia fluvial dos Foios, 28.06.2010
Logo a seguir aos Foios, o Côa recebe os seus dois primeiros afluentes propriamente ditos, na margem esquerda: os ribeiros do Colmeal e do Picoto. Cama Grande ... e os granitos vão dando lugar aos xistos ... a Serra das Mesas vai dando lugar à da Malcata. Chegamos à Fontanheira, aos pés do Cabeço do Canto da Ribeira,  às Colesmas,  às Braciosas.  As velhas açudes,  as  poldras para atravessar o rio,
Pontão e Moinho dos Pecas (vista de nascente), 29.06.2010
começam a soltar-me o gemido do "tempo que passou ", das gerações que as águas viram passar, do labor dessas gerações. Nas Braciosas, o rio entra em terras de Vale de Espinho, contornando os Cabeços da Cruz Alta e do Pisão. Surgem os primeiros moinhos ... ou o que resta deles.
Memórias que a memória não esquece...
Primeiro o Moinho do Sr. Vital, depois o Moinho dos Pecas. Memórias que a memória não esquece...!
Passada a ribeira dos Abedoeiros, chegamos às Veigas ... e ao Engenho. Antigo moinho, antiga fábrica de mantas, antiga "fábrica de luz", o Engenho vale só por si um compêndio de história, de memó-rias, de grandezas e fracassos. Quantas páginas ali se escreveram da história e da vida das gentes de Vale de Espinho e da raia...
A velha ponte de Vale de Espinho há muito que vê passar o Côa!
Pouco depois chegamos à velha Ponte, ícone de Vale de Espinho. O Moinho do Ti Xico Barbeiro é dos poucos na margem esquerda. E seguimos para o Pisão, a foz da ribeira do Vale da Maria, o Moinho do Ti Zé Lucas e o da Nogueira. Das Aleguinhas e do Freixial, que viu tantos e tantos convívios nos anos 60, 70, 80, já quase não restam vestígios, varridos pelo envelhecimento e pela desertificação. Em qualquer destes lugares, vem-me sempre à memória o pensamento de Sérgio Paulo Silva, também ele "filho adoptivo" de Vale de Espinho, da raia, da Malcata, do Côa.  Escrito  para  uma  minha  foto  do  Moinho  do  Rato ...
"E de repente damo-nos conta que envelhecemos, a ver envelhecer estas pedras que não envelhecem."

Pontão das poldras, no Moinho do Rato, 18.07.2010
Mas o Côa segue o seu curso. À margem do Cabeço do Colmeal, deixa o Moinho dos Pereiras, ou da Ponte Nova, a ponte nova que um dia viu passar a estrada que levaria a Malcata, mas que termina no Alcambar.
E precisamente junto à foz da ribeira do Alcambar, descansam os restos da última obra da arte da água e da pedra* nos limites de Vale de Espinho, o Moinho da Ervaginha.

* (Referência à obra "Rio Côa – A Arte Da Água E Da Pedra", de Nuno de Mendoça)
Moinho da Ervaginha e lameiros do Côa, Vale de Espinho (clique na foto ou neste  link  para ver o álbum completo - 330 fotografias)
"Etapa" da descida pedestre do Côa entre a nascente e a barragem do Sabugal, que inclui o troço descrito neste post
13/09/2011

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ouvindo velhos contos ... à lareira e com sabores

Regressados de Vale de Espinho e do inferno em que as mãos criminosas lançaram o concelho, eu tinha encontrado casualmente na net uma iniciativa que me pareceu bastante interessante e original. Organizado
Retiro da Fraguinha, 3.10.2009
pelo grupo "Criar Raízes", de S. Pedro do Sul, em conjunto com o parque de campismo da Fraguinha, na Serra da Gralheira, de 3 a 5 de Outubro realizava-se o evento "Estória, História...: encontro de contadores, lareiras e sabores". O encontro parecia apelativo: prometia "contos, percursos pedestres, petiscos, vidas partilhadas... uma forma diferente de descobrir a serra". Há 15 anos que não acampávamos propriamente, em tenda; era uma oportunidade para reviver a experiência e participar naquele encontro.
E assim, naquele início de Outubro, rumámos à Gralheira. O parque da Fraguinha é um camping rural, em plena serra. Que bela localização e que bela envolvência ... não fossem as muitas eólicas nas redondezas, zumbindo dia e noite.
Vamos descamisar o milho, Manhouce, 3.10.2009
Que aberrante "plantação" povoa agora muitas das nossas serras! Energia limpa? Esse é um conto mal contado...
Com base na Fraguinha, as duas aldeias que receberam o evento foram Manhouce e Candal. Aldeias alcandoradas na serra, cheias de histórias e de tradições. E dando vida aos objectivos pretendidos, o conto veio de novo para a lareira, para o sítio onde nasceu, nas longas noites de frio e de chuva, à volta do lume, em casa das pessoas. A ideia era que os participantes descubrissem as aldeias e as suas gentes, ao circular de casa em casa para ouvir um contador diferente e provando nelas os sabores tradicionais; foram assim as noites dos dias 3 e 4. Mas também tivemos a oportunidade de aprender saberes de outrora, de escutar vozes que ecoam dos recantos da serra ... como a voz de Isabel Silvestre, que ouvimos num esplêndido concerto na igreja de Manhouce.
Candal ... pedras que falam...  4.10.2009
Em Manhouce participámos no labor tradicional do descamisar do milho. Em Candal reunimo-nos na eira, para ouvir velhas histórias de lobos e de homens. Foram sem dúvida três belos dias e um belo evento. Um único reparo, que aliás fiz à organização: os "contadores de histórias" poderiam (deveriam...) ter sido recrutados entre a população das aldeias, ou seus descendentes ou a elas ligados ... em vez de contadores "profissionais", convidados, contando histórias que levam para muitos cantos e recantos, histórias que nada têm portanto a ver com aquelas aldeias, serras e gentes. Poderia ser difícil ... mas seria um desafio.
(Pode ver o álbum de fotos completo nest link)

Entretanto, ainda em Setembro tínhamos participado com os Caminheiros Gaspar Correia em mais uns Chocalhos, em Alpedrinha e na Serra da Gardunha, ligando no sábado as barragens do Pisco e da Marateca. A 17 de Outubro foi a vez de uma caminhada ... surpresa... J. E a 7 de Novembro, com quase 2
Um novo Caminheiro... J  7.11.2009
anos ... o neto mais velho estreou-se nos Caminheiros... J! Numa caminhada alusiva a S. Martinho, entre o Sardoal e Andreus, o estreante fez parte do percurso ... na mochila para o efeito, às costas do avô e do pai... J. E a última jornada caminheira do ano foi em terras de Sicó, no dia 12 de Dezembro.
Mas pelos Santos tínhamos regressado a Vale de Espinho. No dia 28 de Outubro fui ver como estavam as "minhas" Fontes Lares ... e felizmente fiquei maravilhado. A natureza é pródiga e regeneradora! O cenário dantesco de dois meses antes, tinha-se felizmente alterado substancialmente.
As Fontes Lares voltaram à vida!  28.10.2009
Ainda durante essa curta estadia, no dia 31 participei numa caminhada organizada pela Associação Recreativa de Malcata, palmilhando à noite os velhos trilhos da serra, do Alízio ao geodésico do Homem e regressando a Malcata. E de 17 a 20 de Dezembro ... lá estaria de novo na "minha" Vale de Espinho... J!

E numa visita há muito pretendida, Florença recebeu-nos no final de Novembro, depois de um dia e meio em Barcelona. Mas além das cidades, esta jornada permitiu ainda conhecer um pouco das belas paisagens da Toscânia ... bem como um espectacular panorama aéreo dos Alpes, na viagem de regresso.
Sobrevoando os Alpes, 26.11.2009
3/09/2011

quinta-feira, 21 de maio de 2009

De Vale de Espinho a Pesqueiro e à Marvana ...
... ou quando levo uma lição arraiana... J

Agora que estávamos ambos em "férias eternas", entre 11 e 25 de Maio de 2009 passámos pela primeira vez duas semanas seguidas em Vale de Espinho. Nos dias 13 e 14 recebemos dois casais amigos dos Caminheiros, para fazer a prospecção daquela que viria a ser a actividade de Junho  ...  e  no dia 21  levei
O vale de Pesqueiro e a Serra da Marvana, 21.05.2009
uma "lição"... J. Um primo que vive em França e que estava igualmente a passar uns dias em Vale de Espinho ... voluntariou-se para ir comigo na caminhada que eu estava a projectar, uma caminhada pela "minha" serra da Malcata, ao longo da raia, descendo ao vale de Pesqueiro e subindo à Marvana, a Marvana das lendas dos tesouros escondidos, dos romances de amores e desamores, a Marvana da “Rosa da Montanha” e dos crimes do bando do Montejo. Fiquei dividido entre o querer fazer-lhe a vontade e o receio do "empecilho" que provavelmente seria, numa caminhada de cerca de 30 km de sobes e desces. A imagem da "aventura" com o meu júnior, no Gerês, não me saía da memória; e com a agravante de ali ser muito menos provável do que no Gerês encontrar alguém pelo caminho...!
Assim, foi muito com o "credo na boca" que saí de Vale de Espinho, às 7 e meia da manhã daquele dia 21 de Maio. À hora marcada … lá estava o primo fresco e pronto para a caminhada. E lá partimos serra acima. Pouco tínhamos passado, contudo, da ponte romana sobre o "meu" Côa … quando as minhas dúvidas se começaram a desvanecer. O primo, afinal, andava bem... J! Em 55 minutos vencemos os 5 km que separam Vale de Espinho do limite entre as Beiras, chegando portanto também poucos minutos depois à raia espanhola. São 5 km sempre a subir … e que eu nunca tinha levado tão pouco tempo a fazê-los. Bem, pensei eu nessa altura, "estás aqui estás desfeito" e não vamos conseguir chegar à Marvana, a cujo cimo eu ainda nunca tinha chegado a ir e que era o objectivo da caminhada. Continuámos. A partir do limite entre as Beiras a caminhada acompanha sempre a raia e a cumeada, por terreno mais ou menos plano e que sobejamente conheço … e chegámos à chamada ladeira grande. A ladeira grande é, como o nome indica, uma grande ladeira que desce para o vale de Pesqueiro, em Espanha, por onde não precisávamos, portanto, de ir; para a Marvana era sempre em frente, pela cumeada. Mas, ante a hipótese de irmos e voltarmos pelo mesmo caminho (como realmente teria de ser), surgiu a hipótese de descermos a Pesqueiro e depois subirmos à Marvana pelo lado espanhol … hipótese que o meu companheiro logo abraçou. E assim fizemos; seguiram-se, portanto, 5 km sempre a descer … e a descer bem, já que neles passámos dos 910 metros de altitude para os 430! Passámos o Arroyo de la Mina junto à antiga Barroca de la Casa de Campo … e aí enfrentámos a primeira subida a sério! E, qual não é o meu espanto … quando vejo o primo a subir aquela vereda à mesma velocidade a que fazia tudo o resto! Em 800 metros vencemos 200 de desnível … ou seja uma inclinação de 25%. Aí, o meu coração começou a dizer ao cérebro: "eh pá, tu não tens pedalada para aquilo; vai mas é ao teu ritmo, antes que seja a ti que têm de levar às costas"! E eu obedeci às "instruções" … apesar do "transtorno psicológico" de ver à minha frente alguém que não era suposto estar à minha frente... J!
O "guia" ... e o "atleta de competição"... Cume da Marvana, 21.05.09
Depois daquela subida vertiginosa … outras se seguiram, até à Marvana … em todas elas com o primo à minha frente e a reduzir, nitidamente, a velocidade por minha causa. E ainda por cima dizia que os ténis (pouco apropriados para qualquer caminhada, por pequena que fosse) lhe estavam a começar a provocar "ampolas" nos pés (do francês "ampoules"…).
Às 10h55 estávamos no cimo da Marvana, a 860 metros de altitude e com 19 km desde Vale de Espinho, feitos em menos de 3 horas e meia e, portanto, à média de 5,4 km/h … o que é de longe o meu record pessoal em terreno tão acidentado! Embora a uma hora ainda pouco própria para isso, propus ali a paragem para deglutirmos as sandes e as maçãs que levávamos nas mochilas. É que, até ali, as muito poucas e rápidas paragens tinham sido, apenas, para uma ou outra fotografia e para verter líquidos biológicos. O primo lá aceitou a paragem … mas "declarou" que não tinha fome e, efectivamente … nada comeu. Mas eu comi... J!
Meia hora depois de nos sentarmos … levantámo-nos para reiniciar a marcha. Ainda propus a alternativa entre regressarmos a Vale de Espinho ou continuarmos para sul. Estávamos mais perto da estrada ValverdePenamacor, e mesmo de Penamacor, do que de Vale de Espinho; na estrada Valverde – Penamacor poderíamos arranjar uma boleia, e de Penamacor regressaríamos de camioneta ou de táxi. Mas
Relevo típico da Malcata ... no regresso a casa, 21.05.2009
a resposta do Quim foi curta e sintética: "Vale de Espinho"... J! E assim, às 11h25, iniciámos o regresso, primeiro pelo mesmo troço em que tínhamos chegado à Marvana … mas depois seguindo pela cumeada, já não voltámos a descer a Pesqueiro, claro.
O cume da Marvana e Vale de Espinho estão sensivelmente à mesma altitude (Vale de Espinho apenas mais 10 metros, 870m) … mas entre as duas ainda teríamos de subir aos 1015 metros do Clérigo, o limite entre as Beiras. Foram 16 km feitos em duas horas e meia, com uma pequena paragem de 10 minutos numa sombra … e onde o meu acompanhante finalmente resolveu comer uma maçã, único alimento dele em toda a jornada. Adivinham quem ia sempre à frente nas subidas... J?
E assim, com 35,4 km percorridos, às 14h45 estávamos de regresso a Vale de Espinho … tendo feito os últimos 5 km (agora a descer…) em 45 minutos (média de 6,7 km/h…). Nos últimos 8 a 10 km, já se queixava bastante dos pés (as "ampolas" estavam a chateá-lo) e, também, dos joelhos … mas não era por isso que abrandava, ou até antes pelo contrário! A minha "sócia" e a mãe do primo regozijaram com a nossa vinda bem mais cedo do que tinham imaginado … e do que eu tinha imaginado. Ele, quando chegou … foi pôr os pés de molho em água quente com sal! Eu … acordei uma hora depois, com um telefonema… J! Só depois é que a banheira me recebeu … e aquele banho soube a prodígio dos deuses!
Se o primo gostou? Adorou, segundo disse e se via! Pelas paisagens, pela experiência, por ter testado a sua resistência. Joga futebol todas as semanas ... e eu começo portanto a dar mais valor ao futebol... J! À noite tinha os pés num estado um bocado lastimoso, para ir da sala ao quarto creio que levava mais tempo do que levou a fazer qualquer subida … mas adorou! Os meus pés … esses felizmente estavam inteiros e sãos … pelo que à noite eu me sentia bem melhor do que ele… J!
Se gostei? Adorei! Pelas paisagens (a maioria já sobejamente conhecidas mas nunca cansadas), pela experiência … e por ter testado os meus limites, creio! Cheguei mais cansado do que no fim de qualquer outra caminhada. Se a tivesse feito sozinho, como planeara, não me teria cansado, mas claro que adorei ... inclusive pela companhia. Obrigado Quim... J! Foi preciso um futebolista não habituado a caminhadas (e que supostamente deveria fazê-las atrás de mim…) para me dar uma lição... J!
30/08/2011

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Caminheiros ... e terras raianas...
(Agosto de 2008 a Março de 2009)

Depois da "aventura" no Gerês e do Intercéltico de Sendim ... regressámos a Vale de Espinho. E o segundo semestre de 2008, bem como a Primavera de 2009,  foram  caracterizados  por  sucessivas  fugas
Torres das Ellas, Serra do Espiñazo, 12.08.2008
para o nosso retiro arraiano, intervaladas pelas actividades com os Caminheiros Gaspar Correia ... uma delas na raia... J!
A 12 de Agosto de 2008 parto do Lameirão dos Foios e da nascente do Côa para os Llanos de Navasfrias, passando pela nascente do Águeda, para depois cruzar a Serra do Espiñazo (as Torres das Ellas) e terminar no Puerto de Santa Clara, sobre San Martín de Trevejo. 14 km de panorâmicas fabulosas, que eu já conhecia de outras "andaduras", mas que dei a conhecer à minha "colega especial", ao sobrinho dela mais novo ... e ao filho que, menos de um mês antes, tinha protagonizado a "aventura" no Gerês.
Numa caminhada muito mais acessível ... ele lá se redimiu em parte... J!
Dia 21 de Agosto guiei outra "equipa familiar" numa jornada de quase 20 km pela Serra Alta e Matança, sobre Aldeia do Bispo. No dia seguinte, estabeleço aquele que é ainda hoje o meu record pessoal de distância percorrida num dia: atravesso a Serra da Malcata pelo Espigal, Espiguinho e Forninhos, do Meimão subo à cumeada do Muro de Facas, sobrancei-
ro a Santo Estevão, a noroeste, e à barragem da Meimoa, a sudeste. Desço à Feiteira e ao Vale da Senhora da Póvoa. Com 33 km já percorridos, o plano era apanhar boleia do meu filho mais novo no Terreiro das Bruxas, já que era dia de ele vir para Vale de Espinho. Mas ... quando passei no terreiro das Bruxas ainda ele estava no caminho ... e eu segui o caminho de regresso. Apanhou-me quase no Sabugal, com quase 46 km percorridos em 12 horas e meia J.
A 14 de Setembro faço mais uma romagem ao vale da ribeira dos Urejais ... e às Fontes Lares.  E  no fim  de
Castanhal de Ojesto, San Martín de Trevejo, 25.10.2008
Outubro levamos mais uma vez o nosso "grupo dos sete" a Vale de Espinho, para um Outono na raia. Do lado espanhol, no dia 25 fazemos com eles a fabulosa descida do castanhal de Ojesto, do Puerto de Santa Clara a San Martín de Trevejo.
Entre San Martín de Trevejo e as Ellas, em data "especial", de 5 a 8 de Dezembro entregamo-nos ao luxo da "Almazara de San Pedro", na base da Serra da Gata. Com Vale de Espinho ali tão perto, mas foi uma maneira de comemorar, em plena Natureza ... 35 anos de vida em comum...J! E até o fim de ano foi raiano; de 26 de Dezembro a 2 de Janeiro ... Vale de Espinho.

Entretanto claro que continuavam em pleno as nossas andanças com a "grande família" Caminheira - os Caminheiros Gaspar Correia. De Setembro a Janeiro, da Arruda dos Vinhos ao curso do Trancão, passando por terras de Mora e de Grândola, as actividades sucediam-se, sempre em ambiente de franca e sã camaradagem. Por sinal, as actividades de Dezembro, Janeiro e Fevereiro foram de minha responsabilidade: as de Dezembro e Janeiro à descoberta do curso do Trancão, da Póvoa da Galega a Bucelas e a Sacavém; a de Fevereiro ... nas terras raianas dos Foios, Navasfrias e Serra da Enxalma, no fim de semana de 14 e 15 de Fevereiro. Sábado começamos a caminhada na praia fluvial dos Foios, subindo à nascente do Côa e atravessando depois a raia pelas antigas bredas do contrabando. Tanto nos Foios como em Navasfrias, fomos recebidos pelos respectivos Presidente da Junta e Alcalde, visitando a seguir o Centro de Interpretação da Natureza, junto à área de El Bardal, em cujas instalações o grupo ficou alojado ... e onde fizemos a tradicional festa de Carnaval Caminheiro.
Domingo era o dia da "grande caminhada" do Xalmas, que nos brindava com o manto branco da neve a partir de meia encosta. O espectáculo da progressão na neve, as extraordinárias panorâmicas do cume e a descida para a encosta estremenha fizeram desta caminhada uma jornada memorável. O autocarro esperava-nos na pequena aldeia de Trevejo, cujo castelo medieval, dominando a planície de Valverde, com a Marvana ao fundo, constituiu um excelente quadro final de actividade. Dali regressámos a Lisboa.
Subida ao cume do Xálama, com Payo ao fundo, 15.02.2009
Rumo ao cume do Xálama (1493m alt.), 15.02.2009

Entretanto, a 6 de Fevereiro, o jornal "Cinco Quinas", do Sabugal, publicara uma entrevista onde surjo como "filho adoptivo e adoptado da raia"... J
E no último dia de Fevereiro ... a minha "colega especial" recebia a sua "carta de alforria" e chegava também ao fim do "nosso" Ensino. Estávamos os dois aposentados! Agora passávamos a ter "todo o tempo do mundo" para nós, para os filhos e netos, para as nossas paixões. Em Vale de Espinho, passaríamos a estar mais tempo em cada "fuga"; a primeira foi no fim de Março de 2009, para no início de Abril partirmos da raia ... para as terras mágicas de Somiedo!
25/08/2011

sábado, 15 de dezembro de 2007

Do Iberfolk ao Douro e ao Marão ... e quando sou avô numa caminhada!

Depois do périplo asturiano, o segundo semestre de 2007 caracterizou-se por sucessivas actividades cami-nheiras ... sempre com Vale de Espinho e as terras raianas no horizonte... J!
De 7 a 9 de Setembro, o II Iberfolk mobilizou o concelho do Sabugal, para uma mística que englobou música tradicional, caminhadas, contos tradicionais, tudo à sombra das velhas muralhas do Castelo de Sortelha.  É  claro  que  tínhamos de lá estar,  eu e a minha musa,  assistindo aos bailes e concertos,  mas
Chegada a Barca de Alva pelo Douro, 6.10.2007
participando também nas caminhadas de descoberta da Malcata: no percurso da "Patada da Mula", junto à barragem da Meimoa, no dia 8; nos trilhos do Espírito Santo e da Serra das Mesas, no dia 9.
Aproveitando o feriado de 5 de Outubro, o nosso "grupo dos sete" fez nova incursão ao Douro e à Invicta, incluindo o cruzeiro da Régua a Barca de Alva, a continuação do que tínhamos feito em 1999. Nesta subida do Douro ... pude portanto ver a foz do "meu" Côa a partir do Douro que o recebe, bem como a foz do seu "irmão" Águeda, limitando com terras castelhanas.
Cruzeiro no Douro: Foz do Côa, 6.10.2007
Rio Águeda, fronteira, na antiga linha internacional, 6.10.2007
Uma semana depois, participo na Marcha dos Fortes, organizada pela Câmara de Loures e o Clube "Ar Livre" (CAAL): 44 Km a pé, de Runa a Bucelas, pelos Fortes das Linhas de Torres. Até então o meu record pessoal de distância percorrida num dia.
Também com o CAAL, a 27 e 28 de Outubro participo na actividade "Nas Faldas do Marão": três caminhadas, em duas belas jornadas pela serra, com pernoita no parque de campismo de Amarante.
Nas Faldas da Serra do Marão, 28.10.2007
Menos de uma semana depois ... Vale de Espinho, nos Santos. Na tarde do próprio dia 1, levo uns primos há muito afastados dos campos e das serras a recordarem as Fontes Lares, a Serra Alta, a nascente do Côa, o Piçarrão. E no dia seguinte parto "à conquista" do Xálima,  que há muito  me cativava.  Do  alto  dos
Torre de Vigia do Xálima, até onde o "burro" pode ir, 2.11.2007
seus quase 1500 metros de altitude, tem-se dali uma vista deslumbrante. Os horizontes abrangem da serra da Penha de França à Marofa, à Estrela e à Gardunha; percebe-se o vale do Côa; por trás da serra de Penha Garcia, ressalta o morro de Monsanto.
No topo do Xálima, 1493m alt., 2.11.2007
Em tempos pré-romanos, estas terras eram habitadas pelos vetões, parentes próximos dos lusitanos. A origem etimológica do termo Xálima parece derivar de uma divindade pré‐romana que habitava estas montanhas, o deus Xalmas, deus da água. Os romanos deram à região o nome de Transcudânia, designação que perdura até hoje de ambos os lados da fronteira.
Um mês depois ... estava de novo na raia. A manhã do feriado de 1 de Dezembro foi preenchida com um raid pela Malcata, no meu "burro". Pelo Espigal, Ventosa, Malhada Medronheira e Concelhos, desci à barragem da Meimoa e ao Meimão. Deste, quis explorar o vale da Ribeira do Arrebentão, segui-o até à barragem do Sabugal, passei o Côa no Moinho do Cascalhal. No dia seguinte, o "burro" saltou pela Quinta das Vinhas, subiu ao Homem de Pedra, regressou pelas Fontes Lares ... sempre as Fontes Lares.
Salir do Porto, sobre a baía de S. Martinho...
... em caminhada "especial"... J, 15.12.2007
Entretanto, as caminhadas com a "família" Caminheira claro que também continuavam. Em Setembro, tínhamos estado no Parque de Santa Margarida, em Constância; em Outubro foi a vez do Pinhal do Rei; e no dia 10 de Novembro foi a caminhada do magusto, ao longo do meu velho Alviela. A caminhada de Dezembro, no dia 15, era de minha responsabilidade, na zona de Salir do Porto, entre o Paúl de Tornada e o mar. Com dois outros caminheiros, fiz o respectivo reonhecimento e preparação ainda em Novembro. Mas esta caminhada viria a tornar-se especial. A meio da caminhada, pouco antes da paragem para almoço, recebi uma notícia também especial: era, pela primeira vez ... avô! O meu neto mais velho nasceu nesse mesmo dia 15 de Dezembro ... o que naturalmente foi saudado e festejado na caminhada! Nascido com o avô em acção ... pode ser que venha a ser caminheiro... J! Pelo menos já participou entretanto em pequenas caminhadas... J
11/08/2011

domingo, 29 de julho de 2007

Pelas fragas e pragas de uma Primavera acidentada...

No início da Primavera de 2007, a Serra de Ossa recebeu o grupo de Caminheiros, em Março. Depois foi a
"Lá em baixo é Pesqueiro"... 1.04.2007
vez da barragem do Divor, em Abril, da Lagoa de Óbidos e da minha velha Tapada de Mafra, em Maio. Mas no fim de Março e início de Abril, passámos 10 dias em Vale de Espinho, em que voltei ao vale de Pesqueiro ... agora com guias! Efectivamente, o valespinhense que me havia transformado o velho palheiro em casa, filho de mãe espanhola, tinha sido lá criado. E até a minha sogra, que conheceu bem o trabalho nos "ranchos", voltou a Pesqueiro naquele dia das mentiras de 2007 ... relembrando a verdade da faina do azeite, mais de 50 anos antes.

Antiga casa da prensa, Pesqueiro, 1.04.2007
Memórias perdidas no tempo, Prensa de Pesqueiro, 1.04.2007
E no dia 4 de Abril faço uma caminhada solitária às Ellas, a partir da Serra das Mesas. Pelos Llanos de Navasfrias, desci a serra de Figuerola, até à Ermida do Espírito Santo e ao Canchal de las Muelas. No início do ano seguinte, o fojeiro Joaquim Dias publicaria "A Pita do Ti Zé Plim", que ele próprio apelidou de "novela-croniqueta"; ao lê-la, viria a recordar bem esta minha "aventura" dos Foios às Ellas.
Serra das Mesas, 4.04.2007. Objectivo: Ellas
Regresso pelo Picoto, numa tarde fria e a ameaçar chuva
O regresso foi por Valverde del Fresno e pelo Picoto, numa tarde fria e a ameaçar chuva. Tinha o meu "burro" à espera, entre os Foios e o Lameirão ... e quando lá cheguei tinha feito 31 km a pé.

11 a 13 de Maio foi outro fim de semana de fragas ... e pragas. O UMM levou-nos de novo à Quinta do Major e a Pesqueiro; há longos anos emigrada em França, a tia que nos acompanhou reviveu igualmente aqueles lugares "perdidos", e mostrou-os ao filho. No dia seguinte, participei numa caminhada organizada pela Câmara do Sabugal, entre Malcata e Vale de Espinho. Mas esse dia 13 de Maio ficaria marcado por
Da Quinta do Major ao Cabeço do Pão e Vinho, TransMalcata, 2.06.07
um grave acidente de viação, em que a minha sogra perdeu o braço direito. Posteriormente reimplantado, nunca mais viria contudo a ter mobilidade. Paradoxalmente o acidente deu-se quando, com um casal de Vale de Espinho ... regressavam de Fátima!
Com os Caminheiros, em Junho foi a vez das terras de Proença-a-Nova ... mas também os levo pela segunda vez a Vale de Espinho, para uma caminhada extra, longa e mais dura que a média: a TransMalcata, numa extensão de quase 30 km, ligando Vale de Espinho à Carreira de Tiro da Meimoa, pela Quinta do Major, Concelhos e Monte do Salgueirinho. E no dia seguinte ... Foios - Valverde, pelo caminho da Figuerola, que havia conhecido em Abril, regressando depois a Lisboa.
E entrávamos no verão de 2007. Com os Caminheiros, estava programada nova "aventura" asturiana ... mas no dia 27 de Julho havia uma caminhada nocturna, entre os Foios e Navasfrias, revivendo as rotas do contrabando. Assim, parti sozinho para Vale de Espinho, nesse dia 27 de Julho, para viver as cenas dos "carregos", dos carabineiros e dos guardas fiscais ... já que não tinha vivido ao vivo esse jogo do gato e do rato, da luta pela vida e pela sobrevivência.
Dois dias depois, no meu velho "burro", desço o Piçarrão, passo Valverde, vou à descoberta do velho castelo de Trevejo, qual pog inexpugnável, dominando a planície estremenha a sul, guarda avançada da Serra da Gata e do Xalmas, Jálama, Xálima, ou Enxalma, consoante a variante linguística que se queira adoptar. Em Vale de Espinho e na raia, aquelas serranias são conhecidas por Serra da Enxalma.

Nas encostas do Xálima, com Trevejo à vista, 29.07.2007
Castelo e aldeia de Trevejo, 29.07.2007
No dia seguinte, manhã cedo, parti à boleia com o filho da padeira para Vilar Formoso ... onde duas horas depois apanhei o autocarro dos Caminheiros ... para mais 8 dias no paraíso de Somiedo e dos valles del Oso.
7 de Agosto de 2011

domingo, 24 de setembro de 2006

Deambulações à volta de um tema: a raia...

A 7 de Agosto de 2006, uma semana depois de terminar as "aventuras" em Somiedo ... estava de regresso a Vale de Espinho, para 15 dias de férias ... e de deambulações nas minhas terras raianas. Logo no dia 8, o meu "burro" levou-me às mágicas Fontes Lares e à Serra do Homem de Pedra, mas também, cruzando os Foios, ao Piçarrão, ao Cabeço da Moira, à divinal água do Espigal. Logo no dia seguinte, uma longa jornada de mais de 70 km levou-me a mostrar as "minhas" terras raianas a familiares, nascidos em Vale de Espinho, mas há muito afastados da serra. Descemos à Quinta do Major, pelas Ginjeiras e Revoltas visitámos a minha amiga ti MariZé Salgueiro, que, à beira do Bazágueda, lá continuava no seu isolamento serrano. Regressámos pelo Meimão e Malcata.
No dia 13 foi a vez da envolvência da barragem do Sabugal. Com o filho mais velho e nora, atravessei o Côa na Estrajassola, do Cruzeiro das Peladas descemos às margens da barragem, visitámos o Moinho
A caminho de Aldeia da Dona, 14.08.2006
do Cascalhal e o ti Zé Martins, que eu havia incluído no meu filme das 4 estações. No dia seguinte o "burro" ficou a descansar e a jornada foi pedestre. Também com o filho e nora e um carro em cada extremo, ligámos Sacaparte à Ponte de Sequeiros, que imperdoavelmente eu ainda não conhecia. De construção provável no século XIII, esta ponte seria um marco de fronteira antes da incorporação  das  terras  de  Riba-Côa  no  território  nacional,  pelo
Ponte de Sequeiros, próximo de Valongo do Côa, 14.08.2006
Tratado de Alcanices.
Ainda no mesmo dia 14, à noite ... fui de propósito ao Rendo, assistir a um memorável concerto do Sebastião Antunes e da "Quadrilha". Em terra de fragas ... não podia perder estas "fragas e pragas"... J!
E nos dias 18 e 19, eu e o meu "burro" servimos de novo de guias a primos e amigos, mostrando-lhes a Serra Alta, a nascente do Côa, as Mesas, a Quinta do Major, o Espigal, a Capela do Espírito Santo. Alguns já me propunham largar o ensino e enveredar pela carreira do turismo rural e de guia de percursos...; fosse eu mais novo... J!
E em Setembro lá estamos de novo na nossa Vale de Espinho, no fim de semana de 23 e 24. De ambos os lados da raia, no dia 24 exploro, de "burro", a zona compreendida entre o Cabeço Vermelho, Navasfrias, Aldeia do Bispo e a Lajeosa da Raia.

Entretanto, em 16 de Setembro tinha estado com os Caminheiros nos Coutos de Alcobaça, numa caminhada em cuja preparação tinha colaborado no último dia de Agosto.
25 de Julho de 2011

domingo, 4 de junho de 2006

"Vale de Espinho, uma melodia a 4 estações" ...
em filme

Depois de ter levado os Caminheiros às minhas terras raianas, no fim de semana de 26 a 28 de Maio de 2006 ... regressámos ao nosso "retiro". Maio ... mês das maias ... a giesta! Os campos, as encostas da Malcata, tudo é um mundo amarelo cerrado, aqui e ali ainda salpicado pela giesta branca.  Dia 27 pego no
"burro" e vou precisamente explorar as encostas das Muretas e das Cortes, para o lado oposto contorno o cabeço do Colmeal, à volta do Alcambar e do regato dos Pradinhos. Mas na manhã do dia 28 lanço-me à descoberta de recantos perdidos da Malcata, faço quase 100km de "burro"! Passando o barroco branco, desço à Ventosa e à Malhada Medronheira, pelos Concelhos vou ao já meu conhecido Cabeço do Pão e Vinho, mas avanço à margem do Bazágueda, até onde o caminho o permite, frente à foz da Barroca da Moita do Padre. Se estas águas e estes lugares contassem as suas histórias e lendas...
Pelas Ginjeiras, descubro os antigos olivais da relva da Maria Mateus; do outro lado do Bazágueda é a Nogueira. Depois reentro por momentos em terreno conhecido, desço à Mouca e visito a ti MariZé, à beira dos moinhos do Bazágueda. Mas avanço para sul, e são precisamente velhos moinhos que se me revelam, contando histórias perdidas de um tempo há muito perdido. O Moinho da Marmita, o Moinho Conselheiro, o da Quarta do Vento, os moinhos do José Cavalheiro, o Moinho do Maneio, em todos parecia ouvir ainda o gemer das velhas mós, há muito paradas ... há muito perdidas. O Moinho do Maneio foi entretanto recuperado e transformado, actualmente, para turismo rural. Pena é que os restantes se encontrem no mais completo abandono ... tal como infelizmente a maioria dos moinhos do Côa.
Já na estrada Penamacor - Valverde, cruzo o Bazágueda e pouco depois entro em Espanha. Entre Valverde e a raia, perscruto novos caminhos, subo ao Labrado Alto em direcção a Corral Hidalgo, mas a dificuldade dos caminhos obriga-me a tomar o já conhecido trilho de Rascaderos e do Muro Julian. Entro pela Portela da Arraia, passo o Ribeiro Salgueiro ... e antes do meio dia estava em casa.



Entretanto, a 4 de Junho de 2006 acabei a montagem do filme que mais gozo alguma vez me deu fazer: "VALE DE ESPINHO, Uma Melodia a 4 Estações". A minha carolice pelo vídeo tinha, obviamente, de ficar ligada a Vale de Espinho de uma forma diferente de a qualquer outro sítio. Não se tratava de uma mera "reportagem" de um percurso pedestre. Ao longo dos anos, eu tinha reunido imagens suficientes para pôr aquele projecto de pé. O filme, com uma duração de pouco mais de uma hora, é assim uma amostragem documental das terras raianas ao longo das 4 estações do ano, das mutações da Natureza e da minha paixão por todas aquelas cores e sensações ... ao mesmo tempo que é, também, uma outra homenagem deixada à memória do homem sem o qual eu não me teria ligado àquelas terras e gentes.









Terminado, como já referido, a 4 de Junho, evidentemente ofereci cópias do filme a familiares e amigos ... e vi o filme ter um "sucesso", em Vale de Espinho e não só, que nunca imaginei. Chegou a haver "sessões" em casa de uns e de outros, pedidos de cópias vindos das "sete partidas". Ao longo dos 5 anos que entretanto se passaram, o filme "VALE DE ESPINHO, Uma Melodia a 4 Estações" ... fez história na história de Vale de Espinho.

E Junho é o mês dos santos populares! Em Vale de Espinho, manda a tradição que o mais venerado seja o S. João! Por isso, no S. João ... lá estávamos; as tradições do S. João estão retratadas no filme.
Mas no próprio dia de S. João, o CAAL tinha uma caminhada em Aldeia da Ponte. Fui assim encontrar-me com o grupo, regressando à "minha" Vale de Espinho. Conheci os moinhos do rio Cesarão, conheci o Santuário da Sacaparte, a própria Aldeia da Ponte. Curiosamente, os organizadores desta caminhada, naturais de Aldeia da Ponte ... no ano seguinte viriam a "alistar-se" nos Caminheiros Gaspar Correia.
Mas entretanto, também em Junho, os Caminheiros haviam-me levado ... às terras transmontanas de Alfândega da Fé.
 
10 de Julho de 2011

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Quando atravesso a Malcata ...
e levo os Caminheiros às terras de Riba-Côa

As férias da Páscoa de 2006 foram passadas ... em Vale de Espinho. Claro que quase todos os dias houve percursos, a pé ou de "burro", pela Malcata e pelas Mesas, descobrindo a linha de fronteira sobranceira ao Lameirão dos Foios, os barrocos negros, a Carambola, a Quinta das Vinhas (Quadrazais), descobrindo novos cantos e recantos do Côa, na Fontanheira, nas Colesmas, nas Bracio-
sas ... tudo era comunhão e entrega.
Mas, para o dia 13 de Abril de 2006 ... eu tinha um projecto mais arrojado. Quantas vezes eu ouvira contar ao meu saudoso sogro, o Zé "Malhadinhas", as suas travessias da Serra da Malcata, de e para o quartel, em Penamacor. Em 1952, casado e na tropa, ir e vir a casa nas licenças do serviço militar implicava, para poupar uns cobres, percorrer as bredas da Malcata, de Vale de Espinho ao quartel, com as sombras, as luzes, as cores e os sons da serra por companhia. Não necessariamente pelos mesmos trilhos, mas há muito que pensava numa travessia solitária da Malcata, que constituísse uma singela homenagem à sua memória. A oportunidade chegou naquele dia 13 de Abril, em que tanto os meus pais como o meu filho mais novo vinham ter connosco a Vale de Espinho ... pelo que portanto me podiam apanhar em Penamacor, para o regresso.
A partida simbólica para esta travessia solitária ... foi do cemitério da aldeia, do jazigo onde ele descansa o sono eterno, faltavam 5 minutos para as 6 da manhã, ainda noite escura. A lua reflectia-se no Côa, e foi já a subir a Malcata que vi nascerem os primeiros raios de um Sol revigorante. Uma hora depois, com quase 5km percorridos, estava no Cabeço do Passil, na cumeada da Malcata, limite entre as Beiras Alta e Baixa. Depois foi a descida à confluência das ribeiras do Poço do Inferno e das Ferrarias, a subida à linha de fronteira, a descida à Quinta do Major, a subida ao Pão e Vinho e às Ginjeiras,  a descida às Revoltas  e
de novo ao Bazágueda, junto à foz da Ribeira da Mouca. Velhos vestígios de velhos moinhos - os moinhos do Bazágueda - pareciam querer falar-me da noite dos tempos. Mas naquele lugar "perdido", à beira do Bazágueda e isolada do mundo ... encontrei a ti MariZé Salgueiro, da qual já tinha lido notícias, a única habitante da Reserva da Malcata. Viúva, ali sozinha com as suas cabras e cães, fazendo deliciosos queijos de pura cabra, era o exemplo vivo de uma gente simples, que dorme em paz e sem sonhos ... por quem Freud jamais teria existido e inventado a psicanálise!
Do Bazágueda e da ti MariZé a Penamacor faltavam pouco mais de 8km. Passando a sul da carreira de tiro da Meimoa e pelo Vale Longo, a "etapa" levou cerca de duas horas. Às 16h45 estava, assim, à beira da estrada que sai de Penamacor para o Sabugal. Com uma cronometragem quase "milimétrica", poucos minutos depois via chegar o filho e os pais ... que me deram "boleia" de regresso a Vale de Espinho. A travessia estava cumprida, tinha a certeza que o Zé "Malhadinhas" me tinha acompanhado...
Mas ainda nas férias da Páscoa, nos dias 14 e 16 de Abril - o próprio domingo de Páscoa - o meu velho "burro" levou-me ainda a mostrar um cheirinho da "minha" serra aos meus pais. Na altura com 81 e 83 anos ... lá andaram "aos tombos" dentro do UMM, apreciando as sempre belas panorâmicas da Pelada, da Machoca, da serra do Homem de Pedra, os lameiros do "meu" Côa, junto ao Espírito Santo, no Alcambar, na Ponte Nova, no Moinho do Rato.

Entretanto, desde que entrei para os Caminheiros Gaspar Correia,  em Outubro de 2002,  Vale de Espi-
Um "burro" manco..., 25.03.2006
... e a "perna" que ele perdeu... J
nho, a Malcata e as terras de Riba-Côa não podiam deixar de constar, em lugar de destaque, nas minhas propostas de caminhadas. Depois de 3 anos consecutivos em que tinha sido adiada, por haver outras actividades de vários dias na calha, a "minha" Malcata veio a constar, finalmente, no programa de actividades de 2006. Assim, no fim de semana de 25 e 26 de Março, tinha "convocado" duas amigas e um amigo caminheiros para fazerem comigo a habitual prospecção dos percursos a realizar. Seria complicado prospeccionar três caminhadas em apenas dois dias, mas o meu velho UMM, que dormia sempre em Vale de Espinho, seria teoricamente um apoio de prospecção, até porque ele estava bem habituado a trilhar os caminhos da serra, por vezes bem penosos. Acontece, contudo, que ninguém pode prever o imprevisível: o meu velho "burro", nesta prospecção, limitou-se a levar-nos para jantar nos Foios, na 6ª feira à noite. No sábado de manhã, quando já íamos de novo "a bordo", notei que algo de estranho se passava; pareceu-me ter perdido a tracção, ou a caixa de velocidades; na mesma fracção de segundo, diz um companheiro no banco de trás: "olha que perdeste uma roda, vai ali a andar sozinha"! Pois é, mas a roda até nem estava sozinha: levava com ela todo o semi-eixo traseiro do lado direito! Lá parámos, sem problemas ... e só praticamente quando parou é que o meu pobre "burro" tombou para o lado manco! O apoio de jeep estava, pois, finalizado! Felizmente estávamos ainda em alcatrão, o reboque levou-o para o Sabugal, e nós, que tínhamos arranjado as mochilas com o farnel para o caminho ... acabámos por almoçar em minha casa, depois de cravar um cunhado para nos ir buscar ao local
Valdedra e Bazágueda, 29.04.2006
do incidente. Depois ... fizemos as prospecções a pé...; apenas duas ... mas o meu conhecimento da "minha" Malcata dispensava a terceira...J
Assim, no fim de semana grande de 29 de Abril a 1 de Maio, os Caminheiros Gaspar Correia estavam pela primeira vez na Malcata, pela minha mão! A primeira caminhada iniciou-se no fim do alcatrão da antiga estrada do Meimão, cortada pela barragem da ribeira da Meimoa. Ao longo da cumeada sobranceira à ribeira de Valdedra, subimos depois às Revoltas, descemos à ribeira da Mouca ... e almoçámos nas margens do Bazágueda, onde os mais afoitos até foram ao banho. Depois ... depois os Caminheiros conheceram a ti MariZé e o isolamento em que vivia ... e conheceram os seus queijos. E que bem os apreciaram! E a caminhada
Da nascente do Côa a Vale de Espinho, 30.04.2006
terminou nas Quelhinhas, já na estrada Penamacor - Valverde del Fresno.
As duas restantes caminhadas tiveram Vale de Espinho como ponto de referência. Dia 30, a jornada começou no estradão (ainda não estava alcatroado) que levava à nascente do Côa. Da nascente subimos às Mesas, percorrendo depois toda a cumeada Mesas / Malcata, pela "minha" casa dos Carabineiros, barroco ratchado, Pedra Monteira, Canto da Ribeira, Colesmas, Braciosas, Moinho dos Pecas, Engenho, Ponte, e enfim Vale de Espinho ... terminando em minha casa J. O jantar desse dia foi nos Foios, onde a costeleta de vitela da Ramitos (a gerente do "El Dorado" local) encheu as medidas a todos.
E de Vale de Espinho a Malcata, 1.05.2006
A terceira e última caminhada ... começou em Vale de Espinho, no mesmo ponto onde terminara a da véspera. Ao longo do Côa até ao Moinho do Rato, subimos depois ao Cabeço da Moira, passámos o barroco branco, fomos almoçar ao Espigal, subimos à Machoca ... e fomos terminar em Malcata.

Não me cabe a mim fazer a apreciação do que foram estes três dias "por terras de riba-Côa e Malcata"... mas o que é facto é que os Caminheiros já voltaram à zona raiana por mais três vezes, depois desta primeira abordagem... J.
9 de Julho de 2011

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Das terras do Demo à Serra de S. Mamede ... com um inverno raiano pelo meio

"Uma vez um homem travou do bordão e partiu a correr as sete partidas do Mundo. Andou, andou, até que foi dar a uma terra de que ninguém faz ideia."
(Aquilino Ribeiro, "Terras do Demo")

No fim de semana de 26 e 27 de Novembro de 2005, uma actividade do CAAL (Clube Ar Livre) nas "Terras do Demo", próximo de Moimenta da Beira, aliciou-nos a ambos a participar.

"Era o tempo das madrugadas nevoentas de Novembro e dos nevões prestes a cair, da aldeia embiocada no burel, dos lobos saindo a medo dos seus fojos, dos caçadores furtivos do defeso, dos medronhos silvestres já maduros sobre os cómoros."
(Alberto Correia, in Jornal do Centro)

No sábado 26, a Casa-Museu Aquilino Ribeiro, em Soutosa, onde viveu, ajudou-nos a compreender o mundo retratado pelo mestre. Mas logo aí fomos brindados por alguns farrapos de neve, como cartão de visita de um inverno a aproximar-se, que se iria revelar gélido. Depois visitámos Ariz, com as suas tradicionais casas de granito, onde iniciámos o percurso pedestre pela Serra da Nave, por caminhos que serpenteiam pelo meio das penedias, junto a um conjunto de moinhos de água recuperados, pelo castro do "Castelo", penedo da Fonte Santa e capela da Senhora dos Aflitos, terminando em Pêra Velha. No dia seguinte, o percurso foi a partir do Santuário da Senhora da Lapa e pelas cristas da Serra da Lapa, com magníficas vistas dos vales dos rios Paiva, Vouga e Távora, a barragem do Vilar e as serras da Nave e Leomil,  com  a  Estrela no horizonte.
Vale de Espinho, do Areeiro, 10.12.2005
Terminámos na aldeia de Penso.

Menos de 15 dias depois ... estávamos em Vale de Espinho J. E no dia 11 de Dezembro saio de casa antes das seis da manhã, sozinho, a pé ... com 7ºC negativos! O objectivo era ir ver o nascer do Sol na Casa dos Carabineiros, no Picoto da raia. E assim foi. O frio e a noite escura foram recompensados com o espectáculo grandioso dos primeiros raios do astro rei sobre aquela paisagem grandiosa, a perder de vista sobre a Extremadura espanhola, com a Marvana a sudoeste.
Um esplendoroso nascer do Sol no Picoto da raia,
sobre as ruínas da antiga Casa dos Carabineiros, 11.12.2005
" Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse... "
Janela aberta para outro dia que amanhece, 11.12.2005
Os primeiros raios de Sol sobre Valverde, 11.12.2005

"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
"

    (Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos")
E o "guardador de rebanhos" passou à encosta extremeña
Aquele nascer do Sol na Casa dos Carabineiros acabou por ser o mote para uma caminhada em que desci à estrada de Valverde, percorri o Picoto e o Piçarrão, reentrei pela Portela da Arraia, Ribeiro Salgueiro ... e à hora do almoço estava em casa, em Vale de Espinho, com 27km percorridos.

E os últimos dias do ano de 2005 foram de novo na raia! Nos dias 29 e 30, o meu "burro" levou amigos, filhos, sobrinhos, à Serra Alta, à nascente do Côa, à cumeada das Mesas e da Malcata. Os céus pressagiavam neve ... que se veio a concretizar!

Serra Alta e Aldeia Velha, num dia a pressagiar neve, 30.12.2005
Marco geodésico da Serra Alta, 1144m alt., 30.12.2005
Naquele inverno de 2005 / 2006 ... até na grande Lisboa nevou, no dia 29 de Janeiro. Paradoxalmente, não vi esse nevão na capital ... porque estava mais uma vez em Vale de Espinho. Nesse dia 29 de Janeiro de 2006 vi neve sim, mas na cumeada do Coxino e do Cabeço da Moira ... e nas "minhas" Fontes Lares. A magia daquele local continuava a mostrar-me as suas faces ... numa autêntica melodia das quatro estações.
E Vale de Espinho pintada de branco,
29.01.2006

Fontes Lares em tons de branco, 29.01.2006
Nas férias de Carnaval de 2006 voltamos lá, de 23 a 28 de Fevereiro. 6 dias ... 7 caminhadas, a pé e "de burro", quase 200km percorridos, por "bredas feitas à sorte", ao longo das fragas, bebendo as águas, as cores, os sons e os cheiros da "minha" Malcata, do Côa, do Bazágueda, das lendas perdidas da Marvana, dos barrocos, das terras e gentes raianas.
Rio Côa,  no Moinho  do  Rato,
Vale de Espinho,  26.02.2006

Torre de vigia da Machoca, Serra da Malcata, 26.02.2006
Paisagem "siberiana", Serra da Malcata, 26.02.2006
Paisagem "siberiana", Serra da Malcata, 26.02.2006
Travessia da Serra de S. Mamede com o CAAL, 5.02.2006
Entretanto, no fim de semana de 4 e 5 de Fevereiro, tinha estado com o CAAL na Serra de S. Mamede. Sábado, 16km entre Marvão e Castelo de Vide. Domingo foi a travessia completa da serra, no sentido SE/NW, 24km entre Alegrete e a barragem da Apartadura, passando pelo ponto mais alto da serra, a 1027 metros de altitude. Sem dúvida um belo fim de semana de ar livre.
7 de Julho de 2011